terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Marcelo Godoy: Além do anticomunismo - as afinidades seletivas entre liberais e fascistas

Há um século o fascismo chegou ao poder na Itália. Ainda hoje a monstruosidade do regime é presença incômoda e aversiva. Longe das fantasmagorias medievais, o assombro que ela exerce se manifesta como ameaça viva na forma de seus herdeiros e sucessores neofascistas e pós-fascistas.

Se Alvaro Bianchi foi buscar nos anos iniciais do ventennio, entre 1922 e 1925, os elementos de contato entre o movimento liderado por Mussolini e a obra de pensadores liberais, como o economista Vilfredo Pareto e o filósofo Giovanni Gentile, é porque todos os livros de história, ainda que tratem de uma realidade remota, têm uma relação com o presente. Essa lição de Jaques Le Goff é seguida de maneira exemplar neste Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas. Aqui a pesquisa histórica e a análise comparativa como método iluminam as relações entre o ontem e o hoje e permitem, sem anacronismos, compreender para interpretar. “O passado propõe, mas não dispõe”, escreveu Le Goff, “o presente é determinado tanto pelo acaso e pelo livre arbítrio quanto pela herança do passado”.

Bianchi destrincha a ideologia fascista, acompanhando sua transformação e atualização em agremiações como a Fratelli d’Italia e o Reagrupamento Nacional, para mostrar de que forma o pós-fascismo procura passar pela alfândega da política e se apresentar como força comprometida com os valores democráticos. O abandono da violência e a adesão a um discurso antiestatal – crítico ao intervencionismo na economia – se adaptam a concepções ultranacionalistas, autoritárias e anticomunistas. A ideia de uma civilização ocidental sitiada que precisa ser resgatada mobiliza votos contra os desembarques de imigrantes. E faz parecer normal gastar 1 bilhão de euros em centros de detenção para refugiados na Albânia.

Esses partidos alcançaram grande consenso em seus países. Mas por que, indaga o filósofo Luciano Canfora, a culta, a refinada e um pouco cética Europa, em queda demográfica, não quer massas de imigrantes? A resistência em compartilhar a cidadania explica o antigo hábito de impor limites à democracia. Os liberais italianos do século XX, como bem demonstra Bianchi, não opunham a liberdade à autoridade; antes, acreditavam que sem Estado não haveria liberdade, pois esta dependeria da autoridade. Compartilharam o projeto imperial de Roma, que excluía os povos colonizados da cidadania, assim como agora fazem com os imigrantes. Não foi só o pânico da onda vermelha que levou os liberais a Mussolini; Fascismo e liberalismo mostra que suas afinidades seletivas iam além do anticomunismo.

•        Anne Applebaum: "A sombra do fascismo paira sobre a América". Por Luiz Pellegrini

Em recente entrevista concedida ao jornal italiano La Repubblica, a historiadora americana Anne Applebaum, especialista em autoritarismos, não hesitou em colocar o dedo na ferida: “O grupo atualmente no poder nos Estados Unidos glorifica a violência, ignora a lei e a Constituição. Mas a democracia ainda pode ser salva”.

“Não uso a palavra fascismo com leviandade — diz a historiadora — e, em geral, não gosto de empregá-la para descrever o mundo contemporâneo, porque evoca coisas bem específicas, como as leis raciais ou os campos de concentração. Mas temo que, desta vez, seja a palavra correta. Nos Estados Unidos, temos hoje uma administração que glorifica a violência e criou uma organização paramilitar que age com impunidade, sentindo-se no direito de ignorar a lei e a Constituição. Vimo-los em ação em Minneapolis, onde atuaram como verdadeiros esquadrões fascistas. Ao mesmo tempo, porém, não podemos esquecer que a América ainda é uma democracia em funcionamento: onde a liberdade de opinião, a de protestar e a dos juízes de fazerem seu trabalho ainda estão garantidas. Em suma, há germes de uma deriva autoritária bem mais grave do que tudo o que vimos até agora. Só que ainda não chegamos lá.”

Anne Applebaum é uma importante especialista em autoritarismos e autocracias. Nasceu em Washington, de família judia, é vencedora do Prêmio Pulitzer com o ensaio Gulag. História dos campos de concentração soviéticos e autora de livros como Autocracia S.A.: Os ditadores que querem dominar o mundo, publicado no Brasil pela Editora Record. É colunista da revista The Atlantic.

Anne é conhecida por não usar meias palavras ao expor suas opiniões. Para ela, os Estados Unidos estão afundando em um novo fascismo: “O presidente Donald Trump não tem ideologia, apenas interesses, em grande parte privados. Mas ideologia têm aqueles que o cercam. Ao seu redor, coagularam-se diversos grupos conservadores, aliados em empurrar o país em direções cada vez mais autoritárias. Reconheço, em linhas gerais, pelo menos três grandes grupos — embora, na realidade, sejam muitos mais. Há os nacionalistas cristãos, cujo principal objetivo é derrubar o Estado laico para criar outro, enraizado numa leitura literal da Bíblia e, portanto, fundamentalista. Há também os nacionalistas brancos, que aspiram a uma sociedade segregada e, portanto, a criar um novo sistema racial. E, por fim, uma parte do mundo tecnológico — o que frequentemente se chama de tecno-direita — à qual já não importa a democracia americana. Eles querem estabelecer uma espécie de governo dos CEOs, livre de burocracias e regras, no qual o interesse manda. Tudo isso junto pode, de algum modo, ser chamado de fascismo, porque conduz a um sistema autocrático em que o poder se concentra nas mãos de poucos".

A historiadora interpreta as ações da milícia chamada ICE como parte de um projeto de governo cujos objetivos vão muito além do simples controle dos imigrantes ilegais, visando, na verdade, à implantação, nos Estados Unidos, de um novo regime antidemocrático e de clara tendência fascista: “Aqui na América, alguns continuam a sustentar que o alvo elevado se dirige apenas aos imigrantes ilegais. Mas essa nova força policial federal, o ICE, está estabelecendo um novo padrão de ilegalidade. Atua sob um pressuposto de impunidade que, como vimos, impacta e limita a vida de todos os cidadãos americanos, como demonstram as mortes nas ruas. A administração os está usando, junto com a Guarda Nacional, para ostentar seu poder e mostrar que pode agir muito além das regras. A tentativa é remodelar a democracia".

Anne não perde oportunidade para denunciar o que considera serem as reais intenções de Donald Trump. O título que ela escolheu para um artigo publicado em outubro de 2024 na revista The Atlantic é, nesse sentido, mais do que eloquente: “Trump fala como Hitler, Stalin e Mussolini”.

Comentando sobre a eleição de Trump para um segundo mandato, Anne disse: “Bastou ouvi-lo para entender que o Trump 2 seria muito mais radical que o anterior. Ele começou desde logo a usar uma linguagem que nunca havia sido ouvida antes na política americana. Descrevendo adversários políticos como marxistas radicais — quando, na realidade, eram democratas centristas. E depois chamando os imigrantes de ‘parasitas’. Chegou até a usar uma expressão retirada diretamente de um discurso de Hitler, ao falar de ‘imigrantes que envenenam o sangue do povo americano’, exatamente como o Führer, no Mein Kampf, falava do sangue alemão ‘envenenado’ pelos judeus. Trump é ignorante demais para tê-la escolhido; foi um de seus ghostwriters. Mas tenho certeza de que todos eles sabiam exatamente de onde vinha aquela frase — e a quem se dirigia. Optaram por usar uma linguagem desumanizante para radicalizar a base e prepará-la para aquilo a que agora estamos assistindo. Infelizmente, as pessoas preferiram pensar: ‘ah, é o Trump de sempre exagerando, mas depois não faz o que diz’. Em vez disso, naquelas palavras já estava tudo o que hoje estamos vivendo".

Como se deu essa mudança? Para a historiadora, “mudaram as pessoas que o cercam: hoje, seu entorno é composto por personagens que se aproximaram dele após o 6 de janeiro — pessoas prontas para derrubar as instituições, que odeiam o sistema político democrático americano e querem vê-lo fracassar. Infelizmente, quem votou em Trump por protesto ou por razões econômicas não compreendeu a evolução sombria do trumpismo. E não devemos subestimar outro fator: o que aconteceu na Ucrânia e em Israel".

Ela explica essa interpretação: “Trump e os seus claramente não estão interessados em respeitar a lei — imagine, então, o direito internacional. Assim, uma invasão em larga escala como a da Ucrânia foi certamente um precedente do qual extraíram lições. Mais do que isso: eu diria que os inspirou. O mesmo vale para o comportamento de Israel, que também desafiou impunemente o direito internacional. É claro que o passo seguinte é tentar destruir as instituições internacionais: eles não as amam, não as compreendem e não querem respeitar suas regras. Aliás, isso está escrito preto no branco em sua Estratégia de Segurança Nacional. Fico chocada que os europeus tenham se surpreendido, por exemplo, com a Groenlândia. Porque esse governo disse isso muito claramente: só os americanos importam — e, entre os americanos, só eles importam. É assim que pensam".

Apesar de seu olhar pessimista sobre os rumos do seu país, a historiadora acha que as forças das trevas ainda não tomaram conta total da situação. Quando perguntada se a América vai resistir às investidas dos neofascistas, ela responde: “É uma pergunta ampla demais para mim. Posso dizer, porém, que, por enquanto, como vimos em Minneapolis, as forças mais obscuras não venceram e ainda têm um longo caminho pela frente. Os tribunais continuam funcionando bem, há meios de comunicação que fazem jornalismo crítico e existe uma forte oposição cívica".

E como salvar a democracia? “Isso exige o esforço e o compromisso de toda a sociedade. Antes de tudo, as pessoas devem continuar a ir às ruas protestar contra as injustiças, como vimos os manifestantes de Minnesota fazerem: firmes, calmos, determinados. Os políticos — seja qual for o partido a que pertençam, republicanos ou democratas — precisam se empenhar em defender o sistema. E precisamos também de mais determinação por parte dos aliados: europeus, mas também canadenses e asiáticos. Bajular Trump na esperança de trazê-lo para o seu lado não funciona. Quem tentou, apenas o tornou mais seguro de si, reforçando a ideia de que tudo o que faz é correto. Isso é algo sobre o qual os governos democráticos globais realmente precisam refletir: para encontrar uma forma de criar redes e colaborar entre si".

•        Emir Sader:Os dilemas fatais da direita brasileira

A direita brasileira, hoje, é bolsonarista. Não abre mão do apoio do seu líder, mesmo sabendo que o nível de rejeição dele a condena, provavelmente, a uma nova derrota.

Claro que se alimenta de pesquisas fajutas, que projetam equilíbrio entre Lula e o filho de Bolsonaro. Mas se sabe que esses dados não correspondem à realidade. Tanto assim que as mesmas pesquisas mostram que Lula derrotaria a todos os seus possíveis adversários, no primeiro ou no segundo turno.

Mas não existe uma direita não bolsonarista, o sonho do grande empresariado, que acreditava que Tarcísio poderia ser esse candidato, mesmo se este reafirma, reiteradamente, sua fidelidade a Bolsonaro.

De repente, surgem nomes que buscam aparecer como de direita não bolsonarista, mas se enfrentam ao apoio que, bem ou mal, o filho de Bolsonaro tem nas pesquisas. Não fica claro se tratariam de promover suas candidaturas agora ou só para 2030, quando julgam que, sem Lula, poderiam ter mais chances.

Alguns até afirmam que não atacariam Lula, para tentar gerar um espaço mais além da polarização Lula-Bolsonaro. Não fica claro ainda se conseguirão abrir um espaço próprio ou se desaparecerão diante da polarização mais forte.

Estranha direita, que se apega a um líder seu julgado, condenado e preso. Mas esse é o seu dilema. Recolher o caudal de votos que Bolsonaro ainda tem, mas se ver condenada, provavelmente, a uma derrota. Ou renunciar a ele, mas ter candidatos com resultados inócuos nas pesquisas.

Esse é o dilema da direita brasileira. Ser bolsonarista ou não? Renunciar a seu líder e ao seu caudal de votos e tender a ser derrotada de novo. Ou tentar projetar novos nomes e gerar um espaço mais além da polarização realmente existente.

No caso da reeleição de Lula, vários nomes pretendem se projetar para 2030, vários governadores, entre eles. Os de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, do Paraná, entre outros.

Mas podem ter que se enfrentar à possibilidade de que Lula logre eleger seu sucessor — desta vez, Fernando Haddad —, como ele já tinha conseguido com Dilma.

Difícil dilema para a direita brasileira, que ainda terá que se enfrentar à sua falta de proposta para o país. Nos debates desta eleição presidencial, defenderão a herança do governo Bolsonaro? Que herança? Vale a pena defender um governo fracassado?

Terão que se enfrentar a um experiente Lula, que pode mostrar as realizações dos governos do PT e, em especial, deste governo, que tem dado certo. Como se comportará o candidato opositor? Tentará negar uma realidade inegável? Ou fará o quê? Com o risco de os debates no horário eleitoral facilitarem a vitória de Lula no primeiro turno.

 

Fonte: Blog da Boitempo/Brasil 247

 

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