segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Escândalo Master: o dia que a imprensa ficou do lado do Centrão, sem perceber

Não é segredo a maneira como a imprensa mainstream trata o Centrão. É visto com desprezo. Suas manobras, com as emendas secretas, são sistematicamente denunciadas. E existem todos os sinais de ligação direta do Centrão com Daniel Vorcaro e o escândalo Master.

Mas, milagrosamente, o Centrão não apenas está ficando fora da cobertura, até agora, como conseguiu que a cobertura atendesse diretamente seus interesses.

Tudo isso graças a um dos fenômenos mais deletérios da cobertura jornalística: o chamado efeito boiada, que ocorre em coberturas complexas.

Em temas complexos, não há um planejamento de cobertura, uma inteligência central juntando as peças, definindo as pautas e filtrando as notícias. Cria-se, então, uma enorme barafunda, um efeito boiada no qual o rebanho é conduzido pelos chamados bois-guias, aqueles repórteres ligados a um dos grupos de interesse envolvidos alimentados por algumas informarções exclusivas, que, através de vazamentos selecionados, conduzem a boiada.

Basta instruir o boi guia a ir na direção pretendida, que a boiada vai atrás.

Vamos entender melhor o jogo.

<><> Peça 1 – a CPI dos Precatórios

No final dos anos 90, a CPI dos Precatórios envolveu Congresso e mídia por várias semanas.

Um determinado jornalista da Folha atuava como boi-guia, conduzindo a boiada para jogar a responsabilidade do golpe nas costas de um pequeno banco do Rio de Janeiro, o Vetor. O golpe tinha começado na prefeitura de São Paulo, do prefeito Paulo Maluf. Consistia em levantar (ou inventar) dívidas pré-Constituinte. Depois, conseguir a aprovação do Senado para transformá-las em precatórios, que seriam negociados no mercado.

O esquema começou na Prefeitura de São Paulo. Depois se estendeu a prefeituras vizinhas e para estados dos mais variados. Ora, nasceu com Maluf, passava pela aprovação de um senador ligado a Maluf – Gilberto Miranda. Ou seja, todos os indícios de que o centro do golpe era Maluf. Mas o boi guia – um colunista da Folha – conseguiu direcionar a boiada para cima de um pequeno banco carioca, o Vetor. Não tinha lógica.

Tratei, então, de “cevar” o banqueiro, tratando o tema com discernimento: mostrando onde as acusações eram furadas, onde eram corretas. Ele admitiu ser um intermediário de Maluf, mas não o chefe do esquema. Acabou confessando para o senador Roberto Requião, um dos membros da CPI.

Terminada a cobertura, Otávio Frias Filho me pediu indicações de como o jornal deveria atuar em futuras coberturas.

Disse-lhe que o melhor caminho era a criação de uma sala de situação. Jamais aconteceu.

<><> Peça 2 – o caso Master

Fenômeno semelhante ocorre na cobertura do Banco Master. É uma cobertura destrambelhada, na qual a boiada corre atrás dos temas levantados pelo boi guia.

Vamos entender a lógica dos políticos do Centrão. Para eles, interessava levar a boiada em direção a dois ângulos específicos da cobertura.

>>> Expediente 1 – tirar o inquérito do Supremo Tribunal Federal e passar para a 1ª Instância. Como há pessoas com direito a foro especial – os políticos envolvidos com o Master –  abriria a possibilidade de uma anulação completa do inquérito.

>>> Expediente 2 – tirar a responsabilidade dos conselheiros e diretoria do BRB e jogar em cima do diretor de fiscalização do Banco Central.

Analise, agora, a cobertura do caso, através do trabalho da jornalista mais empenhada em trazer furos.

# 1. Concentrou-se em ataques aos dois Ministros do STF, com a intenção objetiva de tirar o inquérito das mãos do STF. Em nenhum momento apareceu um editor, um diretor de redação, para apontar para esse paradoxo: se tirar das mãos do STF, o inquérito será anulado. Não houve um coordenador para ordenar uma análise isenta sobre o comportamento do Ministro Dias Toffolli no inquérito. E sobre os riscos de jogar o inquérito para a 1ª Instância. Levantou-se o passado de Toffoli e recorreu-se ao chamado jornalismo de intrigas: notas abusando do termo “mal estar” de policiais federais em relação a medidas de Toffoli.

# 2. Todas as colunas do boi guia sobre o BRB limitaram-se a vender a versão de que o banco foi pressionado pelo diretor de fiscalização do Banco Central. Crucificou-se a reputação de um funcionário de carreira do banco, sem o menor cuidado, como se reputação fosse algo inexpressivo, para poupar as raposas feitas que compunham o BRB.  Analisem se o boi guia publicou um artigo sequer mencionando os políticos do Centrão.

<><> Peça 3 – o descrédito da mídia

A maior parte dos leitores se fia nas manchetes, no lide das matérias, nas suspeitas jogadas aqui e acolá. Ora, bolas, o que diferencia a imprensa que se pretende séria do jornalismo marrom e das chuvas de granizo das redes sociais, é o discernimento, a capacidade de contextualizar os fatos, juntar as pontas.

Esse tipo de jogada afeta o exercício do jornalismo, a missão do jornalismo, atinge a todos. Equipara o jornalismo aos influenciadores. E a responsabilidade não é do boi guia, mas dos chefes do rebanho, que permitiram esse grau de promiscuidade, em troca de algumas manchetes.

E aí a versão pega e a desinformação chega à primeira página do Estadão.

•        É hora de avaliar o papel de Campos Neto no golpe do Master. Por Luís Nassif

O Globo continua em sua catilinária contra o Supremo Tribunal Federal (STF), facilitada pela falta de uma saída política honrosa do órgão.

Por outro lado, a jornalista Malu Gaspar, principal alimentadora da campanha, fez um chamado “cozidão” do contrato de Ricardo Lewandowski com o Banco Master. Já saiu na mídia, várias vezes, que, ao assumir o Ministério da Justiça, Lewandowski deixou a banca de advogados. Como o contrato permaneceu, obviamente o caso continuou com os filhos. Nem precisou atribuir a informação a “três fontes” – como é praxe nas notícias suspeitas de vazamento.

Por que me atenho a esse detalhe? Porque demonstra que, ao menos provisoriamente, cessaram os vazamentos de dados pela Polícia Federal. Não se sabe por quanto tempo.

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Com a ida do caso para a 1ª Instância, pode-se esperar uma torrente de vazamentos.

A notícia relevante é que começa a se quebrar a blindagem do grande responsável por essa esbórnia, o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto.

Obviamente, não pelo O Globo. Nem pela Folha. Recentemente, uma entrevista com o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, ocultou o nome de Campos Neto em uma análise sobre a demora do BC em agir que, claramente, referia-se à gestão Campos Neto.

Mas pelo Estadão, onde ainda há laivos de jornalismo na reportagem.

<><> Estadão quebra a blindagem

Com a reportagem “Campos Neto sabia dos problemas do Master”, de Álvaro Gribel, o Estadão quebrou a blindagem de Campos Neto na mídia corporativa.

As impressões digitais de Campos Neto estão em toda a trajetória do Master. Já mostramos todas as jogadas regulatórias praticadas por ele – inclusive uma portaria que livrou a ele e ao Santander de crimes praticados no seu período de diretor de câmbio do banco.

Fiquemos apenas em uma, narrada pela reportagem do Estadão.

Em agosto de 2023, a Warren Investimentos (gestora e plataforma de investimentos) emitiu um relatório interno a clientes no qual:

•        não recomendava a compra de CDBs do Banco Master

•        alertava para riscos incompatíveis com o retorno oferecido

•        colocava em dúvida a qualidade do balanço e do crescimento acelerado do banco

<><> A caneta de Campos Neto

Há duas formas de praticar mal feitos no mercado. A forma rombuda é através da falsificação de carteiras. A forma sofisticada é através da caneta, de decretos e portarias.

Em outubro de 2023, em vez de apertar a fiscalização sobre o banco,  o BC editou normas sobre precatórios, permitindo ao Master não ajustar balanço.

Tratou-se de um ajuste regulatório feito pelo Banco Central sobre o tratamento prudencial e contábil de precatórios e direitos creditórios judiciais nos balanços dos bancos.

Precatórios são dívidas judiciais contra o poder público. São de pagamento incerto no tempo, sujeitos a filas e calotes parciais. No mercado, são tratados como ativos de pouca negociação e deságio alto. São de risco elevado e difícil de mensurar.

Por isso mesmo, exige mais capital, mais provisão e menos alavancagem (tomada de recursos de terceiros).

A norma permitiu exceções transitórias e interpretações flexíveis nas seguintes situação:

1. Quando o balanço alegasse que os precatórios estavam “adequadamente avaliados”. E havia estrutura contratual de proteção.

2. Se os ativos estivessem em fundos, em estruturas empacotadas (os COEs) ou classificados como “mantidos até o vencimento”.

Com isso, o banco não precisaria reconhecer imediatamente as perdas, aportar novo capital, vender ativos ou reduzir o crescimento.

A norma livrou o Master de proceder a um ajuste contábil, fazer aportes de sócios ou redução do balanço. Ou se livrar da intervenção.

Foi feita sob medida para o Master. O banco tinha bilhões em precatórios e direitos creditícios judiciais. Usava esses ativos como lastro implícito e justificativa de solvência.

Graças a esse presente de Campos Neto, no ano seguinte, 2024, o Master dobrou de tamanho. No final do ano, já não conseguia captar através das plataformas de investimento.

O problema foi adiado para a nova diretoria do BC, para o Fundo Garantidor de  Crédito.

Tudo isso ocorreu quando o Master já estava sob escrutínio, com a crise prestes a explodir.

<><> Porque o BC não discutiu o caso Master

A alegação de Campos Neto é que não houve intervenção do BC porque “não houve voto levado ao colegiado”.

Não é uma declaração: é uma confissão.

Quem controla a pauta do colegiado é o presidente do Banco Central. Se não houve voto, é porque a presidência – ou seja, Roberto Campos Neto – não quis que houvesse,

Não houve só erro de avaliação. Houve uma responsabilidade regulatória clara, com decisões normativas, interferência direta para evitar a liquidação. E, agora, há um registro formal no TCU, que vai servir de base para uma avaliação das responsabilidades de Campos Neto.

O Master virou o caso Lehman dos pequenos bancos brasileiros – refiro-me ao escândalo com o Banco Lehman, que precipitou a crise de 2008. E tem todas as impressões digitais de Campos Neto.

Quando a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado for inquirir Campos Neto, a pergunta básica será essa:

“Presidente, em que data objetiva o Banco Central concluiu que as avaliações de precatórios apresentadas pelo Banco Master não eram confiáveis — e, a partir dessa data, por qual razão concreta as medidas prudenciais previstas na Resolução CMN nº 4.019 não foram imediatamente levadas à pauta da Diretoria Colegiada?”

 

Fonte: Jornal GGN

 

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