terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O algoritmo do desespero: os danos causados pelo vício em jogos de azar

As promessas de renda extra e ascensão social. O peso das dívidas atravessando a felicidade do lar e destruindo famílias. Quando parece que não existem mais alternativas, muitos recorrem a caminhos sem saída. Nos últimos anos, a dependência em jogos de azar cresceu de maneira exponencial, especialmente com o surgimento de inúmeras plataformas virtuais. O que era considerado "entretenimento", agora, pode causar sérios prejuízos psicológicos e emocionais.

E o que era uma brincadeira de celular tornou-se uma crise sanitária nacional. O Ministério da Saúde lançou, no dia 23 de janeiro, o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, um documento que formaliza o tratamento do vício em apostas como uma prioridade do Sistema Único de Saúde (SUS). Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados ao jogo patológico explodiram, evidenciando um rastro de destruição financeira e emocional.

O documento oferece orientações práticas para as equipes da rede pública, especialmente da Rede de Atenção Psicossocial (RAPs), reforçando que o cuidado deve ser feito de forma integrada, desde a atenção primária até os Centros de Apoio Psicossociais (CAPs), hospitais e serviços de urgência, conforme a gravidade de cada caso.

Diferentemente da dependência química, em que o gatilho é uma substância externa, o vício em jogos (ludopatia) opera por meio da "incerteza". Segundo o psiquiatra Alexandre Valverde, referência em dependências comportamentais, o cérebro do apostador libera dopamina na expectativa da vitória, criando um ciclo idêntico ao de drogas como a cocaína. "A questão é que, com o tempo, a pessoa fica acostumada com esse disparo de dopamina e ela precisa cada vez de mais estímulo para conseguir ter aquela reação inicial."

Assim, segundo o profissional, o indivíduo tende a aumentar o consumo e o risco das apostas, da mesma maneira que uma pessoa que ingere álcool vai aumentando cada vez mais a quantidade. Hoje, a acessibilidade digital agrava o prognóstico. "Enquanto um dependente químico enfrenta barreiras físicas para obter a droga, o apostador tem o cassino no bolso 24 horas por dia. O pecado mora ao lado. Então, fica muito fácil da pessoa sucumbir a isso", alerta o psiquiatra.

<><> O rastro da destruição

A teoria ganha contornos dramáticos na vida de Roberto Antônio (nome fictício), 35 anos. Pai de dois filhos, viu-se perdido quando mergulhou em um oceano repleto de prazeres efêmeros. Tudo começou em 2022, quando passou a observar influenciadores digitais divulgando casas de apostas. "Pensei comigo mesmo: talvez seja uma forma de conseguir renda extra e ajudar nas contas de casa."

Por duas semanas, começou a jogar, só que de maneira equilibrada, às vezes apostava R$ 10 e outras, R$ 50, nada exagerado. "Eu quase não estava perdendo, sempre ganhando. Comecei a postar links nas minhas redes sociais e ganhava bônus com as pessoas que acessavam meus links", relembra. Como um homem de família, apesar de estar em busca de melhorar a vida financeira, Roberto tinha uma boa reserva de emergência, estimada em R$ 8 mil.

No entanto, ele decidiu pegar todo o dinheiro e apostar. Para sua surpresa, conseguiu acumular R$ 37 mil. "Nesse momento, pensei em largar tudo e viver de apostas, forma fácil de ganhar", ressalta. O ganho inicial foi a armadilha final. "Senti uma sensação de poder absurda, dinheiro fácil sem sair do celular, pensei em largar tudo e viver de apostas", conta Roberto.

Ele pediu demissão, investiu toda a sua rescisão e, em menos de dois meses, perdeu R$ 56 mil. O desespero o levou a um empréstimo bancário de R$ 15 mil, perdido em uma única aposta de "olhos fechados". O resultado foi a ruína total: "Perdi a minha esposa, meus filhos, casa, tudo. Vendi até mesmo a TV e a máquina de lavar de casa para tentar conseguir apostar mais".

Hoje, Roberto vive em uma quitinete, faz bicos e emagreceu 20 quilos, carregando as cicatrizes do vício. Contudo, tenta sanar as marcas deixadas por um momento que não deseja mais recordar ou repetir. Faz terapia semanalmente e busca, consigo mesmo, reorganizar e deixar os rumos da própria história.

<><> A psicologia do transe

O design dos aplicativos, como muitos sabem, é um convite especial para aqueles que querem jogar,  projetado para manter o usuário em estado de transe. A psicóloga e neuropsicóloga Ingrid dos Santos Miranda Rodrigues explica que sons de vitória, luzes e o "reforço intermitente" (recompensas aleatórias) são ferramentas para reduzir a percepção do tempo e criar uma ilusão de controle. "Essa arquitetura é especialmente perigosa para crianças e adolescentes, cujos cérebros ainda não amadureceram a região do córtex pré-frontal, responsável pelo controle inibitório", detalha.

"Até essa fase (25 anos), o risco de a pessoa ter pouco controle sobre o próprio comportamento, ser capturada por esses mecanismos de recompensa é muito maior", afirma a especialista. O tratamento, agora integrado ao SUS, prevê desde a terapia cognitivo-comportamental até o uso de fármacos, como a naltrexona para controlar a fissura. Para as famílias, a orientação é clara: é preciso apoiar, mas sem se tornar um facilitador.

"O comportamento familiar de assumir responsabilidades financeiras que não são próprias, evitar que as consequências do comportamento cheguem até a pessoa, encobrir dívidas ou flexibilizar limites são condutas que contribuem para a manutenção do problema", adverte a psicóloga. A reconstrução da autoestima e da confiança é o maior desafio pós-vício.

Do ponto de vista emocional, na avaliação de Ingrid, os danos emocionais são expressivos. "Instala-se, com frequência, um padrão de irritabilidade, ansiedade e vazio emocional, que pode evoluir para quadros mais graves, incluindo ideação suicida", acrescenta. Em um nível mais amplo, a dependência afeta profundamente os vínculos e as relações familiares e sociais, gerando sofrimento coletivo e abalando a confiança entre todos os envolvidos.

Para sobreviventes como Roberto, o jogo deixou de ser diversão para se tornar uma lição amarga sobre a fragilidade da vida diante de um algoritmo de apostas. Todavia, a psicóloga acredita que a recuperação é, sim, possível e real. Com acompanhamento terapêutico e a elaboração desse período complexo, o indivíduo pode voltar a sentir prazer em viver, ter autoestima e consertar os erros cometidos.

•        Mercado ilegal de bets pode dominar apostas até 2026 e causar prejuízo bilionário ao Brasil

O mercado ilegal de bets apresenta um crescimento alarmante e deve representar 72% de todas as transações do setor no Brasil até o ano de 2026. Dados levantados pela YieldSec indicam que operações sem licença ampliarão os riscos financeiros e emocionais dos brasileiros em um período crítico de fragilidade regulatória.

A ausência de fiscalização efetiva cobra um preço alto. Estimativas da LCA Consultores apontam que o país sofrerá perdas anuais de R$ 10,8 bilhões em arrecadação e produtividade. O impacto atinge diretamente o bolso do consumidor: jogadores com comportamento de risco chegam a comprometer 20% da renda mensal com jogos, conforme aponta o Journal of Gambling Studies.

Diante da iminente formalização do setor, Jezriel Francis, CEO da startup mineira O Aposta Zero, adverte que a crise deve se intensificar. A regulamentação nacional exporá feridas sociais que hoje permanecem ocultas sob a superfície do mercado ilegal de bets.

<><> Impactos do mercado ilegal de bets na economia doméstica

A entrada em vigor das novas regras nacionais de apostas ocorre em um cenário de vulnerabilidade econômica da população. Para Francis, a formalização funciona como um holofote sobre uma crise silenciosa. O aumento das denúncias e a revelação de jogadores endividados trarão à tona casos graves de colapso emocional.

“A regulamentação ilumina uma crise silenciosa e mostra o tamanho real do problema, especialmente porque o Brasil ainda não conta com políticas estruturadas de prevenção ao vício em jogos”, afirma o executivo.

Enquanto as leis tentam alcançar a realidade, o mercado ilegal de bets avança rapidamente e cria armadilhas práticas para o apostador. Plataformas não reguladas operam sem qualquer critério de segurança, tornando o ambiente fértil para fraudes e dependência comportamental.

Os principais riscos identificados nessas operações obscuras incluem:

•        Manipulação de odds: Alteração de probabilidades para prejudicar o usuário.

•        Bloqueio de saques: Retenção indevida do dinheiro dos apostadores.

•        Coleta irregular de dados: Uso indevido de informações pessoais.

•        Ausência de limites: Falta total de mecanismos de parada ou teto de perdas.

•        Falta de verificação: Acesso liberado para menores de idade.

<><> Tecnologia como barreira contra o vício

A carência de mecanismos nacionais de prevenção agrava o cenário. Clínicas especializadas em dependência ainda são raras, caras e concentradas nas grandes capitais. Isso deixa milhões de usuários à mercê da própria sorte enquanto o mercado ilegal de bets segue operando sem travas.

Jezriel Francis destaca que a proteção não pode depender apenas da repressão, mas também do suporte acessível. A startup Aposta Zero surge nesse contexto oferecendo ferramentas digitais focadas em autocontrole e redução de danos. A plataforma disponibiliza recursos vitais para quem busca recuperar a autonomia financeira:

1.       Monitoramento de impulsos em tempo real.

2.       Definição de limites personalizados.

3.       Trilhas educativas sobre jogo responsável.

4.       Apoio sigiloso e seguro.

O objetivo é democratizar o cuidado, levando assistência a regiões onde o atendimento psicológico especializado inexiste.

<><> A urgência de políticas públicas integradas

O debate sobre o setor não pode se restringir apenas à arrecadação de impostos. É necessário focar no impacto real sobre a população. Francis categoriza a situação atual como um fenômeno de saúde pública urgente.

Se o crescimento projetado para o mercado ilegal de bets se confirmar, milhões de brasileiros ficarão expostos sem qualquer rede de proteção. O especialista defende que o Brasil precisa implementar políticas estruturadas que unam três pilares: regulação firme, fiscalização ativa e suporte psicológico abrangente.

Tecnologia e comunicação assertiva desempenham papéis fundamentais nessa etapa de transição. Somente com uma abordagem integrada será possível frear o avanço descontrolado do mercado ilegal de bets e mitigar os prejuízos bilionários previstos para os próximos anos.

 

Fonte: Correio Braziliense/AbcdoAbc

 

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