O
que disse Daniel Vorcaro, do Banco Master, à Polícia Federal — e quais as
contradições do depoimento
O
ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantou na
quinta-feira (29/1) o sigilo dos depoimentos à Polícia Federal do banqueiro
Daniel Vorcaro, do Banco Master, do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB),
Paulo Henrique Costa, e do diretor de fiscalização do Banco Central (BC),
Ailton Aquino.
Os
depoimentos foram colhidos em dezembro de 2025, antes de uma acareação entre os
executivos, também determinada por Toffoli, no âmbito da investigação da venda
pelo Master ao BRB de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas
falsas pelo BC.
Segundo
as investigações, o Master teria adquirido carteiras de crédito da Tirreno,
empresa criada em dezembro de 2024, que passou a revender carteiras ao Master
já em janeiro de 2025, totalizando R$ 6,7 bilhões, mesmo sem ter então qualquer
movimentação financeira comprovada.
Essas
carteiras foram em seguida revendidas pelo Master ao BRB, mesmo sem o banco de
Vorcaro ter realizado o desembolso à Tirreno pela compra dos ativos.
Em meio
ao escândalo, que contou ainda como uma tentativa de compra do Master pelo BRB,
o banco de Vorcaro foi liquidado pelo BC em 18 de novembro de 2025.
Em seu
depoimento, Vorcaro disse que o BRB teria ciência de que as carteiras de
crédito revendidas eram originadas por terceiros, o que foi negado pelo
ex-presidente do BRB na acareação.
"A
gente anunciou que faria a venda de originadores terceiros. A gente chegou a
conversar que a gente começaria um novo formato de comercialização, que seria
originada de terceiros, não mais originação própria", afirmou Vorcaro.
O
ex-presidente do BRB disse que acreditava que as carteiras eram do Master.
"No
meu entendimento, eram carteiras originadas pelo Master, que haviam sido
vendidas ou negociadas com terceiros e que o Master estava recomprando e
revendendo para a gente [BRB]", disse Paulo Henrique Costa.
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Reuniões com Ibaneis
Em seu
depoimento, Vorcaro admitiu ter participado de mais de uma reunião com o
governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sobre a proposta de
aquisição do Banco Master pelo BRB, anunciada em 28 de março de 2025.
"Conversei
[com Ibaneis] em algumas poucas oportunidades, sim", disse o banqueiro.
A
delegada então questionou se Ibaneis frequentava a casa de Vorcaro.
"Já
foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele, e a gente
se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas."
Ibaneis
Rocha ainda não comentou as declarações do banqueiro.
Vorcaro,
preso pela Polícia Federal em 17 de novembro e atualmente em liberdade mediante
uso de tornozeleira eletrônica, negou porém que "amigos políticos"
tenham intervindo para tentar viabilizar a operação.
"Se
eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido
a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não
estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha
família sofrendo o que a gente está sofrendo", irnonizou.
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Crise de liquidez e negócio baseado no FGC
O
banqueiro reconheceu ainda que o Master enfrentava uma crise de liquidez e que
o negócio do banco era baseado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), espécie
de seguro que protege investimentos em casos de falência bancária.
"Existia
uma crise, não era de hoje, mas o Banco Master sempre foi solvente, sempre teve
muito mais ativo que passivo e sempre honrou todos os compromissos até o dia 17
de novembro", disse.
"E
essa crise de liquidez, há de se ressaltar, e está no próprio relatório do
Banco Central, foi criada por duas coisas, por mudança de regulação com a
pressão dos grandes bancos, que mudaram por duas vezes a regra do FGC, porque o
mercado se julga dono ali do fundo que é criado justamente para criar
competição no mercado", criticou.
"Essa
mudança pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde
2018, que a gente entregou para o Banco Central, ele era baseado no FGC. O
plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de
errado nisso, essa era a regra do jogo", completou.
Ainda
segundo Vorcaro, no momento da venda das carteiras de crédito problemáticas do
BRB, a compra e revenda de ativos havia se tornado a principal fonte de
captação do banco, representando de 70% a 80% de seu negócio, diante da
impossibilidade de captar através da emissão de títulos em plataformas de
investimento, em meio à crise de confiança que já rondava o banco.
"Nos
últimos trimestres, a originação e cessão de ativos tinha se tornado a
principal fonte de captação do banco, porque foi fechada as fontes originais de
captação, que eram as plataformas. No momento do anúncio do BRB, inclusive,
elas fecham-se por completo", disse.
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Ativos no exterior
Após
inicialmente desconversar quando questionado sobre se mantém ativos no
exterior, Vorcaro admitiu possuir "algumas contas correntes" fora do
país, além da holding (empresa controladora) do banco, nas Ilhas Cayman.
"Talvez
eu tenha sido uma das pessoas mais escrutinadas no Brasil antes dessa
operação", disse quando primeiro questionado sobre se tem ativos no
exterior.
"Tenho
todos os meus bens declarados, impostos altíssimos pagos ao longo do tempo,
porque já existia esse escrutínio por parte do próprio Banco Central, que
acompanha não só o banco, como a minha vida já há alguns anos."
Depois,
novamente questionado pela PF sobre bens no exterior, ele deu mais detalhes:
"Eu não consigo me recordar de todas as contas que eu possuo. Eu possuo a
holding do banco, que era proprietária do banco, nas Ilhas Cayman. Tinha sido
estruturada lá. E algumas contas correntes. Não me recordo de outra
coisa."
Mas
Vorcaro negou ter uma mansão em Miami (conforme noticiado pela imprensa à época
de sua prisão), dizendo apenas locar um imóvel na cidade da Flórida.
"Apesar
da mídia ter anunciado, não tem [casa em Miami]. Tenho locação de um imóvel
lá."
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Críticas à atuação do BC
Em
diversos pontos de seu depoimento, Vorcaro criticou a atuação do BC com relação
ao Master, dizendo não ter recebido comunicações de irregularidades, multas ou
outras penalidades entre o questionamento das operações de venda de carteiras
ao BRB em março de 2025 e sua prisão em novembro daquele ano.
"O
Banco Central me notifica em março e de repente em 17 de novembro sou preso,
sem nenhuma outra pergunta depois de março. É a dúvida que fica para mim,
porque o Banco Central não só sabia como acompanhou esse processo da aquisição
da Tirreno, da venda para o BRB, das trocas que foram feitas, do desfazimento e
não conclusão da operação", afirmou.
Ele
também disse que havia pessoas dentro do BC que eram contrárias a uma solução
de mercado (isto é, a venda do banco ou de seus ativos a investidores) para os
problemas do Master e que isso teria resultado na liquidação da instituição
financeira, o que, segundo ele, prejudicou todo o sistema financeiro.
"Dentro
do Banco Central, existiam pessoas que queriam uma solução de mercado, e
existiam outras pessoas, departamentos, que queriam que acontecesse o que
aconteceu [a liquidação do banco] e acabaram vencendo", afirmou.
"Acho
que essa é a grande questão. Então, talvez o Banco Central como um todo, na
minha opinião, não falhou, mas eu acho que algumas áreas e algumas pessoas
falharam muito, não só comigo, mas com o sistema financeiro", criticou.
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Venda de carteiras sem documentação completa
Vorcaro
admitiu ainda ter revendido as carteiras de crédito ao BRB sem ter a
documentação completa sobre os ativos.
"Na
verdade, a gente fez uma cessão, como várias outras que a gente tinha feito,
que ainda carecia da documentação completa. Mas a gente tinha responsabilidade
por qualquer vício formal pela ausência de documento, que, obviamente, quando
aconteceu, a gente acabou desfazendo [o negócio]", disse.
O
banqueiro argumentou, porém, que o Master não tinha ciência da falta de
documentos ao fazer o negócio com o BRB.
"Para
ser sincero, quando a gente fez o negócio, ainda não tinha essa ciência da
ausência da documentação. Eu fiquei sabendo posteriormente que não tinham vindo
todas as documentações e, a partir daí, a gente começa a ir atrás. Porque
também não foi uma ausência completa: existiu uma documentação base e tinham
coisas que estavam faltando", completou.
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Contradições sobre prejuízos ao BRB
Em
diversos pontos do depoimento, Vorcaro argumentou que não teria havido crime na
operação de venda das carteiras ao BRB, por ela ter sido desfeita
posteriormente, sem prejuízos ao banco público, segundo ele.
"Para
um crime ou para uma fraude acontecer, alguém tem que ter vantagem e outro tem
que ter prejuízo. Nesse caso, o BRB não teve prejuízo, nenhum cliente teve
prejuízo e o Banco Master não teve vantagem nesse negócio", argumentou.
O
diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino, lembrou em sua oitiva, no
entanto, que a reserva de recursos a ser feita pelo BRB para cobrir as perdas
com o Master pode chegar a quase R$ 5 bilhões.
O BC já
determinou que o banco do DF faça um provisionamento (reserva financeira) de R$
2,6 bilhões em seu balanço para cobrir perdas. E seriam necessários ainda
outros R$ 2,2 bilhões.
Durante
o depoimento de Vorcaro, os delegados da PF também questionaram a versão do
banqueiro de que a operação não teria existido, por ter sido posteriormente
revertida.
"Essas
carteiras chegaram a ser vendidas e, por problemas vários, foram trocadas por
títulos, por participativos. Outro tipo de ativo. Outro tipo de ativo, com
outro tipo de liquidez, muito menor liquidez do que a inicial", disse um
dos delegados.
"Então,
só para deixarmos claro, a operação existiu, o BRB efetivamente deu liquidez ao
Master em algum momento com R$12 bilhões e o Master trocou os bens que vendeu
ao BRB no meio do caminho e esses bens eram de liquidez distintas",
completou o delegado, mais à frente.
Ao que
Vorcaro respondeu: "Distintas e que, no meu entendimento, gerou resultados
para o próprio BRB ao longo desse ano."
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Tomada de decisão sobre venda de carteiras ao BRB
Vorcaro
também confirmou ter participado diretamente do processo de aprovação da
operação de venda de carteiras de terceiros aos BRB.
"Desde
2023 (...) até novembro de 2025, eu era o presidente. Então, todas as decisões
estratégicas de novos negócios e transações relevantes da instituição dependiam
da minha aprovação. Nesse caso específico, sim, era [responsável pela
aprovação] pela relevância das transações."
Vorcaro
afirmou também não ver anormalidade no fato de o Banco de Brasília ter tentado
comprar o Master mesmo depois de essa operação ter sido revertida após a
constatação de irregularidades.
"Se
o senhor fosse presidente do BRB, tentaria comprar um banco que já lhe havia
vendido, mais de uma vez, carteiras de crédito falsas?", questionou a
delegada Janaína Palazzo, da PF.
"Primeiro,
novamente, o banco não vendeu carteiras de crédito falsas para o BRB. E sim, se
eu fosse o BRB, compraria. E foi uma pena o negócio ter sido negado. Uma pena
para o mercado brasileiro, não só para o BRB", disse o banqueiro.
Fonte:
BBC News Brasil

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