segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Em João Pessoa, retrato do turismo predatório

As festas populares de João Pessoa estão ganhando visibilidade nacional e atraem grande público. É o caso do Forró Verão, cuja previsão da prefeitura para este ano é a de receber 1,5 milhão de pessoas. E também o Sabadinho Bom, no centro da cidade, e as tradicionais festas de São João. Outros eventos que tomam conta da orla ao longo do ano são igualmente citados como casos de sucesso na promoção do lazer, do bem-estar e da cultura na cidade. A isso somam-se intervenções urbanas recentes, como a criação de praças horizontais em meio às vias — a exemplo do que ocorreu no bairro dos Bancários (Três Ruas) — e a forte concentração de parques no Bessa e Jardim Oceania.

Essas iniciativas, em si, são relevantes e merecem ser preservadas e ampliadas. O problema — e é daí que surgem as críticas — aparece quando um conjunto de eventos, sobretudo no verão e na alta temporada turística, não é planejado nem organizado de forma integrada ao longo do ano para acolher o volume de pessoas que as próprias redes sociais e matérias pagas incentivam a se deslocar até a cidade. Mais questionável ainda é o fato de que os benefícios e os custos desse modelo não são distribuídos de maneira equitativa entre os(as) moradores(as) de João Pessoa, que sustentam com seus impostos e constroem a cidade. A quem interessa esse modelo de eventos e de turismo de massa sem planejamento estrutural?

Se os lucros gerados pelo turismo de massa não retornam à cidade — sob a forma de investimentos consistentes em saneamento básico, coleta de lixo, mobilidade urbana, preservação ambiental e infraestrutura urbana em sentido amplo ao longo do ano — o que se tem é uma política de espetáculo e urbanismo de fachada desconectada das necessidades do dia a dia da maioria da população que vive em João Pessoa. Não é aceitável promover uma imagem de cidade paradisíaca, com forte propaganda da orla e eventos lotados, sem amplo debate público de como esses empreendimentos funcionam, quem efetivamente lucra com essa situação e qual é o retorno concreto para a maioria da sociedade pessoense.

O caso do esgoto lançado nas praias da orla de João Pessoa, muitas vezes misturado à drenagem pluvial, e apropaganda de Bet por toda a orla (contrariando o Código de Posturas da cidade), é um exemplo eloquente dessa contradição entre marketing urbano, poluição ambiental e visual.

Essas questões têm sido objeto de interpelação ao governo estadual em alguns aspectos, sobretudo a CAGEPA, mas recaem em grande parte sobre o governo municipal que age sob pressão do ano eleitoral. Isso se torna ainda mais relevante quando o atual prefeito, Cícero Lucena (MDB), se apresenta como candidato ao governo da Paraíba em 2026. Se há deficiências básicas na administração do município, como esse mesmo projeto político pretende administrar a Paraíba? Uma cidade vendida como vitrine turística deve ser um lugar de improvisação, poluição, desigualdade e opacidade administrativa?

Esse conjunto de tensões e contradições em João Pessoa vem se intensificando com os tensionamentos em torno da nova Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS), sancionada em 2024. Sob justificativas de medição da maré, o polêmico Artigo 62 flexibilizava os limites de altura de edifícios na orla assegurado pela Lei do Gabarito, o que foi considerado inconstitucional pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB) e o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) por flexibilizar limites de altura de edificações na zona costeira. Prédios como o Edifício Way,empreendimentos da Setai e outros, tornaram-se símbolos desse embate.

Somado a isso, em João Pessoa, a mobilidade urbana é marcada pela dependência excessiva do transporte individual, pela precariedade do transporte público e pela falta de planejamento integrado entre crescimento urbano e circulação. O turismo de massa e dos eventos sazonais agravam congestionamentos, pressionam vias já saturadas e expõem a fragilidade da infraestrutura viária — tanto que pesquisas indicam que o trânsito é a principal crítica ao crescimento turístico da cidade. No que se refere especificamente ao transporte público, a tarifa do transporte coletivo em João Pessoa é a segunda mais cara da região Nordeste e a quinta mais cara entre as capitais do país. O valor de R$ 5,45 não reflete a qualidade do serviço prestado à população (queixas sobre a superlotação, o estado de conservação dos ônibus e veículos que quebram no meio do trajeto, além do tempo de espera). Soma-se a isso a cobrança de um valor diferenciado no serviço com ar-condicionado conhecido como “geladinho”, que chega a R$ 6,05, realçando ainda mais a desigualdade no acesso à mobilidade urbana.

Em João Pessoa, o turismo de massa gera empregos e renda, mas o faz de maneira altamente concentrada e precária, pois afinal é a capital do Brasil com maior desigualdade social. A maior parte das vagas criadas está no setor de serviços, com baixos salários, alta informalidade e pouca proteção social, enquanto os lucros se acumulam em grupos empresariais do setor imobiliário, hoteleiro e de eventos. Sem políticas públicas redistributivas e sem os empreendimentos que exploram o turismo em João Pessoa usarem parte dos seus lucros em benfeitorias para mitigação dos impactos de suas atividades, a tendência é essa situação caótica prosseguir e ser ampliada. Ou seja, o que foi exposto em partes explica por que João Pessoa tem um crescimento econômico concentrado combinado com uma grande desigualdade social.

Em João Pessoa, turismo e economia não precisam ser contraditórios ao desenvolvimento urbano e à preservação das praias. Quando ambos são gestados com responsabilidade social e ambiental, transparência e reinvestimento público podem gerar renda, qualificar a cidade, fortalecer serviços e melhorar a qualidade de vida. Mas, por que esses aspectos não ocorrem conjuntamente? Nesse caso, cabe aos grupos empresariais, à Prefeitura de João Pessoa e ao governo do estado explicarem à população isso, para não ficarmos presos em falsas polêmicas, como economia versus poluição ambiental, turismo versus caos nos serviços da cidade.

•        A chocante degradação do turismo internacional. Por Bernard Duterme - Tradução: Antonio Martins

Mais do que nunca, o mundo está à disposição. À disposição daquela minoria da humanidade — entre 6 e 9% da população mundial — financeira, cultural e politicamente com poderes para visitá-lo. Ou melhor, para passar lá “suas férias”, aqueles momentos “bem merecidos” de relaxamento ou entretenimento. Uma, duas, três vezes, ou até mais, por ano. Nunca antes na história foram registradas tantas viagens de lazer ao exterior em doze meses. Nunca antes na história essa dinâmica gerou tanto dinheiro quanto em 2025, nem produziu tanta receita.

Os comunicados de imprensa eufóricos do Escritório das Nações Unidas para o Turismo e do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, a principal organização, que representa mais de 200 das maiores operadoras de turismo privadas, são inequívocos: “O futuro é promissor”. Em 2025, o setor injetou quase US$ 12 trilhões na economia global, mais de 10% do PIB mundial. A cifra representa cerca de US$ 1 trilhão a mais do que o projetado para 2024 e aproximadamente US$ 1,5 trilhão a mais do que o recorde anterior à pandemia, em 2019.

<><> Um poluidor como poucos

Nunca antes, dada sua escala, os seus impulsionadores e os seus motores, o turismo internacional havia poluído tanto. Apesar da sua propaganda enganosa de ambientalismo, a criação de destinos exóticos — a suposta “indústria livre de fumaça” — ocupa um lugar de destaque entre os principais poluidores. Isto deve-se ao seu crescimento contínuo — significativamente mais rápido do que o da economia global — mas também à sua pegada ambiental, que inevitavelmente também está aumentando. De acordo com um estudo sobre o assunto publicado pela revista Nature, as emissões de gases com efeito de estufa do setor, por si mesmas, crescem a uma taxa de 3,5% ao ano, mais do dobro da taxa de toda a atividade econômica mundial.

Nunca antes na história o turismo internacional alçou voo tão amplamente como em 2025, em termos de número de viagens internacionais (aproximadamente 1,5 bilhão), valor agregado e receita, e, consequentemente, em seu impacto social, cultural e socioambiental. A paralisação forçada pela pandemia não passa, agora de uma lembrança ruim. Foram necessários três anos para superá-la. E para reiniciar a máquina com vigor renovado, “sempre mais longe, sempre mais alto, sempre mais forte!”. Os desejos piedosos daquela época ficaram para trás. A ideia de reconstruir o turismo sobre bases diferentes — mais democráticas, mais equitativas, mais sustentáveis, mais respeitosas — foi apenas uma ilusão.

Contudo, ao lado da sua autocongratulação, em relação às inúmeras virtudes da sua amada indústria, a própria Organização das Nações Unidas para o Turismo afirma estar convencida da necessidade de “transformá-la”, precisamente para a tornar “universalmente acessível” e menos prejudicial para as populações e ecossistemas visitados. Infelizmente, devido à falta de políticas regulatórias verdadeiramente eficazes, as tendências predominantes apontam na direção oposta. A causa fundamental reside na lógica em que a expansão do setor continua a basear-se. Ela inclui, entre outras coisas, a concentração de lucros, a apropriação privada dos lugares turísticos, a acumulação de recursos, a exploração de ambientes naturais e culturais, a mercantilização do comportamento e a corrida desenfreada — impulsionada pela competição — para a redução de quaisquer padrões sociais, fiscais ou ambientais que um país anfitrião possa tentar impor aos investidores.

<><> Custos e benefícios distribuídos de forma desigual

É um fato que os custos e benefícios significativos gerados pelo gigante do turismo continuam sendo distribuídos de forma muito desigual. De que outra forma podemos explicar, segundo Elcia Grandcourt, Diretora do Turismo da ONU para a África , que “de cada 100 dólares gastos por um turista em férias em um país em desenvolvimento, apenas cerca de US$ 5 permanecem na economia desse país?” De que outra forma podemos explicar o efeito desastroso dos aumentos inflacionários em áreas “saturadas pelo turismo”, o que afeta o acesso das populações locais à moradia, eletricidade, terra e alimentos? Um impacto inevitavelmente proporcional à disparidade de renda, mais ou menos exorbitante, entre as populações visitantes e visitadas. Finalmente, como podemos explicar, para dar apenas um exemplo, por que os campos de golfe são irrigados dia e noite em países áridos ou semiáridos, justamente onde a água é escassa para as pessoas que ali vivem?

A transformação do turismo internacional, como se pode imaginar, depende de decisões políticas nacionais e supranacionais, guiadas pelo bem comum, pelo respeito aos recursos compartilhados e pela igualdade de acesso a eles. A responsabilidade individual por parte dos turistas é ilusória. Pois, do seu ponto de vista consensual, “viajar é viver”. É uma necessidade tanto quanto um direito, ambos legítimos. Pouco importa que o exercício desse direito à mobilidade recreativa seja reservado a uma minoria em escala global. Pouco importa que sua generalização, em suas formas atuais, seja ecologicamente impossível. Pouco importa que grande parte da população local não se beneficie dele. Ressoa a histórica declaração de um ex-presidente dos EUA: “Nosso modo de vida não é negociável”. O turismo, seja de massa ou de nicho, que satura ou exclui, tem suas razões que a responsabilidade coletiva, as desigualdades Norte-Sul e a emergência ecológica não conseguem mitigar suficientemente. Antes de nós, a pandemia. Depois de nós, o dilúvio.

 

Fonte: Por Sérgio Barcellos e Henry Santos, em Outras Palavras

 

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