segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Crescem apelos por boicote de europeus à Copa do Mundo

Em meio às tensões nas relações entre os governos da Europa e os Estados Unidos, os apelos para que as seleções europeias boicotem a Copa do Mundo de 2026 vêm ganhando força em alguns setores.

Políticos, torcedores e dirigentes de futebol estão entre os que acreditam que as ações do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, particularmente em relação à Groenlândia, tornam problemática a participação no torneio que será realizado nos EUA, Canadá e México.

Embora Trump tenha dito em seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, na semana passada, que não usará a força para anexar a Groenlândia, ele imediatamente acrescentou: "Provavelmente não conseguiremos nada a menos que eu decida usar força excessiva, onde seríamos, francamente, imparáveis."

Levando em conta o histórico de reviravoltas surpreendentes do presidente dos EUA em todos os tipos de assuntos, os governos europeus e as federações de futebol devem permanecer preparados para todas as eventualidades, apesar do anúncio posterior de que as bases de um acordo em torno da Groenlândia haviam sido acertadas com a Otan.

Mogens Jensen, porta-voz do Partido Social-Democrata dinamarquês para a Cultura, Mídia e Esportes, afirmou à DW que a Dinamarca — da qual a Groenlândia é um território constituinte semiautônomo — ainda não está convocando um boicote.

"Para o meu partido e para mim, nossa perspectiva sobre isso é que essa é uma das últimas ferramentas que devem ser utilizadas", disse Jensen. Ele, porém, acrescentou, se Trump decidisse por uma invasão, as coisas teriam que mudar.

"Serei honesto e direi que sim, se isso acontecer, então uma discussão sobre boicote é muito, muito relevante", disse o social-democrata momentos antes de Trump subir ao palco de Davos. "É provável que isso aconteça se a situação se transformar em um conflito real. Espero sinceramente que não chegue a esse ponto", acrescentou.

<><> Tarifas colocam Alemanha e outros em situação difícil

Relatórios de diversas fontes sugerem que a União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), entidade que rege o futebol europeu, realizou em 19 de janeiro uma reunião com vários chefes de federações. Um dos principais tópicos teriam sido as tarifas recentes de 10% que Trump ameaçou impor a oito países europeus por causa da Groenlândia.

Trump disse na última quarta-feira que revogaria essas tarifas caso o acordo da Otan sobre a Groenlândia fosse "consumado".

Desses oito países, Noruega, Holanda, Alemanha, França e Reino Unido (representado por Inglaterra e Escócia) já se classificaram para o torneio, enquanto Dinamarca, Suécia e Irlanda do Norte (também parte do Reino Unido) estão na repescagem. O último da relação de oito países, a Finlândia, não se classificou.

Não são apenas os políticos dinamarqueses que podem ser forçados a reconsiderar suas opções. Na Alemanha, alguns já se manifestaram sobre a questão do boicote. Roderich Kiesewetter, do partido União Democrata Cristã (CDU) do chanceler federal Friedrich Merz, que integra a comissão de Relações Exteriores do Bundestag (Parlamento alemão), afirmou que uma ação militar pode nem ser necessária para que haja um boicote.

"Se Trump cumprir suas declarações e ameaças em relação à Groenlândia e iniciar uma guerra comercial com a União Europeia (UE), é difícil para mim imaginar a participação dos países europeus na Copa do Mundo", disse Kiesewetter ao jornal alemão Augsburg Allgemeine.

No entanto, Christiane Schänderlein, ministra do Esporte da Alemanha, transferiu a responsabilidade para a Federação Alemã de Futebol, a DFB.

"As decisões sobre participação ou boicotes em grandes eventos esportivos são de responsabilidade exclusiva das associações esportivas competentes, e não dos políticos", afirmou.

Procurada pela DW, a DFB não se pronunciou sobre o assunto.

<><> Frustração de torcedores impulsiona petição

Frustrado com o que considera inação política diante da ameaça de um membro da Otan a outro, entre outras políticas de Trump, o jornalista holandês Teun van de Keuken iniciou em sua terra natal uma petição que já conta com 135 mil assinaturas e continua ganhando adeptos.

"As associações esportivas quase sempre dizem que não querem misturar política e esporte, mas o problema é que a política já está presente e é preciso tomar uma posição", disse Van de Keuken à DW.

Ele agora busca a melhor maneira de levar a petição a um público global mais amplo e aproveitar o que acredita ser uma ampla insatisfação dos torcedores com o torneio.

"Essa ideia de boicote está se tornando popular entre os torcedores de futebol, como eu. Eu não gostaria que isso acontecesse, pois não teríamos uma Copa do Mundo, que é sempre um dos pontos altos do esporte e eu adoro. Mas acho que agora a situação política é mais importante."

<><> Prêmio da Paz gera questionamentos sobre neutralidade

Aos olhos de Van de Keuken, assim como de muitos outros, a aproximação pública do presidente da Fifa, Gianni Infantino, com Trump tornou ainda mais difícil aceitar a insistência habitual da entidade máxima do futebol em sua postura de neutralidade política.

Jensen também se preocupa com a possibilidade de Trump usar o torneio para "propaganda".

"Tenho receios quando vejo que a Fifa de repente acha que o presidente dos EUA deveria receber um prêmio da paz, algo que nunca existiu antes. Não sei com que justificativa a Fifa precisa conceder um prêmio da paz, mas isso pode ser um aviso do que nos aguarda quando o torneio começar nos EUA."

Jensen não está sozinho em suas apreensões, mesmo que a maioria dos partidos políticos e federações esteja aguardando para ver quais dos anúncios de Trump se concretizarão, se é que isso de fato ocorrerá. Caso o acordo da Otan sobre a Groenlândia, ao qual Trump se refere, não seja assinado até 1º de fevereiro, as novas tarifas entrarão em vigor. Isso é dez dias antes da reunião do Comitê Executivo (Exco) da Uefa em Bruxelas.

<><> Conseguiria o futebol europeu se unir?

Essa reunião pode ser decisiva em quaisquer esforços para formar uma aliança europeia visando um boicote ao torneio. Com 16 das 48 seleções na Copa e os clubes mais poderosos do mundo vindos da Europa, qualquer movimento das associações do continente nesse sentido provavelmente chamaria a atenção do resto do mundo do futebol, e alguns possivelmente seguiriam o exemplo.

Embora também tenha havido apelos de políticos no Reino Unido, França e outros países, tanto a favor quanto contra boicotes, a Espanha, campeã europeia, pode ser um dos países que devem liderar qualquer possível movimentação nesse sentido.

O primeiro-ministro do país, Pedro Sánchez, foi um dos poucos líderes mundiais que pediram a proibição de Israel em competições esportivas internacionais no ano passado, enquanto a Espanha, juntamente com a Holanda, foi um dos vários países que disseram que boicotariam o  Eurovision devido à participação israelense no festival de música, por causa da guerra na Faixa de Gaza.

Outro país que frequentemente se posiciona em disputas de direitos humanos e que seria impactado pelas tarifas, caso entrem em vigor, é a Noruega. Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol (NFF) – que também integra o Comitê Executivo da UEFA – também defendeu um boicote a Israel, enquanto os jogadores da Noruega vestiram camisetas de protesto em apoio aos trabalhadores migrantes do Catar antes da Copa do Mundo de 2022 no país do Oriente Médio.

Mas Klaveness disse a repórteres na Noruega que, se houvesse um boicote, nenhum país poderia ou deveria fazê-lo sozinho.

"Não acreditamos que um boicote isolado por parte da NFF seja um meio eficaz de [impor] mudança duradoura. Nestes tempos, é particularmente importante que os países da Europa falem a uma só voz e se mantenham unidos", argumentou.

•        Mal-estar se instala na Copa de 2026 nos EUA e cresce debate sobre boicote. Por Jamil Chade

O mal-estar está instalado. O desmonte da democracia por parte de Donald Trump e seus ataques contra aliados e adversários desencadearam uma reação de questionamentos sobre a Copa de 2026, nos EUA, México e Canadá.

Na semana passada, os chefes de 20 federações de futebol da Europa se reuniram de forma discreta na Hungria. Na agenda estava a crescente preocupação diante do desejo de Donald Trump de anexar a Groenlândia.

A pergunta que tiveram de tratar era óbvia: como o futebol reagiria diante de uma crise política ou militar com a Europa?

O que era apenas tratado em salas reservadas eclodiu quando Oke Gottlich, vice-presidente da Federação Alemã de Futebol, afirmou que havia “chegado a hora” de falar de boicote.

Não se descarta, por exemplo, que jogadores ou federações avaliem possibilidades de promover algum tipo de protesto. Dos 104 jogos da Copa do Mundo, 78 serão realizados nos EUA.

“Se Trump cumprir os anúncios e ameaças relacionados à Groenlândia e iniciar uma guerra comercial com a UE, é difícil imaginar os países europeus participando da Copa do Mundo”, disse o parlamentar de direita, Roderich Kiesewetter.

De acordo com uma pesquisa do instituto Insa, 47% dos entrevistados na Alemanha disseram que seriam favoráveis a um boicote caso os EUA anexem a Groenlândia. 35% recusaram a ideia de um protesto, enquanto 18% afirmaram não ter posição.

Em 2022, a Alemanha já liderou uma ação contra o governo do Catar e acabou ameaçada pela Fifa. O motivo era uma braçadeira que os jogadores levariam durante as partidas, promovendo a diversidade e a inclusão.

Em vez disso, a FIFA antecipou sua própria campanha “Não à Discriminação”. Em protesto, os jogadores da Alemanha cobriram a boca durante a foto oficial da equipe antes da estreia na Copa do Mundo contra o Japão “para transmitir a mensagem de que a Fifa está silenciando”.

A constatação dos dirigentes, porém, é que tomar tal decisão exigirá uma coragem política que talvez hoje não exista. Ao mesmo tempo, europeus e africanos admitem que lhes custaria muito saber que estarão fazendo parte da transformação de uma Copa do Mundo em um palco ao líder com traços autoritários.

Entre diplomatas e cartolas, a acusação é de que a Copa, uma vez mais, revela uma profunda hipocrisia. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o resultado foi sua expulsão de dezenas de eventos.

Em fevereiro de 2022, a Fifa e a Uefa emitiram o seguinte comunicado:

“A Fifa e a Uefa decidiram em conjunto que todas as equipes russas, sejam seleções nacionais ou clubes, ficarão suspensas da participação em competições da Fifa e da Uefa até novo aviso.”

Nos últimos meses, os EUA atacaram a Venezuela, Irã e Nigéria, além de ameaçar dezena de países e exigir a entrega de um território europeu. Se não bastasse, aplicou sanções contra europeus e latino-americanos. Trump ainda fez repetidas ofensas contra países mais pobres e até questionou a inteligência da população da Somália.

Não por acaso, o ex-treinador do Senegal, Gana, Camarões e de diversas seleções africanas, o francês Claude Le Roy, afirmou que não via motivo para evitar o debate sobre um boicote, diante da forma pela qual Trump se refere aos africanos.

Outro movimento vem sendo identificado entre torcedores, com abaixo-assinados contra a Copa surgindo em alguns países europeus. Ainda assim, cartolas ouvidos pelo ICL Notícias admitem que esses movimentos precisam ter um respaldo das instituições.

Numa tentativa de mostrar que o mal-estar não existe, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, se apressou em anunciar em Davos, na semana passada, que mais de 500 milhões de ingressos já tinham sido solicitados.

<><> Antecedentes

Para dirigentes europeus, são os líderes que precisam assumir suas responsabilidades. O histórico, porém, é citado como algo a não ser esquecido.

Em 1936, enquanto Hitler erguia sua máquina de morte e implementava a base do que seria o Holocausto, dirigentes esportivos e políticos em todo o mundo optaram por fechar os olhos aos abusos e fazer parte da Olimpíada em Berlim.

Um ano antes, meio milhão de americanos assinaram petições exigindo uma sede alternativa para os jogos. Vários jornais, incluindo o New York Times, registraram objeções à participação dos EUA.

Líderes religiosos, reitores de universidades e sindicalistas criaram nos EUA o Comitê para o Jogo Limpo nos Esportes com o objetivo explícito de impedir que o país enviasse seus atletas de elite a Berlim. “Todos os americanos de bom senso e amantes do bom esporte devem se opor à nossa participação”, dizia um de seus panfletos, “porque o governo nazista está planejando deliberadamente usar os Jogos Olímpicos para promover seu prestígio político e glorificar suas políticas”.

Hitler sabia que os Jogos Olímpicos lhe proporcionariam uma oportunidade única para promover o “Reich de Mil Anos” que idealizava.

Os documentos das diferentes diplomacias não deixavam dúvidas de que todos sabiam o que estava em jogo. Sir Eric Phipps, embaixador britânico em Berlim, escreveu um telegrama para o Ministério das Relações Exteriores em 7 de novembro de 1935 o seguinte recado:

“O Chanceler (Hitler) está demonstrando um enorme interesse pelos Jogos Olímpicos. Na verdade, ele está começando a considerar as questões políticas sob a perspectiva de seu efeito sobre os Jogos. O governo alemão está simplesmente apavorado com a possibilidade de a pressão judaica induzir o governo dos Estados Unidos a retirar sua equipe e, assim, arruinar o festival, cujo valor material e propagandístico, em sua opinião, dificilmente pode ser exagerado.”

Aqueles que insistiram em ir ao evento sabiam da repressão contra os judeus e mesmo a diplomacia dos EUA sugeriu implementar o boicote.

“Caso os Jogos não sejam realizados em Berlim”, escreveu George Messersmith, cônsul-geral dos Estados Unidos em Berlim, a seus superiores no Departamento de Estado, “seria um dos golpes mais sérios que o prestígio nacional-socialista poderia sofrer em uma Alemanha em despertar e uma das maneiras mais eficazes que o mundo exterior tem de mostrar à juventude alemã sua opinião sobre a doutrina nacional-socialista.”

Para ele, era “inconcebível que o comitê olímpico americano mantivesse sua posição de que o esporte na Alemanha é apolítico, que não há discriminação”. “Outras nações estão olhando para os Estados Unidos antes de agirem, esperando por liderança; os alemães estão adiando o aumento da opressão econômica contra os judeus até que os jogos terminem. Os Estados Unidos deveriam impedir que seus atletas fossem usados por outro governo como instrumento político”, completou.

Mas o movimento nos EUA pelo boicote acabou fracassando, enterrando a pressão em outros países do mundo. Um voto na Associação de Atletas Amadores terminou com uma margem mínima de vantagem a quem defendia ir aos Jogos. De forma hipócrita, dirigentes dos EUA e de diversos países consideravam que deixar de ir ao principal evento do COI significaria o fim de suas carreiras no movimento olímpico.

O evento de Hitler acabaria tendo o maior número de delegações jamais visto até então. E o resto da história todos nós conhecemos.

 

Fonte: DW Brasil/ICL Notícias

 

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