Em
João Pessoa, retrato do turismo predatório
As
festas populares de João Pessoa estão ganhando visibilidade nacional e atraem
grande público. É o caso do Forró Verão, cuja previsão da prefeitura para este
ano é a de receber 1,5 milhão de pessoas. E também o Sabadinho Bom, no centro
da cidade, e as tradicionais festas de São João. Outros eventos que tomam conta
da orla ao longo do ano são igualmente citados como casos de sucesso na
promoção do lazer, do bem-estar e da cultura na cidade. A isso somam-se
intervenções urbanas recentes, como a criação de praças horizontais em meio às
vias — a exemplo do que ocorreu no bairro dos Bancários (Três Ruas) — e a forte
concentração de parques no Bessa e Jardim Oceania.
Essas
iniciativas, em si, são relevantes e merecem ser preservadas e ampliadas. O
problema — e é daí que surgem as críticas — aparece quando um conjunto de
eventos, sobretudo no verão e na alta temporada turística, não é planejado nem
organizado de forma integrada ao longo do ano para acolher o volume de pessoas
que as próprias redes sociais e matérias pagas incentivam a se deslocar até a
cidade. Mais questionável ainda é o fato de que os benefícios e os custos desse
modelo não são distribuídos de maneira equitativa entre os(as) moradores(as) de
João Pessoa, que sustentam com seus impostos e constroem a cidade. A quem
interessa esse modelo de eventos e de turismo de massa sem planejamento
estrutural?
Se os
lucros gerados pelo turismo de massa não retornam à cidade — sob a forma de
investimentos consistentes em saneamento básico, coleta de lixo, mobilidade
urbana, preservação ambiental e infraestrutura urbana em sentido amplo ao longo
do ano — o que se tem é uma política de espetáculo e urbanismo de fachada
desconectada das necessidades do dia a dia da maioria da população que vive em
João Pessoa. Não é aceitável promover uma imagem de cidade paradisíaca, com
forte propaganda da orla e eventos lotados, sem amplo debate público de como
esses empreendimentos funcionam, quem efetivamente lucra com essa situação e
qual é o retorno concreto para a maioria da sociedade pessoense.
O caso
do esgoto lançado nas praias da orla de João Pessoa, muitas vezes misturado à
drenagem pluvial, e apropaganda de Bet por toda a orla (contrariando o Código
de Posturas da cidade), é um exemplo eloquente dessa contradição entre
marketing urbano, poluição ambiental e visual.
Essas
questões têm sido objeto de interpelação ao governo estadual em alguns
aspectos, sobretudo a CAGEPA, mas recaem em grande parte sobre o governo
municipal que age sob pressão do ano eleitoral. Isso se torna ainda mais
relevante quando o atual prefeito, Cícero Lucena (MDB), se apresenta como
candidato ao governo da Paraíba em 2026. Se há deficiências básicas na
administração do município, como esse mesmo projeto político pretende
administrar a Paraíba? Uma cidade vendida como vitrine turística deve ser um
lugar de improvisação, poluição, desigualdade e opacidade administrativa?
Esse
conjunto de tensões e contradições em João Pessoa vem se intensificando com os
tensionamentos em torno da nova Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS),
sancionada em 2024. Sob justificativas de medição da maré, o polêmico Artigo 62
flexibilizava os limites de altura de edifícios na orla assegurado pela Lei do
Gabarito, o que foi considerado inconstitucional pelo Ministério Público da
Paraíba (MPPB) e o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) por flexibilizar
limites de altura de edificações na zona costeira. Prédios como o Edifício
Way,empreendimentos da Setai e outros, tornaram-se símbolos desse embate.
Somado
a isso, em João Pessoa, a mobilidade urbana é marcada pela dependência
excessiva do transporte individual, pela precariedade do transporte público e
pela falta de planejamento integrado entre crescimento urbano e circulação. O
turismo de massa e dos eventos sazonais agravam congestionamentos, pressionam
vias já saturadas e expõem a fragilidade da infraestrutura viária — tanto que
pesquisas indicam que o trânsito é a principal crítica ao crescimento turístico
da cidade. No que se refere especificamente ao transporte público, a tarifa do
transporte coletivo em João Pessoa é a segunda mais cara da região Nordeste e a
quinta mais cara entre as capitais do país. O valor de R$ 5,45 não reflete a
qualidade do serviço prestado à população (queixas sobre a superlotação, o
estado de conservação dos ônibus e veículos que quebram no meio do trajeto,
além do tempo de espera). Soma-se a isso a cobrança de um valor diferenciado no
serviço com ar-condicionado conhecido como “geladinho”, que chega a R$ 6,05,
realçando ainda mais a desigualdade no acesso à mobilidade urbana.
Em João
Pessoa, o turismo de massa gera empregos e renda, mas o faz de maneira
altamente concentrada e precária, pois afinal é a capital do Brasil com maior
desigualdade social. A maior parte das vagas criadas está no setor de serviços,
com baixos salários, alta informalidade e pouca proteção social, enquanto os
lucros se acumulam em grupos empresariais do setor imobiliário, hoteleiro e de
eventos. Sem políticas públicas redistributivas e sem os empreendimentos que
exploram o turismo em João Pessoa usarem parte dos seus lucros em benfeitorias
para mitigação dos impactos de suas atividades, a tendência é essa situação
caótica prosseguir e ser ampliada. Ou seja, o que foi exposto em partes explica
por que João Pessoa tem um crescimento econômico concentrado combinado com uma
grande desigualdade social.
Em João
Pessoa, turismo e economia não precisam ser contraditórios ao desenvolvimento
urbano e à preservação das praias. Quando ambos são gestados com
responsabilidade social e ambiental, transparência e reinvestimento público
podem gerar renda, qualificar a cidade, fortalecer serviços e melhorar a
qualidade de vida. Mas, por que esses aspectos não ocorrem conjuntamente? Nesse
caso, cabe aos grupos empresariais, à Prefeitura de João Pessoa e ao governo do
estado explicarem à população isso, para não ficarmos presos em falsas
polêmicas, como economia versus poluição ambiental, turismo versus caos nos
serviços da cidade.
• A chocante degradação do turismo
internacional. Por Bernard Duterme - Tradução: Antonio Martins
Mais do
que nunca, o mundo está à disposição. À disposição daquela minoria da
humanidade — entre 6 e 9% da população mundial — financeira, cultural e
politicamente com poderes para visitá-lo. Ou melhor, para passar lá “suas
férias”, aqueles momentos “bem merecidos” de relaxamento ou entretenimento.
Uma, duas, três vezes, ou até mais, por ano. Nunca antes na história foram
registradas tantas viagens de lazer ao exterior em doze meses. Nunca antes na
história essa dinâmica gerou tanto dinheiro quanto em 2025, nem produziu tanta
receita.
Os
comunicados de imprensa eufóricos do Escritório das Nações Unidas para o
Turismo e do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, a principal organização,
que representa mais de 200 das maiores operadoras de turismo privadas, são
inequívocos: “O futuro é promissor”. Em 2025, o setor injetou quase US$ 12
trilhões na economia global, mais de 10% do PIB mundial. A cifra representa
cerca de US$ 1 trilhão a mais do que o projetado para 2024 e aproximadamente
US$ 1,5 trilhão a mais do que o recorde anterior à pandemia, em 2019.
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Um poluidor como poucos
Nunca
antes, dada sua escala, os seus impulsionadores e os seus motores, o turismo
internacional havia poluído tanto. Apesar da sua propaganda enganosa de
ambientalismo, a criação de destinos exóticos — a suposta “indústria livre de
fumaça” — ocupa um lugar de destaque entre os principais poluidores. Isto
deve-se ao seu crescimento contínuo — significativamente mais rápido do que o
da economia global — mas também à sua pegada ambiental, que inevitavelmente
também está aumentando. De acordo com um estudo sobre o assunto publicado pela
revista Nature, as emissões de gases com efeito de estufa do setor, por si
mesmas, crescem a uma taxa de 3,5% ao ano, mais do dobro da taxa de toda a
atividade econômica mundial.
Nunca
antes na história o turismo internacional alçou voo tão amplamente como em
2025, em termos de número de viagens internacionais (aproximadamente 1,5
bilhão), valor agregado e receita, e, consequentemente, em seu impacto social,
cultural e socioambiental. A paralisação forçada pela pandemia não passa, agora
de uma lembrança ruim. Foram necessários três anos para superá-la. E para
reiniciar a máquina com vigor renovado, “sempre mais longe, sempre mais alto,
sempre mais forte!”. Os desejos piedosos daquela época ficaram para trás. A
ideia de reconstruir o turismo sobre bases diferentes — mais democráticas, mais
equitativas, mais sustentáveis, mais respeitosas — foi apenas uma ilusão.
Contudo,
ao lado da sua autocongratulação, em relação às inúmeras virtudes da sua amada
indústria, a própria Organização das Nações Unidas para o Turismo afirma estar
convencida da necessidade de “transformá-la”, precisamente para a tornar
“universalmente acessível” e menos prejudicial para as populações e
ecossistemas visitados. Infelizmente, devido à falta de políticas regulatórias
verdadeiramente eficazes, as tendências predominantes apontam na direção
oposta. A causa fundamental reside na lógica em que a expansão do setor
continua a basear-se. Ela inclui, entre outras coisas, a concentração de
lucros, a apropriação privada dos lugares turísticos, a acumulação de recursos,
a exploração de ambientes naturais e culturais, a mercantilização do
comportamento e a corrida desenfreada — impulsionada pela competição — para a
redução de quaisquer padrões sociais, fiscais ou ambientais que um país
anfitrião possa tentar impor aos investidores.
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Custos e benefícios distribuídos de forma desigual
É um
fato que os custos e benefícios significativos gerados pelo gigante do turismo
continuam sendo distribuídos de forma muito desigual. De que outra forma
podemos explicar, segundo Elcia Grandcourt, Diretora do Turismo da ONU para a
África , que “de cada 100 dólares gastos por um turista em férias em um país em
desenvolvimento, apenas cerca de US$ 5 permanecem na economia desse país?” De
que outra forma podemos explicar o efeito desastroso dos aumentos
inflacionários em áreas “saturadas pelo turismo”, o que afeta o acesso das
populações locais à moradia, eletricidade, terra e alimentos? Um impacto
inevitavelmente proporcional à disparidade de renda, mais ou menos exorbitante,
entre as populações visitantes e visitadas. Finalmente, como podemos explicar, para
dar apenas um exemplo, por que os campos de golfe são irrigados dia e noite em
países áridos ou semiáridos, justamente onde a água é escassa para as pessoas
que ali vivem?
A
transformação do turismo internacional, como se pode imaginar, depende de
decisões políticas nacionais e supranacionais, guiadas pelo bem comum, pelo
respeito aos recursos compartilhados e pela igualdade de acesso a eles. A
responsabilidade individual por parte dos turistas é ilusória. Pois, do seu
ponto de vista consensual, “viajar é viver”. É uma necessidade tanto quanto um
direito, ambos legítimos. Pouco importa que o exercício desse direito à
mobilidade recreativa seja reservado a uma minoria em escala global. Pouco
importa que sua generalização, em suas formas atuais, seja ecologicamente
impossível. Pouco importa que grande parte da população local não se beneficie
dele. Ressoa a histórica declaração de um ex-presidente dos EUA: “Nosso modo de
vida não é negociável”. O turismo, seja de massa ou de nicho, que satura ou
exclui, tem suas razões que a responsabilidade coletiva, as desigualdades
Norte-Sul e a emergência ecológica não conseguem mitigar suficientemente. Antes
de nós, a pandemia. Depois de nós, o dilúvio.
Fonte:
Por Sérgio Barcellos e Henry Santos, em Outras Palavras

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