Luís
Nassif: É hora de pensar em um plano nacional de defesa
É hora
de se começar a pensar em um verdadeiro Plano Nacional de Defesa. O último
documento sobre a Política Nacional de Defesa dos Estados Unidos não deixa
margem a dúvidas. Com ou sem Donald Trump, ingressa-se definitivamente em uma
nova era, na qual acordos e compromissos são substituídos pela força bruta.
É
pequena a possibilidade dos Estados Unidos invadirem um país com as dimensões
do Brasil. Mas é previsível que comece a instalar seus títeres na América do
Sul. E o candidato preferencial para esse papel é a Argentina, assim como, nos
anos 40, foi o Brasil.
A
diferença é que, nos anos 40, o Brasil recebeu contrapartidas que permitiram
deslanchar seu processo de industrialização. E a Argentina de Milei está sendo
transformada, gradativamente, em mero entreposto comercial.
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O
padrão de análise convencional – analisar o passado para projetar o futuro –
não vale mais. O expansionismo norte-americano buscará formas de se impor, sem
o envolvimento direto do país.
Vamos a
alguns cenários para a próxima década – 2026-2035 -, juntando as peças de
reportagens captadas em várias frentes pela Inteligência Artificial.
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As disputas Brasil x Argentina
Periodicamente
Brasil e Argentina entraram em competição na indústria de defesa.
No
final do século 19 e início do século 20 houve uma corrida naval no Cone Sul.
Os dois países disputavam prestígio regional e controle marítimo. Houve intensa
importação de navios de guerra do Reino Unido e Itália.
O
Brasil encomendou os dreadnoughts (modelo revolucionário de
navio) Minas Gerais e São Paulo. A Argentino respondeu com os encouraçados
Rivadavia e Moreno.
Nos
anos 30 começa uma disputa industrial. A Argentina tinha tradição industrial
desde dos anos 20. Em 1927 criou, em Córdoba, a Fábrica Nacional de Aviões.
Produzia aeronaves próprias.
O
Brasil tinha menor base industrial, dependendo mais de importações.
Nesse
período, a Argentina liderou tecnologicamente na aviação militar até os anos
50.
No
pós-guerra (1945-1960) a Argentina lançou o Projeto Pulqui II, um avião a jato
avançado, com apoio de engenheiros alemães, como Kurt Bank. O Brasil focou em
infraestrutura, indústria de base e logística.
Nos
anos 1960-1970 a competição passou para o campo nuclear, com ambos os países
desenvolvendo programas nucleares paralelos, com forte desconfiança mútua.
O
Brasil deslanchou com o CTA/ITA, base do programa espacial e de mísseis. A
Argentina investiu em projetos como o Condor II.
Finalmente,
nos anos 1970-1980 a competição passou para o campo da indústria bélica pesada
e exportação.
O
Brasil consolidou a Engesa, veículos blindados, como Cascavel e Urutu, com
forte exportação para Oriente Médio e África.
A
Argentina tinha sua produção própria, mas fragmentada, produzindo um tanque
mediano com menos sucesso das exportações. O brasil ultrapassou a Argentina
como potência industrial-militar regional.
O
momento mais crítico da Argentina foi a guerra das Malvinas, em que a Argentina
saiu militarmente derrotada pela Inglaterra.
Os anos
1990 marcaram o fim da rivalidade aberta, e da cooperação forçada, com
redemocratização, crise fiscal e pressão internacional. Em 1991 foi criada a
ABACC (Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais
Nucleares), com acordos de transparência e inspeção cruzada.
No
século 21, o Brasil despontou com a Embraer Defesa, o submarino nuclear e
satélites. A Argentina dispõe de uma capacidade científica sólida, projetos
espaciais (CONAE), mas menor investimento militar.
Agora,
entra-se na era Trump, com a Argentina firmando-se como gendarme dos Estados
Unidos.
A
partir da imprevisibilidade dos novos 90, há 3 cenários de análise das relações
Brasil-Argentina.
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Cenário A (base): “Equilíbrio tenso e pragmático” — 2026–2035
>>>
Probabilidade: alta (é o “piloto automático” do sistema)
• EUA mantêm
pressão e presença variável (picos em momentos de crise Venezuela/Caribe), com
foco narrativo em crime transnacional e “ameaças externas” no hemisfério. (Politico)
- China cresce
por tecnologia e finanças (inclusive moeda e crédito), ganhando
“profundidade” em infraestrutura e espaço, sem virar aliança militar
formal. (Reuters)
- Brasil segue
com projetos estratégicos de longo prazo (submarinos; núcleo duro de
indústria de defesa), mas com intermitência orçamentária e atrasos. (Naval News)
- Argentina recompõe
dissuasão aérea (F-16) mais como sinal político e defesa de
soberania do que como salto industrial. (The Defense Post)
>>>
Resultado
- Menos “corrida
armamentista” e mais competição por alinhamentos
tecnológicos (comando e controle, espaço, ciber, drones) e por
cadeias de suprimento estratégicas.
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Cenário B: “Caribe/Venezuela como epicentro” — 2026–2030 (com efeitos até 2035)
Probabilidade: média
(depende de um ou dois gatilhos)
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Gatilhos
- Escalada
prolongada de operações no entorno venezuelano/caribenho, com
questionamentos legais/diplomáticos e resposta política regional. (Reuters)
>>>
Como fica
- Países
sul-americanos são pressionados a escolher (apoio, silêncio ou
oposição).
- A agenda de
defesa regional é capturada por “segurança hemisférica” vs
“anti-intervenção”.
- Cooperação
regional (tipo Unasul/Conselho de Defesa) pode reaparecer, mas como
reação e não como projeto.
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Resultado
- A região perde
autonomia porque entra numa lógica de campo de disputa (mesmo
sem guerra convencional), com custo em comércio, investimentos e coesão
diplomática.
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Cenário C: “Autonomia coordenada” — 2026–2035 (o cenário visionário)
Probabilidade: baixa–média
(exige decisão política + continuidade)
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Gatilhos
- Brasil e
Argentina transformam confiança (ABACC) em plataforma
industrial-tecnológica de defesa (compras conjuntas, padrões comuns,
P&D dual). (ABACC)
- Integração
produtiva em 3–5 eixos: ciber, espaço, vigilância marítima,
mobilidade e indústria de munições/sensores, com governança e
financiamento estáveis.
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Como fica
- A região deixa
de ser apenas “zona de influência” e vira zona de projeto.
- EUA e China
competem, mas encontram um bloco que
negocia condições (transferência tecnológica real, soberania de
dados, manutenção local).
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Resultado
- Menos
dependência; mais capacidade de dizer “sim, mas do nosso jeito”.
¨
A ofensiva contra o STF em pleno ano decisivo lembra Lava
Jato. Por Gustavo Tapioca
O
Brasil entra em mais um ciclo eleitoral carregando feridas que nunca
cicatrizaram. A Lava Jato, desmontada juridicamente e exposta moralmente,
deixou um rastro de destruição institucional, perseguição política e
manipulação judicial que marcou a história recente. Agora, às vésperas de uma
nova disputa presidencial, surge um movimento que lembra — e muito — o roteiro
de 2018: a tentativa de transformar o Supremo Tribunal Federal em inimigo
público, desgastando ministros específicos para fragilizar a instituição como
um todo.
Primeiro,
o alvo foi Alexandre de Moraes. Agora, a artilharia se volta contra Dias
Toffoli. A ofensiva é coordenada, ruidosa e amplificada por setores da mídia
corporativa, parlamentares da direita e redes bolsonaristas. E, para muitos
observadores, não há como ignorar o contexto: pesquisas mostram Lula em posição
favorável, e a máquina de desinformação volta a operar com intensidade.
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Enfraquecer o STF para minar a democracia
A
crítica legítima faz parte da vida republicana. O que se vê agora, porém, é uma
campanha de corrosão institucional. O objetivo não é fiscalizar ministros — é
deslegitimar o Supremo como árbitro constitucional.
A
tática é conhecida:
- transformar
ministros em alvos pessoais,
- criar um clima
de suspeição permanente,
- desgastar a
imagem do tribunal,
- mobilizar a base
radicalizada,
- pressionar
decisões judiciais
- e, sobretudo,
preparar terreno para contestar o ambiente eleitoral.
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A "Caixa Amarela" e o pânico dos operadores do lawfare
A
ofensiva contra Toffoli cresceu justamente após ele autorizar a apreensão da
chamada “caixa amarela”, contendo gravações e documentos que podem comprometer
figuras centrais da Lava Jato, incluindo Sergio Moro e Deltan Dallagnol. A
coincidência temporal não passou despercebida.
A caixa
apreendida em Curitiba contém centenas de horas de gravações clandestinas,
documentos e mídias que podem revelar práticas ilegais atribuídas a Moro e
procuradores da Lava Jato. O material inclui:
- conversas
gravadas sem autorização,
- orientações
políticas,
- manipulação de
processos
- e indícios de
espionagem ilegal.
A
simples possibilidade de que esse conteúdo venha à tona provocou uma reação
imediata. A máquina de ataques se voltou contra Toffoli com intensidade
incomum. Não se trata de defesa da moralidade — trata-se de defesa da
narrativa.
A Lava
Jato, mesmo desmontada, ainda é o pilar simbólico de setores que dependem dela
para justificar seu projeto político. Se a caixa expuser o que muitos
suspeitam, o castelo desmorona de vez.
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Ano eleitoral: o momento certo para o golpe narrativo
Com
pesquisas indicando vantagem de Lula, a ofensiva contra o STF ganha contornos
ainda mais claros. A estratégia busca:
- reacender o
antipetismo,
- criar
instabilidade institucional,
- desgastar
ministros que enfrentam a direita bolsonarista ou não,
- reduzir a
credibilidade de decisões judiciais
- e tensionar o
ambiente político para influenciar o processo eleitoral.
Não se
trata de prever resultados — trata-se de observar padrões. E o padrão é
conhecido: quando Lula cresce, cresce também a pressão sobre o Judiciário.
Foi
assim em 2018, quando a Lava Jato impediu sua candidatura. Há sinais claros de
que há quem tente repetir a fórmula.
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Moraes e Toffoli devem explicações
A
ofensiva contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli segue o mesmo roteiro:
- vazamentos
seletivos,
- insinuações sem
prova,
- ataques
pessoais,
- pressão
midiática,
- linchamento
digital,
- narrativa de
“crise institucional” fabricada.
Se
existem elementos sobre condutas envolvendo Alexandre de Moraes e o Banco
Master — incluindo o contrato milionário atribuído ao escritório de sua esposa
e filhos —, Moraes tem o dever político de esclarecer. O mesmo vale para Dias
Toffoli: se há questionamentos ligados ao Resort Tayayá, cabe esclarecimento e
atuação das instâncias competentes.
Denúncia
se faz à Justiça. O que não se admite é transformar rumor em condenação da
instituição. A máquina corporativa e as redes bolsonaristas não querem apurar:
querem julgar sem prova, sem rito e sem defesa. E o Brasil já viu esse filme.
Teve nome e consequência eleitoral: Lava Jato. Foi nesse clima de caça
política, com apoio midiático industrial, que Lula foi preso por 580 dias e
afastado da eleição de 2018, abrindo caminho para Bolsonaro — embalado no
cinismo histórico do “sem provas, mas com convicções”.
Se
existirem irregularidades, que sejam tratadas como manda a lei. O Brasil não
precisa de ministros intocáveis — mas não pode aceitar a volta do método que
substitui Justiça por tribunal de imprensa e pelotão de fuzilamento moral em
rede social.
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O roteiro revisitado de 2018
A
semelhança com o passado é clara. Em 2018, a Lava Jato operou como força
política, com apoio midiático, para retirar Lula da disputa. Hoje, a ofensiva
contra o STF reaparece justamente quando o tribunal revisita abusos da
operação. A estratégia de transformar ministros em inimigos públicos volta a
ser usada para tensionar o ambiente democrático. A máquina de desinformação
opera com a mesma lógica: destruir reputações para destruir instituições.
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Quem ganha com um STF fragilizado às vésperas de uma eleição?
A
direita, o Centrão e o que resta do bolsonarismo não querem um STF “melhor”.
Querem um STF dócil. E, se não puderem domesticá-lo, tentam destruí-lo pelo
desgaste, pelo pânico moral e pela chantagem permanente. O ataque a Moraes e
Toffoli não é sobre indivíduos: é sobre o lugar do Supremo quando, mesmo com
contradições, impõe limites ao avanço autoritário.
O
Brasil tem duas saídas diante dessa ofensiva: consolidar a responsabilização do
golpismo e impedir sua volta sob nova máscara, ou aceitar sua reabilitação como
se fosse “normalidade”. Em 2026, a disputa não será apenas por um governo. Será
pelo direito de o povo escolher sem chantagem, sem milícia digital e sem ameaça
permanente de exceção.
No fim,
essa campanha não é sobre “liberdade”. É sobre poder. É sobre impor a regra não
escrita do autoritarismo moderno: quando o povo escolhe contra os de cima, a
democracia deve ser “corrigida”. E toda vez que essa lógica venceu, o país
ficou mais injusto, mais dependente, mais violento. E a democracia paga o preço
de existir.
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O método lavajatista não pode voltar
O
Brasil já pagou caro demais para aceitar, novamente, a transformação da Justiça
em arma política. A Lava Jato não foi um erro isolado. Foi um projeto de poder.
Um projeto que manipulou provas, destruiu reputações, interferiu no processo
eleitoral e entregou o Brasil ao extremismo. Um projeto que rasgou garantias
constitucionais em nome de uma cruzada moral que nunca existiu — e que, hoje,
tenta renascer travestido de “indignação seletiva” contra ministros do STF.
É
preciso dizer com todas as letras: o método Lava Jato não pode voltar. Não pode
ser tolerado. Não pode ser normalizado. Não pode ser reciclado pela mídia
corporativa nem reembalado pelas redes direitistas e bolsonaristas.
O que
está em curso não é fiscalização — é guerra política. Não é busca pela verdade
— é tentativa de fabricar crise. Não é defesa da moralidade — é ataque à
democracia. O alvo imediato pode ser Toffoli ou Moraes, mas o objetivo final é
outro: destruir a autoridade do Supremo para enfraquecer o processo eleitoral e
reabilitar o projeto político que nasceu do golpe jurídico de 2018.
O
Brasil não pode cair novamente na armadilha do “sem provas, mas com
convicções”. Não pode aceitar que suspeitas virem sentenças, que rumores virem
manchetes, que linchamentos digitais substituam o devido processo legal. Não
pode permitir que a máquina de destruição de reputações volte a operar como se
nada tivesse acontecido — como se Lula não tivesse sido arrancado da eleição de
2018 por um juiz parcial, como se o país não tivesse sido empurrado ao abismo
por uma operação que se acreditava acima da Constituição.
A
democracia brasileira não sobrevive a uma segunda Lava Jato. E é exatamente por
isso que a ofensiva contra o STF precisa ser compreendida pelo que é: uma
tentativa de reabrir a porta para o mesmo método que já devastou o país.
Se há
irregularidades, que sejam investigadas. Se há dúvidas, que sejam esclarecidas.
Se há crimes, que sejam punidos.
Mas o
Brasil não pode — não deve — aceitar que a Justiça volte a ser sequestrada por
interesses políticos, econômicos e midiáticos.
A
história já mostrou o preço desse erro. E não há país que sobreviva duas vezes
ao mesmo golpe.
Fonte:
Jornal GGN

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