Sete
anos após Brumadinho, Vale retoma mina e ameaça as nascentes da região
Na
comunidade da Jangada, na zona rural de Brumadinho, em Minas Gerais, a água que
abastece as famílias que vivem ali vem de nascentes que brotam lá mesmo. “A
água é nossa”, diz, com orgulho, em um vídeo no YouTube, Lorraine Nascimento,
uma jovem da comunidade.
Foram
os próprios moradores que, há mais de 30 anos, construíram o sistema de
captação e distribuição da água das nascentes, sem qualquer apoio da Companhia
de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). Hoje, o sistema é gerido de forma
autônoma por uma associação comunitária criada para este fim, e abastece
centenas de famílias de Casa Branca, distrito rural no qual está inserida a
comunidade da Jangada.
A
professora Cátia Patrocinia Cruz Maia, que nasceu e cresceu na comunidade, como
toda a sua família, faz parte da associação que cuida do sistema de captação e
distribuição de água. Ela lembra que, antes da criação do sistema, existia um
rego que cortava os terrenos e os moradores tiravam a água dali. Com o
crescimento da comunidade, aumentou também a demanda pelo encanamento da água.
Foi quando o pai dela, João de Sousa Cruz, se uniu a amigos e vizinhos para
resolver o problema. A conexão da família com o território fica evidente também
no apelido de João: Cátia conta que “ele era conhecido em toda Brumadinho como
João Casa Branca”.
“Eles
se juntaram e começaram a fazer o encanamento dessa água, de todas as famílias.
As que puderam se juntaram para ajudar a comprar os canos. Não teve um centavo
da prefeitura; foi um trabalho todo feito pela comunidade”, lembra Cátia.
Hoje,
no entanto, a água da Jangada está ameaçada pela mineração da Vale, que há sete
anos, em 25 de janeiro de 2019, provocou na região um dos maiores
crimes-tragédia da história do país, matando 272 pessoas soterradas com a lama
tóxica da barragem do Córrego do Feijão, que se rompeu, destruindo vidas
humanas e também a fauna, a flora e o Rio Paraopeba.
Em
agosto do ano passado, a Vale, em parceria com a mineradora Itaminas Comércio
de Minérios S.A., retomou as operações da Mina da Jangada, que fica exatamente
no mesmo complexo minerário do Córrego do Feijão, o Complexo Paraopeba, e a
menos de 2 quilômetros das nascentes que abastecem a comunidade. As empresas
querem ampliar o diâmetro e a profundidade da mina, o que pode rebaixar o
lençol freático e comprometer a segurança hídrica de toda a região.
“No dia
1º de agosto de 2025, nós fomos surpreendidos pela reabertura da Mina da
Jangada, que estava fechada desde 2019”, conta Cátia, que afirma que a empresa
não fez nenhum tipo de consulta prévia à comunidade.
“A
nossa preocupação é com a água, porque ela já diminuiu muito ao longo dos
últimos anos. Aquele rego de água, que corria nos terrenos antigamente, quase
não existe mais. Ele só reaparece na minha casa, por exemplo, na época das
chuvas. Então o nosso receio agora é que essa água vá diminuindo ainda mais e
deixe toda a comunidade sem abastecimento. A nossa luta, hoje, é por segurança
hídrica”, afirma Cátia.
A
licença ambiental que garante a continuidade e a ampliação da Mina da Jangada
foi dada em 2018 pela Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais, a Semad, e é
a mesma que permitiu a continuidade da operação da barragem de Córrego do
Feijão antes de ela se romper. As duas minas receberam a licença em conjunto
por estarem no mesmo complexo, a apenas 1 quilômetro de distância uma da outra.
A licença de 2018, baseada em estudos feitos há pelo menos dez anos, foi
expedida apenas 45 dias antes do rompimento da barragem de Córrego do Feijão.
Após a
tragédia, a licença foi suspensa. Mas, em 2025, o governo do estado a reativou
e transferiu sua titularidade para a Itaminas. O direito de exploração da lavra
continua sendo da Vale, que apenas arrendou a mina à Itaminas. Na prática, a
operação é realizada pelas duas empresas.
Na
última semana, organizações da sociedade civil, familiares das vítimas do
rompimento da barragem do Córrego do Feijão e moradores da região se reuniram
em diversas ações, entre os dias 17 e 25, para pedir reparação e denunciar os
riscos da reabertura da Mina da Jangada. No dia 25, houve uma caminhada da
comunidade até o Córrego do Feijão.
“Andamos
8 quilômetros exigindo que a Vale e a Itaminas deixem as nossas águas em paz,
para a gente poder acreditar no futuro”, conta a jornalista Carolina de Moura,
moradora da Jangada e membro do Instituto Cordilheira.
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Denúncia sobre insegurança hídrica
Há pelo
menos cinco anos, Carolina vem denunciando aos acionistas da Vale, durante as
assembleias anuais da empresa, os riscos de insegurança hídrica com as
operações na região da Mina da Jangada. Ela é uma das acionistas críticas da
mineradora, uma estratégia de luta organizada há mais de uma década pela
Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale em que ativistas
compram uma ação da empresa para ter direito de voz e voto crítico durante as
assembleias anuais.
Em
abril de 2025, Carolina informou aos acionistas durante a assembleia que a
região da Mina da Jangada integra um território conhecido como Quadrilátero
Ferrífero-Aquífero, que está sob risco crítico de estresse hídrico, segundo
estudos. A Vale, afirma a jornalista, não oferece informações precisas sobre as
operações na Mina da Jangada, e nem apresenta dados sobre o impacto no aquífero
e ecossistema locais.
“Anos
antes do rompimento da barragem no Córrego do Feijão, o geólogo da Vale, César
Augusto Paulino Grandchamp, apresentava estudos e informações técnicas sobre a
hidrogeologia da região para as comunidades de Casa Branca, Jangada e Córrego
do Feijão”, expôs Carolina aos acionistas da Vale durante a assembleia.
“Segundo ele, a expansão da Mina da Jangada não causaria danos às nascentes de
abastecimento humano. Este profissional, junto com a Vale, a Tüv Süd e outras
15 pessoas, é réu no processo criminal sobre o rompimento da barragem. Além
disso, ele teve seu registro profissional cassado pelo CREA-MG. Assim sendo,
todo o detalhamento técnico apresentado pela Vale sobre a situação hídrica na
Jangada não é digno de reconhecimento e confiança.”
Por
carta, a Vale respondeu à jornalista dizendo que “todas as unidades
operacionais e projetos em fase de implantação são precedidos por estudos
hidrogeológicos detalhados, com o objetivo de avaliar potenciais impactos nas
vazões e qualidade de água dos corpos hídricos de influência”. Disse também que
“as nascentes localizadas no entorno das operações são devidamente
identificadas, mapeadas e submetidas a monitoramento contínuo durante todo o
ciclo de vida da mina”. A mineradora mencionou um relatório de 2024, que aponta
que a maioria das nascentes cadastradas “continuam correntes”. “Dessa forma,
entende-se que, apesar do período de escassez hídrica dos últimos anos […], não
houve impacto nas nascentes dos córregos no entorno da Mina Jangada”, garantiu
a Vale.
Um
trecho da resposta, enviada em maio de 2025, chama a atenção. Nele, a Vale
relembra que as atividades de lavra da Mina da Jangada estavam paralisadas
desde fevereiro de 2019, logo após o rompimento da barragem do Córrego do
Feijão, que acarretou a suspensão da licença. Disse também que, “no contexto da
retomada da lavra por terceiros, os estudos hidrogeológicos complementares —
especialmente aqueles voltados à avaliação dos impactos do rebaixamento do
nível freático — passarão a ser de responsabilidade do eventual arrendatário.
Isso se deve ao fato de que tais estudos estão intrinsecamente vinculados ao
modelo operacional do novo empreendimento, uma vez que o rebaixamento do
aquífero está diretamente relacionado às atividades de lavra e ao controle hidrogeológico
da cava”.
Em
outras palavras: na época da resposta, já em vias de formalização do
arrendamento da Mina da Jangada para a
Itaminas, a Vale se adiantou em se eximir da responsabilidade por um
eventual rebaixamento do aquífero que abastece as nascentes da Jangada, e
atribuiu essa responsabilidade a “terceiros”. No caso, a Itaminas, que três
meses após aquela resposta enviada a Carolina de Moura reativaria a cava de
exploração a menos de 2 quilômetros das nascentes da Jangada.
O
histórico da Itaminas é preocupante, diz Carolina. “Sete trabalhadores da
empresa morreram durante o rompimento da barragem da Mina de Fernandinho, em
Itabirito. Foi em 15 de maio de 1986, quando os operários realizavam a
manutenção da represa. Às 14h20 daquele dia, houve uma explosão e tudo veio
abaixo. A barragem operava além de sua capacidade”.
Em
2025, a Associação Comunitária da Jangada, juntamente com o Instituto
Cordilheira, a Associação Comunitária de Moradores do Córrego do Feijão e o
Movimento Águas e Serras de Casa Branca iniciaram um abaixo-assinado exigindo,
entre outras coisas, o fechamento definitivo das minas da Jangada e do Córrego
do Feijão, além da extinção do título minerário pelo governo federal.
Fonte:
Mongabay

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