segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Jeffrey Epstein trocou elogios sobre Bolsonaro com Steve Bannon: 'Mudou o jogo'

Uma troca de emails atribuída a Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado nos Estados Unidos e morto em 2019, e Steve Bannon, ex-conselheiro do presidente americano, Donald Trump, e estrategista político, faz diversas menções elogiosas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

"Bolsonaro mudou o jogo. Nenhum refugiado quer entrar. Bruxelas não lhe diz o que fazer. Ele só precisa reativar a economia. MASSIVO", diz uma mensagem atribuída a Epstein em 8 de outubro de 2018.

Na véspera, Bolsonaro disputava a eleição presidencial contra o petista Fernando Haddad e havia obtido 49,2 milhões de votos (46% dos válidos), ante 31,3 milhões de Haddad (29,28%), o que garantiu um segundo turno, do qual ele sairia vitorioso.

A comunicação está entre os documentos divulgados na última sexta-feira (30/1) pelo Departamento de Justiça dos EUA, relacionados ao caso Epstein.

As novas mensagens também fazem menção ao presidente Lula, em um contexto de diálogos entre Epstein e o filósofo Noam Chomsky (mais detalhes aqui).

Bannon respondeu a Epstein que era próximo ao grupo do ex-presidente. "Eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?"

Epstein responde: "É meio o argumento 'reino no inferno' de novo".

Bannon declarou apoio explícito a Bolsonaro naquele ano.

Em entrevista à BBC News Brasil à época, após meses de intensas especulações sobre uma eventual participação dele na campanha, o ex-estrategista de Trump descreveu Bolsonaro como "líder", "brilhante", "sofisticado" e "muito parecido com Trump".

Ele negou, no entanto, que fizesse parte da campanha.

"Diga a ele que o meu candidato vai ganhar no primeiro turno", respondeu Bannon, aparentemente se referindo ao Bolsonaro.

"Bolsonaro é de verdade", respondeu Epstein (a expressão usada foi "the real deal", no original em inglês).

Eles também discutiram uma ida de Bannon ao Brasil para apoiar Bolsonaro.

Epstein afirmou: "Se você está confiante na vitória [de Bolsonaro], pode ser bom para sua marca se você fosse visto lá".

Há ainda um trecho da conversa divulgado nos documentos do governo dos EUA em que Epstein diz que não gostou de Bolsonaro ter chamado de "fake news" uma associação com Bannon.

Naquela época, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, deu declarações à imprensa de que Bannon estaria à disposição da família.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, Eduardo chegou a participar, em novembro de 2018, de um jantar de aniversário de Bannon.

Em resposta às declarações do filho e aos questionamentos da imprensa, Jair Bolsonaro disse que a parceria não existia.

"Tenho que manter essa coisa do Jair nos bastidores", disse Bannon. "Meu poder vem do fato de não ter ninguém para me defender."

Bannon disse à época que "ficou impressionado" com a dinâmica "jovem" da campanha de Bolsonaro. E disse que deu conselhos à família.

"Minha preocupação número um foi que ele fosse assassinado. Eu nem perguntei ao filho, apenas disse diretamente: 'Vocês precisam de segurança'", disse ele à BBC News Brasil, em 2018.

Epstein também aconselhou Bannon, segundo conversa que aparece em outro documento, a evitar falar de Bolsonaro quando ele se encontrasse com Noam Chomsky, em um encontro facilitado pelo empresário no Arizona.

"A esposa dele é brasileira, então vá com calma ao falar de Bolsonaro. Eles [o casal Chomsky] são amigos do Lula. Mas ele é uma figura icônica e não se deve perder a chance de conversar sobre história e política. Vou colocar vocês em contato por e-mail, para que possam se coordenar diretamente."

Chomsky mantinha uma relação próxima com Epstein, que teria usado suas habilidades financeiras para ajudá-lo e até oferecido estadia em suas casas.

"Ele vai querer saber se você está do lado dos pequenos: corte de impostos, ataques à saúde pública e as ameaças bolsonaristas aos trabalhadores organizados", teria dito Epstein a Bannon, antes do encontro.

¨      Mensagens de Bannon no caso Epstein citam atuação nos bastidores da campanha de Jair Bolsonaro

Mensagens divulgadas nesta sexta-feira (30) pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos trouxeram à tona referências diretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em conversas privadas envolvendo o estrategista da direita internacional Steve Bannon. Os diálogos integram os arquivos do caso Jeffrey Epstein e foram trocados em outubro de 2018, poucos dias após o primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, disputadas por Bolsonaro e Fernando Haddad (PT).

A revelação foi publicada inicialmente pelo portal Brasil de Fato, que analisou trechos das conversas tornadas públicas. Em uma mensagem datada de sexta-feira (12), Bannon afirma que precisava “manter essa coisa do Jair [Bolsonaro] nos bastidores”, em referência à sua atuação no contexto eleitoral brasileiro. O interlocutor aparece com o nome ocultado por tarjas, mas, com base no conteúdo e em trocas anteriores, é possivelmente o próprio Jeffrey Epstein.

Na sequência do diálogo, a pessoa de identidade não revelada comenta a postura pública de Bolsonaro durante a campanha. “Não gostei de Bolsonaro chamando qualquer associação com você de ‘fake news’, embora eu compreenda”, afirma. Em seguida, acrescenta: “Eu preferiria um boné MBGA [possível menção a Make Brazil Great Again]”.

Bannon responde destacando sua estratégia de atuação política. “Tenho de manter a coisa do Jair nos bastidores. Meu poder vem de não ter ninguém me defendendo”, escreve o estrategista, conhecido por sua influência em articulações da extrema direita em diferentes países.

As mensagens mostram ainda que, dois dias antes, os dois já discutiam diretamente o cenário eleitoral brasileiro. O interlocutor descreve Bolsonaro como “um divisor de águas” e enumera pontos que considerava positivos. “Sem refugiados querendo entrar. Sem Bruxelas dizendo a ele o que fazer. Ele só tem de reiniciar a economia. Gigante. 1,8 trilhão PIB”, diz o texto. Bannon responde mencionando sua proximidade com aliados do então candidato: “Eu sou muito, muito próximo desses caras — eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?”.

Os diálogos reforçam informações já conhecidas sobre a aproximação entre Bannon e integrantes da família Bolsonaro. Em agosto de 2018, o estrategista encontrou-se com Eduardo Bolsonaro em Nova York, nos Estados Unidos. À época, o então deputado federal afirmou que Bannon era entusiasta da candidatura de Jair Bolsonaro e que ambos manteriam contato “para somar forças, principalmente contra o marxismo cultural”.

Jeffrey Epstein, bilionário norte-americano acusado de comandar um esquema de tráfico e exploração sexual de adolescentes envolvendo mais de mil vítimas, morreu em 2019 enquanto estava preso no Centro Correcional Metropolitano de Nova York. Ele foi encontrado morto em sua cela enquanto aguardava julgamento.

Na sexta-feira (30), o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou públicos mais de 3 milhões de páginas relacionadas ao caso, incluindo documentos, fotos e vídeos, alguns produzidos pelo próprio Epstein. Os arquivos também revelam acusações contra figuras públicas, entre elas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citado em denúncias de abuso sexual de uma adolescente.

¨      “Não duvido de absolutamente nada”, diz jurista

Novos documentos ligados ao caso Jeffrey Epstein, que voltam a associar Donald Trump a abusos sexuais, foram divulgados. No Brasil, a menção indireta ao nome de Jair Bolsonaro em conversas atribuídas a Steve Bannon também levantou questionamentos sobre possíveis vínculos obscuros do ex-presidente com figuras centrais da extrema direita global. De acordo com a advogada e jurista Soraia Mendes, embora ainda faltem informações concretas, não se pode descartar nenhum tipo de irregularidade envolvendo Bolsonaro.

“É uma figura que a gente também não pode duvidar de nada… o que eu duvido é que ele tivesse em algum momento cacife para estar numa ilha onde frequentada por príncipes e presidentes das maiores nações e o maior empresariado”. Para ela, a fala provavelmente estará ligada a esquemas de financiamento ou corrupção:

“Talvez é um escancarado financiamento, alguma coisa assim, para além daquilo que a gente já sabe que é a formação ideológica, enfim, que tomar de time a partir de fake news e tal, né? Não sei exatamente o que seria”, diz. A jurista também lembrou o histórico de declarações misóginas do ex-presidente, como a expressão “pintou um clima”, e disse não se surpreenderia com novas revelações. “Eu não duvido de nada, absolutamente nada. O Bannon é um estrategista.”

<><> Violência contra animais

O assassinato do cão Orelha, em Santa Catarina, e outros casos em diferentes regiões do país também foi comentado por Mendes. Há suspeitas de que o crime possa ter sido transmitido ao vivo pelo Discord, em meio a desafios sádicos que circulam na plataforma. Soraia afirmou ter evitado acompanhar os detalhes por considerar o episódio profundamente perturbador.

“Eu tenho uma posição que, segundo a qual, todas as vezes que nós estamos falando de violência contra mulheres, contra pessoas vulneráveis, contra animais, eu entendo que a resposta penal tem que ser a prisão.”

Mãe e “avó de PET”, ela ressaltou que esse tipo de crime é sintoma de um processo mais amplo de degradação social. “A gente tá passando por um período de trevas na civilização.” Para a jurista, a escalada da violência contra animais está diretamente conectada ao aumento do feminicídio e a um ambiente de brutalização generalizada: “Voltar-se em relação aos animais também faz parte desse retrocesso civilizatório”, disse.

Ela também apontou que plataformas como o Discord abrigam um “subterrâneo sem fundo” e defendeu regulação urgente. “Tudo isso demanda que se tenha, como nós já falamos há muito tempo aqui na Fórum, regulação para que essas coisas que acabam sendo também divulgadas e enaltecidas, infelizmente por muitas pessoas, não sejam transmitidas.”

<><> Dois pesos e duas medidas

Um dos pontos destacados pela jurista foi a crítica à forma desigual como jovens são tratados pela sociedade e pelo sistema de justiça, a depender de classe social e território. Ao comentar o caso dos rapazes acusados de matar o cachorro em Santa Catarina, cujas famílias teriam condições de enviá-los ao exterior, ela comparou com a realidade de adolescentes das periferias:

“Eu olho e aqui eu pessoalmente, mas a sociedade de uma forma geral numa determinada classe social olha para os seus filhos com 18, 19 e 20 anos e chama de garotos… mas é o bandido, o homem armado quando pertence a outra. São pessoas que tem absolutas condições de determinar quais são os limites da legislação e opções de vida.”

Para Soraia, não se trata de defender linchamentos, mas de exigir coerência. “Não são meninos realmente, são rapazes ou são homens que precisam responder pelos seus atos e precisam responder pelos seus atos muito fortemente.”

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Brasil/Fórum

 

Nenhum comentário: