Raphael
Silva Fagundes: Para onde foram as mobilizações pela educação pública?
Devido
ao teto de gastos, é preciso promover uma seleção para determinar o foco dos
investimentos de uma nação. Mas quais critérios são utilizados? Os grupos
sociais que exercem maior pressão são os diversos setores das classes média e
alta. Assim, em termos educacionais, os investimentos tendem a ser direcionados
ao ensino superior. As classes média e alta colocam seus filhos em escolas
privadas ou em institutos federais; por isso, desconhecem a realidade da escola
pública básica, o que contribui para a apatia da sociedade, de modo geral, em
se mobilizar em sua defesa. Mas é uma ignorância programada. Não lutar pela
educação básica é uma vantagem para as escolas privadas. O Brasil está entre as
dez maiores populações em idade escolar do mundo. Isso ativa o interesse de
várias empresas do ramo. Ou seja, o baixo investimento em educação é parte do
sistema. Em 2014, por exemplo, “o Brasil gastou cerca de R$ 495 por mês por
aluno da educação básica. Esses números estão claramente inflados, mas ainda
assim representam menos da metade da mensalidade de uma escola privada
considerada de qualidade, correspondendo a cerca de 10% da mensalidade de uma
escola de elite”. O objetivo do sistema é ampliar o mercado, não atender aos
interesses da população.
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A lógica neoliberal
Dentro
da lógica neoliberal, a escola pública básica é o símbolo do fracasso. Ela tem
que ser de baixa qualidade porque é inerente ao capitalismo a ideia de que o
que é bom deve ser pago. A qualidade deve ser paga. Trata-se de um raciocínio
meritocrático. O indivíduo que enriquece acha que tem o direito de ter o que a
sociedade produz de melhor sempre em comparação ao seu alter ego forjado por
essa economia política, isto é, aquele que não ascendeu socialmente. Este não
merece nada e deve, portanto, se contentar com o precário. Assim, de acordo com
essa lógica, não pode haver uma escola igual para todos. O próprio pobre
interiorizou a ideia de que merece o que tem: a escola pública precarizada. E,
se por uma circunstância qualquer, ampliar a sua renda, ele colocará seu filho
numa escola privada, reconhecida como a de qualidade.
É como
colocou Jessé Souza, “quem mais acredita na meritocracia – a crença no mérito
individual do sucesso social – é o mais pobre, ou seja, justamente a sua maior
vítima […] A violência pode ser importante de forma momentânea, mas sem
convencimento do oprimido de sua própria inferioridade não se tem dominação
estável”.
É uma
lógica aporofóbica, na qual, “o desprezo pelo pobre, o rechaço a quem não pode
entregar nada em troca, ou, ao menos, parece não poder”. Se os pobres não têm
nada para dar, eles não devem ter nada.
Nesta
escola para pobres, nem os professores nem a comunidade escolar participam das
discussões sobre as políticas educacionais. Os administradores tecnocratas
determinam o que deve ser ensinado, a grade horária e os instrumentos que devem
ser usados em sala.
Há um
efeito perverso nisso tudo apontado por Márcio da Costa. “A perversidade
estaria em que os setores sociais menos organizados e influentes terminariam
por arcar com a sustentação de políticas sociais voltadas para aqueles que não
necessitariam delas”. Os pobres, que em sua maioria não chegam às
universidades, contribuem para o financiamento destas, enquanto a escola básica
que frequentam está abandonada.
A
sociedade não acredita mais na escola pública. Há casos ridículos em que a
classe média matricula seus filhos em uma escola pública quando vão mal no
ensino privado. E para quê? Para a aquisição do diploma que os habilita a
ingressar na etapa posterior. Em seguida, pagam cursinhos pré-vestibular para
que seus filhos entrem na faculdade. É assim que funciona.
A
precariedade da escola pública é um projeto neoliberal contra a democracia.
Pablo Gentili já observava isto nos anos 1990: “o neoliberalismo só consegue
impor suas políticas antidemocráticas na medida em que consegue desintegrar
culturalmente a possibilidade mesma de existência do direito à educação (como
direito social) e de um aparato institucional que tenda a garantir a
concretização de tal direito: a escola pública”. Ou seja, não há outra solução,
salvar a escola pública, voltar-se contra uma cultura que a despreza, é salvar
a democracia.
Nesse
sentido, a educação básica ainda é pior que a saúde pública. Graças ao SUS é
possível adquirir gratuitamente medicamentos e vacinas de qualidade para salvar
vidas. Já, por seu turno, a escola pública não irá fornecer o acesso aos níveis
superiores do conhecimento. Pelo contrário, a perversidade da escola pública é
impedir o acesso ao ensino superior, já que o pobre (de acordo com os
tecnocratas utilitaristas) precisa aprender apenas o básico para sobreviver. É
como bem colocou o professor José Libaneo, “o direito ao conhecimento e à
aprendizagem é substituído pelas aprendizagens mínimas para a sobrevivência”.
Ocorre um desperdício de cérebros potenciais.
Nestas
circunstâncias o docente é, também, apenas um sobrevivente, o que “pode
explicar o descaso com os salários e com a formação de professores: para uma
escola que requer apenas necessidades mínimas de aprendizagem, basta um
professor que apreenda um kit de técnicas de sobrevivência docente”. Livros
didáticos, com conteúdos básicos (sem referências bibliográficas), e a
introdução de disciplinas “desescolarizadas”, como empreendedorismo, projeto de
vida etc.. são as marcas dessa perversidade.
E,
ainda assim, o único grupo que se mobiliza pela educação são os próprios
professores. Não há apoio da população. Mais de 110 milhões deixaram de ser
destinados à educação no estado do Rio de Janeiro, e as ruas permanecem caladas
– com exceção dos blocos que tomam a cidade. As pessoas vão às ruas pelos mais
diversos motivos, até mesmo para pedir anistia a quem cometeu crimes contra a
democracia, mas ninguém – exceto os professores – vai às ruas em nome da
educação.
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A base da desigualdade social
A
escola só se tornou acessível quando foi possível usá-la para a exclusão. Ou
melhor, “aquilo a que mais comumente damos o nome de exclusão se insere no
âmbito dos cada vez mais degradados e degradantes processos de integração”. A
escola serve como mediadora de uma inclusão subordinada. Um serviço público
utilizado como espaço “de ampliação dos mecanismos de controle e assistência
aos pobres”. Não houve a universalização da educação, mediante à ampliação do
acesso e da permanência dos jovens no ambiente escolar, mas “um híbrido de
escola degradada e institucional”.
Se
concordarmos com Hegel e aceitarmos que o que move o indivíduo é a busca por
reconhecimento social, é possível compreender o desprezo pela educação. A
racionalidade neoliberal criou uma ideologia que nega a ciência, a erudição, a
pesquisa. Por isso, o sucesso do negacionismo e das fake news. O reconhecimento
pela sabedoria vem sendo substituído pelo sucesso individual decorrente da
ideologia do “empreendedor de si”. E na sociedade midiatizada pelo audiovisual
customizado, a edição é mais importante que a erudição. Rubens Casara mostra
como o “neoliberalismo gera ‘idiotas’”. “A raiz etimológica da palavra idiota
vem do grego idios, que significa ‘privado’, ‘sem compromisso com a vida
pública’, ‘fechado em si’”. A partir daí o autor conecta essa palavra ao
projeto neoliberal de desvalorização do saber. “Idiotas, portanto, são as
pessoas que abdicam de projetos coletivos ou de ações políticas voltadas ao bem
comum, porque são detentoras de uma subjetividade empobrecida que interdita o
pensamento reflexivo e que as leva a atuar exclusivamente visando a obtenção de
vantagens pessoais”.
A
finalidade da educação básica entra em choque com essa racionalidade
neoliberal. Como explica Roseli Salete Caldart, a escola de Educação Básica é
“o nível educacional formal que trabalha com as bases de uma educação geral e
de uma formação multilateral que visa o desenvolvimento livre das capacidades
humanas e a inserção crítica e criativa das novas gerações na vida social como
um todo”. Hoje, onde o egoísmo em nome do sucesso se tornou uma virtude, há
cada vez menos pessoas lutando pela “educação geral”, pela “formação
multilateral”, “inserção crítica” etc..
Somente
o resgate do coletivo é capaz de recuperar o interesse pela educação. Um
interesse que foi valorizado pelos mais diferenciados espectros políticos. Dos
iluministas liberais aos comunistas que acreditavam no acesso à educação para o
exercício da democracia. O direito à educação básica de qualidade deve nortear
as lutas sociais. Se deixarmos a educação se tornar, por completo, uma
mercadoria de usufruto privado e utilitário, o caminho para uma sociedade mais
justa e harmoniosa será interditado, pois a desigualdade na qualidade da
educação é a base de uma sociedade desigual.
• Perspectivas em diálogo entre a
universidade e os movimentos sociais. Por Lívia Peres Milani , Rosana Cebalho
Fernandes e Luis Ortuño
A
discussão sobre a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tem se centrado
em condenar o desrespeito à soberania do país caribenho e ao Direito
Internacional. Muitas análises também se dedicam a desconstruir a narrativa
oficial de que se tratou de ação de combate ao “narcoterrorismo”. Contudo,
poucos são os debates que conversam com aqueles que atuam no local e que
constroem suas posições desde baixo, no convívio com os movimentos sociais e
com os territórios afetados.
Abordar
a conjuntura venezuelana e latino-americana em diálogo com a vivência local foi
um dos objetivos da discussão O ataque à Venezuela e o contexto geopolítico
latino-americano promovida pelo Instituto de Políticas Públicas e Relações
Internacionais (IPPRI) da Unesp, que contou com a participação de pesquisadores
e militantes.
As
análises foram bastante plurais, com mais questões do que as apresentadas neste
pequeno ensaio. Aqui, são sintetizados alguns pontos centrais, abordados em
algumas exposições, que dividimos em três argumentos principais: 1) A agressão
à Venezuela é histórica; 2) O episódio diz respeito à toda América Latina e a
resposta também deve ser regional; e 3) A democracia deve ser construída também
desde a organização popular, não podendo prescindir de uma discussão sobre
desigualdades sociais.
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03 de janeiro como marco
A
agressão perpetrada pelos Estados Unidos contra a Venezuela no dia 03 de
janeiro é um marco histórico para a América Latina. Contudo, é também mais um
episódio dos reiterados ataques contra o processo político iniciado com a
chegada de Chávez ao poder, em 1999. Nas últimas duas décadas, houve tentativas
de golpe de Estado, ações midiáticas e sanções econômicas promovidas ou
apoiadas pelos Estados Unidos contra o chavismo.
O
movimento chavista sempre incomodou os tomadores de decisão dos EUA, entre
outros aspectos, por se colocar como um projeto anti-imperial, tanto na
narrativa como na prática de nacionalização da exploração do petróleo. Isto se
converte em uma contraposição entre um discurso de autonomia latino-americana e
a hegemonia dos Estados Unidos sob as Américas, novamente materializada de
forma explícita na Doutrina Monroe.
No
segundo mandato de Donald Trump há maior intensidade no emprego da força. Nos
últimos meses, mais de cem pessoas – incluindo pescadores – foram assassinadas
por forças de segurança dos Estados Unidos com base em uma narrativa de combate
ao tráfico de drogas e ao terrorismo. Em três de janeiro, o auto-descrito
“ataque cirúrgico” afetou vários pontos da capital venezuelana, teve
consequências para toda a cidade e gerou impactos psicológicos duradouros para
os habitantes de Caracas.
A
narrativa que acompanhou o sequestro de Maduro foi composta por duas faces: a
falácia do combate ao “narcoterrorismo” e a explicitação de objetivos
econômicos de longo prazo. A retórica de promoção da democracia
instrumentalizada por governos anteriores foi abandonada pelo governo atual, o
que escancara o desinteresse da potência em relação a este tema.
A
justificativa de combate ao narcotráfico não se aplica ao caso venezuelano e é
baseada na construção narrativa de que o presidente do país caribenho seria o
líder de um suposto “Cartel de los Soles”. Esta afirmação já não condizia com
os relatórios anuais elaborados pelo Departamento de Estado e a falácia fica
ainda mais evidente depois do Departamento de Justiça retirar essa acusação que
pesava sobre Maduro.
Por
outro lado, Donald Trump deixou explícito o que realmente interessa aos EUA: o
acesso e o controle do petróleo e dos minérios – terras raras – do subsolo
venezuelano. Interessa-lhe também o exercício do poder sobre toda a América
Latina e a imposição de limites aos projetos que resistem ao capitalismo ou que
buscam ampliar as relações com outras potências, como China e Rússia. Neste
momento, o processo é de escalada de ações imperialistas em todo globo e, em
especial, na região.
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A agressão à América Latina
Neste
sentido, o ataque do dia 03 de janeiro não diz respeito apenas à Venezuela, mas
pode ser lido como uma ameaça à toda América Latina. Cabe ressaltar os casos de
Colômbia, Cuba, México e Brasil, cada um com especificidades e possibilidades
de resistência diferentes. O México tem que lidar com a forte dependência
econômica e com as dinâmicas de fronteira, Cuba com o histórico embargo
comercial e a Colômbia com a ameaça explícita do presidente americano.
No caso
brasileiro, as possibilidades de atuação assertiva são relativamente maiores.
Um elemento a ser considerado é a melhora das relações bilaterais, inclusive no
âmbito das dinâmicas interpessoais entre os dois presidentes. Outro é a
disposição de Lula em construir vias médias por meio do diálogo e da
diplomacia, o que o coloca como possível mediador. Ainda assim, há de
considerar o período eleitoral de 2026 e o objetivo estadunidense de
fortalecimento das direitas em âmbito regional e global – com o adendo da
direita nacional ser fortemente conectada com seus pares em Washington.
Considerando
este contexto, a resposta deve ser regional, o que faz necessária a retomada da
integração regional, tanto no debate acadêmico, como na construção política.
Para além do nível governamental, também importam as formas de articulação
transnacional entre organizações da sociedade civil, necessárias para a
construção de espaços de atuação anti-imperialista.
Na
articulação entre os povos, os espaços de resistência podem e devem se
estabelecer – este é o caminho para modificar uma correlação de forças
desfavorável para a região. De uma perspectiva dos movimentos populares
articulados pela Alba Movimentos, pelo MST e pela Articulação Internacional dos
Povos, as prioridades neste momento são: a paz, a libertação de Nicolás Maduro
e Cília Flores e a manutenção da revolução bolivariana, por meio da organização
popular. Também é parte da agenda destes movimentos a ação que se define como
anti-imperialista e pautada em um projeto de integração regional.
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A democracia é vivida
A
articulação transnacional dos povos se relaciona com a promoção da democracia,
já que esta deve ser sustentada também por formas de organização popular.
Apesar de suas contradições, o chavismo é o maior movimento de massas da
Venezuela. No poder, o movimento gerou transformações políticas, sociais e
econômicas de grande relevância. A Venezuela era marcada por intensa
desigualdade e marginalização social antes da presidência de Hugo de Chávez.
Contrariamente
ao mito de uma democracia estável, a democracia no país era precária, marcada
por violações de direitos, altos níveis de pobreza, perseguição política e
baixa competição eleitoral. Com Chávez, houve programas de inclusão social e
uma diminuição relevante da pobreza.
Estes
fatos não anulam as contradições de um movimento que se sustentou também com
base no apoio das Forças Armadas e em crescente autoritarismo. Esta dinâmica de
militarização se fortaleceu durante o governo de Nicolás Maduro, quando os
militares se inseriram na gestão de programas sociais, na política econômica e
na administração de empresas. O chavismo é heterogêneo e sua ala militar se
fortaleceu, entre outros aspectos, em uma dinâmica de enfrentamento iniciada
nos EUA.
Em
síntese, considerando o momento atual, importa ressaltar que leituras
simplistas, centradas apenas no binômio democracia e ditadura, tendem a deixar
muitos elementos de fora da análise. Hoje, a democracia tem sido contestada
inclusive no centro do sistema – talvez em razão do aumento da desigualdade
social, que torna a democracia liberal cada vez mais frágil. Neste contexto
desafiador em âmbito global, cabe lembrar que as pessoas têm ido às ruas e as
marchas populares têm feito com que a solidariedade transnacional permaneça
viva. Estas formas de resistência importam no marco de acentuada violência
estrutural, seja no caso da Venezuela, da Palestina ou do Haiti, ou mesmo nos
próprios Estados Unidos.
Fonte:
Le Monde

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