“Pão
e rosas”: os ecos das lutas operárias na nova esquerda dos EUA
Em
cerimônias oficiais recentes, a frase “pão e rosas” fez parte do anúncio da
chegada de algo notável, novo e surpreendente nesta conjuntura política
estadunidense — e isso apesar de essa expressão ter surgido há mais de um
século.
Na
cerimônia oficial pública de posse do prefeito de Nova York, o jovem socialista
democrático, imigrante e muçulmano Zohran
Mamdani, foram incluídos diversos segmentos simbólicos e
discursos inovadores que anunciavam a chegada de uma mudança geracional à esquerda em várias
partes dos Estados Unidos. Mas foi uma canção que ilustrou esse momento
simultaneamente novo e antigo: “Pão e rosas”.
Do
outro lado do país, nessa mesma semana, outra jovem prefeita, também socialista
democrática, tomou posse em Seattle. Katie Wilson, em seu primeiro
discurso, falou sobre elevar a qualidade de vida para todos, construir uma
cidade que crie “beleza e comunidade”. “Precisamos de pão, mas também de
rosas”, completou.
Essa
frase tornou-se uma das principais demandas da histórica greve têxtil de
Lawrence, Massachusetts, em 1912 — uma ação trabalhista que também ficou
conhecida como “a greve cantante”. E eles venceram. Nesta segunda-feira (12),
completam-se 114 anos do início dessa luta.
Em 12
de janeiro de 1912, milhares de trabalhadores realizaram uma paralisação que
todos consideravam impossível. A maioria era formada por mulheres imigrantes,
principalmente da diáspora europeia (algumas vindas de Cuba), no que então era
o epicentro da indústria têxtil. A greve explodiu quando os patrões reduziram
os salários, apenas para se surpreenderem com a resposta de 25 mil
trabalhadoras e trabalhadores. As assembleias do comitê organizador da greve
eram traduzidas para 25 idiomas. “Se os trabalhadores do mundo quiserem
triunfar, tudo o que precisam fazer é reconhecer sua própria solidariedade. Não
precisam fazer mais do que cruzar os braços e o mundo vai parar”, declarou
Joseph Ettor, da grande organização anarcosindicalista Industrial Workers of the
World (IWW), aos grevistas. A lendária líder sindical do IWW, a irlandesa
Elizabeth Gurley Flynn, tornou-se a principal dirigente da greve após a prisão
dos demais líderes. Entre outras ações, ela organizou um “êxodo das crianças”
para proteger os filhos e filhas dos grevistas, enviando-os para famílias
trabalhadoras em Nova York, Filadélfia e outras cidades onde existiam comitês
de solidariedade com a luta de Lawrence.
Após
nove semanas de repressão violenta, intimidações, prisões e outros abusos, os
empresários aceitaram a maioria das demandas dos grevistas, que já não se
limitavam aos salários, mas incluíam as condições de trabalho. “Vocês são o
coração e a alma da classe trabalhadora… venceram o poder opositor da cidade,
do estado e do governo federal, enfrentaram a oposição das forças combinadas do
capitalismo e resistiram às forças armadas”, declarou o líder nacional do IWW,
William “Big Bill” Haywood. Eugene Debs, dirigente nacional e candidato
presidencial do Partido Socialista dos Estados Unidos — em certo sentido, o avô
dos que hoje se chamam “socialistas democráticos” — proclamou que aquela
vitória foi histórica.
Foram
as canções que se tornaram o idioma comum. A demanda por pão e rosas podia ser
traduzida para qualquer língua: pão para o sustento material e rosas para a
dignidade e a beleza da vida.
O poema
transformado em canção inclui os seguintes versos:
Ao marchar, marchar,
na beleza do dia,
um milhão de cozinhas escuras,
armazéns de fábricas têxteis cinzentas,
são tocados pelo resplendor que de repente revela um sol.
Porque o povo nos escuta cantando:
‘Pão e rosas! Pão e rosas!’
Ao marchar, marchar, trazemos dias mais grandiosos.
O levante das mulheres implica o levante da humanidade…
Um compartilhar das glórias da vida.
Pão e rosas…
Os corações passam fome tanto quanto os corpos;
pão e rosas, pão e rosas.
Mais
uma vez, em meio a tanta coisa feia, esses versos começam a ser ouvidos de
costa a costa.
¨
Socialismo ou barbárie: Rosa avisou, e o anjo também. Por
Emiliano José
Nesses
finais de ano, início do seguinte, somos tentados a alguma espécie de balanço
da vida no Brasil e no mundo. Empreitada, modo geral, destinada ao fracasso,
por impossível, atropelados a cada segundo pelos acontecimentos. Ainda assim,
fracassada seja, necessária. No esforço, capturamos um ou outro aspecto da
realidade a nos cercar. Corremos riscos variados. Um deles, a referência ao
passado como um lugar melhor – em geral, tal nostalgia é um equívoco. Outro,
falar de um mundo em crise gravíssima, como se crises não fossem constitutivas
da história, mais ainda, do capitalismo. Também, prenunciar um novo tempo, como
se ele estivesse ali, na esquina, a nos aguardar. Não está. Depende de forças
sociais, de movimentações políticas, da luta de classes, e o resultado de tal
luta nunca é visto antes de a batalha se dar. Escrevo sob o sentimento da
indignação. E o faço certamente povoado de dúvidas, a melhor maneira de buscar
as respostas, e aqui não as tereis, não tenho receitas. Nesse breve esforço, em
meio a escombros, escolho um ou outro aspecto do que chamamos conjuntura.
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Massacres
Mundo,
vasto mundo povoado de guerras e massacres. Promovidos sobretudo por um império
em decadência, os Estados Unidos. Guerra da Ucrânia, provocada pelo cerco da
Otan à Rússia, guerra terceirizada à Europa, parece, e apenas parece, à beira
de um acordo face à derrota da Otan.
Genocídio
de Gaza, vivendo ainda o desenlace de um acordo imposto pelos Estados Unidos
depois da tentativa de limpeza étnica, um dos mais tristes e sangrentos e
covardes episódios desse século 21, massacre cujo início está localizado a
rigor no final dos anos 1940, quando o ataque aos palestinos começou, inclusive
com atos terroristas. Oriente Médio sob disputa, presença feroz do império
capitalista. A indignação vai crescendo, junto com as dúvidas. Massacres na
África, continente devastado pelos países capitalistas centrais desde que o
capitalismo é capitalismo.
América Latina. Destaque para a impressionante incursão militar dos Estados
Unidos, olhos postos na maior reserva de petróleo do mundo, presença de
impressionante aparato nas costas venezuelanas, fechamento do espaço aéreo
daquele país, a indicar possíveis ações terroristas de comandos
norte-americanos. Quem sabe, com apoio de aviões e bombas, uma declaração de
guerra, naturalizada no mundo atual, e sem possibilidade de a ONU intervir,
porque enfraquecida, isso sem contar o assassinato seguido de homens navegando
em minúsculos barcos ou atos de pirataria contra navios de petróleo, sem que
nada aconteça, como se fosse direito líquido e certo do império.
Mundo
desregulado. Estranhos tempos. Aos revolucionários, aos democratas não resta
qualquer dúvida: total solidariedade à Venezuela. Estava a meio caminho desse
texto, e na madrugada do dia 3 desse novo ano, os Estados Unidos sequestraram
Maduro, numa agressão estúpida, a desrespeitar quaisquer normas internacionais
e colocar a América Latina em estado de permanente atenção. Aos democratas, à
esquerda, aos progressistas, cabe condenar tal agressão sem qualquer dúvida ou
vacilação, inclusive cobrar direitos do presidente Maduro e de sua mulher.
Respeito à soberania dos povos. Ao direito de cada país de dispor do próprio
destino. Lula manifestou-se energicamente a respeito, condenando o ato de
pirataria imperial.
Trump
simula querer a paz, ao impor acordo em Gaza e tentar outro na Ucrânia, e
rapidamente desloca atenções para a América Latina, onde as forças da extrema
direita e da direita têm ganhado terreno, seja por movimentação política de
tais forças, seja por erros graves da esquerda. Como ocorreu na Bolívia
recentemente, como pode ocorrer na Colômbia, afora a derrota anunciada no
Chile, com a ampliação das forças de extrema direita no continente
sul-americano.
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Extrema direita
A
derrota na terra de Allende tem muita força simbólica, vitória das forças
conservadoras, de índole neofascista. A vida no continente latino-americano não
está nada fácil para as forças progressistas e de esquerda, e volto: as
derrotas nem sempre ocorrem apenas por méritos dos adversários. Advém dos
nossos erros, também. Por duas décadas, as forças progressistas e de esquerda
ocuparam território e agora, a acompanhar tendência do crescimento das forças
de extrema direita no Ocidente, desenha-se um cenário pouco animador, percebido
por Trump, a par da cobiça em torno do petróleo. América Latina, em disputa. Tais
forças conquistaram a Argentina, agora o Chile e Honduras, antes a Bolívia,
antes o Peru, antes o Equador, e aqui falamos apenas da América do Sul.
Uruguai, Colômbia e Brasil mantém governos de esquerda, e sempre há de se
considerar a dimensão política e territorial do Brasil para se avaliar o peso
da esquerda no continente, mas não convém subestimar o crescimento da extrema
direita.
Não
esquecer Cuba, vivendo enormes dificuldades decorrentes do criminoso bloqueio
norte-americano, um marco de resistência. México, primeiro com Manuel López
Obrador, agora com Claudia Sheinbaum, a também dar lições de enfrentamento aos
Estados Unidos. Triste assistir ao destino do Haiti, entregue a uma situação
desesperadora, sem divisar uma saída democrática. E, preocupante, o fato de se
espalhar a solução Nayib Bukele, de El Salvador, para o enfrentamento do crime
organizado, ou desorganizado, modelo de nítida inspiração neofacista, a tentar
transformar cada país num grande e terrível presídio.
A
movimentação do império norte-americano, traz a reboque os países-satélites. A
Europa faz hoje triste figura nessa atitude de colocar-se de joelho diante dos
Estados Unidos, cujos passos desencontrados constituem uma óbvia reação ao
avanço da China, lado a lado com o chamado Sul Global, com a Rússia, Índia,
Brasil, o mundo dos BRICs, a apontar para nova hegemonia mundial, a caminho do
desmoronamento da imposição do dólar. Placas tectônicas se movimentam, a levar
os Estados Unidos a tentar sobreviver, ao tempo em que sepulta, ao menos
momentaneamente, qualquer ilusão democrática interna. Todas as denúncias de
Trump sobre acontecimentos, verdadeiros ou não, em países denominados
autoritários por ele, se revelam reais em escala ampliada nos próprios Estados
Unidos, hoje quase uma ditadura. Creio haver cabeças liberais atordoadas,
acostumadas a tomar os Estados Unidos como modelo democrático. Tal modelo
acabou, e tem tempo.
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Capitalismo, fome
Mundo,
mundo vasto mundo sob o massacre da fome. Números não tão confiáveis, diria até
subestimadores, dão conta, no ano de 2025, de 673 milhões de pessoas passando
fome, uma estupidez se considerarmos, ingenuamente, a montanha de dinheiro
existente no mundo.Uma ínfima parte dessa fortuna resolveria o problema. Disse
ingenuamente porque ao capitalismo, à acumulação de capital, pouco importa a
fome, especialmente em tempo de hegemonia da nova razão do mundo, o
neoliberalismo. Fome? Dano colateral, diriam os homens de negócio. O dinheiro
mata todos os deuses do homem, diria Marx, e mata também milhões de pessoas
pela fome, ao se recusar a qualquer movimento destinado a distribuir renda e
riqueza. É o capitalismo, estúpido!, diria, parafraseando James Carville, o
assessor de Clinton.
Algum
conforto, quando falamos do Brasil. Vencemos as eleições, derrotamos o
bolsonarismo, enfrentamos o golpe de 8 de Janeiro vitoriosamente, e pela
primeira vez generais na prisão, junto com o ex-presidente em decorrência de
terem dirigido a tentativa de uma intentona golpista, onde se incluía o
assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Morais, donde viria certamente um
banho de sangue. Verdade: a chamada dosimetria desfigura as vitórias
conquistadas até agora. Governo Lula conseguiu reconstruir políticas públicas
de modo inclusive a garantir a saída do Brasil do Mapa da Fome, experimentar o
menor desemprego da história, celebrar alguma distribuição de renda, dar
estabilidade econômica ao país, e resultados positivos até, se quiserem, pelos
padrões liberais, dólar em baixa, bolsas em alta.
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Brasil, exemplo
Não
fosse tudo isso, o Brasil torna-se um exemplo para o mundo, inclusive para os
Estados Unidos. O mais prestigiado jornal norte-americano, o The New York
Times, em 12 de setembro de 2025 afirmou ter o país dado exemplo onde os
Estados Unidos fracassaram ao comentar a condenação de Jair Bolsonaro pela
intentona golpista. Isso foi dito em artigo assinado pelo professor de Harvard,
Steven Levitsky, e por outro professor, Felipe Campante. Os autores afirmam ser
o Brasil atualmente uma democracia mais saudável que a norte-americana, não
obstante as falhas porventura existentes. O país, consciente do passado
autoritário, não deu a democracia por garantida. Os Estados Unidos,
diferentemente, fracassaram na tarefa, afirmam. O STF, dizem os dois
professores, fez o que o Senado estadunidense e os tribunais federais
“tragicamente falharam em fazer: levar à Justiça um ex-presidente que atacou a
democracia”.
Mas, o
Brasil não se tornou exemplo para o mundo apenas pela condenação de Bolsonaro e
dos generais golpistas. Tornou-se, também, pelo presidente Lula, a mais
poderosa voz do mundo na luta contra as imposições tarifárias de Trump. Não
aceitou render-se, reafirmou a condição de país soberano, defendeu a
autodeterminação dos povos, não aceitou a chantagem em relação aos golpistas,
manteve-se ao lado do Judiciário, cujo procedimento deu-se em cima da
Constituição, garantindo a todos os réus o mais absoluto direito de defesa. A
firmeza de Lula levou Trump ao recuo, evidenciando ao mundo o quanto é
importante uma política firme na defesa da soberania. Lula não aceitou o
complexo de vira-latas nacional, manifestado por vários jornalistas e pelo
governador de São Paulo, a pretender uma rendição. Evidenciou o quanto estava
certo quando Trump resolveu fazer o primeiro recuo, e não foi um recuo
qualquer. Lula, a par disso, como protagonista essencial na cena mundial, não
recuou das posições em relação à Gaza, combate à fome, solidariedade permanente
com o Sul Global, e permaneceu na luta pela preservação do meio ambiente, lutas
a encontrar os Estados Unidos do outro lado da trincheira.
Devagar
com o andor. Nada disso pode nos colocar numa zona de conforto. O Brasil, e
lembro de uma fala de Mujica, tem o privilégio de contar com Lula. A capacidade
dele, o tino político, a experiência administrativa, também, tudo isso tem
permitido a continuidade dele no poder e a realização de um governo
surpreendentemente positivo, capaz de beneficiar o povo brasileiro, garantindo
os compromissos de vida dele. Quando digo surpreendentemente positivo, por
conta do cerco. Não é fácil a situação. Governar com um Congresso como o atual,
não é para qualquer um. É dirigir o país sob permanente chantagem, e não há
outro nome para definir esse quadro. A todo instante, o Legislativo pretende
usurpar poderes do Executivo. Pelo gigantismo das emendas, do orçamento secreto,
a subtrair direitos consagrados de políticas públicas. Ou pretender ser dele a
prerrogativa de indicar ministros do STF.
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Golpe continuado
Pelas
ações do Congresso, da maioria parlamentar da extrema direita, segue-se uma
política de golpe continuado, sequência de tentativas golpistas, afrontando a
democracia de modo cada vez mais ousado, o modelo político brasileiro se
convertendo num autêntico Frankenstein: um presidencialismo mitigado, um
parlamentarismo, insista-se, regido pelo escândalo do sequestro do orçamento
público, emendas milionárias e clandestinas, e nessa política regida por tais
esquemas ninguém tem se salvado. Ulysses Guimarães tinha razão quando
profetizava um Congresso cada vez pior. Não há, infelizmente, espírito público
na maioria da casa legislativa, e não há, nela, vergonha de, por interesses
mesquinhos, encostar a faca na garganta do Presidente, como aconteceu desde o
primeiro dia da posse de Lula, em 2023. Só houve recuo quando a população foi
para as ruas em protesto à PEC da Bandidagem. Não creio, e lamento dizer isso,
em renovação do Congresso. O volume de dinheiro nas mãos dos parlamentares
atuais assegura a manutenção dos mandatos. E essa prática, também lamento
afirmar isso, rebaixa um bocado o próprio campo da esquerda, cuja movimentação
nunca foi de oposição à política de emendas tal e qual ela foi se pondo, e isso
implicará em pouquíssima renovação. Disse, no início: iria levantar dúvidas, e
o faço.
Há uma
nova situação na luta de classes no país. O movimento sindical, em notórias
dificuldades. Porque a chamada classe operária não é mais a mesma. Culpa de
ninguém. Mudanças estruturais profundas no mundo da força de trabalho, o
neoliberalismo impondo a precarização profunda, e muita gente acreditando na
ilusão do empreendedorismo, como se cada um deles, com bicicleta e sandália de
dedo, fosse um empresário. Houve um trabalho cuidadoso destinado a convencer a
classe trabalhadora a abominar a CLT, equivocadamente. E há um evidente
distanciamento dos partidos de esquerda da classe trabalhadora, do chamado
trabalho de base, algo tão essencial e tão necessário, nesse cenário onde se
avolumou a presença das igrejas evangélicas, grandes e pequenas, a ganhar
corações e mentes da população.
Os
pastores, e aqui a fala não é de condenação pura e simples, encontraram o
caminho das pedras. Tanto aqueles em busca do poder e da riqueza pura e
simples, aproveitadores da fé, quanto tantos outros, de igrejas sérias, a
pretender apenas difundir o Evangelho e ajudar o povo. Lamentar, não basta.
Amaldiçoar, nem podemos, porque muitos de nós, ateus, como eu. Compreender o
fenômeno, dialogar com ele, e sobretudo reinventar caminhos para voltar ao meio
da classe trabalhadora de modo a dialogar com ela, disputar hegemonia,
conquistar corações e mentes, reconquistar.
Para
brincar: um pouco de trotsquismo não faz mal a ninguém. A revolução é
permanente. Não podemos esquecer disso. Governar não garante poder – pode nos
dar um mandato, e o seguinte escapar-nos das mãos. Em 2018, escapou. E o mais
importante: é necessário fazer trabalho político, conscientizar o nosso povo,
lutar de modo permanente para, no diálogo, ganhar a população para a
democracia, aquela capaz de garantir mudanças profundas na vida da população,
enfrentar a desigualdade.
Talvez
o fenômeno das redes sociais, tal o impacto, tenha levado os partidos de
esquerda a acreditar apenas se movimentar por elas e, além de tudo, nunca tais
partidos o fizeram de modo eficiente. As igrejas não desprezaram o contato
direto, a pregação diária, nas cerimônias ou fora delas. Lembrar: um bom
governo, e pode ser muito bom, não necessariamente ganha a cabeça das pessoas.
Fundamental, trabalho político-cultural, sem o qual as consciências podem
caminhar em direção oposta, e nós já experimentamos isso, ainda experimentamos.
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Partido da imprensa golpista
Ao
final do ano de 2025, início desse 2026, lembro do ex-deputado Fernando Ferro,
com quem convivi na Câmara Federal. Foi ele a cunhar a expressão Partido da
Imprensa Golpista (PIG). No ocaso deste ano, o PIG voltou a todo vapor, com o
inegável espírito lavajatista, do qual nunca se afastou. Novamente, à base de
fake news, de fontes anônimas, inventadas, Folha, Globo, Estadão, Rede Globo,
investem com toda ferocidade contra a democracia, solidários com as forças de
extrema direita, assustados, na verdade, com a hipótese de nova vitória de
Lula. Até contra reajuste do salário mínimo se manifestam. Miram em Alexandre
Moraes. Querem mesmo é acertar Lula. Por tudo, nossa tarefa central: eleger
Lula. Eleger governadores, reeleger aqueles já no poder. Dar tudo de nós para a
conquista de bancadas legislativas fortes, deputados e senadores, o que não
será fácil, batalha essencial. Não esquecer o trabalho político de fundo,
insisto, a conquista de corações e mentes. Imaginar as coisas a longo prazo. Se
ficarmos presos ao pragmatismo rasteiro, teremos voo curto, e estamos
assistindo ao crescimento das forças de extrema direita, a nos desafiar.
Talvez
devêssemos escutar a voz vigorosa de Lênin nos alertando para o cretinismo
parlamentar, e combinar nosso esforço no legislativo com a atuação direta, no
meio do povo. Ou a voz de um José Dirceu, a nos conclamar a uma revolução
social, nos limites da democracia, capaz de aproveitar toda nossa
potencialidade, superar nossa abissal desigualdade, distribuir renda e riqueza,
construir uma sociedade fraterna e solidária.
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Progresso e barbárie
Nossa
casa, mãe terra. Não tem exagero: estamos próximos de uma situação limite,
momento da impossibilidade de o ser humano viver nessa casa. O negacionismo
trumpista complica muito, dificulta encontrar caminhos para recuperar o tempo
perdido. Tem tempo, lá pelos anos 1920, 1930 do século passado, e Walter
Benjamin já dizia da relação entre progresso e barbárie, tragicamente atual.
Creio
instigante, e necessária, a releitura, nova leitura da nona tese do ensaio de
Benjamin “Sobre o conceito de história”. Pode parecer assustadora a tese, e é.
Pode parecer profética, e é. Pode parecer atual, e é. Marxista heterodoxo,
Benjamin fala de um quadro de Paul Klee, Angelus Novus. Um anjo parece querer
afastar-se de algo que ele encara fixamente, olhos escancarados, boca dilatada,
asas abertas. Benjamin, na tese, afirma: o anjo da história deve ter esse aspecto.
O rosto do anjo, dirigido para o passado. Nós podemos ver uma cadeia de
acontecimentos. O anjo vê uma catástrofe única, a acumular incansavelmente
ruína sobre ruína, toda ela dispersada a nossos pés. O anjo até gostaria de
acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas, não dá. Uma tempestade sopra do
paraíso “prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais
fechá-las”. Final da tese, trágica e profética, insista-se: Essa tempestade o
impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o
amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos
progresso.
A
tempestade seguiu em frente. O anjo nada pôde fazer. O amontoado de ruínas
cerca a todos, vai crescendo. Providências urgentes se fazem necessárias.
Seremos capazes de adotá-las? O capital resiste, não está nem aí para os
escombros.
Quem
vai parar esse trem suicida?, para recuperar pergunta de Michael Löwy. Ter
alguma esperança, fundamental. Mas não esquecer da possibilidade de as ruínas
nos sufocarem, e inviabilizarem nossa presença na casa chamada terra. O anjo
nos avisou. Chegando ao limite. Socialismo ou barbárie.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/TeoriaeDEbate

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