FORMA
DE PODER QUE DOMINA SEM PRECISAR CONVENCER: Imperialismo sem civilização
O
imperialismo retorna ao centro do debate contemporâneo. Mas o faz sob uma forma
historicamente distinta daquela que estruturou o passado. Há uma boa dose de
evidências que apoiam essa perspectiva.
Apresenta-se
como projeto de poder orientado para a conquista territorial.
Durante
os séculos XIX e XX, o imperialismo se impôs por meio de um robusto aparato
normativo e discursivo destinado a legitimar a dominação territorial, a
racialização das populações colonizadas e a violência estrutural do governo
imperial. A expansão imperial articulava hierarquias raciais, racismo
institucionalizado e promessas de civilização, progresso e desenvolvimento que
funcionavam menos como objetivos emancipatórios e mais como justificativas
morais para a conquista e o controle.
O fato
é que a violência imperial, ainda que brutal e sistemática, era envolta por uma
narrativa civilizatória que buscava conferir sentido e legitimidade à
dominação: o império apresentava-se como agente de governo e reforma, ao menos
em seu próprio imaginário, dos territórios e populações submetidos à sua
autoridade. No mundo contemporâneo, entretanto, essa lógica civilizatória já
não é necessária. O imperialismo persiste, mas não se apresenta como projeto
moral ou universalista, operando cada vez mais de forma desprovida de
pretensões normativas.
Particularmente
na política internacional, o imperialismo, compreendido como uma forma
específica de exercício do poder, tem ocupado lugar central desde a
consolidação do sistema europeu de Estados, moldando, ao longo de séculos,
tanto os padrões de desenvolvimento econômico quanto a própria configuração da
ordem internacional. Colonizar era, segundo essa lógica, civilizar: levar
progresso, racionalidade, cristianismo, desenvolvimento, Estado e mercado a
povos considerados atrasados. A missão civilizadora funcionava como linguagem
legitimadora do império, ainda que seus efeitos concretos fossem expropriação,
violência e morte.
O
imperialismo não se apresenta como portador de valores universais nem promete
um futuro compartilhado. Não é mais necessário justificar desestabilização
externa e ocupação territorial com valores humanos supostamente elevados. O que
se observa é a emergência de um imperialismo sem civilização: uma forma de
poder que domina sem precisar convencer, ocupa sem integrar e exerce violência
sem oferecer qualquer horizonte normativo em troca.
Exemplos
recentes ilustram esse padrão: a ambição declarada do então presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, de controlar a Groenlândia, incluindo a
possibilidade de uso da força, demonstrou que a lógica imperial contemporânea
pode operar mesmo entre aliados tradicionais, ameaçando arruinar a coesão da
própria aliança do Atlântico Norte. Publicações nas redes sociais e imagens
simuladas por inteligência artificial reforçaram a percepção de um projeto de
dominação direta, sem necessidade de justificar-se por valores universais ou
“missão civilizadora”.
Mesmo
aliados históricos dos Estados Unidos, como Canadá, México ou países europeus,
passaram a ser diretamente afetados pela assertividade nua da política de poder
norte-americana. O que antes parecia restrito às periferias do sistema
internacional – “o resto do mundo” – manifesta-se agora também entre parceiros
tradicionais, seja nas relações transatlânticas, seja na relação entre Estados
Unidos e Canadá.
O
discurso do primeiro-ministro canadense em Davos, em 2026, é particularmente
revelador. Ao reconhecer que a chamada “ordem internacional baseada em regras”
sempre foi uma ficção funcional, marcada por aplicação seletiva do direito
internacional, assimetrias na imposição das regras comerciais e exceções
sistemáticas em favor dos mais fortes, o premiê não denuncia uma anomalia
recente, mas explicita um pacto tácito. Essa ficção, admitiu, foi útil enquanto
a hegemonia americana fornecia bens públicos, previsibilidade e proteção
suficientes para que países como o Canadá pudessem sustentar políticas externas
“baseadas em valores”.
Esa
lógica de dominação não é nova. Cabe lembrar que, na Europa do século XIX, o
império era amplamente concebido como uma forma legítima e desejável de
organização do poder internacional. No debate intelectual europeu, o
imperialismo era entendido como um mecanismo necessário à estabilidade da ordem
internacional, capaz de produzir integração econômica e interdependência entre
diferentes regiões do mundo. Essa compreensão associava diretamente a expansão
imperial à ideia de progresso histórico e à missão civilizadora, apoiando-se em
uma percepção generalizada de superioridade cultural e moral europeia em
relação aos demais povos. Nos dias de hoje, contudo, essa lógica encontra-se
profundamente esvaziada.
A
diferença fundamental do presente reside menos na natureza da dominação do que
na perda de centralidade desses regimes de justificação. Se no século XIX o
império precisava se apresentar como portador de civilização e progresso, e se
no pós-Segunda Guerra Mundial a hegemonia se legitimava por meio da promessa de
regras, instituições e valores universais, hoje essa mediação normativa
tornou-se politicamente dispensável. A dominação persiste, mas já não necessita
nem da retórica civilizatória nem da ficção de uma ordem internacional baseada
em regras para se exercer.
Esse
deslocamento ajuda a compreender por que categorias como “hipocrisia liberal”
ou “duplo padrão” parecem insuficientes para explicar a política internacional
atual. Essas leituras partem do pressuposto de que ainda existiriam valores
universais sendo traídos na prática. O problema, porém, é mais profundo: em
muitos casos, tais valores simplesmente deixaram de ser relevantes como
fundamento da ação imperial. Não se trata de violar normas, mas de operar com
indiferença em relação a elas.
Não se
trata de violar normas, mas de operar com indiferença em relação a elas. A
guerra na Ucrânia, a devastação contínua de Gaza e as múltiplas formas de
intervenção e coerção no hemisfério americano ilustram esse padrão. Em tais
contextos, a linguagem do direito internacional, da proteção de civis ou da
autodeterminação surge de forma seletiva e instrumental, quando não é
simplesmente abandonada, enquanto a lógica que orienta a ação é a do controle
territorial, da dissuasão estratégica e da imposição de custos ao adversário,
independentemente das consequências políticas ou humanas.
Um dos
sinais mais evidentes dessa transformação é o retorno do território como
instrumento central do poder. No imperialismo clássico, o território colonial
era um espaço a ser administrado, reorganizado e explorado: construíam-se
instituições, infraestruturas, sistemas jurídicos e modelos econômicos voltados
à integração subordinada ao império. Hoje, o território aparece cada vez mais
como espaço de contenção, fragmentação e negação. Controla-se para impedir,
bloquear, cercar ou desestabilizar, não para governar ou explorar.
Nesse
contexto, o imperialismo sem civilização também se manifesta por meio do que
podemos chamar de encontros imperiais. O mundo contemporâneo já não é
estruturado por um único centro hegemônico capaz de impor sua narrativa
universal, mas por zonas de fricção onde diferentes projetos imperiais (antigos
e emergentes) se cruzam, se sobrepõem e se confrontam. Ao contrário do
imperialismo clássico, que buscava ordenar o mundo a partir de uma hierarquia
relativamente estável, os encontros imperiais produzem instabilidade crônica,
fragmentação política e violência prolongada. O resultado não é a substituição
de um império por outro, mas a multiplicação de formas de dominação que
coexistem, colidem e se reforçam mutuamente, sem oferecer qualquer horizonte de
reconstrução ou futuro compartilhado.
Essa
lógica contribui para a proliferação de zonas militarizadas, fortificação e
controle de fronteiras, áreas permanentemente instáveis e territórios
convertidos em espaços de exceção. A soberania deixa de ser violada em nome de
uma promessa universal e passa a ser simplesmente negada por razões
estratégicas. O Outro já não precisa ser “civilizado”; basta que seja
neutralizado, deslocado ou mantido em condição de vulnerabilidade permanente.
Essa
forma de dominação produz um tipo específico de violência. Não há esforço
consistente de reconstrução política, social ou econômica após intervenções,
ocupações ou cercos, nem a pretensão de incorporar esses territórios a uma
ordem internacional estável. Nessa configuração, sociedades inteiras passam a
figurar como objetos de agressão imperial, reduzidas a espaços estratégicos a
serem controlados ou neutralizados. Diante desse cenário, a afirmação da
soberania deixa de ser apenas uma reivindicação normativa e torna-se uma
necessidade política fundamental frente ao império. O imperialismo
contemporâneo não oferece pertencimento, apenas dominação. Não produz mundos
colonizados; administra ruínas e interesses imperiais.
O
declínio da hegemonia liberal ajuda a explicar esse quadro, mas não no sentido
frequentemente anunciado de um mundo pós-imperial. O que emerge é um mundo sem
ordem internacional, marcado por imperialismos concorrentes, desprovidos de
projeto civilizacional. Trata-se menos de exportar modelos e mais de controlar
espaços estratégicos, rotas logísticas, recursos naturais e posições
geopolíticas-chave. O império já não precisa ser admirado nem reconhecido como
superior; basta ser temido.
Essa
transformação tem implicações profundas para a forma como pensamos a política
internacional. A crítica precisa deslocar-se do campo da incoerência moral para
o da estrutura do poder, da geopolítica do território e da produção sistemática
de desigualdade, insegurança e necropolíticas.
O
imperialismo sem civilização é, nesse sentido, mais perigoso. Ao abandonar a
promessa de progresso, ele também abdica de qualquer responsabilidade com o
futuro dos territórios que domina. Governa menos, destrói mais. Prospera em um
cenário de colapso das promessas modernas, como desenvolvimento, universalismo,
progresso, sem que isso signifique o fim da dominação.
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Conclusão
Compreender
essa nova forma de imperialismo é fundamental para evitar análises nostálgicas,
que ainda esperam do poder global algum compromisso com valores que já não
estruturam sua ação. O desafio político e intelectual do presente talvez seja
este: pensar a resistência, a soberania e a justiça internacional em um mundo
no qual o império já não sente sequer a necessidade de fingir que civiliza.
O
imperialismo contemporâneo perde sua lógica civilizatória não por ter se
tornado mais ético ou mais contido, mas porque civilizar deixou de ser
funcional ao exercício do poder. Em um mundo marcado por disputas territoriais,
encontros imperiais e pela centralidade da coerção geopolítica, já não importa
integrar, convencer ou oferecer futuros compartilhados. Basta conquistar,
conter e controlar. A promessa de civilização, que antes organizava hierarquias
e legitimava a violência, torna-se dispensável diante de uma forma de dominação
que opera pela indiferença e pela negação. O império já não governa para
transformar; domina para impedir. Nesse deslocamento, não apenas se esgota a
linguagem civilizatória, como se revela um traço inquietante do presente: um poder
global que prescinde de sentido, de responsabilidade e de horizonte, e que,
justamente por isso, se torna mais perigoso.
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Inteligência estratégica é o nome técnico do instinto de
preservação. Por Washington Araújo
Há um
dado que deveria ser repetido nas salas de conselho, nos gabinetes ministeriais
e nas redações: em 2024, o comércio mundial de bens e serviços alcançou US$
32,2 trilhões, com alta de 4% em relação ao ano anterior; serviços já respondem
por 27,2% desse total, a maior fatia desde 2005. Mais um pouco e teremos os
dados de 2025. A economia global virou um sistema nervoso exposto: qualquer
choque numa ponta — tarifa, sanção, bloqueio logístico, crise política —
provoca espasmos no corpo inteiro.
É nesse
terreno, mais elétrico que estável, que a inteligência estratégica deixa de ser
luxo e vira equipamento de segurança.
O que
ela é, afinal, fora do jargão?
Um
método para transformar fatos dispersos em decisão com lastro. Inclui análise
de conjuntura, leitura de cenários, levantamento de dados e indicadores,
produção de conteúdo que não confunde opinião com evidência e, sobretudo,
monitoramento do processo decisório — Legislativo, Executivo, reguladores. Em
linguagem direta: é o que impede que organizações caminhem de olhos fechados
até a beira do precipício.
Os
números ajudam a entender por quê.
A
Organização Mundial do Comércio projetou desaceleração do volume do comércio de
mercadorias em 2025, após 2,8% em 2024; em outubro de 2025, a OMC estimou
crescimento de 2,4% em 2025 e apenas 0,5% em 2026, sob o peso de tensões
geoeconômicas e incertezas de política comercial. O aviso mais duro veio quando
a OMC alertou que a escalada tarifária anunciada pelos EUA poderia empurrar o
comércio global de mercadorias a uma contração de 1%. Em tradução livre: o
mundo pode encolher por decreto.
O
Brasil vive essa interdependência com a pele exposta. Em 2024, exportou US$ 337
bilhões e importou US$ 262,5 bilhões, fechando superávit de US$ 74,6 bilhões —
uma fotografia de potência comercial que, ao mesmo tempo, depende de rotas,
preços e regras desenhadas fora do país.
Quando
o vento muda em Washington, Bruxelas (i.e., União Europeia) ou Pequim, Brasília
não sente “reflexos”: sente impacto.
A
temporada 2025 das tarifas de Donald Trump funcionou como laboratório desse
novo tempo. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA, desde o início
do segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, Trump ampliou tarifas com base em
diferentes instrumentos legais, incluindo a IEEPA e a seção 232, e a reação
internacional incluiu retaliações. O “reciprocal tariff” foi formalizado por
ordem executiva e publicado no Federal Register em abril de
2025, explicitando a arquitetura do movimento.
Três
estudos de caso mostram, com nitidez jornalística, como a inteligência
estratégica decide quem atravessa a crise e quem vira estatística.
O
primeiro é Pequim.
Em maio
de 2025, EUA e China fecharam uma trégua temporária para reduzir tarifas por 90
dias, numa tentativa de conter a espiral de punições e contra-punições. A
resposta chinesa não foi uma bravata; foi engenharia de danos. Ao mesmo tempo
em que negociava alívio, reorganizava cadeias, estimulava o frontloading de
embarques e acelerava o redirecionamento de fluxos para outros mercados — um
tipo de diplomacia comercial que combina análise de dados, leitura de risco
logístico e coordenação estatal-empresarial. Não é “resiliência” no discurso; é
cálculo: reduzir dependência de um único cliente e ganhar tempo para
reconfigurar produção e destinos.
O
segundo caso é o Brasil, atingido pelo desenho amplo das tarifas e, em
especial, pelo nó do aço e do alumínio.
O
Itamaraty registrou que a elevação tarifária dos EUA sobre esses produtos teria
impacto relevante, lembrando que as exportações brasileiras de aço e alumínio
para o mercado americano somaram cerca de US$ 3,2 bilhões em 2024. Em fevereiro
de 2025, Lula sinalizou resposta por vias comerciais, mencionando a
possibilidade de acionar a OMC ou taxar importações dos EUA — uma escolha
típica de quem precisa manter dois instrumentos em mãos: o jurídico e o
retaliatório. Em abril, o governo promulgou uma Lei de Reciprocidade Econômica,
apresentada como reação estratégica a restrições unilaterais, estabelecendo
base legal para contramedidas. Em julho, diante da ameaça de tarifa de 50%
sobre exportações brasileiras, a estratégia combinou negociação preventiva e
preparação para reciprocidade like-for-like, com o vice-presidente
Geraldo Alckmin defendendo acordo antes do prazo de entrada em vigor. Aqui, a
inteligência estratégica aparece como governança: monitorar sinais, construir
arcabouço legal, mapear setores vulneráveis e manter a porta do diálogo aberta
sem entrar desarmado.
O
terceiro caso é a União Europeia, que tratou a ofensiva tarifária como tema de
soberania econômica.
Em
março e abril de 2025, Bruxelas anunciou contramedidas bilionárias sobre bens
americanos, calibradas para pressionar politicamente e reduzir dano interno —
tarifas que miravam produtos simbólicos e setores sensíveis, em etapas. Em
paralelo, cresceu o debate sobre o uso do Anti-Coercion Instrument,
mecanismo em vigor desde 2023 para responder à coerção econômica com medidas
que vão além de tarifas, incluindo restrições em serviços e compras públicas. E
a Europa não ficou só no contra-ataque: intensificou a diversificação via
acordos comerciais, acelerando frentes com a Índia e reforçando o tabuleiro de
parcerias para diminuir a exposição ao risco americano.
Há um
traço comum nos três: inteligência estratégica não é “achar caminhos”, é
construir opções antes que a crise dite a única saída.
Ela se
alimenta de dados, mas não se ajoelha diante deles; transforma números em
narrativa causal, e narrativa em plano.
Num
planeta em que tarifas podem reescrever cadeias produtivas de uma semana para
outra, o improviso custa caro — e, quase sempre, custa em silêncio: empregos
que somem, investimentos que migram, reputações que racham.
Para o
Brasil, a lição é concreta. Um país que exporta US$ 337 bilhões num ano não
pode tratar monitoramento institucional, análise de cenários e gestão de risco
regulatório como burocracia.
Inteligência
estratégica é o nome técnico do instinto de preservação — aplicado com método,
ética e visão de futuro.
Fonte:
Por José Alejandro Sebastian Barrios Díaz, no Le Monde/Brasil 247

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