Arthur
Oscar Guimarães: A elite bucaneira
Alexandre
Dumas certamente nunca imaginou que uma versão dos trópicos fosse capaz de
superar a sua original e estimulante obra, Os Três Mosqueteiros. Formado por
Athos, Porthos e Aramis, chamados “os inseparáveis”, o trio francês se fazia
acompanhar de um quarto parceiro à altura dos três mosqueteiros, um jovem de 20
anos, D’Artagnan, que tinha ido a Paris buscando se tornar membro do corpo de
elite dos guardas do rei. Juntos, os quatro enfrentaram grandes aventuras a
serviço do rei da França, Luís XIII, e principalmente, da rainha, Ana de
Áustria.
Nesse
início de 2026, a nossa versão dos mosqueteiros, um jovem de 29 anos, vai de
Paracatu/MG a Brasília/DF, em busca não de se tornar membro do corpo de elite
dos guardas do rei, mas de se cacifar como membro efetivo da elite, não uma
elite mosqueteira, pois mais apropriadamente nesse caso seria considerar uma
elite bucaneira, que busca diuturnamente – com todas as suas forças – garantir
uma inserção subordinada da economia brasileira ao cenário internacional.
Por
aqui, em terras brasilis, à Daniel Vorcaro, Ibaneis Rocha e Silas Malafaia,
além de seu D’Artagnan tupiniquim, Nikolas Ferreira, juntam-se Sóstenes
Cavalcante, Carlos Jordy, Arthur Lira, Ciro Nogueira, Hugo Motta et multos
alios. Por suas respectivas presenças nas dimensões econômica, financeira,
bancária, imobiliária, política e religiosa essa pequena lista de mosqueteiros
brasileiros não poderia ser finalizada sem a inclusão de Jair Bolsonaro,
Michele Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Caros Bolsonaro e Renan
Bolsonaro.
A lista
não é pequena, mas fala por si, isso é fato!
Contudo, ao lermos esses nomes, não é preciso dizer muito mais, nem
mesmo dar explicações adicionais. De alguma maneira, a presença diária dessas
pessoas no noticiário parece suficiente como fonte para o entendimento do papel
que cada uma delas ocupa e desempenha no tecido social brasileiro.
Em 2008
a revista piauí publicou, da autoria de Cacá Diegues, uma matéria intitulada
“Seleção Artificial”, tratando do aparecimento, no futuro (sic), do que ele
denominava de Homo ricus, conceito desenvolvido pelo cineasta a partir da ideia
de que existe no Brasil uma parcela da população que tem acesso a um nível de
consumo inalcançável, diria eu, imperceptível pela maioria de nós pobres
mortais. A esse minúsculo subconjunto dos ricus, seriam destinados serviços
avançadíssimos de terapia genética na fronteira tecnológica dissociada dos
demais Homo sapiens.
A
antinomia ricus versus sapiens criada pelo cineasta, falecido no Rio de Janeiro
no dia 14 de fevereiro de 2025, resiste firmemente nos dias atuais. Nos últimos
anos de sua vida, Cacá Diegues deve ter tido a oportunidade de ver a sua teoria
estampada nas manchetes dos principais jornais do País.
Em
2019, matéria veiculada pelo site Metrópoles informava que o ex-presidente
Michel Temer havia passado quatro dias preso na sede da Polícia Federal no Rio
de Janeiro, por conta da Operação Descontaminação, braço da Lava Jato. Nunca é
demais lembrar que Temer foi do Rio de Janeiro para São Paulo, após seu breve
período de prisão, em aeronave particular emprestada pelo correligionário
Ibaneis Rocha, também MDB. O Governador do DF comprou o turboélice King Air, da
fabricante Beechcraft, por US$ 2 milhões (R$ 7,47 milhões), depois de assumir o
comando do Palácio do Buriti. A aeronave tem capacidade para 11 passageiros.
Ainda
em 2019, o portal G1 noticiou que o governador do Distrito Federal havia
comprado a casa mais cara já vendida no DF: uma mansão de R$ 23 milhões
localizada em área nobre de Brasília, o Lago Sul. Durante a campanha ao governo
do Distrito Federal, ele se destacou como o candidato mais rico ao Buriti.
Valor do imóvel comprado por ele representa um quarto do patrimônioque se tem
notícia, visto que declarado à Justiça Eleitoralfoi o montante deR$ 94,1
milhões.
A esse
respeito informava o portal G1: “a mansão tem dois mil metros quadrados de área
construída, em um terreno que é cinco vezes esse tamanho. Ela foi vendida
totalmente mobiliada, contando com seis suítes, lago artificial, adega
climatizada com capacidade para 600 garrafas de vinho e piscina com azulejos de
autoria do escultor Francisco Brennand”.
Em
2022, Fabrício Queiroz, policial da reserva, de 56 anos, tentou explicar a
razão pela qual depositou R$ 89 mil reais na conta da então primeira-dama
Michelle Bolsonaro. A pergunta foi uma das que mais viralizaram durante a
investigação sobre a “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro: “Por que,
afinal, o assessor depositou 89.000 reais na conta de Michelle Bolsonaro,
mulher do presidente da República?”
Primeiro
passo que, na sequência dos anos, veio a ratificar-se na prática de acobertar
bens e recursos financeiros como as joias árabes: “Relatório aponta que esquema
teria movimentado R$ 6,8 milhões, com uso do avião presidencial e que Jair
Bolsonaro teria recebido ao menos US$ 25 mil em espécie”. Pouparemos o leitor
dos detalhes desse infortúnio nacional.
Desde
2022 é de conhecimento dos brasileiros que há intensa presença da família
Bolsonaro na área imobiliária, visto que, considerando as atividades de Jair
Bolsonaro, seus irmãos e filhos, pelo que se tem notícia, ao todo adquiriram
107 imóveis, sendo que 51 deles foram pagos em dinheiro vivo.
Levantamento
em cartórios mostra que a família do então presidente destinou, ao longo de 30
anos, R$ 25,6 milhões em espécie para aquisições de imóveis, no país e no
exterior, levando o Senado Federal a discutir uma lei para evitar lavagem de
dinheiro no setor imobiliário. Naturalmente, o Senado não está vinculando o
debate da referida lei às atividades imobiliárias de uma família brasileira
específica. Longe disso!
Em 2024
uma reportagem pôs luz sobre a dimensão financeira e patrimonial do pastor
pentecostal Silas Malafaia. Segundo informa a reportagem, a revista Forbes
estima que Silas Malafaia possua uma fortuna “em torno de 150 milhões de
dólares, o que equivale a cerca de 750 milhões de reais atualmente”.
Um
patrimônio que pode ser explicado por generosas e recorrentes doações feitas
por fiéis, venda de materiais religiosos e outras atividades empresariais
ligadas à igreja. Nunca é demais lembrar que dentre os projetos do pastor
empresário está “o clube de um milhão de almas”, projeto ambicioso que pretende
arrecadar R$ 1 bilhão para financiar a criação de uma rede de televisão global,
“com o objetivo de levar a mensagem evangélica para 137 países”.
Em 2025
(e continua em 2026), o que não faltou foram notícias relacionadas ao banqueiro
Daniel Vorcaro. Desde a aquisição do seu “QG” no Lago Sul, de Brasília, uma
mansão com nada mais, nada menos que 1,7 mil m² de área construída e projeto do
escritório Studio Hub. Imóvel avaliado em R$ 36 milhões, que teve como vendedor
o empresário Márcio Machado (Ver Suzano Almeida, JBr, 16/01/2026). A respeito
da “anatomia dos gastos de Daniel Vorcaro”, recomendamos a leitura da excelente
reportagem “Daniel Vorcaro: Gastos de R$ 2,4 Milhões no Cartão Antes da
Prisão”.
Se
esses valores ainda parecem insuficientes para classificar o banqueiro, de
apenas 42 anos, como um Homo ricus, é bom lembrar a aquisição por Daniel
Vorcaro de uma propriedade de 280 milhões de reais em Trancoso, praia
localizada no litoral baiano, informação que se perdia no noticiário em razão
do mais badalado camarote já montado da Marquês de Sapucaí, palco do carnaval
carioca.
Não se
tratou de um camarote qualquer, como noticiado à época, tratava-se da “estreia
do Café de La Musique Alma Rio na Marquês de Sapucaí (…) projeto, comandado por
Álvaro Garnero (…) camarote de 2,5 mil m² que não venderia ingressos. O espaço
seria reservado apenas a convidados do empresário e suas conexões mais
próximas, reunindo uma elite nacional e internacional. Álvaro Garnero,
conhecido por sua atuação na cena noturna de São Paulo, Santa Catarina e Rio,
investiu cerca de 40 milhões de reais”.
Mas
como se dá a participação do D’Artagnan, Nikolas Ferreira, nesse convescote?
Sendo o Deputado Federal mais votado da história de Minas Gerais e o mais
votado do Brasil nas eleições de 2022, com mais de 1,47 milhão de votos, sua
militância bolsonarista ganhou notoriedade na defesa de ideias negacionistas e
de resistência às medidas de prevenção durante a pandemia de COVID-19, com
discursos transfóbicos e discriminatórios, além das práticas de difamação e da
propagação de fake news, tem atuação parlamentar que não inclui a apresentação
de projetos que beneficiem o povo que o elegeu em MG, muito menos do interesse
mais geral do trabalhador brasileiro.
Todavia,
atua firmemente na produção de vídeos de desinformação, sendo o caso mais
emblemático aquele que enfraqueceu a fiscalização do Pix e favoreceu a atuação
do crime organizado, de acordo com investigações.
Sua
mais recente empreitada foi uma mobilização por uma rodovia federal (BR-040),
com o objetivo de ser uma “caminhada da liberdade” (para libertar Jair
Bolsonaro e os demais condenados pela tentativa de golpe de Estado, no dia
08.01.2023). O pequeno grupo saiu do interior de Minas Gerais em direção a
Brasília (DF), culminando com o inesperado encontro dos caminhantes com uma
chuva torrencial, raios e trovoadas no Distrito Federal.
A queda
de um raio no local de término da caminhada atingiu quase 90 pessoas e feriu 15
delas mais gravemente. O que mais importa agora é que quase todos passam bem.
Restaram as bolhas nos pés após caminharem 250 km aparentemente para nada.
O
objetivo aqui reside na tentativa de desvendar os verdadeiros vínculos das
atividades parlamentares do Deputado, o menino fake. Segundo nosso ponto de
vista, há vínculos claros dele a uma elite periférica que bloqueia a autonomia
nacional (como buscado por Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro ao defenderem a
invasão do Brasil pelo EUA).
Não nos
esqueçamos de que Carlos Bolsonaro, o mais ideológico do clã, foi ao encontro
de Nikolas Ferreira na BR-040 tendo, com um longo abraço, demostrado aos
brasileiros as intricadas relações e estratégias da história recente do País,
revelando a dor do presidiário que hoje vive na Papudinha.
A
literatura clássica da teoria da dependência nos auxilia a entender os
posicionamentos de Nikolas Ferreira e de seus seguidores na busca por uma
“liberdade” (lato sensu). Ao enfatizar o papel das elites latino-americanas
como mediadoras de uma inserção subordinada das economias periféricas ao
sistema capitalista internacional (FURTADO, 1959; CARDOSO; FALETTO, 1969;
MARINI, 1973; DOS SANTOS, 1978), esses autores nos mostram como as elites
nacionais tendem a, literalmente, cerrar fileiras em torno da estratégia de
subordinação mencionada.
Daniel
Vorcaro, Ibaneis Rocha, Silas Malafaia e Nikolas Ferreira (circundados pela
família Bolsonaro) fazem parte de uma elite quesempre atuou em defesa do
acúmulo privado e em defesa do que aqui denominaremos de “imperialismo
econômico”, cumprindo o papel funcional de reprodução desse imperialismo, que
historicamente internalizou os interesses do capitalismo central, atuando como
mediadoras da acumulação externa.
Se os
problemas de distribuição e eficiência dos recursos podem ser separados, são as
dotações iniciais que determinam a riqueza individual. Não se pretendeu focar
na origem das riquezas dos Três Mosqueteiros e de seu D’Artagnan, mas no papel
de cada um deles. De forma consciente, os mosqueteiros citados lutam contra uma
política eficaz de distribuição de renda que deveria, portanto, focar
preliminarmente na dotação para a grande maioria do povo brasileiro,
redistribuindo, de forma eficaz, a riqueza nacional.
Eles
são contra a distribuição de renda. Daniel Vorcaro (com sua sanha Master de
novo rico comprometeu a estabilidade do sistema financeiro nacional); Ibaneis
Rocha (colocou em risco grave o futuro das finanças do BRB e do DF); Silas
Malafaia (com sua tagarelice diária, fere de morte a crença num deus
verdadeiro); e Nikolas Ferreira (com sua empreitada de Forrest Gump tupiniquim,
jogou lorotas ao vento para um povo em estado de choque).
Todos
eles têm posição política similar a de outras burguesias latino-americanas.
Fazem parte dessa elite periférica estruturalmente subordinada ao capital
externo, cumprindo um papel funcional na reprodução do imperialismo econômico.
É justamente isso que cada um desses bucaneiros defende ao cerrar fileiras nas
rodovias do atraso, no passado, no presente e no futuro.
Fonte: Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário