Valerio
Arcary: Cuba em perigo
A
situação em Cuba mudou para pior, qualitativamente, após o ataque do passado 3
de janeiro e sequestro de Maduro e Cília Flores. A suspensão do abastecimento
de petróleo venezuelano foi, parcialmente, compensada pelo Mexico, mas está
ameaçada. A aposta de Trump é apertar o estrangulamento econômico para
incendiar o mal-estar social, e ameaçou como iminente um desmoronamento do
regime. A imprensa norte-americana divulgou declarações em off de autoridades
em Washington confirmando a existência de um plano de derrubada do regime até o
final de deste ano de 2026. Trump provocou anunciando ninguém menos que Marco
Rubio, atual secretário de Estado, de família de origem cubana, como um bom
nome para a presidência. Esta dramática avalanche coloca um desafio estratégico
para a esquerda mundial, em especial a latino-americana. A defesa de Cuba
diante do imperialismo é uma questão de princípios. O projeto de deslocamento
do governo cubano é contrarrevolucionário. A queda do governo seria uma derrota
histórica de impacto somente comparável ao fim da URSS em 1991. A restauração
do capitalismo seria selvagem, e Cuba seria recolonizada. Um protetorado norte-americano em Havana,
semelhante à condição de Porto Rico seria devastador para toda a América
Latina.
A
situação interna em Cuba é de imensa penúria, infelizmente, cada vez mais
parecida com os anos noventa do período “especial”. Os blackouts castigam a
ilha com a falta de luz por várias horas ao dia, e nem sequer as grandes
cidades são poupadas. A escassez é generalizada, desde alimentos até os
medicamentos. A maioria da população vive em condições materiais de sacrifício.
Ainda em 2024, Cuba pediu apoio ao PMA, o Programa Mundial de Alimentos da ONU,
diante das necessidades das crianças. A pandemia produziu uma contração
econômica estimada em mais de 10% do PIB. A crise sanitária reduziu a quase
nada o turismo, e agudizou a escassez de divisas fortes, dólares e euros,
essenciais para o financiamento de importações, e controle da inflação. Desde
2020 algo próximo um milhão de cubanos deixaram a ilha, na luta pela
sobrevivência.
Por que
esta terrível vulnerabilidade? Porque Cuba permanece, dramaticamente, cercada
pelo bloqueio de Washington, agravado por novas sanções do governo Trump.
Somente a 150km da Florida, Cuba conheceu o triunfo da primeira revolução
socialista nas Américas em 1959, e até hoje ainda resiste como um Estado
independente. O imperialismo yankee considera esta situação inaceitável. A
burguesia cubana nos EUA é hoje muito mais forte do que era quando fugiu para
os EUA. Ela é uma fração da classe dominante yankee, a mais poderosa do mundo.
Ao contrário dos capitalistas chineses na diáspora ela recusou qualquer
negociação com Cuba e mantém, irreconciliavelmente, a defesa do bloqueio.
Descartada uma estratégia militar que resultaria em uma guerra civil, a aposta
é um cruel, lento, e inflexível asfixiamento econômico para fomentar uma crise
social e a subversão interna.
O
isolamento de Cuba, agravado com a evolução desfavorável da relação política de
forças no sistema mundial diante da ofensiva de Trump pela preservação da
supremacia dos EUA, explica o contexto atual. Cuba não é uma prova de que o
socialismo não dá certo, mas, exatamente, o contrário. Durante décadas, Cuba
entusiasmou o mundo com façanhas sociais extraordinárias, atingindo resultados
na educação e saúde pública muito superiores aos de países com muito mais
riquezas naturais, e realizações científicas como o desenvolvimento autônomo de
vacinas contra o coronavírus em tempo recorde. A propriedade social e o
planejamento econômico provaram sua superioridade, em comparação com Estados
capitalistas em estágio semelhante de desenvolvimento econômico-social.
Não faz
sentido comparar Cuba com a Espanha. Mas é justo comparar Cuba com os vizinhos
países centro-americanos ou caribenhos e o desempenho cubano foi, até o fim da
URSS, um sucesso. O processo de transição pós-capitalista foi interrompido por
muitos fatores. Mas a burguesia interna que veio se constituindo aproveitando
oportunidades de negócios favorecidos pelo próprio governo, buscando aumentar a
capacidade produtiva e, também, atrair investimentos externos, está fora do
poder. Mas parece ser incontornável reconhecer que há uma fratura geracional em
Cuba, depois de tantos anos de sacrifícios devastadores.
A
estratégia de Trump é a subversão do regime provocada pelo estrangulamento
externo. O mal estar social na ilha aumentou na medida que a vida foi ficando
mais difícil. Mas as razões que podem levar as pessoas às ruas, mesmo quando
são legítimas e compreensíveis, como em 2021, não são um fator suficiente para
a caracterização de quaisquer mobilizações como progressivas. Ser de esquerda
não nos obriga a apoiar qualquer mobilização. São quatro os critérios, na
tradição marxista, para formar um juízo sobre a natureza de um protesto: quais
são as reivindicações ou programa, qual é o sujeito social, quem cumpre o papel
de sujeito político e quais são os resultados prováveis. Reivindicações justas
não são o bastante. Se o sujeito social é popular tem importância, mas tampouco
é o bastante. Se a direção é reacionária, ignorar o desfecho mais provável é
uma leviandade. Trata-se de objetivismo. Objetivismo é a desvalorização do
papel da direção e a desconsideração do desenlace que ela procura. A luta pelo
poder é o coração da luta de classes. Uma desestabilização do governo cubano
para devolver a ilha para a burguesia de Miami seria uma tragédia histórica.
Em Cuba
a alternativa não é entre ditadura e democracia, mas, como na Venezuela e Irã,
entre independência ou recolonização. Defender Cuba diante das pressões
imperialistas não justifica alinhamento incondicional com ações do governo do
Partido Comunista liderado por Diaz-Canel. Ao contrário, uma atitude solidária
internacionalista honesta deve ser crítica, tanto na estratégia quanto na
tática. O que significa que aqueles que defendem a revolução devem poder
exercer os direitos democráticos de expressão. Inclusive diante de pressões
burocráticas perigosas.
Em
dezembro de 2025, mês passado, Alejandro Gil, ex-ministro da Economia de Cuba,
foi condenado à prisão perpétua. As acusações incluem espionagem, corrupção,
suborno e crimes econômicos, segundo o Supremo Tribunal Popular de Cuba. Ele
teria abusado de sua função para benefício pessoal e facilitado informações a
entidades estrangeiras. Ainda assim, a sobrevivência de Cuba é uma prova
impressionante das façanhas realizadas pela revolução até os anos noventa. A
maioria dos Estados que conquistaram independência política na onda de
revoluções anti-imperialistas que se seguiram à vitória da revolução chinesa e
cubana perdeu esta conquista: Argélia e Egito são exemplos, desta regressão
histórica, posterior a 1991. Neste marco a responsabilidade do Brasil e, em outra
escala, da China na solidariedade é inescapável. Cuba está em perigo.
• EUA buscam "sufocar" Cuba sem
petróleo de México e Venezuela
O
presidente Donald Trump assinou nesta sexta-feira (30/01) uma ordem executiva
que estabelece que os Estados Unidospoderão impor tarifas a bens provenientes
de países que vendam ou forneçam petróleo para Cuba. A medida vem como uma
aparente tentativa de sufocar o suprimento energético da ilha caribenha, que
até há pouco se estimava depender em grande medida de México e Venezuela, dois
aliados na América Latina.
O
republicano aumenta a pressão principalmente sobre o México , que a Casa Branca
quer ver se distanciar dos cubanos. O país funciona atualmente como uma espécie
de tábua de salvação para Cuba, depois de ter aumentado o fornecimento de
combustíveis para o aliado no governo do presidente Andrés Manuel López
Obrador, entre 2018 e 2024.
No
início do mês, Trump já anunciara que pretendia suspender o envio de petróleo
da Venezuela a Cuba. A produção petrolífera está no centro da crise política
que levou à captura de Nicolás Maduro, levado por agentes americanos para Nova
York.
"Considero
que a situação em relação a Cuba constitui uma ameaça incomum e extraordinária
para a segurança nacional e a política externa dos EUA", disse Trump no
documento assinado nesta sexta-feira, declarando "emergência
nacional". A Casa Branca acusa o governo cubano de se alinhar a seus
adversários, perseguir opositores, restringir liberdades e outras violações de
direitos.
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Dependência de aliados
O
governo cubano divulga dados limitados sobre contratos com países aliados e as
importações de combustíveis, mas estima-se que o México seja responsável por
quase 45% do fornecimento de petróleo bruto para a ilha.
Em seu
relatório mais recente, a estatal petrolífera mexicana Pemex informou ter
enviado quase 20 mil barris por dia a Cuba entre janeiro e 30 de setembro de
2025. O governo mexicano tem manifestado solidariedade aos cubanos e, ao mesmo
tempo, a presidente Claudia Sheinbaum busca construir uma relação forte com
Trump.
Em
setembro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, visitou a Cidade do
México. Depois disso, Jorge Piñon, especialista do Instituto de Energia da
Universidade do Texas que monitora os envios por tecnologia satelital, reportou
que o número havia caído para cerca de 7 mil barris ao dia.
Já a
Venezuela era, até o ano passado, apontada como a segunda grande fornecedora de
barris, responsável por cerca de um terço do total enviado para os cubanos,
seguida pela Rússia. Os carregamentos são, ainda assim, insuficientes para
abastecer a ilha, que depende das importações de combustíveis.
Uma
queda abrupta de cerca de 30% na disponibilidade de combustível na ilha, que
representa aproximadamente o vazio deixado por Caracas, resultaria em redução
de 27% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo cálculo do economista cubano
Miguel Alejandro Hayes. O estudou também previu aumento de 60% nos preços dos
alimentos e de 75% nos do transporte, além de queda de 30% no consumo das
famílias.
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Em cima do muro
A
última semana já havia sido marcada por especulações de que o México reduziria
drasticamente os envios de petróleo a Cuba como resultado da crescente pressão
dos EUA.
Sheinbaum
tem sido vaga ou ambígua sobre o tema. A presidente disse, na terça-feira, que
a Pemex havia, ao menos temporariamente, pausado alguns envios a Cuba. Segundo
ela, a pausa fazia parte de flutuações gerais e se tratava de uma "decisão
soberana", e não tomada sob pressão dos EUA.
Ela
negou, no dia seguinte, que tivesse dito que o México havia
"suspendido" completamente os envios, afirmando que as decisões sobre
o tema são determinadas por contratos da Pemex. Disse, ainda, que o país
continuaria enviando ajuda humanitária, e o governo ainda decidiria se isso
incluiria petróleo bruto.
Trump e
Sheinbaum conversaram por telefone na manhã de quinta-feira. Segundo a
mexicana, Cuba não foi tema na ligação. As diplomacias dos dois países estariam
em contato sobre o tema, segundo ela, com o México disposto a atuar como
intermediário entre EUA e Cuba.
A
pressão sobre o México coincide com a revisão, neste ano, do tratado comercial
que o país latino-americano mantém com Estados Unidos e Canadá.
Nesta
sexta, após a ordem executiva de Trump, Sheinbaum declarou que seu país
procuraria soluções diplomáticas e alternativas para ajudar Cuba, e que
discutiria o assunto com representantes da Casa Branca.
Segundo
ela, as tarifas de Trump arriscam desencadear uma "crise humanitária
abrangente, afetando diretamente hospitais, comida e outros serviços básicos
para a população cubana". " Uma situação que precisa ser
evitada", afirmou, frisando ao mesmo tempo não querer "botar nosso
país em risco em termos de tarifas".
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Pressão política
Com o
fim do envio do petróleo de Venezuela e México, a Casa Branca espera forçar uma
mudança de regime em Cuba, que vive uma crise econômica e social. Desde a
captura de Maduro, Trump ameaça o presidente Miguel Díaz-Canel, sucessor de
Raúl Castro, afirmando que o seu governo está com os dias contados.
O
fornecimento de petróleo é tema sensível para a economia cubana. As importações
de combustíveis são necessárias para manter um sistema elétrico já fragilizado.
Os
apagões são um problema crônico, que se intensificou em janeiro, desde a
operação americana na Venezuela. Em amplas regiões do país, os blecautes
superam 20 horas diárias.
Cálculos
independentes estimam que Cuba precise atualmente de cerca de 110 mil barris de
petróleo por dia. Poços na costa norte da ilha produzem 40 mil barris diários,
sendo necessário importar os 70 mil restantes. A falta de divisas impede que a
cifra seja alcançada.
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Cuba critica "coerção tarifária"
O
vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos F. de Cossio, escreveu na
rede social X que os EUA estão reforçando seu bloqueio contra Cuba após
"décadas de fracasso de uma guerra econômica implacável" e tentando
"forçar Estados soberanos a aderirem ao embargo".
"Sob
ameaça de coerção tarifária, eles devem decidir se renunciam ao direito de
exportar seu próprio combustível para Cuba", escreveu ele.
Não se
sabe com certeza se Cuba fecha acordos de colaboração para enviar pessoal
médico a outros países em troca de combustíveis. Ou, ainda, se há alternativas
em vigor, como compromisso de pagamentos via crédito, doações ou cobranças
abaixo do preço do mercado.
Uma
investigação do The New York Times já afirmou que Cuba revendia à China parte
do petróleo que recebia da Venezuela como forma de obter divisas, diante da
queda vertiginosa do turismo e das remessas.
Fonte:
Outras Palavras/DW Brasil

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