Fórum
Social Mundial, 25 anos: O que mudou
Neste
janeiro de 2026 celebramos os 25 anos da primeira edição do Fórum Social
Mundial realizada em Porto Alegre e que se lançou como um espaço de resistência
e luta pela construção de um outro mundo possível, anticapitalista,
anti-imperialista e radicalmente democrático.
Neste
contexto de comemorações, é imprescindível refletirmos sobre o que é democracia
nos dias atuais. Democracia seria o presidente Trump mobilizar o exército
norte-americano contra seu próprio povo, com assassinatos, violências e
deportações? Democracia seria a invasão
e sequestro de um presidente eleito, Nicolás Maduro, e de sua companheira,
Cília Flores, em total desrespeito a soberania do povo venezuelano? Democracia
seria o abandono das mesas de diálogos e negociações das Nações Unidas e a
postura de xerife do mundo, praticada por Trump e seus asseclas? A resposta a
essa pergunta é fundamental para entendermos o momento crítico que vivemos.
Para
nós, democracia é o poder do povo, organizado e soberano, que decide sobre seu
futuro através de processos eleitorais e participativos, com responsabilidade e
sabedoria popular.
Hoje, o
que está em jogo é esse modelo de democracia participativa, presente em vários
países como Brasil, México, Colômbia, Uruguai, Cuba e Venezuela, onde o povo é
convocado a decidir seu destino, em contraposição a um modelo autoritário que
age única e exclusivamente em benefício do sistema capitalista, voltado para o
lucro a qualquer custo e em detrimento da preservação da natureza e da vida
humana. Trump e a extrema direita não representam a democracia, mas a face mais
cruel sanguinária das ditaduras.
O FSM
nasceu em tempos de desesperança. Naquela quadra histórica, vivíamos as
consequências da queda do muro de Berlin, ocorrida em 9 de novembro de 1989 e
da dissolução da União Soviética em 26 de dezembro de 1991. Em dois anos, duas
derrotas profundas para o campo anticapitalista e que foram apresentadas como
símbolo da vitória do capitalismo sobre a utopia socialista. Naquele momento
era apresentado um caminho único para a humanidade: o neoliberalismo defendido
pelo Fórum Econômico Mundial de Davos.
Neste
contexto de derrotas e de desilusões, o Fórum Social Mundial nasceu em Porto
Alegre, não como uma novidade de luta, mas como um espaço de encontros das
diversas lutas populares que já existiam. Ele se tornou um catalisador para a
resistência contra o pensamento único, reunindo forças que lutavam por um mundo
mais justo, democrático e igualitário. Essa iniciativa encontrou em Porto
Alegre um processo revolucionário, onde forças democráticas, de esquerda e
progressistas mobilizavam a cidadania para a conquistas de direitos, invertendo
prioridades na execução de políticas públicas e, através da democracia
participativa, confrontando, nos marcos da democracia burguesa, o poder
político e econômico das grandes elites capitalistas. Naquele 2001, em meio as
decepções da luta internacional anticapitalista, havia uma experiência concreta
que apontava para um outro mundo possível. Foi a prática inovadora que nos
mostrou o caminho. E assim nasceu o Fórum Social Mundial.
Mas o
mundo que gerou o FSM não existe mais. Vivemos uma era de extremos. A extrema
direita opera de forma global, com seu programa máximo que tem a exclusão e a
morte como modus operandi. O campo democrático e progressista em todo o mundo,
se vê forçado a alianças com as forças capitalistas e neoliberais que
necessitam da democracia burguesa. Há um ambiente de profunda incerteza e
desorganização. Contraditoriamente, a realidade atual nos demonstra que vivemos
um tempo em que há condições objetivas para a construção de uma sociedade
planetária que atenda as necessidades de todos os seres humanos. A evolução
tecnológica, que é fruto do trabalho humano, possui capacidade de produzir e
suprir as necessidades de alimentação, moradia, saúde, educação, mobilidade,
cultura e lazer em um planeta equilibrado e eficiente. O problema não é
econômico, tecnológico ou social. O problema é político.
No
entanto, nós, que somos a verdadeira alternativa para a humanidade,
permanecemos desarticulados e sem capacidade de uma reação planetária realmente
potente. Quando vamos cair na real que, para mudar esse quadro, é necessário
superar a fragmentação dos movimentos sociais e reconhecer que a luta não se
resume aos projetos individuais ou as pautas específicas?
Quando
vamos parar de disputar narrativas, priorizar os dissensos e as pautas que nos
desunem? Temos que aceitar que, unidos, podemos construir uma transição para
uma outra realidade, pós-capitalista, e defender a sobrevivência da humanidade
frente ao fascismo e este capitalismo apocalíptico. A China, o Brasil e o
México, com todas as suas contradições e dificuldades, nos mostram um caminho.
É hora
de incorporar as lições do passado e reunir forças em torno de estratégias
comuns que sejam capazes de construir uma verdadeira alternativa ao
capitalismo. Neste sentido, é preciso reconhecer que, para construir a unidade,
o Fórum Social Mundial é uma experiência válida, embora não seja a única. Há
inúmeros problemas e dissensos sobre como proceder. Mas precisamos exercitar a
paciência histórica. E, em termos históricos, 25 anos é quase nada. Como
processo ainda está engatinhando. Faz parte. As experiências das internacionais
socialistas, por exemplo, não tiveram a capacidade de impedir o avanço do
capitalismo neoliberal, no entanto, seguem gerando frutos para a luta
anti-imperialista até os dias de hoje.
Mas
estamos ficando sem tempo. Neste ano de 2026, há um desafio enorme para as
esquerdas que é a reeleição do Presidente Lula, a eleição de Iván Cepeda na
Colômbia e a derrota de Trump nas eleições de meio de mandato nos EUA. Mas
passa também, pela reconstrução e fortalecimento da articulação dos povos e
movimentos sociais latino-americanos em defesa de nossa soberania e pela
retomada do processo de articulação e mobilização da cidadania internacional em
defesa uma governança global multilateral e democrática. Diante desses
desafios, o Fórum Social Mundial em agosto 2026 no Benin se torna ainda mais
relevante, como um símbolo de resistência, de esperança e de reconstrução.
Porto Alegre, 25 anos depois, segue cumprindo sua missão internacionalista e
apoiando esse processo global ao realizar, de 26 a 29/3, a I Conferência
Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos. Nos encontraremos lá.
Pátria Livre! Venceremos!
Fonte:
Por Mauri Cruz, em Outras Palavras

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