segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Luís Nassif: É hora de pensar em um plano nacional de defesa

É hora de se começar a pensar em um verdadeiro Plano Nacional de Defesa. O último documento sobre a Política Nacional de Defesa dos Estados Unidos não deixa margem a dúvidas. Com ou sem Donald Trump, ingressa-se definitivamente em uma nova era, na qual acordos e compromissos são substituídos pela força bruta.

É pequena a possibilidade dos Estados Unidos invadirem um país com as dimensões do Brasil. Mas é previsível que comece a instalar seus títeres na América do Sul. E o candidato preferencial para esse papel é a Argentina, assim como, nos anos 40, foi o Brasil.

A diferença é que, nos anos 40, o Brasil recebeu contrapartidas que permitiram deslanchar seu processo de industrialização. E a Argentina de Milei está sendo transformada, gradativamente, em mero entreposto comercial. 

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O padrão de análise convencional – analisar o passado para projetar o futuro – não vale mais. O expansionismo norte-americano buscará formas de se impor, sem o envolvimento direto do país.

Vamos a alguns cenários para a próxima década – 2026-2035 -, juntando as peças de reportagens captadas em várias frentes pela Inteligência Artificial.

<><> As disputas Brasil x Argentina

Periodicamente Brasil e Argentina entraram em competição na indústria de defesa.

No final do século 19 e início do século 20 houve uma corrida naval no Cone Sul. Os dois países disputavam prestígio regional e controle marítimo. Houve intensa importação de navios de guerra do Reino Unido e Itália.

O Brasil encomendou os dreadnoughts (modelo revolucionário de navio) Minas Gerais e São Paulo. A Argentino respondeu com os encouraçados Rivadavia e Moreno.

Nos anos 30 começa uma disputa industrial. A Argentina tinha tradição industrial desde dos anos 20. Em 1927 criou, em Córdoba, a Fábrica Nacional de Aviões. Produzia aeronaves próprias.

O Brasil tinha menor base industrial, dependendo mais de importações.

Nesse período, a Argentina liderou tecnologicamente na aviação militar até os anos 50.

No pós-guerra (1945-1960) a Argentina lançou o Projeto Pulqui II, um avião a jato avançado, com apoio de engenheiros alemães, como Kurt Bank. O Brasil focou em infraestrutura, indústria de base e logística.

Nos anos 1960-1970 a competição passou para o campo nuclear, com ambos os países desenvolvendo programas nucleares paralelos, com forte desconfiança mútua.

O Brasil deslanchou com o CTA/ITA, base do programa espacial e de mísseis. A Argentina investiu em projetos como o Condor II.

Finalmente, nos anos 1970-1980 a competição passou para o campo da indústria bélica pesada e exportação.

O Brasil consolidou a Engesa, veículos blindados, como Cascavel e Urutu, com forte exportação para Oriente Médio e África.

A Argentina tinha sua produção própria, mas fragmentada, produzindo um tanque mediano com menos sucesso das exportações. O brasil ultrapassou a Argentina como potência industrial-militar regional.

O momento mais crítico da Argentina foi a guerra das Malvinas, em que a Argentina saiu militarmente derrotada pela Inglaterra.

Os anos 1990 marcaram o fim da rivalidade aberta, e da cooperação forçada, com redemocratização, crise fiscal e pressão internacional. Em 1991 foi criada a ABACC (Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares), com acordos de transparência e inspeção cruzada.

No século 21, o Brasil despontou com a Embraer Defesa, o submarino nuclear e satélites. A Argentina dispõe de uma capacidade científica sólida, projetos espaciais (CONAE), mas menor investimento militar.

Agora, entra-se na era Trump, com a Argentina firmando-se como gendarme dos Estados Unidos.

A partir da imprevisibilidade dos novos 90, há 3 cenários de análise das relações Brasil-Argentina.

<><> Cenário A (base): “Equilíbrio tenso e pragmático” — 2026–2035

>>> Probabilidade: alta (é o “piloto automático” do sistema)

• EUA mantêm pressão e presença variável (picos em momentos de crise Venezuela/Caribe), com foco narrativo em crime transnacional e “ameaças externas” no hemisfério. (Politico)

  • China cresce por tecnologia e finanças (inclusive moeda e crédito), ganhando “profundidade” em infraestrutura e espaço, sem virar aliança militar formal. (Reuters)
  • Brasil segue com projetos estratégicos de longo prazo (submarinos; núcleo duro de indústria de defesa), mas com intermitência orçamentária e atrasos. (Naval News)
  • Argentina recompõe dissuasão aérea (F-16) mais como sinal político e defesa de soberania do que como salto industrial. (The Defense Post)

>>> Resultado

  • Menos “corrida armamentista” e mais competição por alinhamentos tecnológicos (comando e controle, espaço, ciber, drones) e por cadeias de suprimento estratégicas.

<><> Cenário B: “Caribe/Venezuela como epicentro” — 2026–2030 (com efeitos até 2035)

Probabilidade: média (depende de um ou dois gatilhos)

>>> Gatilhos

  • Escalada prolongada de operações no entorno venezuelano/caribenho, com questionamentos legais/diplomáticos e resposta política regional. (Reuters)

>>> Como fica

  • Países sul-americanos são pressionados a escolher (apoio, silêncio ou oposição).
  • A agenda de defesa regional é capturada por “segurança hemisférica” vs “anti-intervenção”.
  • Cooperação regional (tipo Unasul/Conselho de Defesa) pode reaparecer, mas como reação e não como projeto.

>>> Resultado

  • A região perde autonomia porque entra numa lógica de campo de disputa (mesmo sem guerra convencional), com custo em comércio, investimentos e coesão diplomática.

<><> Cenário C: “Autonomia coordenada” — 2026–2035 (o cenário visionário)

Probabilidade: baixa–média (exige decisão política + continuidade)

>>> Gatilhos

  • Brasil e Argentina transformam confiança (ABACC) em plataforma industrial-tecnológica de defesa (compras conjuntas, padrões comuns, P&D dual). (ABACC)
  • Integração produtiva em 3–5 eixos: ciber, espaço, vigilância marítima, mobilidade e indústria de munições/sensores, com governança e financiamento estáveis.

>>> Como fica

  • A região deixa de ser apenas “zona de influência” e vira zona de projeto.
  • EUA e China competem, mas encontram um bloco que negocia condições (transferência tecnológica real, soberania de dados, manutenção local).

>>> Resultado

  • Menos dependência; mais capacidade de dizer “sim, mas do nosso jeito”.

¨      A ofensiva contra o STF em pleno ano decisivo lembra Lava Jato. Por Gustavo Tapioca

O Brasil entra em mais um ciclo eleitoral carregando feridas que nunca cicatrizaram. A Lava Jato, desmontada juridicamente e exposta moralmente, deixou um rastro de destruição institucional, perseguição política e manipulação judicial que marcou a história recente. Agora, às vésperas de uma nova disputa presidencial, surge um movimento que lembra — e muito — o roteiro de 2018: a tentativa de transformar o Supremo Tribunal Federal em inimigo público, desgastando ministros específicos para fragilizar a instituição como um todo.

Primeiro, o alvo foi Alexandre de Moraes. Agora, a artilharia se volta contra Dias Toffoli. A ofensiva é coordenada, ruidosa e amplificada por setores da mídia corporativa, parlamentares da direita e redes bolsonaristas. E, para muitos observadores, não há como ignorar o contexto: pesquisas mostram Lula em posição favorável, e a máquina de desinformação volta a operar com intensidade.

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<><> Enfraquecer o STF para minar a democracia

A crítica legítima faz parte da vida republicana. O que se vê agora, porém, é uma campanha de corrosão institucional. O objetivo não é fiscalizar ministros — é deslegitimar o Supremo como árbitro constitucional.

A tática é conhecida:

  • transformar ministros em alvos pessoais,
  • criar um clima de suspeição permanente,
  • desgastar a imagem do tribunal,
  • mobilizar a base radicalizada,
  • pressionar decisões judiciais
  • e, sobretudo, preparar terreno para contestar o ambiente eleitoral.

<><> A "Caixa Amarela" e o pânico dos operadores do lawfare

A ofensiva contra Toffoli cresceu justamente após ele autorizar a apreensão da chamada “caixa amarela”, contendo gravações e documentos que podem comprometer figuras centrais da Lava Jato, incluindo Sergio Moro e Deltan Dallagnol. A coincidência temporal não passou despercebida.

A caixa apreendida em Curitiba contém centenas de horas de gravações clandestinas, documentos e mídias que podem revelar práticas ilegais atribuídas a Moro e procuradores da Lava Jato. O material inclui:

  • conversas gravadas sem autorização,
  • orientações políticas,
  • manipulação de processos
  • e indícios de espionagem ilegal.

A simples possibilidade de que esse conteúdo venha à tona provocou uma reação imediata. A máquina de ataques se voltou contra Toffoli com intensidade incomum. Não se trata de defesa da moralidade — trata-se de defesa da narrativa.

A Lava Jato, mesmo desmontada, ainda é o pilar simbólico de setores que dependem dela para justificar seu projeto político. Se a caixa expuser o que muitos suspeitam, o castelo desmorona de vez.

<><> Ano eleitoral: o momento certo para o golpe narrativo

Com pesquisas indicando vantagem de Lula, a ofensiva contra o STF ganha contornos ainda mais claros. A estratégia busca:

  • reacender o antipetismo,
  • criar instabilidade institucional,
  • desgastar ministros que enfrentam a direita bolsonarista ou não,
  • reduzir a credibilidade de decisões judiciais
  • e tensionar o ambiente político para influenciar o processo eleitoral.

Não se trata de prever resultados — trata-se de observar padrões. E o padrão é conhecido: quando Lula cresce, cresce também a pressão sobre o Judiciário.

Foi assim em 2018, quando a Lava Jato impediu sua candidatura. Há sinais claros de que há quem tente repetir a fórmula.

<><> Moraes e Toffoli devem explicações

A ofensiva contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli segue o mesmo roteiro:

  1. vazamentos seletivos,
  2. insinuações sem prova,
  3. ataques pessoais,
  4. pressão midiática,
  5. linchamento digital,
  6. narrativa de “crise institucional” fabricada.

Se existem elementos sobre condutas envolvendo Alexandre de Moraes e o Banco Master — incluindo o contrato milionário atribuído ao escritório de sua esposa e filhos —, Moraes tem o dever político de esclarecer. O mesmo vale para Dias Toffoli: se há questionamentos ligados ao Resort Tayayá, cabe esclarecimento e atuação das instâncias competentes.

Denúncia se faz à Justiça. O que não se admite é transformar rumor em condenação da instituição. A máquina corporativa e as redes bolsonaristas não querem apurar: querem julgar sem prova, sem rito e sem defesa. E o Brasil já viu esse filme. Teve nome e consequência eleitoral: Lava Jato. Foi nesse clima de caça política, com apoio midiático industrial, que Lula foi preso por 580 dias e afastado da eleição de 2018, abrindo caminho para Bolsonaro — embalado no cinismo histórico do “sem provas, mas com convicções”.

Se existirem irregularidades, que sejam tratadas como manda a lei. O Brasil não precisa de ministros intocáveis — mas não pode aceitar a volta do método que substitui Justiça por tribunal de imprensa e pelotão de fuzilamento moral em rede social.

<><> O roteiro revisitado de 2018

A semelhança com o passado é clara. Em 2018, a Lava Jato operou como força política, com apoio midiático, para retirar Lula da disputa. Hoje, a ofensiva contra o STF reaparece justamente quando o tribunal revisita abusos da operação. A estratégia de transformar ministros em inimigos públicos volta a ser usada para tensionar o ambiente democrático. A máquina de desinformação opera com a mesma lógica: destruir reputações para destruir instituições.

<><> Quem ganha com um STF fragilizado às vésperas de uma eleição?

A direita, o Centrão e o que resta do bolsonarismo não querem um STF “melhor”. Querem um STF dócil. E, se não puderem domesticá-lo, tentam destruí-lo pelo desgaste, pelo pânico moral e pela chantagem permanente. O ataque a Moraes e Toffoli não é sobre indivíduos: é sobre o lugar do Supremo quando, mesmo com contradições, impõe limites ao avanço autoritário.

O Brasil tem duas saídas diante dessa ofensiva: consolidar a responsabilização do golpismo e impedir sua volta sob nova máscara, ou aceitar sua reabilitação como se fosse “normalidade”. Em 2026, a disputa não será apenas por um governo. Será pelo direito de o povo escolher sem chantagem, sem milícia digital e sem ameaça permanente de exceção.

No fim, essa campanha não é sobre “liberdade”. É sobre poder. É sobre impor a regra não escrita do autoritarismo moderno: quando o povo escolhe contra os de cima, a democracia deve ser “corrigida”. E toda vez que essa lógica venceu, o país ficou mais injusto, mais dependente, mais violento. E a democracia paga o preço de existir.

<><> O método lavajatista não pode voltar

O Brasil já pagou caro demais para aceitar, novamente, a transformação da Justiça em arma política. A Lava Jato não foi um erro isolado. Foi um projeto de poder. Um projeto que manipulou provas, destruiu reputações, interferiu no processo eleitoral e entregou o Brasil ao extremismo. Um projeto que rasgou garantias constitucionais em nome de uma cruzada moral que nunca existiu — e que, hoje, tenta renascer travestido de “indignação seletiva” contra ministros do STF.

É preciso dizer com todas as letras: o método Lava Jato não pode voltar. Não pode ser tolerado. Não pode ser normalizado. Não pode ser reciclado pela mídia corporativa nem reembalado pelas redes direitistas e bolsonaristas.

O que está em curso não é fiscalização — é guerra política. Não é busca pela verdade — é tentativa de fabricar crise. Não é defesa da moralidade — é ataque à democracia. O alvo imediato pode ser Toffoli ou Moraes, mas o objetivo final é outro: destruir a autoridade do Supremo para enfraquecer o processo eleitoral e reabilitar o projeto político que nasceu do golpe jurídico de 2018.

O Brasil não pode cair novamente na armadilha do “sem provas, mas com convicções”. Não pode aceitar que suspeitas virem sentenças, que rumores virem manchetes, que linchamentos digitais substituam o devido processo legal. Não pode permitir que a máquina de destruição de reputações volte a operar como se nada tivesse acontecido — como se Lula não tivesse sido arrancado da eleição de 2018 por um juiz parcial, como se o país não tivesse sido empurrado ao abismo por uma operação que se acreditava acima da Constituição.

A democracia brasileira não sobrevive a uma segunda Lava Jato. E é exatamente por isso que a ofensiva contra o STF precisa ser compreendida pelo que é: uma tentativa de reabrir a porta para o mesmo método que já devastou o país.

Se há irregularidades, que sejam investigadas. Se há dúvidas, que sejam esclarecidas. Se há crimes, que sejam punidos.

Mas o Brasil não pode — não deve — aceitar que a Justiça volte a ser sequestrada por interesses políticos, econômicos e midiáticos.

A história já mostrou o preço desse erro. E não há país que sobreviva duas vezes ao mesmo golpe.

 

Fonte: Jornal GGN

 

 

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