segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Peru: após irrelevância no Parlamento, José Jerí faz presidência fraca a serviço das máfias

Na medida em que passam as horas, vai se deteriorando ainda mais a magra figura de Juan José Jerí Oré, o fugaz inquilino do Palácio de Governo do Peru que chegou a tão alta investidura estritamente por obra do acaso.

Candidatou-se ao Congresso em 2021, mas não foi eleito. Porém,a Máfia conseguiu inabilitar Martín Vizcarra, que havia obtido a maior votação parlamentar naquele pleito, e uma vaga ficou “disponível”. Ela foi atribuída a Jerí porque ele era “suplente” na representação parlamentar do “Somos Perú”, a legenda usada naquela circunstância para participar da eleição daquele ano. Assim, obteve uma cadeira no Parlamento.

Não teve uma presença destacada nem reconhecida. Passou despercebido e cumpriu apenas funções burocráticas e administrativas. Dele não partiu, em quatro anos de atividade legislativa, sequer um projeto de lei, uma intervenção relevante, um discurso consistente, uma investigação séria, uma fiscalização — nada.

Presidiu, no entanto, a Comissão de Orçamento do Congresso, o que lhe permitiu acumular denúncias por enriquecimento ilícito, mas foi salvo pela sorte. Além disso, esteve à frente do relatório que “exculpou” Dina Boluarte — quando ainda era “mandatária” — de violações de direitos humanos pelos acontecimentos em 2022 e 2023. E quando esse tema começava a ser investigado, foi eleito por seus pares nada mais, nada menos, presidente do Congresso.

Como conseguiu tal façanha? Os que frequentam o Parlamento dizem que sua estratégia foi “se dar bem com todos”, “não brigar com ninguém”. Um gesto amável e um sorriso foram a chave que o levaram a ser considerado “um candidato de consenso” pela Máfia que controla o Legislativo. Mas a viga principal foi o “Relatório Dina”, pelo qual a Máfia lhe agradeceu. Afinal, não apenas a então “presidenta” saía ilesa, mas também aqueles que a acobertaram e protegeram: Keiko e os seus.

Apesar disso, Jerí não conseguiu se livrar definitivamente das acusações concretas: simplesmente lhe disseram que isso “seria visto depois”. E também para “depois” ficou outra acusação, distinta e mais grave: estupro. Ela foi “abafada” naquele momento. A mobilização popular, tipicamente peruana, fez com que o caso não fosse esquecido. Por isso, ele é lembrado diariamente nas redes sociais — e o assunto ainda vai render por muito tempo.

Quando Dina foi “destituída”, quase de surpresa, em apenas algumas horas, a Máfia não quis “arriscar uma saída” e preferiu apostar no que “tinha à mão”. Assim, o presidente do Congresso mudou de endereço e foi para o Palácio de Governo. O rearranjo foi ainda mais vantajoso para a Máfia, porque Rospigliosi — que tampouco havia sido eleito congressista em 2021 — tirou a sorte grande: ficou à frente do Legislativo, razão pela qual hoje faz o que bem entende.

Já no governo, Jerí prometeu duas coisas: segurança cidadã e eleições limpas. Como a segunda promessa segue pendente, resta comentar apenas a primeira. Ela não só não foi cumprida, como a situação piorou. Há mais mortes e mais crimes. Em 2025, bateu-se o recorde nessa questão. Transportadores e grupos musicais podem atestar isso, assim como os familiares de cada vítima que morre a cada dia e noite em Lima e no interior do país. O sangue corre e a impunidade impera.

Para enfrentar a realidade, o oficialismo recorreu a um velho expediente: divulgou números, usou estatísticas, mas elas não apagam a realidade. Além disso, altos oficiais acusados de tortura foram isentados de culpa. Quem fez isso? Um tribunal comum? Não. Uma “justiça” conhecida apenas por versões oficiais.

O senhor Jerí contou ao país que a culpa dos crimes é dos que estão presos. Uma forma concreta de convidar a população a esquecer a exigência pela captura dos criminosos que estão soltos. Por isso, desde o primeiro dia, seu passatempo foi martirizar os que hoje estão privados de liberdade, sem perceber — talvez — que em breve pode chegar a sua vez. Nada disso funcionou. Mas agora, quem sabe, a consciência comece a pesar. Ainda assim, ele insiste em dizer que seus “verdadeiros inimigos” são os que estão atrás das grades.

Jerí dedica seu “tempo livre” a visitar amigos, estreitar vínculos suspeitos com máfias que operam no país, receber no Palácio pessoas em “prisão domiciliar” e realizar visitas estranhas para articular iniciativas ocultas. Hoje, ele é acusado de “conluio agravado”, “suborno” e outros crimes semelhantes.

Quando começaram a surgir as provas, vieram as desculpas mais disparatadas: “fui disfarçado ao restaurante porque estava com fome”; “estive às duas da manhã em um estabelecimento fechado porque queria comprar balas”; “visitei amigos chineses porque queriam celebrar o aniversário da amizade entre Peru e China”.

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As justificativas foram tão toscas que seu chefe de gabinete não teve ideia melhor do que acusar o governo da República Popular da China de ter armado uma “cilada” contra Jerí, supostamente irritado com o anúncio da “modernização” da Base Naval do Callao pelo governo dos Estados Unidos. Trata-se, então — disse — de uma “manobra política”. Só faltou acrescentar: “do comunismo internacional”. E, claro, um quase adolescente, sem experiência, “caiu no jogo”.

A realidade é que Juan José Jerí está hoje em frangalhos. Conta apenas com um salva-vidas: Keiko e sua quadrilha. Pode cair a qualquer momento. Ou talvez consiga se manter no cargo. Mas, daqui em diante, todos os peruanos — sem exceção — saberão que não têm um presidente, mas apenas um simples fantoche.

¨      Do colapso à transição: Álvaro García Linera e o caminho para construir o Novo Mundo

Como situar a agressão de que vem sendo objeto o povo da Venezuela nas circunstâncias de nosso tempo? Como incorporar essa experiência às tarefas de previsão que os tempos por vir demandam? São múltiplos os fatores que convergem nesse problema. Eles se sintetizam na crise geral pela qual atravessa a organização internacional do sistema mundial estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, mas também — e talvez sobretudo — no fato de que essa crise ingressou em uma fase de transição na qual aquele sistema se vê esgarçado, sem que ainda tenha tomado corpo aquele que deverá substituí-lo.

A isso se refere, por exemplo, o economista boliviano Álvaro García Linera em um artigo intitulado O tempo obscuro dos leviatãs, publicado pelo jornal argentino Página 12  em 10 de janeiro. Suas primeiras linhas nos conduzem diretamente à transição em questão. “É catastrófico, mas real”, diz o autor: “A ‘ordem internacional baseada em regras’ morreu. O conjunto de normas e instituições que regulamentavam grande parte da convivência entre os Estados nacionais foi enterrado por quem foi seu criador: os EUA.”

Aquela ordem buscava se regular “por três princípios básicos:

a) o respeito mútuo à soberania territorial dos Estados;

b) a aceitação compartilhada de que cada país deve resolver internamente seus assuntos políticos sem interferência estrangeira;

c) a resolução pacífica de controvérsias entre Estados”.

As grandes potências, acrescenta, “podiam violar pontualmente essas regras, mas elas constituíam um destino-força em torno do qual se regulavam os vínculos e as legitimidades das ações estatais”.

Na década de 1990, com o auge da globalização, aquela ordem mundial deu lugar a uma expansão sem precedentes do livre comércio de mercadorias e capitais, acompanhada da proteção ao investimento estrangeiro, de cadeias de valor mundializadas e de “valores expansivos” de cunho liberal-democrático. Esse auge converteu-se em uma crise que supõe

uma reorganização dos atores protagonistas da economia mundial. Se antes eram os mercados anônimos que redefiniam os fluxos de investimento, comércio e rentabilidade, subordinando os Estados a essa lógica, agora serão os próprios Estados que planejarão e utilizarão seus poderes monopolistas para orientar a atuação e o enriquecimento dos capitais.Álvaro García Linera

Estamos, assim, em uma “transição borrascosa, em direção a uma nova ordem que ainda tardará a chegar”. Ela constitui um sintoma “do crepúsculo de um regime de dominação”, do qual participam tanto o ciclo globalista dos últimos 40 anos quanto o “ciclo hegemônico norte-americano dos últimos 100 anos”. E, no que diz respeito à nossa circunstância, destaca-se que:

Todo declínio de uma autoridade exacerba o desespero daqueles que dela se beneficiaram, levando-os a tentar deter o inevitável de maneira violenta. Mas a brutalidade é também um sintoma do nascimento tormentoso da nova ordem. A coerção estatal nua é uma característica própria dos tempos liminares.Álvaro García Linera

Para García Linera, essa nova ordem operaria a partir de certos “princípios de regularidade” que levariam os Estados a integrar o comando e a reorganização territorial da acumulação de capitais, diferenciando-os entre Estados-padrão e Estados-vassalos, segundo sua capacidade infraestrutural, seu poderio econômico, sua coesão política e sua logística militar. A soberania já não seria um reconhecimento pactuado por tratados internacionais, mas sim resultado de “força econômica, sólida legitimidade interna, capacidade de defesa e possibilidade de infringir danos a outros Estados”. Da mesma forma, a elasticidade das fronteiras regionais “não dependerá de acordos comerciais, mas de ondas de guerras tarifárias, chantagens geopolíticas e intromissões na vida interna dos Estados”.

Nessa perspectiva, o pior da transição converter-se-ia na norma da nova ordem que dela resultar. No entanto, o declínio de uma forma de autoridade também expressa o desenvolvimento de novas formas na configuração do sistema mundial. A isso se refere, por exemplo, Ana Palacio  — ex-ministra das Relações Exteriores da Espanha e professora convidada da Universidade de Georgetown — em um artigo para o El País, no qual aborda o papel desempenhado por outros atores relevantes na transição. “Países como Brasil e Índia”, afirma, não se dobraram às tendências emergentes do Norte, “mas buscaram preservar sua autonomia e identificar as oportunidades criadas por essa nova ordem do pós-guerra”. A China, por sua vez, deu um passo além. Depois de tentar durante muito tempo deslocar o Ocidente da política internacional, os líderes chineses viram na perturbação provocada por Trump em 2025 uma oportunidade: um mundo desestabilizado pela retirada dos Estados Unidos da liderança global inclinar-se-ia a acolher um novo defensor da estabilidade e da continuidade. Ao posicionar-se em conformidade, a China tornou-se a principal beneficiária da agitação.

O que finalmente resultar dessa busca por novos caminhos será um todo superior à soma de suas partes, ou não será. Para todas as sociedades de nossa América, isso exige refletir de maneira proativa sobre um entorno por vezes volátil e ameaçador, a fim de transcender suas aparências imediatas e atender às suas tendências fundamentais. Assim, por exemplo, a decisão do governo dos Estados Unidos de dissociar-se de uma série de organismos e organizações internacionais que não correspondem a seus interesses — como o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, o Instituto de Análise da Mudança Global e os Conselhos Econômicos e Sociais regionais da Organização das Nações Unidas (ONU) — expressa uma tendência que limita a capacidade de nossos Estados de incidir sobre o desenvolvimento imediato da transição e exige formas mais ricas e amplas de participação de nossas sociedades na construção de novas modalidades de incidência a partir de nossos povos.

Aqui não se trata apenas, em termos gerais, de que governar é prever. Trata-se, em particular, de contribuir para vincular nossas sociedades a esse processo de transição, sobretudo no que diz respeito à construção de relações e capacidades voltadas à sustentabilidade do desenvolvimento humano em nosso âmbito glocal.

Para tudo isso, haverá necessidades a atender e espaços a criar no que resultar dessa crise de transição. Para nossa América, o ponto de partida dessa tarefa reside na decomposição do auge progressista do início do século 21 — de Néstor Kirchner a Javier Milei, ou de Rafael Correa a Daniel Noboa, por um lado — e, por outro, na conformação de um grupo de Estados com governos de centro-esquerda, assim chamados, integrado por México, Brasil e Colômbia.

Aqui está em jogo a disputa pela hegemonia em sociedades imersas em processos de decomposição de projetos progressistas esgotados. Para os setores dominantes, o principal recurso nessa disputa reside já em sua capacidade de intervenção político-militar e ideológica: interna, no plano do cotidiano; externa, quando isso não basta para atender às necessidades de sua própria dominação em sociedades em curso de transformação.

Aqui, o verdadeiro desafio político não está em preservar o sistema que se fragmenta, mas em construir aquele que o substitua. Para isso concorrem experiências do passado e expectativas de futuro que convergem com o que foi formulado por Antonio Gramsci em referência a outros processos de transição. “Na realidade” disse, cada fase histórica deixa marcas de si nas fases sucessivas, marcas que são, em certo sentido, o melhor documento. O processo de desenvolvimento histórico é uma unidade no tempo, pela qual o presente contém todo o passado e do passado se realiza no presente tudo o que é “essencial”, sem resíduo de um “incognoscível” que seria a verdadeira “essência”. O que se “perdeu”, o que não foi transmitido dialeticamente no processo histórico, era por si mesmo irrelevante, era “escória” casual e contingente, crônica e não história, episódio superficial, digno de ser esquecido, em última instância.Antonio Gramsci

Nesta hora de perigo, há de vir do fundo dos povos a voz que oriente a recuperação do melhor de nosso passado para a construção de um futuro que nos livre do perigo da queda, como advertia Martí. Como nunca, para enxertar o mundo em nossas repúblicas, é necessário que o tronco seja o de nossas repúblicas. Em compreender e exercer essa verdade elementar está a chave para contribuir, a partir do Novo Mundo de ontem, para a construção do Mundo Novo de amanhã.

Alto Boquete, Panamá,  janeiro de 2026

¨      Noboa mente ao impor tarifas; Colômbia trabalha ativamente contra narcotráfico regional

Daniel Noboa, anunciou que aplicará uma taxa de segurança de 30% sobre as importações provenientes da Colômbia, a partir de 1º de fevereiro. A determinação chega um dia após o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, pedir a libertação do ex-vice-presidente equatoriano Jorge Glas. A medida de Noboa foi apresentada como resposta ao que classificou como uma suposta falta de cooperação colombiana no combate ao narcotráfico e à mineração ilegal na fronteira comum.

Em resposta, na quinta-feira (22), Petro também determinou tarifas de 30% sobre as importações equatorianas, além da suspensão temporária das vendas de energia ao país vizinho. A Colômbia fornece entre 8% e 10% da energia consumida no Equador. A balança comercial entre os dois países tem sido historicamente favorável a Bogotá, com Quito registrando um déficit comercial anual que varia entre 800 milhões e 1,5 bilhão de dólares em relação ao país vizinho.

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Desde Davos, onde participa do Fórum Econômico Mundial, Noboa afirmou, por meio da rede social X, que seu país tem feito “esforços reais de cooperação” com a Colômbia, inclusive assumindo um déficit comercial superior a um bilhão de dólares anuais. “Enquanto insistimos no diálogo, nossos militares seguem enfrentando grupos criminosos ligados ao narcotráfico na fronteira, sem qualquer cooperação”, afirmou.

Para Paola Cabezas, deputada da Assembleia Nacional pela Revolução Cidadã, movimento fundado pelo ex-presidente Rafael Correa, a decisão tem um viés político, pois “não é uma resposta técnica: é uma retaliação política ao pedido do presidente Gustavo Petro sobre Jorge Glas”, no sentido de libertá-lo, já que o ex-vice-presidente equatoriano também possui nacionalidade colombiana.

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“Se alguém tem demonstrado interesse real em pacificar a fronteira comum, esse alguém tem sido Petro, que há anos solicita a abertura da ponte sobre o rio Mataje, obra impulsionada durante o governo de Rafael Correa, justamente para garantir a presença institucional de ambos os Estados”, explicou Cabezas.

Em sua conta na rede social X, ao divulgar uma imagem recente de Glas, com aparência bastante debilitada, Petro escreveu, na última terça-feira (20): “Este é Jorge Glas, vice-presidente da República do Equador, cidadão colombiano; assim como exigi a libertação dos presos políticos na Venezuela e na Nicarágua, penso que Jorge Glas deve ser libertado. Seu próprio estado físico demonstra que ele sofre tortura psicológica.”

O ministro colombiano de Minas e Energia, Edwin Palma, reagiu, classificando a medida como “uma agressão econômica que rompe o princípio da integração regional”. Ele destacou que, no setor energético, a Colômbia tem atuado com ações concretas, cooperação e solidariedade. Em paralelo, um comunicado do Ministério da Defesa colombiano ressaltou a cooperação bilateral que permitiu “resultados concretos contra o narcotráfico transnacional”.

Como exemplo, citou uma ação conjunta entre a Marinha da Colômbia e o Exército do Equador, na qual “foram apreendidas 2,24 toneladas de maconha na zona de fronteira, afetando diretamente as economias criminosas que operam na região amazônica”. O comunicado também denunciou que o país “não tem sido alheio aos ataques mal-intencionados de grupos narcotraficantes no sudoeste do território colombiano”.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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