Crescem
apelos por boicote de europeus à Copa do Mundo
Em meio
às tensões nas relações entre os governos da Europa e os Estados Unidos, os
apelos para que as seleções europeias boicotem a Copa do Mundo de 2026 vêm
ganhando força em alguns setores.
Políticos,
torcedores e dirigentes de futebol estão entre os que acreditam que as ações do
governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, particularmente em
relação à Groenlândia, tornam problemática a participação no torneio que será
realizado nos EUA, Canadá e México.
Embora
Trump tenha dito em seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, na semana
passada, que não usará a força para anexar a Groenlândia, ele imediatamente
acrescentou: "Provavelmente não conseguiremos nada a menos que eu decida
usar força excessiva, onde seríamos, francamente, imparáveis."
Levando
em conta o histórico de reviravoltas surpreendentes do presidente dos EUA em
todos os tipos de assuntos, os governos europeus e as federações de futebol
devem permanecer preparados para todas as eventualidades, apesar do anúncio
posterior de que as bases de um acordo em torno da Groenlândia haviam sido
acertadas com a Otan.
Mogens
Jensen, porta-voz do Partido Social-Democrata dinamarquês para a Cultura, Mídia
e Esportes, afirmou à DW que a Dinamarca — da qual a Groenlândia é um
território constituinte semiautônomo — ainda não está convocando um boicote.
"Para
o meu partido e para mim, nossa perspectiva sobre isso é que essa é uma das
últimas ferramentas que devem ser utilizadas", disse Jensen. Ele, porém,
acrescentou, se Trump decidisse por uma invasão, as coisas teriam que mudar.
"Serei
honesto e direi que sim, se isso acontecer, então uma discussão sobre boicote é
muito, muito relevante", disse o social-democrata momentos antes de Trump
subir ao palco de Davos. "É provável que isso aconteça se a situação se
transformar em um conflito real. Espero sinceramente que não chegue a esse
ponto", acrescentou.
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Tarifas colocam Alemanha e outros em situação difícil
Relatórios
de diversas fontes sugerem que a União das Associações Europeias de Futebol
(Uefa), entidade que rege o futebol europeu, realizou em 19 de janeiro uma
reunião com vários chefes de federações. Um dos principais tópicos teriam sido
as tarifas recentes de 10% que Trump ameaçou impor a oito países europeus por
causa da Groenlândia.
Trump
disse na última quarta-feira que revogaria essas tarifas caso o acordo da Otan
sobre a Groenlândia fosse "consumado".
Desses
oito países, Noruega, Holanda, Alemanha, França e Reino Unido (representado por
Inglaterra e Escócia) já se classificaram para o torneio, enquanto Dinamarca,
Suécia e Irlanda do Norte (também parte do Reino Unido) estão na repescagem. O
último da relação de oito países, a Finlândia, não se classificou.
Não são
apenas os políticos dinamarqueses que podem ser forçados a reconsiderar suas
opções. Na Alemanha, alguns já se manifestaram sobre a questão do boicote.
Roderich Kiesewetter, do partido União Democrata Cristã (CDU) do chanceler
federal Friedrich Merz, que integra a comissão de Relações Exteriores do
Bundestag (Parlamento alemão), afirmou que uma ação militar pode nem ser
necessária para que haja um boicote.
"Se
Trump cumprir suas declarações e ameaças em relação à Groenlândia e iniciar uma
guerra comercial com a União Europeia (UE), é difícil para mim imaginar a
participação dos países europeus na Copa do Mundo", disse Kiesewetter ao
jornal alemão Augsburg Allgemeine.
No
entanto, Christiane Schänderlein, ministra do Esporte da Alemanha, transferiu a
responsabilidade para a Federação Alemã de Futebol, a DFB.
"As
decisões sobre participação ou boicotes em grandes eventos esportivos são de
responsabilidade exclusiva das associações esportivas competentes, e não dos
políticos", afirmou.
Procurada
pela DW, a DFB não se pronunciou sobre o assunto.
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Frustração de torcedores impulsiona petição
Frustrado
com o que considera inação política diante da ameaça de um membro da Otan a
outro, entre outras políticas de Trump, o jornalista holandês Teun van de
Keuken iniciou em sua terra natal uma petição que já conta com 135 mil
assinaturas e continua ganhando adeptos.
"As
associações esportivas quase sempre dizem que não querem misturar política e
esporte, mas o problema é que a política já está presente e é preciso tomar uma
posição", disse Van de Keuken à DW.
Ele
agora busca a melhor maneira de levar a petição a um público global mais amplo
e aproveitar o que acredita ser uma ampla insatisfação dos torcedores com o
torneio.
"Essa
ideia de boicote está se tornando popular entre os torcedores de futebol, como
eu. Eu não gostaria que isso acontecesse, pois não teríamos uma Copa do Mundo,
que é sempre um dos pontos altos do esporte e eu adoro. Mas acho que agora a
situação política é mais importante."
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Prêmio da Paz gera questionamentos sobre neutralidade
Aos
olhos de Van de Keuken, assim como de muitos outros, a aproximação pública do
presidente da Fifa, Gianni Infantino, com Trump tornou ainda mais difícil
aceitar a insistência habitual da entidade máxima do futebol em sua postura de
neutralidade política.
Jensen
também se preocupa com a possibilidade de Trump usar o torneio para
"propaganda".
"Tenho
receios quando vejo que a Fifa de repente acha que o presidente dos EUA deveria
receber um prêmio da paz, algo que nunca existiu antes. Não sei com que
justificativa a Fifa precisa conceder um prêmio da paz, mas isso pode ser um
aviso do que nos aguarda quando o torneio começar nos EUA."
Jensen
não está sozinho em suas apreensões, mesmo que a maioria dos partidos políticos
e federações esteja aguardando para ver quais dos anúncios de Trump se
concretizarão, se é que isso de fato ocorrerá. Caso o acordo da Otan sobre a
Groenlândia, ao qual Trump se refere, não seja assinado até 1º de fevereiro, as
novas tarifas entrarão em vigor. Isso é dez dias antes da reunião do Comitê
Executivo (Exco) da Uefa em Bruxelas.
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Conseguiria o futebol europeu se unir?
Essa
reunião pode ser decisiva em quaisquer esforços para formar uma aliança
europeia visando um boicote ao torneio. Com 16 das 48 seleções na Copa e os
clubes mais poderosos do mundo vindos da Europa, qualquer movimento das
associações do continente nesse sentido provavelmente chamaria a atenção do
resto do mundo do futebol, e alguns possivelmente seguiriam o exemplo.
Embora
também tenha havido apelos de políticos no Reino Unido, França e outros países,
tanto a favor quanto contra boicotes, a Espanha, campeã europeia, pode ser um
dos países que devem liderar qualquer possível movimentação nesse sentido.
O
primeiro-ministro do país, Pedro Sánchez, foi um dos poucos líderes mundiais
que pediram a proibição de Israel em competições esportivas internacionais no
ano passado, enquanto a Espanha, juntamente com a Holanda, foi um dos vários
países que disseram que boicotariam o
Eurovision devido à participação israelense no festival de música, por
causa da guerra na Faixa de Gaza.
Outro
país que frequentemente se posiciona em disputas de direitos humanos e que
seria impactado pelas tarifas, caso entrem em vigor, é a Noruega. Lise
Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol (NFF) – que também
integra o Comitê Executivo da UEFA – também defendeu um boicote a Israel,
enquanto os jogadores da Noruega vestiram camisetas de protesto em apoio aos
trabalhadores migrantes do Catar antes da Copa do Mundo de 2022 no país do
Oriente Médio.
Mas
Klaveness disse a repórteres na Noruega que, se houvesse um boicote, nenhum
país poderia ou deveria fazê-lo sozinho.
"Não
acreditamos que um boicote isolado por parte da NFF seja um meio eficaz de
[impor] mudança duradoura. Nestes tempos, é particularmente importante que os
países da Europa falem a uma só voz e se mantenham unidos", argumentou.
• Mal-estar se instala na Copa de 2026 nos
EUA e cresce debate sobre boicote. Por Jamil Chade
O
mal-estar está instalado. O desmonte da democracia por parte de Donald Trump e
seus ataques contra aliados e adversários desencadearam uma reação de
questionamentos sobre a Copa de 2026, nos EUA, México e Canadá.
Na
semana passada, os chefes de 20 federações de futebol da Europa se reuniram de
forma discreta na Hungria. Na agenda estava a crescente preocupação diante do
desejo de Donald Trump de anexar a Groenlândia.
A
pergunta que tiveram de tratar era óbvia: como o futebol reagiria diante de uma
crise política ou militar com a Europa?
O que
era apenas tratado em salas reservadas eclodiu quando Oke Gottlich,
vice-presidente da Federação Alemã de Futebol, afirmou que havia “chegado a
hora” de falar de boicote.
Não se
descarta, por exemplo, que jogadores ou federações avaliem possibilidades de
promover algum tipo de protesto. Dos 104 jogos da Copa do Mundo, 78 serão
realizados nos EUA.
“Se
Trump cumprir os anúncios e ameaças relacionados à Groenlândia e iniciar uma
guerra comercial com a UE, é difícil imaginar os países europeus participando
da Copa do Mundo”, disse o parlamentar de direita, Roderich Kiesewetter.
De
acordo com uma pesquisa do instituto Insa, 47% dos entrevistados na Alemanha
disseram que seriam favoráveis a um boicote caso os EUA anexem a Groenlândia.
35% recusaram a ideia de um protesto, enquanto 18% afirmaram não ter posição.
Em
2022, a Alemanha já liderou uma ação contra o governo do Catar e acabou
ameaçada pela Fifa. O motivo era uma braçadeira que os jogadores levariam
durante as partidas, promovendo a diversidade e a inclusão.
Em vez
disso, a FIFA antecipou sua própria campanha “Não à Discriminação”. Em
protesto, os jogadores da Alemanha cobriram a boca durante a foto oficial da
equipe antes da estreia na Copa do Mundo contra o Japão “para transmitir a
mensagem de que a Fifa está silenciando”.
A
constatação dos dirigentes, porém, é que tomar tal decisão exigirá uma coragem
política que talvez hoje não exista. Ao mesmo tempo, europeus e africanos
admitem que lhes custaria muito saber que estarão fazendo parte da
transformação de uma Copa do Mundo em um palco ao líder com traços
autoritários.
Entre
diplomatas e cartolas, a acusação é de que a Copa, uma vez mais, revela uma
profunda hipocrisia. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o resultado foi sua
expulsão de dezenas de eventos.
Em
fevereiro de 2022, a Fifa e a Uefa emitiram o seguinte comunicado:
“A Fifa
e a Uefa decidiram em conjunto que todas as equipes russas, sejam seleções
nacionais ou clubes, ficarão suspensas da participação em competições da Fifa e
da Uefa até novo aviso.”
Nos
últimos meses, os EUA atacaram a Venezuela, Irã e Nigéria, além de ameaçar
dezena de países e exigir a entrega de um território europeu. Se não bastasse,
aplicou sanções contra europeus e latino-americanos. Trump ainda fez repetidas
ofensas contra países mais pobres e até questionou a inteligência da população
da Somália.
Não por
acaso, o ex-treinador do Senegal, Gana, Camarões e de diversas seleções
africanas, o francês Claude Le Roy, afirmou que não via motivo para evitar o
debate sobre um boicote, diante da forma pela qual Trump se refere aos
africanos.
Outro
movimento vem sendo identificado entre torcedores, com abaixo-assinados contra
a Copa surgindo em alguns países europeus. Ainda assim, cartolas ouvidos pelo
ICL Notícias admitem que esses movimentos precisam ter um respaldo das
instituições.
Numa
tentativa de mostrar que o mal-estar não existe, o presidente da Fifa, Gianni
Infantino, se apressou em anunciar em Davos, na semana passada, que mais de 500
milhões de ingressos já tinham sido solicitados.
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Antecedentes
Para
dirigentes europeus, são os líderes que precisam assumir suas
responsabilidades. O histórico, porém, é citado como algo a não ser esquecido.
Em
1936, enquanto Hitler erguia sua máquina de morte e implementava a base do que
seria o Holocausto, dirigentes esportivos e políticos em todo o mundo optaram
por fechar os olhos aos abusos e fazer parte da Olimpíada em Berlim.
Um ano
antes, meio milhão de americanos assinaram petições exigindo uma sede
alternativa para os jogos. Vários jornais, incluindo o New York Times,
registraram objeções à participação dos EUA.
Líderes
religiosos, reitores de universidades e sindicalistas criaram nos EUA o Comitê
para o Jogo Limpo nos Esportes com o objetivo explícito de impedir que o país
enviasse seus atletas de elite a Berlim. “Todos os americanos de bom senso e
amantes do bom esporte devem se opor à nossa participação”, dizia um de seus
panfletos, “porque o governo nazista está planejando deliberadamente usar os
Jogos Olímpicos para promover seu prestígio político e glorificar suas
políticas”.
Hitler
sabia que os Jogos Olímpicos lhe proporcionariam uma oportunidade única para
promover o “Reich de Mil Anos” que idealizava.
Os
documentos das diferentes diplomacias não deixavam dúvidas de que todos sabiam
o que estava em jogo. Sir Eric Phipps, embaixador britânico em Berlim, escreveu
um telegrama para o Ministério das Relações Exteriores em 7 de novembro de 1935
o seguinte recado:
“O
Chanceler (Hitler) está demonstrando um enorme interesse pelos Jogos Olímpicos.
Na verdade, ele está começando a considerar as questões políticas sob a
perspectiva de seu efeito sobre os Jogos. O governo alemão está simplesmente
apavorado com a possibilidade de a pressão judaica induzir o governo dos
Estados Unidos a retirar sua equipe e, assim, arruinar o festival, cujo valor
material e propagandístico, em sua opinião, dificilmente pode ser exagerado.”
Aqueles
que insistiram em ir ao evento sabiam da repressão contra os judeus e mesmo a
diplomacia dos EUA sugeriu implementar o boicote.
“Caso
os Jogos não sejam realizados em Berlim”, escreveu George Messersmith,
cônsul-geral dos Estados Unidos em Berlim, a seus superiores no Departamento de
Estado, “seria um dos golpes mais sérios que o prestígio nacional-socialista
poderia sofrer em uma Alemanha em despertar e uma das maneiras mais eficazes
que o mundo exterior tem de mostrar à juventude alemã sua opinião sobre a
doutrina nacional-socialista.”
Para
ele, era “inconcebível que o comitê olímpico americano mantivesse sua posição
de que o esporte na Alemanha é apolítico, que não há discriminação”. “Outras
nações estão olhando para os Estados Unidos antes de agirem, esperando por
liderança; os alemães estão adiando o aumento da opressão econômica contra os
judeus até que os jogos terminem. Os Estados Unidos deveriam impedir que seus
atletas fossem usados por outro governo como instrumento político”, completou.
Mas o
movimento nos EUA pelo boicote acabou fracassando, enterrando a pressão em
outros países do mundo. Um voto na Associação de Atletas Amadores terminou com
uma margem mínima de vantagem a quem defendia ir aos Jogos. De forma hipócrita,
dirigentes dos EUA e de diversos países consideravam que deixar de ir ao
principal evento do COI significaria o fim de suas carreiras no movimento
olímpico.
O
evento de Hitler acabaria tendo o maior número de delegações jamais visto até
então. E o resto da história todos nós conhecemos.
Fonte:
DW Brasil/ICL Notícias

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