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que resposta do Irã a ataque dos EUA pode ser diferente desta vez
A
chegada do porta-aviões USS Abraham Lincoln à zona de responsabilidade do
Comando Central dos EUA, perto das águas do Irã, aprofundou a sensação de que
um confronto maior pode estar
tomando forma.
Em meio
à mais extensa e violenta repressão a protestos da história
recente do Irã, o destacamento militar enfatiza como Washington e Teerã podem
estar próximos de um embate direto, mais do que em qualquer outro momento nos
últimos anos.
Os
líderes iranianos se encontram pressionados entre os protestos que exigem,
cada vez mais, a derrubada do regime e um presidente americano que mantém suas
intenções deliberadamente obscuras, alimentando a
ansiedade não só em Teerã, mas em toda a região — que, normalmente, já é
marcada pela instabilidade.
A
resposta do Irã a um possível ataque militar americano pode não seguir o padrão
familiar, cuidadosamente calibrado, observado nos confrontos anteriores com
Washington.
As
recentes ameaças do presidente Donald Trump, no contexto da
violenta supressão da instabilidade doméstica, vieram em um momento de
excepcional tensão interna para a República Islâmica. Por isso, qualquer ataque
americano traz, agora, um risco significativamente maior de uma rápida
escalada, tanto regionalmente quanto dentro do Irã.
Nos
últimos anos, Teerã demonstrou preferência por retaliações posteriores, de
forma limitada.
Após os
ataques dos Estados Unidos a instalações nucleares iranianas, em 21 e 22 de junho
de 2025, o Irã respondeu no dia seguinte com um ataque com mísseis à Base Aérea
de al-Udeid, no Catar, operada pelos Estados Unidos.
Segundo
o presidente Trump, o Irã havia alertado antecipadamente sobre o ataque, o que
permitiu que as defesas antiaéreas interceptassem a maior parte dos mísseis.
Nenhuma morte foi registrada.
O
ataque foi interpretado, de forma geral, como uma tentativa deliberada do Irã
de sinalizar sua determinação, mas evitando uma guerra maior.
Um
padrão similar já havia surgido em janeiro de 2020, durante o primeiro mandato
de Donald Trump.
No dia
3 de janeiro daquele ano, os Estados Unidos assassinaram o comandante da Força
Quds (a unidade de elite da Guarda Revolucionária iraniana), Qassem Soleimani, perto do aeroporto
de Bagdá, no Iraque.
O Irã
retaliou cinco dias depois, disparando mísseis contra a base aérea americana de
Ain al-Asad, também no Iraque.
Da
mesma forma que no ano passado, Teerã alertou com antecedência sobre o ataque.
Nenhum militar americano foi morto, mas dezenas relataram posteriormente lesões
cerebrais traumáticas.
O
episódio reforçou a percepção de que o Irã buscava gerenciar a escalada das
agressões, em vez de provocá-las.
Mas o
momento atual é muito diferente.
O Irã
está emergindo de uma das ondas mais sérias de distúrbios domésticos desde a fundação da República
Islâmica,
em 1979.
Os
protestos que irromperam no final de dezembro e início de janeiro foram
violentamente reprimidos. Organizações de defesa dos direitos humanos e
profissionais médicos do país relatam que milhares de pessoas foram mortas e
muitas outras ficaram feridas ou foram detidas.
É
impossível verificar os números exatos, devido à falta de acesso aos dados e a
um apagão da internet, mantido por mais de
duas semanas.
As
autoridades iranianas não assumiram a responsabilidade pelas mortes, culpando o
que descrevem como "grupos terroristas" e acusando Israel de
incentivar os distúrbios.
Esta
narrativa foi defendida pelos níveis mais altos do Estado iraniano. O
secretário do Conselho Nacional Supremo de Segurança do país afirmou
recentemente que os protestos devem ser considerados uma continuação da guerra de 12 dias contra Israel, no ano passado.
Este
enquadramento fornece uma ideia da reação das autoridades, colocando em
primeiro lugar a segurança, que pode ter sido usada como justificativa para a
escala e a intensidade da repressão.
A
escala dos protestos nas ruas diminuiu desde então, mas não terminou. As
acusações permanecem sem solução e a divisão entre grandes setores da sociedade
e o sistema governante raramente pareceu tão ampla.
Nos
dias 8 e 9 de janeiro, forças de segurança teriam perdido o controle de parte
de diversas cidades e de certos bairros das cidades principais. Elas teriam
recuperado o controle à força, de forma contundente.
Esta
rápida perda de controle parece ter inquietado profundamente as autoridades. A
calma que se seguiu foi imposta e não negociada, deixando a situação altamente
volátil.
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Retórica inflexível
Em um
cenário como este, a natureza de qualquer ataque dos Estados Unidos se torna
crítica.
Um
ataque limitado pode permitir a Washington reivindicar sucesso militar,
evitando uma guerra regional imediata. Mas também poderá fornecer às
autoridades iranianas um pretexto para mais uma rodada de repressão interna.
Este
cenário apresenta o risco de mais repressão, prisões em massa e uma nova onda
de sentenças rigorosas, incluindo condenações à morte, para manifestantes já
detidos.
No
outro extremo, uma campanha militar americana maior, que enfraqueça
significativamente ou paralise o Estado iraniano, poderá colocar o país à beira
do caos.
O
súbito colapso da autoridade central em um país com mais de 90 milhões de
habitantes dificilmente irá gerar uma transição limpa ou rápida. Pelo
contrário.
Poderá
haver um período de instabilidade prolongada, violência entre facções e
prejuízos para toda a região, com consequências que podem perdurar por anos até
sua resolução.
Estes
riscos ajudam a explicar a retórica cada vez mais inflexível de Teerã.
Os
principais comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e das Forças Armadas
comuns, ao lado das principais autoridades políticas, alertaram que um eventual
ataque norte-americano, independentemente da escala, será tratado como um ato de guerra.
Estas
declarações inquietaram os países vizinhos do Irã, particularmente os Estados
do Golfo que mantêm bases americanas no seu território.
Uma
rápida reação iraniana colocaria esses países, ao lado de Israel, em risco
imediato, independentemente do seu envolvimento direto. E isso cria a
perspectiva de um conflito que pode se espalhar muito além do Irã e dos Estados
Unidos.
E
Washington também enfrenta restrições.
Trump
alertou repetidas vezes às autoridades iranianas sobre o uso de violência
contra os manifestantes. E, no auge dos distúrbios, o presidente dos Estados
Unidos declarou aos iranianos que "a ajuda está a caminho".
Estas
observações circularam amplamente dentro do Irã e aumentaram a expectativa
entre os manifestantes.
Os dois
lados estão conscientes do quadro estratégico como um todo.
Donald
Trump sabe que o Irã, hoje, é militarmente mais fraco que durante a guerra dos
12 dias. E Teerã está consciente de que o presidente americano tem pouca
disposição para um conflito aberto em larga escala.
Esta
consciência mútua pode oferecer uma certa tranquilidade, mas também poderá
criar visões equivocadas e perigosas, com cada lado potencialmente
superestimando sua força ou interpretando erroneamente as intenções do seu
oponente.
Para
Trump, é fundamental encontrar o equilíbrio, seja ele qual for. Ele precisa de
um resultado que possa apresentar como vitória, sem levar o Irã a um novo ciclo
de repressão ou declínio rumo ao caos.
Para os
líderes iranianos, o perigo está no momento e na percepção.
O
modelo anterior do Irã, de retaliação simbólica posterior, pode não ser mais
suficiente, se seus líderes acreditarem que a rapidez é fundamental para
reafirmar a dissuasão no lado externo e o controle dentro do país, abalado pela
escala dos distúrbios recentes.
Mas uma
reação rápida aumentaria em muito o risco de erros de cálculo, levando as
forças regionais a um conflito a que poucos podem se permitir.
Com os
dois lados sob intensas pressões e pouco espaço de manobra, um longo jogo de
temeridade política pode estar se aproximando do seu momento mais perigoso.
Afinal,
o custo de atingir o equilíbrio errado prejudicaria não só os dois governos,
mas milhões de iranianos comuns e a região como um todo.
¨
Trump exalta o tamanho da "armada" americana
Donald
Trump afirmou acreditar que Teerã deseja fechar um acordo para evitar um
conflito regional, alegando que a "armada" dos EUA perto do Irã é
maior do que a força-tarefa enviada para derrubar o líder da Venezuela.
“Temos
uma grande armada, flotilha, chame como quiser, a caminho do Irã neste momento, ainda maior do que a que tínhamos na
Venezuela”, disse o presidente dos EUA a repórteres na sexta-feira.
"Espero
que cheguemos a um acordo. Se chegarmos a um acordo, ótimo. Se não chegarmos a
um acordo, veremos o que acontece."
Ele se
recusou a dizer se planejava repetir a operação militar na Venezuela, na qual
as forças americanas capturaram e entregaram o presidente Nicolás Maduro.
Trump afirma acreditar que o Irã deseja fechar um acordo e exalta o tamanho da
"armada" americana.
O
presidente dos EUA se recusa a dizer se planeja uma operação semelhante à da
Venezuela, após Teerã sinalizar que está pronta para negociações.
Donald
Trump afirmou acreditar que Teerã deseja fechar um acordo para evitar um
conflito regional, alegando que a "armada" dos EUA perto do Irã é
maior do que a força-tarefa enviada para derrubar o líder da Venezuela.
“Temos
uma grande armada, flotilha, chame como quiser, a caminho do Irã neste momento, ainda maior do que a que tínhamos na
Venezuela”, disse o presidente dos EUA a repórteres na sexta-feira.
"Espero
que cheguemos a um acordo. Se chegarmos a um acordo, ótimo. Se não chegarmos a
um acordo, veremos o que acontece."
Ele se
recusou a dizer se planejava repetir a operação militar na Venezuela, na qual
as forças americanas capturaram e entregaram o presidente Nicolás Maduro.
“Não
quero falar sobre nada relacionado ao que estou fazendo militarmente”, disse
ele.
Seus
comentários surgiram depois que o ministro das Relações Exteriores do Irã,
Abbas Araghchi, afirmou que Teerã estava pronta para negociar com os EUA, mas
somente se as conversas não fossem feitas sob coação e não se estendessem ao
programa de mísseis do Irã.
Após
reuniões com diplomatas turcos, Araghchi afirmou que o Irã estava “pronto para
iniciar negociações, desde que estas ocorram em pé de igualdade, baseadas em
interesses e respeito mútuos”. Ele disse que não havia planos imediatos para se
encontrar com autoridades americanas, acrescentando: “Quero afirmar
categoricamente que as capacidades defensivas e de mísseis do Irã jamais serão
objeto de negociação”.
Araghchi
afirmou: "A República Islâmica do Irã, assim como está preparada para
negociações, também está preparada para a guerra."
Trump
afirmou na quinta-feira que esperava evitar uma ação militar , mesmo com os
EUA enviando mais um navio de guerra para o Oriente Médio, juntando-se ao USS
Abraham Lincoln e a vários destróieres de mísseis guiados.
Mas
seus objetivos precisos permanecem obscuros. Falando na estreia do
documentário Melania ,
o presidente dos EUA disse a repórteres que o Irã precisava fazer “duas coisas”
para evitar uma ação militar. “Primeiro, nada de armas nucleares. E segundo,
parar de matar manifestantes”, afirmando que “eles estão matando milhares
deles”.
Ele
acrescentou: "Temos muitos navios muito grandes e muito poderosos
navegando para o Irã neste momento, e seria ótimo se não precisássemos
usá-los."
O Irã
culpou os EUA e Israel pelos protestos que eclodiram no final de dezembro
devido a queixas econômicas e que foram brutalmente reprimidos. Grupos
ativistas estimam que até 30.000 pessoas foram mortas na repressão subsequente.
No
sábado, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que Trump, Benjamin
Netanyahu e a Europa fomentaram tensões nos protestos e "provocaram"
a população.
O
ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, afirmou que a
retomada das negociações entre Teerã e Washington sobre o programa nuclear
iraniano era “vital para reduzir as tensões regionais”. Falando ao lado de
Araghchi, ele alegou que Israel estava pressionando os EUA a atacarem o Irã e
instou Washington a “agir com bom senso e não permitir que isso aconteça”.
Em uma
conversa telefônica com o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, o presidente da
Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, disse estar disposto a atuar como mediador entre
o Irã e os EUA.
Do
ponto de vista do Irã, os EUA estão impondo cada vez mais exigências a Teerã,
que, se todas fossem atendidas, significariam o fim de sua soberania.
O
enviado especial de Trump, Steve Witkoff, pediu o fim do programa de
enriquecimento nuclear do Irã, a transferência do estoque existente de urânio
altamente enriquecido para fora do país, limites ao programa de mísseis
iraniano e o fim do apoio a grupos aliados em países como Líbano, Iraque e
Iêmen.
Araghchi
manteve conversas telefônicas separadas com seus homólogos do Catar, Egito,
Emirados Árabes Unidos, Omã e Turquia. Todos os estados árabes insistiram que
suas instalações aéreas e terrestres não podem ser usadas pelos EUA para atacar
o Irã.
Na
Turquia, Araghchi criticou a decisão da UE na
quinta-feira, que provavelmente será seguida pelo Reino Unido, de proibir o
Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como uma organização terrorista.
Ele
disse: “A verdade é que a Europa é um continente em declínio, que perdeu seu
papel no cenário internacional e o perde cada vez mais a cada dia. É
surpreendente que eles próprios estejam alimentando esse processo. Isso
demonstra que a Europa não tem uma compreensão correta da situação
internacional, nem das condições em nossa região, nem de seus próprios
interesses. A decisão que tomaram foi um grande erro estratégico.”
Araghchi
não especificou quais represálias estavam sendo consideradas, mas o Ministério
das Relações Exteriores do Reino Unido sempre temeu que tal medida levasse o
Irã a romper relações diplomáticas. Ali Larijani, secretário do Conselho de
Segurança Nacional do Irã, afirmou que, no futuro, Teerã trataria os exércitos
da Europa como terroristas.
O
representante do líder supremo iraniano na Guarda Revolucionária Islâmica
afirmou que a ação europeia teria sérias consequências para a União Europeia.
Na
sexta-feira, os EUA seguiram a UE ao impor sanções contra o ministro do
Interior do Irã, Eskandar Momeni, acusando-o de reprimir os protestos em todo o
país. As sanções surgem em meio à crescente indignação no Irã pelo fato de o
governo, supostamente reformista, ter permitido assassinatos em larga escala.
Em
comunicado, a Frente Reformista, uma organização que reúne diversas frentes
reformistas, pediu a criação de "uma comissão independente de apuração dos
fatos para investigar esse desastre sem precedentes e apresentar um relatório
transparente e sincero à nação iraniana".
O
documento também pediu ao judiciário que se abstivesse de "decisões
precipitadas" contra os detidos e afirmou que as famílias enlutadas devem
ter permissão para lamentar livremente a morte dos manifestantes ocorridos
durante a repressão.
Fonte: BBC News Persia/The Guardian

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