As
cidades fantasmas do petróleo na Venezuela à espera do plano de Trump
Com
suas organizadas fileiras de casas, marcadas por gramados e varandas,
Miraflores poderia ser confundida com um típico subúrbio dos Estados Unidos.
Mas
Miraflores está localizada no coração da indústria petrolífera da Venezuela, na Costa Leste do
Lago de Maracaibo. E esse bairro tranquilo, aliás, já ajudou a transformar o
país em um dos mais ricos da América Latina. Era um símbolo da
prosperidade nacional.
Essa já
foi uma das bacias petrolíferas mais produtivas do mundo e, junto com a cidade
de Maracaibo, do outro lado do lago, é vista como peça-chave do plano do
presidente americano, Donald Trump, para atrair
empresas americanas a investir US$ 100 bilhões (cerca de R$ 530 bilhões) na
reconstrução da indústria energética venezuelana. O país tem as maiores
reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de
barris. O Brasil, a título de comparação, tem 16 bilhões de barris, segundo
dados da Opec.
Mas por
ora, a região ao redor do Lago de Maracaibo é um lembrete contundente de quanto
a fortuna do país declinou ao longo das décadas.
Há
bombas e plataformas de petróleo espalhadas por toda parte — em esquinas, nos
campos ao redor e emergindo do lago. Embora algumas tenham sido recentemente
pintadas de amarelo, azul e vermelho, as cores da bandeira nacional, e
continuem em operação, muitas outras não se movem há anos, enferrujam e se
deterioram.
A
decadência é evidente em cerca de 20 "campos petrolíferos" em estilo
americano nas margens do lago, construídos originalmente por empresas
internacionais para abrigar seus funcionários, após a exploração comercial do
petróleo venezuelano decolar nos anos 1920.
As
gigantes do setor como a Standard Oil of New Jersey (que depois se tornou a
Exxon), a Chevron e a Shell investiram pesadamente em Maracaibo, a segunda
maior cidade da Venezuela. O dinheiro do petróleo transformou antigas vilas de
pescadores em comunidades prósperas, com hospitais, escolas e clubes sociais.
Em
Miraflores, que abrigava os principais executivos do setor, muitas casas foram
saqueadas e hoje estão abandonadas, com as janelas quebradas e a fiação
arrancada.
Gladysmila
Gil se mudou para um bairro mais modesto nas proximidades em 1968 com o marido,
já falecido, que trabalhava na indústria do petróleo e recebeu a casa.
"Quando
nos mudamos para esta casa, ela estava em boas condições", lembra, sentada
em uma cadeira gasta e olhando a tinta rosa descascando das paredes.
"Se
ficávamos doentes, íamos ao hospital e éramos atendidos. O lixo era recolhido
dia sim, dia não, e não tínhamos essas quedas de energia", acrescenta, ao
falar do declínio econômico vivido pela Venezuela nos últimos 13 anos.
Hoje, o
lixo é recolhido apenas de forma esporádica e, apesar das reservas de petróleo,
a região foi atingida por uma grave crise energética na última década, com
apagões quase diários.
Um
sistema de metrô leve inacabado, envolto em acusações de corrupção, um hospital
central sucateado, descrito pelos pacientes como "um inferno" e a
desigualdade crescente fazem do local um microcosmo do país. O Produto Interno
Bruto (PIB, que é a soma de todas as riquezas produzidas) da Venezuela caiu
mais de 70% desde que Nicolás Maduro se tornou presidente, em 2013.
"Você
não vê crianças nessas ruas, não há jovens. Eu costumava viver aqui com nove
parentes, e todos foram embora", diz José Gregorio Martínez, 64, filho de
um ex-trabalhador do petróleo, sentado na varanda de casa.
Lutando
contra as lágrimas, o professor aposentado explica que só sobrevive graças ao
dinheiro enviado por parentes do exterior. Sua pensão estatal mensal é de US$
2,80 (cerca de R$ 14,78) e não cobre nem as necessidades básicas.
Gil e
Martínez recordam o que consideram os anos dourados e não estão sozinhos na
esperança de que novos investimentos de empresas dos EUA transformem suas
vidas.
Nos
anos 1970, a Venezuela chegou a produzir até 3,5 milhões de barris de petróleo
por dia, mais de 7% da produção global.
Na
época, a produção era administrada por uma rede de empresas estrangeiras,
muitas delas dos EUA, que operavam sob concessões governamentais, até que o
setor foi nacionalizado em 1976 e assumido pela estatal PDVSA (Petróleos de
Venezuela S.A)
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Sucateamento do setor
A
indústria continuou a formar a espinha dorsal da economia do país, se
beneficiando dos altos preços do petróleo nos anos 1970. Quando os preços
caíram nos anos 1980 e a Venezuela entrou em crise econômica, a realidade se
impôs. Houve protestos quando o governo introduziu medidas de austeridade para
tentar equilibrar as contas.
Nos
anos 1990, reformas abriram espaço para o investimento estrangeiro e, em 1999,
o país ainda produzia cerca de 3,2 milhões de barris por dia, aproximadamente
metade deles no estado de Zulia, a região ao redor do Lago de Maracaibo.
Então,
veio a ascensão do Chavismo, uma ideologia nacionalista e antiamericana criada
pelo antecessor de Maduro, Hugo Chávez.
Ele se
tornou presidente em 1999, quando os preços do petróleo voltavam a subir, o que
permitiu ao governo financiar grandes programas sociais destinados a tirar
milhões da pobreza.
Mas, no
fim de 2025, a produção de óleo havia caído para cerca de 860 mil barris por
dia, menos de 1% da produção mundial de óleo bruto. A título de comparação, o
Brasil produz cerca de 3,7 milhões de barris por dia.
Muitos
apontam 2022 como um ponto de virada da indústria venezuelana, quando uma greve
de petroleiros contra o governo Chávez foi seguida por uma grande
reestruturação da PDVSA. É amplamente divulgado que até 22 mil pessoas foram
demitidas.
"Você
não pode perder 22 mil técnicos em uma empresa e esperar que nada
aconteça", diz Jorge, nome fictício, que foi demitido na época. Ele diz
que a reformulação buscou alinhar a empresa a prioridades políticas, e grande
parte da gestão que resistiu, acabou perdendo o emprego.
Em
2007, o setor petrolífero foi transformado novamente, quando o governo Chávez
assumiu o controle da indústria.
Algumas
empresas estrangeiras permaneceram sob novas parcerias lideradas pelo Estado,
enquanto outras, como a ExxonMobil, deixaram o país, e o declínio do setor se
acelerou.
A má
gestão e a corrupção têm sido problemas graves no setor, mas o governo atribui
veementemente a queda às sanções dos EUA.
Amplas
sanções econômicas foram impostas em 2017, durante o primeiro mandato de Trump,
em resposta ao que o governo americano classificou como "graves violações
de direitos humanos… estabelecimento de uma Assembleia Constituinte ilegítima,
que usurpou o poder da Assembleia Nacional democraticamente eleita… corrupção
pública desenfreada" e "perseguição e violência contra a oposição
política".
O ponto
de virada para os EUA aconteceu no início de janeiro deste ano (2026), quando
militares americanos capturaram Nicolás Maduro em seu complexo em Caracas e o
levaram a Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo, que ele
nega.
Trump
afirmou que os EUA iriam "administrar" a Venezuela e controlar a
venda de seu petróleo sancionado "indefinidamente", mas uma aliada de
Maduro, Delcy Rodríguez, assumiu desde então o controle do governo, das Forças
Armadas e das instituições do país.
Enquanto
exige de forma desafiadora a libertação de Maduro, que afirma ter sido
"sequestrado", Rodríguez cooperou com o governo Trump para reformar a
legislação e permitir que as empresas petrolíferas estrangeiras e locais voltem
a operar campos de petróleo, por meio de um novo modelo de contrato.
O
Parlamento venezuelano, dominado por aliados de Maduro, aprovou essa mudança
significativa na quinta-feira (29/1).
Muitos
em Maracaibo estão otimistas com a possibilidade de investimento dos EUA.
Legenda
da foto,Manchas de óleo podem ser vistas na água do Lago de Maracaibo
"Seria
melhor, porque haveria trabalho, e nossos filhos não precisariam recorrer à
pesca. Eles poderiam ter um futuro", diz Carlos Rodríguez. Hoje, já perto
dos 30 anos, ele trabalha nessas águas desde a adolescência.
Ao
arrastar para o lago o barco coberto de óleo, a vista impressiona. A beleza do
céu contrasta fortemente com a água, por vezes azul, mas com frequência de um
verde opaco devido às cianobactérias ou escurecida pelo petróleo. É fácil ver o
óleo na superfície e, quando mergulho a mão, ela sai manchada de petróleo.
"Está
piorando a cada dia. Verde, preta, oleosa", reclama Rodríguez. "E há
menos peixes." Naquela manhã, ele não pescou nenhum.
Ele
espera que, se as empresas petrolíferas internacionais retornarem, ajudem a
limpar o lago.
Outros
são cautelosos. "Não temos problema com [empresas estrangeiras] vindo
explorar nossos recursos, perfurar poços e criar empregos", diz outro
pescador, José Luzardo. "Mas não queremos ser colônia de ninguém."
Ele é
um aliado fiel de Maduro, mas admite que tanto sua família quanto seus colegas
passam por dificuldades.
Trump
"pode vir, mas tem de nos pagar pelo petróleo… o petróleo pertence à
Venezuela, pertence a todos os venezuelanos", diz, enquanto se prepara
para zarpar.
Muitos
outros — em especial os que se opõem ao governo — evitam falar de política por
medo de represálias.
Mais
tarde, o som das ondas do lago batendo na lateral da casa de Luzardo compete
com o chiado do óleo quente. Em uma cozinha de paredes nuas, sem reboco, um
grupo de mulheres frita os poucos peixes pescados naquela manhã. Luzardo diz
que tiveram sorte. Às vezes, eles voltam para casa sem nada. Nesses dias, vão
dormir com fome.
Tanto o
governo quanto a oposição concordam sobre a necessidade de investimento.
Juan
Romero, deputado que representa Zulia e líder local do partido governista PSUV,
afirma que essa é a chave para a retomada do setor.
"No
lago de Maracaibo, há aproximadamente 13 mil poços que poderiam ser
recuperados, e existem reservas de 26 bilhões de barris de petróleo", diz
Romero.
Com a
retirada das sanções dos EUA, ele acredita que o "estrangulamento
econômico" do setor chegará ao fim e que a Venezuela conseguirá atrair
capital estrangeiro.
Mas
analistas alertam que pode levar uma década e centenas de bilhões de dólares
para restaurar a antiga produção do país. Além disso, os gigantes do setor
permanecem cautelosos. O presidente-executivo da ExxonMobil, Darren Woods,
classificou a Venezuela como "não investível" em seu estado atual.
Falando
em uma reunião de cúpula na Casa Branca após a remoção de Maduro, Woods
observou que a ExxonMobil teve seus ativos confiscados na Venezuela duas vezes,
"então é possível imaginar que entrar pela terceira vez exigiria mudanças
bastante significativas". Sem um novo arcabouço legal e proteções mais
fortes para investidores, advertiu, os bilhões de dólares necessários para a
reestruturação não se materializarão.
Ainda
assim, para muitos em Maracaibo, permanece a esperança de que o investimento e
a prosperidade retornem.
Entre
eles está José Rodas, 93, trabalhador aposentado do setor petrolífero que ainda
possui um Dodge Dart de edição especial, um "carrão" americano
clássico comprado durante o boom do petróleo nos anos 1970.
"As
coisas ficaram mais difíceis", diz. "No passado, a vida era mais
fácil. Tínhamos conforto."
Ele faz
referência ao "comissariado", um departamento central dentro dos
campos petrolíferos que não apenas fornecia alimentos subsidiados, mas também
cuidava da manutenção das casas dos trabalhadores, com novas demãos de tinta e
lâmpadas novas.
Hoje, o
"carrão" estacionado em sua varanda abandonada parece uma relíquia
desbotada daquela vida passada.
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Venezuela anuncia anistia a presos políticos
A
presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou nesta
sexta-feira (30/01) uma lei de anistia que poderá levar à libertação de
centenas de presos políticos, incluindo líderes de oposição, jornalistas e
ativistas de direitos humanos.
A
anistia é uma demanda antiga da oposição venezuelana, agora encorajada desde a
deposição do presidente Nicolás Maduro, capturado em 3 de
janeiro por forças americanas e levado preso aos Estados Unidos para responder
a acusações de narcoterrorismo.
Numa
fala televisionada proferida diante de ministros, juízes, generais e outros
membros do governo, Rodríguez prometeu que a Assembleia Nacional – controlada
pelo partido governista, do qual a presidente interina faz parte – analisará o
projeto de lei com urgência.
"Que
esta lei sirva para curar as feridas deixadas pela confrontação política
alimentada pela violência e pelo extremismo", disse no discurso
pré-gravado. "Que sirva para redirecionar a justiça em nosso país, e que
sirva para redirecionar a coexistência entre venezuelanos."
O texto
da lei ainda não foi revelado, e por isso não está claro quem poderá se
beneficiar da anistia.
Segundo
Rodríguez, a "lei geral de anistia" cobrirá "todo o período de
violência política de 1999 até o presente", mas não beneficiará condenados
por homicídio, tráfico de drogas, corrupção ou violações de direitos humanos.
"Uma
anistia geral é bem-vinda, desde que seus elementos e condições incluam toda a
sociedade civil, sem discriminação, e que não se torne uma capa de impunidade,
e que contribua para desmantelar o aparato repressivo de perseguição
política", declarou o presidente da ONG venezuelana Foro Penal, Alfredo
Romero, via redes sociais.
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Prisão apontada como "centro de tortura" será fechada
Rodriguez
se comprometeu ainda a fechar o Helicóide, prisão em Caracas famosa por receber
presos políticos e que é apontada por ativistas de direitos humanos como centro
de tortura e violações de direitos humanos. O local, segundo ela, será
transformado em um centro esportivo, social e cultural.
As
promessas de Rodríguez foram feitas diante de alguns dos oficiais acusados por
ex-prisioneiros e ativistas de comandarem os abusos no Helicóide e em outras
prisões.
O Foro
Penal estima que haja 711 presos políticos em toda a América do Sul. Destes,
apenas 183 foram julgados e condenados.
Entre
os oposicionistas detidos após as eleições venezuelanas de 2024 e ainda não
libertados estão o ex-parlamentar Freddy Superlano, o ex-governador Juan Pablo
Guanipa e o advogado Perkins Rocha, que atuou para a líder de oposição e prêmio Nobel da paz María Corina
Machado .
Machado
foi impedida de disputar a eleição de 2024 contra Maduro, que acabou declarado
reeleito apesar das suspeitas de fraude na apuração dos votos.
O
governo interino venezuelano anunciou, em 8 de janeiro, planos para libertar um
número significativo de prisioneiros, em um gesto de boa vontade, mas parentes
dos presos queixam-se de que a libertação tem demorado.
Segundo
o Foro Penal, desde então houve 303 solturas.
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Anúncio é "resposta à pressão dos EUA", afirma líder de oposição
A líder
venezuelana de oposição María Corina Machado disse que as ações anunciadas por
Rodríguez não eram "voluntárias, e sim uma resposta à pressão do governo
americano".
"O
aparato de repressão do regime é brutal e respondeu às numerosas forças
criminosas que reagem a este regime", afirmou Machado em nota.
"Quando a repressão desaparecer e o medo for perdido, será o fim da
tirania."
Fonte: BBC
News Mundo, Reporting from,Lago de Maracaibo, Venezuela/DW Brasil

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