Nádia
Pontes: Tragédia de Mariana - dez anos de dor, luta e resiliência
Dispersas
pelos morros, as casas recém-acabadas se destacam na paisagem ainda dominada
por vegetação. Elas formam o bairro mais novo de Mariana, em Minas Gerais,
feito para abrigar quem perdeu tudo para os rejeitos da mineração produzidos
por Samarco, Vale e BHP Billiton em 5 de novembro de 2015.
Foram
quase dez anos de espera para Alexandra Sales. No novo endereço, uma casa de
esquina, não há lembranças do antigo lar, que ficava em Paracatu de Baixo. Tudo
foi soterrado pela lama após o rompimento da barragem de Fundão.
"O
processo demorou muito. Eu gostava muito da minha casa, preferiria o antes. Mas
isso não posso ter. Agora é se adaptar a esta nova vida, a este novo lugar, que
é bem diferente do que a gente tinha", conta Sales.
A
disposição das construções no novo Paracatu é quase a mesma do antigo povoado.
A mãe de Sales está na casa ao lado, a escola fica na praça à frente, num
prédio mais moderno, com laboratórios, mas só oito alunos frequentam as aulas
por enquanto.
A
unidade em Paracatu de Baixo era cheia de estudantes. As ruínas no antigo
distrito ainda estão à mostra, com banheiros e salas marcados por rejeitos. As
mesas, cadeiras e livros estão revirados, cercados por mato alto, gado solto e
carrapatos.
No novo
Paracatu, as hortas nos fundos dos terrenos, o vai e vem dos moradores e o
senso de comunidade desapareceram. A longa batalha por reparação e pagamentos
indenizatórios trouxeram também uma rivalidade velada. "Eu gostava da vida
saudável que a gente tinha. A comunidade era mais unida, tinha a parte humana
de um ajudar o outro. A vida era simples, mas gostosa", detalha Sales.
Ela
estava grávida quando a onda de rejeitos varreu a região e passaria os dias
restantes da gestação num quarto de hotel provisório, vivendo de doações.
Salles ainda se lembra do barulho e cheiro de enxofre quando o tsunami passou
por Paracatu de Baixo, já na escuridão daquela quinta-feira. Era o som de 44,5
milhões de metros cúbicos de lama, que chegaram pelo rio Doce foram até o
Oceano Atlântico, no Espírito Santo. A tragédia deixou 19 mortos e mudou a vida
de mais de 1 milhão de pessoas.
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Dez anos sem paz
Para as
famílias deslocadas após a tragédia, a última década foi de batalha. Luzia
Queiroz, da Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão, conta que brigou
muito para que os direitos fossem respeitados pelas mineradoras ao mesmo tempo
em que lidava com o medo de não ter onde morar, de ter perdido tudo depois de
uma vida de trabalho.
"Nós
brigamos para termos um projeto individualizado para construção das casas. E
isso ainda não acabou: agora lidamos com diversos problemas como trincas,
pintura que descasca como papel, entupimento e outros", afirma Queiroz,
que acabou de se mudar para o novo Paracatu.
A
negociação após a tragédia foi com a Fundação Renova, criada com dinheiro das
mineradoras para cuidar da reparação. No fim de 2024, ela foi extinta por
efeito do acordo de R$ 100 bilhões firmado entre empresas e diversos órgãos do
governo, que passou a gerir os recursos direcionados aos programas de
reparação.
Quando
precisam resolver alguma pendência sobre o novo lar, os atingidos se dirigem à
Samarco. À DW, a mineradora disse que entregou 367 casas nos dois novos bairros
e seis estão em construção.
Algumas
famílias atingidas preferiram não viver mais no município e escolheram uma
residência em outra região. Essas casas também foram pagas pela mineradora. A
Samarco não informou quantos seguiram esta opção.
A área
que abrigava a antiga barragem, o Vale do Fundão, é monitorada 24 horas por
dia. Os rejeitos remanescentes do rompimento estão contidos por estruturas
reforçadas, afirma a empresa.
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"Não está ruim, mas bom não está"
No novo
Bento Rodrigues, algumas casas já passam por pequenos reparos, outras ainda
estão em construção. As primeiras moradias foram entregues em 2023. O
reassentamento se assemelha a um condomínio de alto padrão moderno, com um
visual diferente do antigo povoado, fundado há 300 anos e destruído pelos
rejeitos.
Igrejas,
praças, posto de saúde, escola e campo de futebol estão à disposição dos
moradores, mas praticamente não se vê pessoas transitando pelas ruas
pavimentadas sobre os morros. Raimundo Alves, 83 anos, não se sente confiante
para caminhar fora de casa. "No antigo Bento era tudo plano, aqui é
diferente. As pessoas mudaram muito também, e a gente não conhece mais os
vizinhos", diz sentado numa das cadeiras de sua sala.
É perto
da hora do almoço. A esposa de Alves, Geralda Alves, prepara algumas hortaliças
na cozinha que vieram do enorme quintal em aclive. Mandioca e alguns legumes
não crescem ali, por mais que seu Raimundo, acostumado a plantar, tenha
tentado. "Não posso dizer que está ruim, mas bom também não está. Eu tento
não pensar muito", afirma.
Dona
Geralda conta que antigos moradores retornam sempre às ruínas de Bento
Rodrigues, mas ela não vai por achar tudo muito triste. A imagem da casa onde
morava com a família sendo levada pela lama ainda é fresca na cabeça, um
acontecimento que quase a paralisou durante a correria de toda a vizinhança
para escapar.
No novo
Bento, a circulação visível é de homens uniformizados da construção civil,
empregados nas obras ainda em andamento. São esses trabalhadores que movimentam
o único restaurante do bairro, de portas abertas há dois anos. Darlisa Eusébio
serve almoço todos os dias ali, com a ajuda do filho e do irmão.
"Estou
contente de voltar a trabalhar. Lá no antigo Bento os moradores eram meus
clientes. Aqui nem abro no fim de semana porque não tem movimento", conta
Eusébio enquanto serve um cliente.
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"Para lá eu não vou"
Próxima
à praça mais central, a casa de dois andares feita para José do Nascimento de
Jesus, seu Zezinho, como é conhecido, está em reforma. Ninguém nunca morou lá.
Os reparos são feitos a pedido do novo dono, que comprou o imóvel de seu
Zezinho e da companheira há poucos meses.
Aos
olhos de seu Zezinho, o reassentamento é cheio de defeitos. No celular, ele
mostra as trincas, paredes com tinta descascando, critica as técnicas de
construção usadas. "Para lá eu não vou", diz no endereço que tem
vivido nos últimos nove anos, decidido a não se mudar para o reassentamento do
qual acompanhou de perto toda a construção.
Às
vésperas de completar 80 anos, ele mora sozinho num apartamento que decidiu
comprar na parte urbana de Mariana. Com um marcapasso no coração, ele ainda
toca violão nas missas e festejos religiosos e vende biscoitos pela cidade.
Do
antigo Bento Rodrigues a única lembrança material é uma foto ampliada pendurada
na parede da sala. A imagem mostra um banco feito por seu Zezinho, que
construiu 37 casas do povoado destruído há dez anos.
• Brumadinho, crime sem consequências. Por
Philipp Lichterbeck
Há
poucos dias, apareceram no meu feed de notícias sugestões de investimento.
Ações brasileiras eram promovidas como boas apostas – especialmente os papéis
da gigante da mineração Vale , apresentados como promessa de alta
rentabilidade. É uma ironia histórica que essa recomendação tenha surgido
justamente nesta semana. Mais uma vez, ficou evidente a irrelevância da
responsabilidade social e da proteção ambiental na precificação bursátil das
grandes corporações.
Na
manhã de 25 de janeiro de 2019, há exatamente sete anos, 270 pessoas saíram de
casa para trabalhar na mina Córrego do Feijão, da Vale, próxima ao município de
Brumadinho , em Minas Gerais. À tarde, estavam soterradas e mutiladas por uma
avalanche de rejeitos. Naquele dia, por volta da hora do almoço, a barragem do
reservatório B1, que continha rejeitos líquidos de mineração, se rompeu. A lama
desceu a encosta, atravessou um vale, arrastou pessoas, árvores, casas e uma
ponte ferroviária, até atingir o rio Paraopeba. Ficou claro depois que a Vale
não havia assegurado a estabilidade da barragem, apesar de alertas prévios.
Já
naquela época, a Vale rejeitou qualquer responsabilidade. A empresa afirmou que
o rompimento ocorreu sem sinais de alerta. Relatórios internos da própria
mineradora contradiziam essa versão, ao mencionar o risco de colapso da
barragem em Brumadinho. Haviam sido identificados processos de erosão no
interior do reservatório. Mas a diretoria ignorou os alertas. O volume de
rejeitos não foi reduzido e nem os trabalhadores foram informados.
Muitos
estavam no refeitório da empresa quando a barragem se rompeu – entre eles, duas
mulheres grávidas. Não tiveram chance de escapar. As sirenes de emergência
permaneceram inoperantes, porque não haviam recebido manutenção. Imagens de
câmeras de segurança mostram veículos e pessoas sendo engolidos pela lama. Os
corpos foram despedaçados; de muitas vítimas, encontraram-se apenas membros
isolados.
Após o
desastre, helicópteros sobrevoaram Brumadinho durante semanas, com sacos
mortuários pendurados. Crianças da cidade passaram a desenhar essas cenas. Foi
uma das maiores catástrofes da história do Brasil – para os familiares,
trata-se de um crime.
Durante
sete anos, bombeiros, com cães farejadores, vasculharam os rejeitos em busca
dos restos mortais das vítimas. Justamente nesta semana, as buscas foram
encerradas. Partes dos corpos de duas vítimas nunca foram localizadas. Para
seus familiares, não haverá encerramento possível. Quando estive em Brumadinho,
alguns anos atrás, ouvi repetidamente o quanto era importante poder sepultar os
corpos, como condição mínima para encontrar paz.
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Sarcasmo histórico
Há
também uma ironia – ou melhor, um sarcasmo histórico – no fato de que, nesta
mesma semana, a Vale tenha suspendido atividades em duas minas em Minas Gerais,
após novos rompimentos de barragens, com rejeitos voltando a contaminar cursos
d'água.
Até
hoje, nenhum responsável foi condenado pelo crime de Brumadinho. Há, no
entanto, dois processos em andamento. Um deles tramita em Munique , contra a
TÜV Süd, empresa alemã de certificação técnica. Cerca de 1,2 mil vítimas,
incluindo familiares dos mortos na tragédia, processam a companhia e depositam
na Justiça alemã a expectativa de um julgamento mais justo do que no Brasil.
Em
setembro de 2018, peritos da TÜV Süd atestaram a estabilidade da barragem em
Brumadinho. Posteriormente, dois funcionários da empresa declararam que a Vale
exercera pressão para obter um parecer positivo. Eles cederam à exigência
criminosa da mineradora.
Ainda
assim, a Vale insiste em classificar o rompimento como um acidente trágico,
buscando evitar consequências penais. Mas indenizações elevadas ou multas não
comprometeriam a empresa. A Vale é uma das cinco maiores mineradoras do mundo e
teve um lucro líquido de 6,1 bilhões de dólares em 2024.
Um dos
promotores que investigaram o caso comparou a Vale a uma organização mafiosa.
Informações sensíveis, segundo ele, deixariam de ser registradas a partir de
determinado nível hierárquico. Como numa máfia, torna-se impossível provar que
os executivos tinham conhecimento direto das práticas adotadas em Brumadinho.
O
presidente da Vale à época da catástrofe era Fabio Schvartsman. Pouco dias após
o desastre, ele propôs um acordo extrajudicial à procuradora-geral da
República. A Vale seria "uma joia brasileira", afirmou, e não deveria
ser condenada por um "acidente", por maior que fosse.
A
política brasileira, da esquerda à direita, mantém até hoje uma postura
complacente em relação à empresa. A Vale é a maior produtora mundial de minério
de ferro, fornecendo, entre outros, à China, insumo essencial para a produção
de aço. Em Minas Gerais, é uma empregadora central.
Poucos
políticos ousam exigir responsabilização efetiva. E em vez de aprendizado,
repete-se o padrão brasileiro da negligência. O Congresso aprovou recentemente
o projeto de lei que ficou conhecido como PL da Devastação , que praticamente
elimina a fiscalização estatal e o licenciamento de projetos de mineração.
Um dos
parlamentares que se opôs frontalmente à lei é Pedro Aihara. À época, ele
atuava como bombeiro em Brumadinho. Na plataforma X, escreveu: "O
desastre/crime de Brumadinho não começou no rompimento da barragem. Ele é o
resultado de um sistema que falha em fiscalizar e que precifica a vida humana
abaixo do lucro. (...) Brumadinho exige memória, responsabilidade e ação
permanente."
Fonte:
DW Brasil

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