segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Valerio Arcary: Cuba em perigo

A situação em Cuba mudou para pior, qualitativamente, após o ataque do passado 3 de janeiro e sequestro de Maduro e Cília Flores. A suspensão do abastecimento de petróleo venezuelano foi, parcialmente, compensada pelo Mexico, mas está ameaçada. A aposta de Trump é apertar o estrangulamento econômico para incendiar o mal-estar social, e ameaçou como iminente um desmoronamento do regime. A imprensa norte-americana divulgou declarações em off de autoridades em Washington confirmando a existência de um plano de derrubada do regime até o final de deste ano de 2026. Trump provocou anunciando ninguém menos que Marco Rubio, atual secretário de Estado, de família de origem cubana, como um bom nome para a presidência. Esta dramática avalanche coloca um desafio estratégico para a esquerda mundial, em especial a latino-americana. A defesa de Cuba diante do imperialismo é uma questão de princípios. O projeto de deslocamento do governo cubano é contrarrevolucionário. A queda do governo seria uma derrota histórica de impacto somente comparável ao fim da URSS em 1991. A restauração do capitalismo seria selvagem, e Cuba seria recolonizada.  Um protetorado norte-americano em Havana, semelhante à condição de Porto Rico seria devastador para toda a América Latina.

A situação interna em Cuba é de imensa penúria, infelizmente, cada vez mais parecida com os anos noventa do período “especial”. Os blackouts castigam a ilha com a falta de luz por várias horas ao dia, e nem sequer as grandes cidades são poupadas. A escassez é generalizada, desde alimentos até os medicamentos. A maioria da população vive em condições materiais de sacrifício. Ainda em 2024, Cuba pediu apoio ao PMA, o Programa Mundial de Alimentos da ONU, diante das necessidades das crianças. A pandemia produziu uma contração econômica estimada em mais de 10% do PIB. A crise sanitária reduziu a quase nada o turismo, e agudizou a escassez de divisas fortes, dólares e euros, essenciais para o financiamento de importações, e controle da inflação. Desde 2020 algo próximo um milhão de cubanos deixaram a ilha, na luta pela sobrevivência.

Por que esta terrível vulnerabilidade? Porque Cuba permanece, dramaticamente, cercada pelo bloqueio de Washington, agravado por novas sanções do governo Trump. Somente a 150km da Florida, Cuba conheceu o triunfo da primeira revolução socialista nas Américas em 1959, e até hoje ainda resiste como um Estado independente. O imperialismo yankee considera esta situação inaceitável. A burguesia cubana nos EUA é hoje muito mais forte do que era quando fugiu para os EUA. Ela é uma fração da classe dominante yankee, a mais poderosa do mundo. Ao contrário dos capitalistas chineses na diáspora ela recusou qualquer negociação com Cuba e mantém, irreconciliavelmente, a defesa do bloqueio. Descartada uma estratégia militar que resultaria em uma guerra civil, a aposta é um cruel, lento, e inflexível asfixiamento econômico para fomentar uma crise social e a subversão interna.

O isolamento de Cuba, agravado com a evolução desfavorável da relação política de forças no sistema mundial diante da ofensiva de Trump pela preservação da supremacia dos EUA, explica o contexto atual. Cuba não é uma prova de que o socialismo não dá certo, mas, exatamente, o contrário. Durante décadas, Cuba entusiasmou o mundo com façanhas sociais extraordinárias, atingindo resultados na educação e saúde pública muito superiores aos de países com muito mais riquezas naturais, e realizações científicas como o desenvolvimento autônomo de vacinas contra o coronavírus em tempo recorde. A propriedade social e o planejamento econômico provaram sua superioridade, em comparação com Estados capitalistas em estágio semelhante de desenvolvimento econômico-social.

Não faz sentido comparar Cuba com a Espanha. Mas é justo comparar Cuba com os vizinhos países centro-americanos ou caribenhos e o desempenho cubano foi, até o fim da URSS, um sucesso. O processo de transição pós-capitalista foi interrompido por muitos fatores. Mas a burguesia interna que veio se constituindo aproveitando oportunidades de negócios favorecidos pelo próprio governo, buscando aumentar a capacidade produtiva e, também, atrair investimentos externos, está fora do poder. Mas parece ser incontornável reconhecer que há uma fratura geracional em Cuba, depois de tantos anos de sacrifícios devastadores.

A estratégia de Trump é a subversão do regime provocada pelo estrangulamento externo. O mal estar social na ilha aumentou na medida que a vida foi ficando mais difícil. Mas as razões que podem levar as pessoas às ruas, mesmo quando são legítimas e compreensíveis, como em 2021, não são um fator suficiente para a caracterização de quaisquer mobilizações como progressivas. Ser de esquerda não nos obriga a apoiar qualquer mobilização. São quatro os critérios, na tradição marxista, para formar um juízo sobre a natureza de um protesto: quais são as reivindicações ou programa, qual é o sujeito social, quem cumpre o papel de sujeito político e quais são os resultados prováveis. Reivindicações justas não são o bastante. Se o sujeito social é popular tem importância, mas tampouco é o bastante. Se a direção é reacionária, ignorar o desfecho mais provável é uma leviandade. Trata-se de objetivismo. Objetivismo é a desvalorização do papel da direção e a desconsideração do desenlace que ela procura. A luta pelo poder é o coração da luta de classes. Uma desestabilização do governo cubano para devolver a ilha para a burguesia de Miami seria uma tragédia histórica.

Em Cuba a alternativa não é entre ditadura e democracia, mas, como na Venezuela e Irã, entre independência ou recolonização. Defender Cuba diante das pressões imperialistas não justifica alinhamento incondicional com ações do governo do Partido Comunista liderado por Diaz-Canel. Ao contrário, uma atitude solidária internacionalista honesta deve ser crítica, tanto na estratégia quanto na tática. O que significa que aqueles que defendem a revolução devem poder exercer os direitos democráticos de expressão. Inclusive diante de pressões burocráticas perigosas.

Em dezembro de 2025, mês passado, Alejandro Gil, ex-ministro da Economia de Cuba, foi condenado à prisão perpétua. As acusações incluem espionagem, corrupção, suborno e crimes econômicos, segundo o Supremo Tribunal Popular de Cuba. Ele teria abusado de sua função para benefício pessoal e facilitado informações a entidades estrangeiras. Ainda assim, a sobrevivência de Cuba é uma prova impressionante das façanhas realizadas pela revolução até os anos noventa. A maioria dos Estados que conquistaram independência política na onda de revoluções anti-imperialistas que se seguiram à vitória da revolução chinesa e cubana perdeu esta conquista: Argélia e Egito são exemplos, desta regressão histórica, posterior a 1991. Neste marco a responsabilidade do Brasil e, em outra escala, da China na solidariedade é inescapável. Cuba está em perigo.

•        EUA buscam "sufocar" Cuba sem petróleo de México e Venezuela

O presidente Donald Trump assinou nesta sexta-feira (30/01) uma ordem executiva que estabelece que os Estados Unidospoderão impor tarifas a bens provenientes de países que vendam ou forneçam petróleo para Cuba. A medida vem como uma aparente tentativa de sufocar o suprimento energético da ilha caribenha, que até há pouco se estimava depender em grande medida de México e Venezuela, dois aliados na América Latina.

O republicano aumenta a pressão principalmente sobre o México , que a Casa Branca quer ver se distanciar dos cubanos. O país funciona atualmente como uma espécie de tábua de salvação para Cuba, depois de ter aumentado o fornecimento de combustíveis para o aliado no governo do presidente Andrés Manuel López Obrador, entre 2018 e 2024.

No início do mês, Trump já anunciara que pretendia suspender o envio de petróleo da Venezuela a Cuba. A produção petrolífera está no centro da crise política que levou à captura de Nicolás Maduro, levado por agentes americanos para Nova York.

"Considero que a situação em relação a Cuba constitui uma ameaça incomum e extraordinária para a segurança nacional e a política externa dos EUA", disse Trump no documento assinado nesta sexta-feira, declarando "emergência nacional". A Casa Branca acusa o governo cubano de se alinhar a seus adversários, perseguir opositores, restringir liberdades e outras violações de direitos.

<><> Dependência de aliados

O governo cubano divulga dados limitados sobre contratos com países aliados e as importações de combustíveis, mas estima-se que o México seja responsável por quase 45% do fornecimento de petróleo bruto para a ilha. 

Em seu relatório mais recente, a estatal petrolífera mexicana Pemex informou ter enviado quase 20 mil barris por dia a Cuba entre janeiro e 30 de setembro de 2025. O governo mexicano tem manifestado solidariedade aos cubanos e, ao mesmo tempo, a presidente Claudia Sheinbaum busca construir uma relação forte com Trump.

Em setembro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, visitou a Cidade do México. Depois disso, Jorge Piñon, especialista do Instituto de Energia da Universidade do Texas que monitora os envios por tecnologia satelital, reportou que o número havia caído para cerca de 7 mil barris ao dia.

Já a Venezuela era, até o ano passado, apontada como a segunda grande fornecedora de barris, responsável por cerca de um terço do total enviado para os cubanos, seguida pela Rússia. Os carregamentos são, ainda assim, insuficientes para abastecer a ilha, que depende das importações de combustíveis.

Uma queda abrupta de cerca de 30% na disponibilidade de combustível na ilha, que representa aproximadamente o vazio deixado por Caracas, resultaria em redução de 27% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo cálculo do economista cubano Miguel Alejandro Hayes. O estudou também previu aumento de 60% nos preços dos alimentos e de 75% nos do transporte, além de queda de 30% no consumo das famílias.

<><> Em cima do muro

A última semana já havia sido marcada por especulações de que o México reduziria drasticamente os envios de petróleo a Cuba como resultado da crescente pressão dos EUA.

Sheinbaum tem sido vaga ou ambígua sobre o tema. A presidente disse, na terça-feira, que a Pemex havia, ao menos temporariamente, pausado alguns envios a Cuba. Segundo ela, a pausa fazia parte de flutuações gerais e se tratava de uma "decisão soberana", e não tomada sob pressão dos EUA.

Ela negou, no dia seguinte, que tivesse dito que o México havia "suspendido" completamente os envios, afirmando que as decisões sobre o tema são determinadas por contratos da Pemex. Disse, ainda, que o país continuaria enviando ajuda humanitária, e o governo ainda decidiria se isso incluiria petróleo bruto.

Trump e Sheinbaum conversaram por telefone na manhã de quinta-feira. Segundo a mexicana, Cuba não foi tema na ligação. As diplomacias dos dois países estariam em contato sobre o tema, segundo ela, com o México disposto a atuar como intermediário entre EUA e Cuba.

A pressão sobre o México coincide com a revisão, neste ano, do tratado comercial que o país latino-americano mantém com Estados Unidos e Canadá.

Nesta sexta, após a ordem executiva de Trump, Sheinbaum declarou que seu país procuraria soluções diplomáticas e alternativas para ajudar Cuba, e que discutiria o assunto com representantes da Casa Branca.

Segundo ela, as tarifas de Trump arriscam desencadear uma "crise humanitária abrangente, afetando diretamente hospitais, comida e outros serviços básicos para a população cubana". " Uma situação que precisa ser evitada", afirmou, frisando ao mesmo tempo não querer "botar nosso país em risco em termos de tarifas".

<><> Pressão política

Com o fim do envio do petróleo de Venezuela e México, a Casa Branca espera forçar uma mudança de regime em Cuba, que vive uma crise econômica e social. Desde a captura de Maduro, Trump ameaça o presidente Miguel Díaz-Canel, sucessor de Raúl Castro, afirmando que o seu governo está com os dias contados.

O fornecimento de petróleo é tema sensível para a economia cubana. As importações de combustíveis são necessárias para manter um sistema elétrico já fragilizado.

Os apagões são um problema crônico, que se intensificou em janeiro, desde a operação americana na Venezuela. Em amplas regiões do país, os blecautes superam 20 horas diárias.

Cálculos independentes estimam que Cuba precise atualmente de cerca de 110 mil barris de petróleo por dia. Poços na costa norte da ilha produzem 40 mil barris diários, sendo necessário importar os 70 mil restantes. A falta de divisas impede que a cifra seja alcançada.

<><> Cuba critica "coerção tarifária"

O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos F. de Cossio, escreveu na rede social X que os EUA estão reforçando seu bloqueio contra Cuba após "décadas de fracasso de uma guerra econômica implacável" e tentando "forçar Estados soberanos a aderirem ao embargo".

"Sob ameaça de coerção tarifária, eles devem decidir se renunciam ao direito de exportar seu próprio combustível para Cuba", escreveu ele.

Não se sabe com certeza se Cuba fecha acordos de colaboração para enviar pessoal médico a outros países em troca de combustíveis. Ou, ainda, se há alternativas em vigor, como compromisso de pagamentos via crédito, doações ou cobranças abaixo do preço do mercado.

Uma investigação do The New York Times já afirmou que Cuba revendia à China parte do petróleo que recebia da Venezuela como forma de obter divisas, diante da queda vertiginosa do turismo e das remessas.

 

Fonte: Outras Palavras/DW Brasil

 

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