Marcelo
Godoy: Além do anticomunismo - as afinidades seletivas entre liberais e
fascistas
Há um
século o fascismo chegou ao poder na Itália. Ainda hoje a monstruosidade do
regime é presença incômoda e aversiva. Longe das fantasmagorias medievais, o
assombro que ela exerce se manifesta como ameaça viva na forma de seus
herdeiros e sucessores neofascistas e pós-fascistas.
Se
Alvaro Bianchi foi buscar nos anos iniciais do ventennio, entre 1922 e 1925, os
elementos de contato entre o movimento liderado por Mussolini e a obra de
pensadores liberais, como o economista Vilfredo Pareto e o filósofo Giovanni
Gentile, é porque todos os livros de história, ainda que tratem de uma
realidade remota, têm uma relação com o presente. Essa lição de Jaques Le Goff
é seguida de maneira exemplar neste Fascismo e liberalismo: afinidades
seletivas. Aqui a pesquisa histórica e a análise comparativa como método
iluminam as relações entre o ontem e o hoje e permitem, sem anacronismos,
compreender para interpretar. “O passado propõe, mas não dispõe”, escreveu Le
Goff, “o presente é determinado tanto pelo acaso e pelo livre arbítrio quanto
pela herança do passado”.
Bianchi
destrincha a ideologia fascista, acompanhando sua transformação e atualização
em agremiações como a Fratelli d’Italia e o Reagrupamento Nacional, para
mostrar de que forma o pós-fascismo procura passar pela alfândega da política e
se apresentar como força comprometida com os valores democráticos. O abandono
da violência e a adesão a um discurso antiestatal – crítico ao intervencionismo
na economia – se adaptam a concepções ultranacionalistas, autoritárias e
anticomunistas. A ideia de uma civilização ocidental sitiada que precisa ser
resgatada mobiliza votos contra os desembarques de imigrantes. E faz parecer
normal gastar 1 bilhão de euros em centros de detenção para refugiados na
Albânia.
Esses
partidos alcançaram grande consenso em seus países. Mas por que, indaga o
filósofo Luciano Canfora, a culta, a refinada e um pouco cética Europa, em
queda demográfica, não quer massas de imigrantes? A resistência em compartilhar
a cidadania explica o antigo hábito de impor limites à democracia. Os liberais
italianos do século XX, como bem demonstra Bianchi, não opunham a liberdade à
autoridade; antes, acreditavam que sem Estado não haveria liberdade, pois esta
dependeria da autoridade. Compartilharam o projeto imperial de Roma, que
excluía os povos colonizados da cidadania, assim como agora fazem com os
imigrantes. Não foi só o pânico da onda vermelha que levou os liberais a
Mussolini; Fascismo e liberalismo mostra que suas afinidades seletivas iam além
do anticomunismo.
• Anne Applebaum: "A sombra do
fascismo paira sobre a América". Por Luiz Pellegrini
Em
recente entrevista concedida ao jornal italiano La Repubblica, a historiadora
americana Anne Applebaum, especialista em autoritarismos, não hesitou em
colocar o dedo na ferida: “O grupo atualmente no poder nos Estados Unidos
glorifica a violência, ignora a lei e a Constituição. Mas a democracia ainda
pode ser salva”.
“Não
uso a palavra fascismo com leviandade — diz a historiadora — e, em geral, não
gosto de empregá-la para descrever o mundo contemporâneo, porque evoca coisas
bem específicas, como as leis raciais ou os campos de concentração. Mas temo
que, desta vez, seja a palavra correta. Nos Estados Unidos, temos hoje uma
administração que glorifica a violência e criou uma organização paramilitar que
age com impunidade, sentindo-se no direito de ignorar a lei e a Constituição.
Vimo-los em ação em Minneapolis, onde atuaram como verdadeiros esquadrões
fascistas. Ao mesmo tempo, porém, não podemos esquecer que a América ainda é
uma democracia em funcionamento: onde a liberdade de opinião, a de protestar e
a dos juízes de fazerem seu trabalho ainda estão garantidas. Em suma, há germes
de uma deriva autoritária bem mais grave do que tudo o que vimos até agora. Só
que ainda não chegamos lá.”
Anne
Applebaum é uma importante especialista em autoritarismos e autocracias. Nasceu
em Washington, de família judia, é vencedora do Prêmio Pulitzer com o ensaio
Gulag. História dos campos de concentração soviéticos e autora de livros como
Autocracia S.A.: Os ditadores que querem dominar o mundo, publicado no Brasil
pela Editora Record. É colunista da revista The Atlantic.
Anne é
conhecida por não usar meias palavras ao expor suas opiniões. Para ela, os
Estados Unidos estão afundando em um novo fascismo: “O presidente Donald Trump
não tem ideologia, apenas interesses, em grande parte privados. Mas ideologia
têm aqueles que o cercam. Ao seu redor, coagularam-se diversos grupos
conservadores, aliados em empurrar o país em direções cada vez mais
autoritárias. Reconheço, em linhas gerais, pelo menos três grandes grupos —
embora, na realidade, sejam muitos mais. Há os nacionalistas cristãos, cujo
principal objetivo é derrubar o Estado laico para criar outro, enraizado numa
leitura literal da Bíblia e, portanto, fundamentalista. Há também os
nacionalistas brancos, que aspiram a uma sociedade segregada e, portanto, a
criar um novo sistema racial. E, por fim, uma parte do mundo tecnológico — o
que frequentemente se chama de tecno-direita — à qual já não importa a
democracia americana. Eles querem estabelecer uma espécie de governo dos CEOs,
livre de burocracias e regras, no qual o interesse manda. Tudo isso junto pode,
de algum modo, ser chamado de fascismo, porque conduz a um sistema autocrático
em que o poder se concentra nas mãos de poucos".
A
historiadora interpreta as ações da milícia chamada ICE como parte de um
projeto de governo cujos objetivos vão muito além do simples controle dos
imigrantes ilegais, visando, na verdade, à implantação, nos Estados Unidos, de
um novo regime antidemocrático e de clara tendência fascista: “Aqui na América,
alguns continuam a sustentar que o alvo elevado se dirige apenas aos imigrantes
ilegais. Mas essa nova força policial federal, o ICE, está estabelecendo um
novo padrão de ilegalidade. Atua sob um pressuposto de impunidade que, como
vimos, impacta e limita a vida de todos os cidadãos americanos, como demonstram
as mortes nas ruas. A administração os está usando, junto com a Guarda
Nacional, para ostentar seu poder e mostrar que pode agir muito além das regras.
A tentativa é remodelar a democracia".
Anne
não perde oportunidade para denunciar o que considera serem as reais intenções
de Donald Trump. O título que ela escolheu para um artigo publicado em outubro
de 2024 na revista The Atlantic é, nesse sentido, mais do que eloquente: “Trump
fala como Hitler, Stalin e Mussolini”.
Comentando
sobre a eleição de Trump para um segundo mandato, Anne disse: “Bastou ouvi-lo
para entender que o Trump 2 seria muito mais radical que o anterior. Ele
começou desde logo a usar uma linguagem que nunca havia sido ouvida antes na
política americana. Descrevendo adversários políticos como marxistas radicais —
quando, na realidade, eram democratas centristas. E depois chamando os
imigrantes de ‘parasitas’. Chegou até a usar uma expressão retirada diretamente
de um discurso de Hitler, ao falar de ‘imigrantes que envenenam o sangue do
povo americano’, exatamente como o Führer, no Mein Kampf, falava do sangue
alemão ‘envenenado’ pelos judeus. Trump é ignorante demais para tê-la
escolhido; foi um de seus ghostwriters. Mas tenho certeza de que todos eles
sabiam exatamente de onde vinha aquela frase — e a quem se dirigia. Optaram por
usar uma linguagem desumanizante para radicalizar a base e prepará-la para
aquilo a que agora estamos assistindo. Infelizmente, as pessoas preferiram
pensar: ‘ah, é o Trump de sempre exagerando, mas depois não faz o que diz’. Em
vez disso, naquelas palavras já estava tudo o que hoje estamos vivendo".
Como se
deu essa mudança? Para a historiadora, “mudaram as pessoas que o cercam: hoje,
seu entorno é composto por personagens que se aproximaram dele após o 6 de
janeiro — pessoas prontas para derrubar as instituições, que odeiam o sistema
político democrático americano e querem vê-lo fracassar. Infelizmente, quem
votou em Trump por protesto ou por razões econômicas não compreendeu a evolução
sombria do trumpismo. E não devemos subestimar outro fator: o que aconteceu na
Ucrânia e em Israel".
Ela
explica essa interpretação: “Trump e os seus claramente não estão interessados
em respeitar a lei — imagine, então, o direito internacional. Assim, uma
invasão em larga escala como a da Ucrânia foi certamente um precedente do qual
extraíram lições. Mais do que isso: eu diria que os inspirou. O mesmo vale para
o comportamento de Israel, que também desafiou impunemente o direito
internacional. É claro que o passo seguinte é tentar destruir as instituições
internacionais: eles não as amam, não as compreendem e não querem respeitar
suas regras. Aliás, isso está escrito preto no branco em sua Estratégia de
Segurança Nacional. Fico chocada que os europeus tenham se surpreendido, por
exemplo, com a Groenlândia. Porque esse governo disse isso muito claramente: só
os americanos importam — e, entre os americanos, só eles importam. É assim que
pensam".
Apesar
de seu olhar pessimista sobre os rumos do seu país, a historiadora acha que as
forças das trevas ainda não tomaram conta total da situação. Quando perguntada
se a América vai resistir às investidas dos neofascistas, ela responde: “É uma
pergunta ampla demais para mim. Posso dizer, porém, que, por enquanto, como
vimos em Minneapolis, as forças mais obscuras não venceram e ainda têm um longo
caminho pela frente. Os tribunais continuam funcionando bem, há meios de
comunicação que fazem jornalismo crítico e existe uma forte oposição
cívica".
E como
salvar a democracia? “Isso exige o esforço e o compromisso de toda a sociedade.
Antes de tudo, as pessoas devem continuar a ir às ruas protestar contra as
injustiças, como vimos os manifestantes de Minnesota fazerem: firmes, calmos,
determinados. Os políticos — seja qual for o partido a que pertençam,
republicanos ou democratas — precisam se empenhar em defender o sistema. E
precisamos também de mais determinação por parte dos aliados: europeus, mas
também canadenses e asiáticos. Bajular Trump na esperança de trazê-lo para o
seu lado não funciona. Quem tentou, apenas o tornou mais seguro de si,
reforçando a ideia de que tudo o que faz é correto. Isso é algo sobre o qual os
governos democráticos globais realmente precisam refletir: para encontrar uma
forma de criar redes e colaborar entre si".
• Emir Sader:Os dilemas fatais da direita
brasileira
A
direita brasileira, hoje, é bolsonarista. Não abre mão do apoio do seu líder,
mesmo sabendo que o nível de rejeição dele a condena, provavelmente, a uma nova
derrota.
Claro
que se alimenta de pesquisas fajutas, que projetam equilíbrio entre Lula e o
filho de Bolsonaro. Mas se sabe que esses dados não correspondem à realidade.
Tanto assim que as mesmas pesquisas mostram que Lula derrotaria a todos os seus
possíveis adversários, no primeiro ou no segundo turno.
Mas não
existe uma direita não bolsonarista, o sonho do grande empresariado, que
acreditava que Tarcísio poderia ser esse candidato, mesmo se este reafirma,
reiteradamente, sua fidelidade a Bolsonaro.
De
repente, surgem nomes que buscam aparecer como de direita não bolsonarista, mas
se enfrentam ao apoio que, bem ou mal, o filho de Bolsonaro tem nas pesquisas.
Não fica claro se tratariam de promover suas candidaturas agora ou só para
2030, quando julgam que, sem Lula, poderiam ter mais chances.
Alguns
até afirmam que não atacariam Lula, para tentar gerar um espaço mais além da
polarização Lula-Bolsonaro. Não fica claro ainda se conseguirão abrir um espaço
próprio ou se desaparecerão diante da polarização mais forte.
Estranha
direita, que se apega a um líder seu julgado, condenado e preso. Mas esse é o
seu dilema. Recolher o caudal de votos que Bolsonaro ainda tem, mas se ver
condenada, provavelmente, a uma derrota. Ou renunciar a ele, mas ter candidatos
com resultados inócuos nas pesquisas.
Esse é
o dilema da direita brasileira. Ser bolsonarista ou não? Renunciar a seu líder
e ao seu caudal de votos e tender a ser derrotada de novo. Ou tentar projetar
novos nomes e gerar um espaço mais além da polarização realmente existente.
No caso
da reeleição de Lula, vários nomes pretendem se projetar para 2030, vários
governadores, entre eles. Os de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Rio de
Janeiro, do Paraná, entre outros.
Mas
podem ter que se enfrentar à possibilidade de que Lula logre eleger seu
sucessor — desta vez, Fernando Haddad —, como ele já tinha conseguido com
Dilma.
Difícil
dilema para a direita brasileira, que ainda terá que se enfrentar à sua falta
de proposta para o país. Nos debates desta eleição presidencial, defenderão a
herança do governo Bolsonaro? Que herança? Vale a pena defender um governo
fracassado?
Terão
que se enfrentar a um experiente Lula, que pode mostrar as realizações dos
governos do PT e, em especial, deste governo, que tem dado certo. Como se
comportará o candidato opositor? Tentará negar uma realidade inegável? Ou fará
o quê? Com o risco de os debates no horário eleitoral facilitarem a vitória de
Lula no primeiro turno.
Fonte:
Blog da Boitempo/Brasil 247

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