Nassif:
como Paulo Guedes e o BTG construíram uma bolha bilionária em precatórios
Por
volta de 2020, três movimentos aparentemente desconectados começaram a
convergir no mercado financeiro brasileiro: uma mudança constitucional nos
precatórios, uma venda suspeita de carteiras do Banco do Brasil e a explosão de
fundos de investimento em direitos creditórios. Cinco anos depois, o país
enfrenta uma das maiores crises bancárias de sua história.
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O Plano Perfeito: Três Tacadas Coordenadas
Enquanto
o carnaval midiático em torno da crise do Banco Master se concentra nos
sintomas — CDBs com rentabilidades estratosféricas, captação agressiva, ativos
ilíquidos —, poucos voltaram o olhar para a construção sistêmica dessa
bomba-relógio. A bolha atual não é fruto do acaso ou da ambição desmedida de um
banco médio. Ela foi meticulosamente arquitetada a partir de três grandes
tacadas que moldaram o mercado de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos
Creditórios) no Brasil.
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Tacada 1: A PEC dos Precatórios — Criando o Mercado Secundário
Em
agosto de 2021, o ministro Paulo Guedes apresentou a Proposta de Emenda
Constitucional dos Precatórios (PEC 23/2021), estabelecendo um teto anual para
o pagamento de dívidas judiciais da União e propondo parcelamento para valores
acima de R$ 66 milhões. A justificativa oficial era controlar um “meteoro” de
R$ 89 bilhões em precatórios previstos para 2022, que consumiria todo o espaço
fiscal disponível.
O que o
governo apresentou como solução fiscal era, na prática, um calote
institucionalizado. Críticos apelidaram a medida de “PEC do Calote”,
argumentando que se tratava de dívida de Estado, não de governo, devendo ser
paga independentemente de qual administração a contraiu.
Mas o
impacto mais devastador não estava nos números oficiais. Ao criar incerteza
sobre quando o governo pagaria, a PEC derrubou o valor de mercado dos
precatórios. Credores que não podiam esperar 5 ou 10 anos — muitos deles
idosos, aposentados ou pequenos empresários — aceitaram vender seus títulos com
deságios brutais, frequentemente superiores a 50% do valor de face.
Guedes
chegou a sugerir publicamente que investidores poderiam comprar precatórios com
deságio ou até transformá-los em “moeda de privatização”, sinalizando
claramente para o mercado que haveria compradores institucionais para esses
ativos depreciados.
Foi
assim que nasceu, de forma artificial e deliberada, um mercado secundário de
precatórios. Os FIDCs entraram como os grandes compradores desses títulos
“baratos”, oferecendo aos investidores qualificados rentabilidade muito
superior à Selic. O lucro viria da diferença entre o valor de compra (com
deságio) e o valor de face que seria pago pela União no futuro, corrigido pela
inflação.
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Tacada 2: A Venda do Banco do Brasil — Operação Sem Precedentes
Em
julho de 2020, um ano antes da PEC dos Precatórios, o Banco do Brasil realizou
uma operação que chamou a atenção até dos mais céticos no mercado financeiro.
Pela primeira vez na história, o BB cedeu uma carteira de crédito de R$ 2,9
bilhões ao BTG Pactual — banco fundado por Paulo Guedes — por apenas R$ 371
milhões, cerca de 12% do valor contábil.
A
operação quebrou precedentes em vários aspectos. Primeiro, era a primeira
cessão de carteira do BB a um banco que não pertence ao seu conglomerado.
Segundo, não houve licitação pública, apesar do envolvimento de uma instituição
financeira pública. Terceiro, a composição exata da carteira nunca foi
totalmente transparente.
O BB
alegou que se tratava de créditos “majoritariamente em perdas”, inadimplentes
há mais de seis anos. Mas analistas do mercado levantaram dúvidas consistentes.
Segundo uma fonte ouvida pela Revista Fórum, a carteira tinha potencial de
recuperação de 70%, sendo composta principalmente por financiamentos
imobiliários de ex-funcionários do próprio BB.
Se essa
avaliação estivesse correta — e considerando que imóveis poderiam ser tomados
em caso de inadimplência —, o BTG poderia recuperar até R$ 2 bilhões de uma
carteira adquirida por R$ 371 milhões. Um lucro potencial de 440% em uma única
operação.
Em
novembro de 2021, a Controladoria Geral da União produziu um relatório
denunciando irregularidades: “O banco realizou uma operação piloto de cessão
sem um plano diretor que a balizasse, sem demonstrar conhecer o mercado onde
está se inserindo, tomou decisões sem as devidas justificativas e com um
processo de gerenciamento de riscos superficial”.
Mais
revelador ainda: Bruno Bianco Leal, que foi secretário-executivo do Ministério
do Trabalho e Previdência e depois Advogado-Geral da União durante o governo
Bolsonaro, foi contratado pelo BTG Pactual em janeiro de 2023, logo após o
término do governo.
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Tacada 3: A Brecha Regulatória — Investidor “Qualificado”
Para
que o esquema funcionasse em escala industrial, era necessário ampliar a base
de investidores. E aqui entra a terceira peça do quebra-cabeça: a permissão da
CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para que FIDCs fossem vendidos a
“investidores qualificados”.
A
distinção entre investidor qualificado e profissional não é apenas semântica —
é uma brecha regulatória de consequências catastróficas. O investidor
qualificado precisa ter apenas R$ 1 milhão em investimentos financeiros,
enquanto o investidor profissional exige R$ 10 milhões.
Na
prática, isso significa que uma pessoa de classe média alta com um apartamento
quitado e uma herança familiar pode ser classificada como “qualificado” e ter
acesso a produtos financeiros extremamente complexos e arriscados.
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O Abismo Entre as Categorias
Aspecto Investidor Qualificado Investidor Profissional
Patrimônio
mínimo R$ 1 milhão R$ 10 milhões
Proteção
regulatória Parcial Quase nenhuma
Acesso
a produtos Amplo, mas com limites Total e irrestrito
Presunção
de conhecimento Média Alta
Capacidade
de avaliar riscos políticos Limitada Robusta
Um
investidor qualificado não tem:
• Equipe jurídica para avaliar riscos
regulatórios
• Acesso a informações privilegiadas sobre
a fila de precatórios
• Conhecimento das interconexões entre
diferentes fundos
• Capacidade de absorver perdas de 50-70%
sem comprometer seu patrimônio
No
entanto, a CVM permitiu que essa categoria tivesse acesso irrestrito a FIDCs de
precatórios — produtos que dependem de variáveis políticas, judiciais e
orçamentárias completamente fora do controle (e do conhecimento) do investidor
médio.
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A Máquina de Fazer Dinheiro: O Modelo BTG
Com o
arcabouço regulatório estabelecido, o BTG Pactual estruturou uma operação que
transformou risco em receita recorrente.
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Fase 1: Originação — O Aspirador de Ativos
O BTG
funciona como um grande aspirador de precatórios e dívidas problemáticas.
Usando seu balanço robusto, o banco:
• Compra precatórios diretamente de
credores originais (pessoas físicas, empresas)
• Paga à vista, oferecendo liquidez
imediata
• Negocia deságios agressivos (30-50
centavos por real)
A
vantagem do banco é poder pagar imediatamente, algo que fundos menores não
conseguem fazer com a mesma agilidade.
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Fase 2: Estruturação — Transformando Ativos em Produtos
Na
maioria das vezes, o banco não quer carregar sozinho o risco de prazo (o tempo
que a União leva para pagar), pois isso consome capital regulatório. Então:
1. Estrutura um FIDC e “vende” esses papéis
para dentro do fundo
2. Ganha na estruturação (taxas de montagem
de 1-3% do volume)
3. Lucra no spread (diferença entre o preço
pago ao credor e o preço que o fundo aceita)
4. Embolsa taxas de gestão anuais (1-2% ao
ano)
5. Recebe taxa de performance (20% sobre o
que exceder o CDI)
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Fase 3: Distribuição — Fatiar e Vender
O BTG
divide os papéis estrategicamente:
• Carteira Própria: Retém precatórios com
maior probabilidade de pagamento no curto prazo
• Cotas de FIDC: Vende para investidores
institucionais e clientes Private
• Mercado Secundário: Atua como market
maker, gerando liquidez e taxas de corretagem
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Fase 4: Controle — Administração e Custódia
Mesmo
quando revende o papel para um FIDC de terceiros, o BTG frequentemente
permanece como administrador ou custodiante. Isso significa que quando a União
finalmente paga o precatório, o dinheiro cai na conta sob custódia do BTG, que
então distribui para os cotistas.
É o que
o mercado financeiro chama de “asset-light strategy”: ganhar dinheiro sobre o
capital dos outros enquanto mantém o próprio capital livre para novas
operações.
No caso
específico da carteira de R$ 2,9 bilhões comprada do Banco do Brasil, o BTG
utilizou o FIDC NP NPL II. Não esperou pelo pagamento de cada dívida —
transformou essa massa de crédito em um veículo de investimento onde a
recuperação dos ativos alimenta o retorno dos investidores.
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O Conflito de Interesses Institucionalizado
O
modelo apresenta uma concentração de papéis que seria considerada inaceitável
em qualquer mercado financeiro maduro. O BTG é simultaneamente:
1. Comprador (originador) — Adquire os
precatórios dos credores originais
2. Vendedor (estruturador) — Cria o FIDC e
vende as cotas
3. Gestor (administrador) — Administra o
fundo e toma decisões de investimento
4. Custodiante (controlador do fluxo) —
Controla quando e como os recursos são distribuídos
5. Market maker — Compra e vende no mercado
secundário
É como
se a mesma pessoa fosse o açougueiro, o fiscal sanitário e o dono do
restaurante. Cada etapa gera receita para o banco, independentemente do
resultado final para o investidor.
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A Explosão da Indústria de FIDCs
Os
números mostram a dimensão do fenômeno. Segundo dados da CVM, o total de FIDCs
saltou de 1.063 no fechamento de 2020 para 3.653 em setembro de 2025 — um
crescimento de 244% em apenas cinco anos.
O BTG
Pactual possui um portfólio de R$ 12 bilhões alocados em FIDCs, consolidando-se
como um dos maiores players do mercado. E não se trata apenas de precatórios —
o banco estrutura FIDCs para crédito consignado, recebíveis do agronegócio,
duplicatas e outros direitos creditórios.
O
modelo funcionou enquanto:
1. Os precatórios continuavam sendo pagos
(mesmo que lentamente)
2. Novos investidores entravam
constantemente
3. A taxa Selic permanecia baixa, tornando
FIDCs relativamente atraentes
4. Não havia escrutínio regulatório intenso
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O Ponto de Ruptura: A Crise do Master
Em 18
de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do
Banco Master, banco que cresceu oferecendo CDBs com rentabilidades até 180% do
CDI — muito acima da média do mercado.
Para
sustentar esses retornos extraordinários, o banco investiu pesadamente em
ativos de alto risco e baixa liquidez, como precatórios e carteiras de crédito
consignado com indícios de irregularidades. A Polícia Federal identificou
fraudes estimadas em R$ 12 bilhões, envolvendo carteiras de crédito e fundos
sem lastro.
A
liquidação do Master revelou problemas estruturais que vão muito além de um
banco específico:
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1. A Interconexão dos FIDCs
Os
fundos não operam isoladamente. FIDCs compram cotas de outros FIDCs, criando
uma cadeia de interconexões difícil de mapear. Quando um elo quebra, toda a
corrente treme.
A
situação se agravou quando uma dívida entre o banco Will (posteriormente
comprado parcialmente pelo Master) e a financeira Avista foi quitada por meio
de um FIDC lastreado em um pré-precatório bilionário, ativo de difícil
mensuração e sujeito a mudanças regulatórias.
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2. A Mudança Regulatória Tardia
O Banco
Central identificou fragilidades no Master desde 2023, com crescimento
acelerado do passivo e concentração em ativos de baixa liquidez, especialmente
precatórios. Mudanças nas regras do próprio BC restringiram o uso desses ativos
para fins de proteção do FGC, afetando diretamente a estrutura do banco.
A
pergunta incômoda: por que o BC demorou tanto para agir, sabendo que a
indústria de FIDCs crescia de forma desenfreada desde 2020?
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3. O Custo Sistêmico
O Fundo
Garantidor de Créditos estima ter que reembolsar cerca de R$ 41 bilhões a
aproximadamente 1,6 milhão de clientes — o maior resgate da história do fundo.
Mas o
custo vai além. O fundo de previdência do Rio de Janeiro (Rioprevidência)
investiu R$ 1,2 bilhão em Letras Financeiras do Master — título não coberto
pelo FGC. Há risco concreto de que o governo estadual precise aportar recursos
para cobrir o buraco, afetando as contas públicas e o pagamento de
aposentadorias.
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4. A Liquidação da Reag
Em
janeiro de 2026, cerca de dois meses após a intervenção no Master, o Banco
Central liquidou extrajudicialmente a Reag, gestora independente que divulgava
R$ 299 bilhões sob gestão. A Reag também estava profundamente envolvida no
mercado de FIDCs e precatórios, revelando que o problema é sistêmico, não
isolado.
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A Opacidade Como Regra
Um dos
aspectos mais preocupantes do mercado de FIDCs é a falta de transparência. Os
fundos não precisam divulgar:
• A composição exata da carteira de
precatórios
• Os deságios praticados na compra de cada
ativo
• As interconexões entre diferentes fundos
do mesmo grupo
• O percentual real de recuperação dos
créditos
O BTG
Pactual está de olho na carteira de precatórios do Master, incluindo uma ação
bilionária contra a União, com potencial de pagamento de até R$ 14 bilhões. Mas
quantos investidores qualificados que compraram cotas de FIDCs sabiam que seus
recursos estavam expostos a ações judiciais multibilionárias de resultado
incerto?
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As Perguntas Que Ninguém Quer Fazer
A crise
do Master levanta questões fundamentais sobre o sistema financeiro brasileiro:
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1. Quem vai pagar a conta?
Os
credores originais já foram pagos (a 30 centavos no real). O BTG e outros
bancos já embolsaram suas taxas de estruturação, administração e performance.
Quem fica com o prejuízo quando a União:
• Questionar judicialmente os deságios
abusivos?
• Propor um novo “acordo” para precatórios
(como já fez antes)?
• Simplesmente não pagar dentro do prazo
prometido?
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2. Por que a CVM não agiu antes?
A
explosão de 244% no número de FIDCs em cinco anos não era sinal suficiente de
bolha? A venda de produtos complexos para investidores com apenas R$ 1 milhão
não deveria ter sido revista?
3. Onde
estava a fiscalização do Banco Central?
Se o BC
identificou problemas no Master desde 2023, por que esperou até novembro de
2025 para agir? Quantos outros bancos médios estão na mesma situação?
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4. Qual o tamanho real da exposição?
Com
3.653 FIDCs ativos e R$ 70,7 bilhões em precatórios federais inscritos no
orçamento de 2025, qual é a exposição total do sistema financeiro brasileiro a
esses ativos? Ninguém sabe ao certo.
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5. O que acontecerá com as mudanças regulatórias?
A
Emenda Constitucional 136/2025 marcou uma das maiores mudanças recentes no
mercado de precatórios, criando um novo modelo de pagamento para as dívidas
judiciais dos governos. Como isso afetará os FIDCs que calcularam seus retornos
com base nas regras antigas?
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Conclusão: O Carnaval Ainda Não Começou
A crise
do Master não é o clímax dessa história — é apenas o primeiro ato. Estamos
discutindo se o barco afundou, mas ninguém está perguntando quem autorizou a
construção de um navio com casco de papelão.
Enquanto
o noticiário se concentra em resgates do FGC, investigações da Polícia Federal
e disputas entre TCU e STF, a estrutura que permitiu essa bolha permanece
intacta:
• FIDCs continuam sendo vendidos para
investidores qualificados
• Precatórios continuam sendo negociados
com deságios agressivos
• Bancos continuam ganhando taxas em todas
as pontas da operação
• A opacidade continua sendo a regra, não
a exceção
Roberto
Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, afirmou que a crise do Master não
representa um risco sistêmico. Mas se não há risco sistêmico, por que o BTG
está articulando com Itaú, Bradesco e Santander para evitar um efeito dominó?
A
verdade desconfortável é que o Brasil construiu, ao longo de cinco anos, uma
bomba-relógio financeira. Três tacadas coordenadas criaram as condições
perfeitas: desvalorização artificial de ativos públicos, precedente de vendas
suspeitas e uma porta regulatória escancarada para investidores sem
sofisticação técnica.
O
Master foi apenas o primeiro banco a cair. A pergunta não é se haverá outros,
mas quantos.
Fonte:
Por Luís Nassif, no jornal GGN

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