terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Viúvas ucranianas lutam pelo reconhecimento de soldados que se suicidaram

Kateryna não consegue falar sobre o filho, Orest, sem chorar. Sua voz treme de raiva ao explicar como soube de sua morte. Ele morreu no front de batalha, perto de Chásiv Yar, na região ucraniana de Donetsk, em 2023. Segundo a investigação oficial do Exército, ele se suicidou.

Kateryna pediu que a sua identidade e a do seu filho falecido permanecessem em anonimato devido ao estigma que envolve o suicídio e a saúde mental na Ucrânia. Os nomes usados nesta reportagem, portanto, foram alterados.

Orest era um jovem tranquilo, de 25 anos, amante de livros, que sonhava com uma carreira acadêmica. Problemas de visão haviam inicialmente tornado Orest inapto para o serviço militar no início da guerra, contou a mãe.

No entanto, em 2023, uma patrulha de recrutamento o abordou na rua e o submeteu a uma reavaliação. Ele foi então considerado apto para o combate e, pouco depois, enviado ao front como especialista em comunicações.

É difícil saber o número exato de soldados ucranianos mortos em combate. No início deste ano, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reconheceu mais de 46 mil mortes entre soldados e oficiais ucranianos. Analistas ocidentais acreditam que esse número é subestimado (ou seja, seria maior do que o divulgado oficialmente).

À sombra, se desenrola uma tragédia mais silenciosa: a dos soldados que tiram a própria vida e a de suas famílias que ficam imersas na dor, no estigma e no silêncio.

Não há estatísticas oficiais sobre o suicídio de soldados ucranianos. As autoridades afirmam que se tratam de incidentes isolados. Mas defensores dos direitos humanos e familiares acreditam que o número pode chegar às centenas.

"Orest foi capturado, não convocado", disse Kateryna, com amargura.

O centro local de recrutamento negou qualquer irregularidade à BBC, afirmando que problemas de visão fizeram com que Orest fosse considerado "parcialmente apto" durante a guerra.

Depois de ser destinado a uma área próxima a Chásiv Yar, Orest se tornou cada vez mais retraído e depressivo, contou Kateryna.

Ela ainda escreve cartas ao filho todos os dias: 650, e o número continua a aumentar. A sua dor foi agravada pela forma como a lei classifica a morte. Na Ucrânia, o suicídio é considerado uma perda não relacionada ao combate. As famílias de militares que tiram a própria vida não recebem compensação, honras militares nem reconhecimento público.

"Na Ucrânia, é como se estivéssemos divididos", disse Kateryna.

"Alguns morreram da forma correta, outros da forma errada", acrescentou. "O Estado levou o meu filho, o enviou para a guerra e me devolveu o corpo em um saco. Só isso. Nenhuma ajuda, nenhuma verdade, nada", lamentou.

<><> O número oculto

A história de Kateryna é uma das três reunidas pela BBC com famílias cujos parentes se suicidaram durante o serviço militar. Cada relato revela um padrão doloroso de esgotamento psicológico e um sistema que, segundo eles, os negligencia.

Para Mariyana, de Kyiv, a história é dolorosamente semelhante. Ela pediu que tanto sua identidade quanto a do marido falecido também permanecessem em sigilo e fossem alterados nesta reportagem.

O marido, Anatoliy, se alistou voluntariamente para lutar em 2022. No início, foi recusado por falta de experiência militar, mas "continuou voltando até que o levaram", disse Mariyana, com um leve sorriso.

Anatoliy foi enviado como atirador para uma área próxima a Bakhmut (leste da Ucrânia), um dos fronts mais sangrentos da guerra.

"Ele disse que, após uma missão, cerca de 50 homens morreram", recordou Mariyana. "Ele voltou diferente; calado e distante."

Depois de perder parte de um braço, Anatoliy foi hospitalizado.

Numa noite, após uma ligação telefônica com a esposa, ele tirou a própria vida no pátio do hospital.

"A guerra o destruiu", disse Mariyana, entre lágrimas. "Ele não conseguia viver com o que tinha visto."

Como Anatoliy se suicidou, as autoridades negaram a ele um enterro militar.

"Quando estava na linha de frente, ele era útil. Mas agora não é um herói?", questionou Mariyana, que disse se sentir traída. "O Estado me deixou à margem."

"Eu entreguei meu marido a eles e eles me deixaram sozinha, sem nada", concluiu.

Ela também disse ter se sentido estigmatizada por outras viúvas de militares.

<><> 'Foi como se o mundo tivesse desmoronado'

O único apoio delas é uma comunidade on-line formada por mulheres como elas, viúvas de soldados que se suicidaram.

Elas querem que o governo mude a lei para que suas famílias tenham os mesmos direitos e reconhecimento concedidos a outras famílias de militares mortos.

Viktoria, que conhecemos em Lviv, ainda não consegue falar publicamente sobre a morte do marido por medo de ser condenada. Também não usamos seu nome verdadeiro nem o do marido.

O marido, Andriy, tinha uma cardiopatia congênita, mas insistiu em se alistar no Exército. Tornou-se motorista de uma unidade de reconhecimento e testemunhou alguns dos combates mais intensos, incluindo a libertação de Kherson (que tinha sido invadida pela Rússia em fevereiro de 2022).

Em junho de 2023, Viktoria recebeu uma ligação telefônica informando que Andriy havia tirado a própria vida.

"Foi como se o mundo tivesse desmoronado", afirmou.

O corpo chegou dez dias depois, mas disseram a ela que não poderia vê-lo.

Um advogado contratado posteriormente encontrou inconsistências na investigação sobre a morte. As fotos do local dos fatos a fizeram duvidar da versão oficial sobre como o marido morreu. Desde então, o Exército ucraniano concordou em reabrir a investigação, reconhecendo falhas.

"Estou lutando pelo nome dele. Ele não pode mais se defender. A minha guerra não terminou", acrescentou.

<><> Cultura do estigma

Oksana Borkun dirige uma comunidade de apoio a viúvas de militares.

A sua organização reúne atualmente cerca de 200 famílias em luto por suicídio.

"Se é suicídio, então não é um herói; é isso que as pessoas pensam", disse.

"Algumas igrejas se recusam a realizar funerais. Algumas cidades não penduram as fotos nos muros de memoriais", afirmou.

Muitas dessas famílias duvidam das explicações oficiais para a morte de seus parentes.

"Alguns casos simplesmente são descartados rápido demais", acrescentou Oksana.

O capelão militar Borys Kutovyi afirmou ter visto ao menos três suicídios sob sua responsabilidade desde o início da invasão. Para ele, porém, mesmo um único caso já é demais.

"Cada suicídio significa que falhamos em algo", declarou.

Ele acredita que muitos soldados recrutados, ao contrário dos militares de carreira, são especialmente vulneráveis do ponto de vista psicológico.

Tanto Oksana quanto o padre Borys afirmaram que aqueles que se suicidaram também deveriam ser considerados heróis.

<><> Um sistema que luta pela verdade

Olha Reshetylova, da comissão ucraniana para direitos dos militares veteranos, afirmou receber relatos de até quatro suicídios de militares por mês e reconheceu que não está sendo feito o suficiente para enfrentar o problema.

"Eles viveram o inferno. Até as mentes mais fortes podem se quebrar", explicou.

Reshetylova disse à BBC que seu escritório está promovendo uma reforma sistêmica.

"Construir uma escola adequada de psicologia militar leva anos", afirmou.

"As famílias têm direito à verdade", acrescentou.

"Elas não confiam nos investigadores. Em alguns casos, os suicídios podem encobrir assassinatos", admitiu.

A opinião dela não é tão clara sobre se todos os que servem devem ser homenageados como heróis militares, mas ela olha para o futuro.

"Precisamos nos preparar agora para quando tudo isso terminar", advertiu Reshetylova.

"Essas pessoas eram seus vizinhos, seus colegas. Elas viveram o inferno. Quanto mais calorosa for a acolhida, menos tragédias haverá", acrescentou.

¨      Ucrânia está em impasse às vésperas de negociações em Abu Dhabi, avalia especialista

Às vésperas das negociações em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, a Ucrânia se encontra em uma situação de impasse. Para Kiev, a continuidade do conflito é uma questão de sobrevivência das elites políticas, afirmou à Sputnik o cientista político Bogdan Bezpalko, membro do Conselho para Relações Interétnicas junto à Presidência da Rússia.

"A Ucrânia está hoje, sem dúvida, em uma posição vulnerável. E, mais importante, é uma posição sem saída. Não está claro para onde ir, em que se apoiar, em quem confiar. Para a elite política ucraniana, a continuidade do conflito é uma questão de sobrevivência. Já na Rússia, ou mesmo nos Estados Unidos e na Europa, essa alternativa não se coloca. Por isso, Kiev tenta se apoiar ora na Europa, ora nos EUA, buscando, ainda assim, a continuação dos confrontos", disse Bezpalko.

Segundo o analista, os Estados Unidos têm interesse em um acordo de paz por motivos próprios. "Eles precisam obter um efeito de imagem, o de que Trump encerrou a guerra", destacou.

Sobre o andamento das próximas negociações, Bezpalko ressaltou que, devido ao caráter fechado dos encontros, é prematuro fazer previsões.

"Há pouquíssimas informações sobre as negociações, todas são sigilosas. Sem qualquer concretude, falar em desfecho é simplesmente impossível", afirmou.

Na avaliação do especialista, a reunião em Abu Dhabi não será a última. "Acredito que será mais uma rodada de negociações, nas quais se chegará a um acordo para continuar negociando", resumiu.

As negociações do grupo de trabalho trilateral sobre segurança, com representantes da Rússia, dos Estados Unidos e da Ucrânia, ocorreram nos dias 23 e 24 de janeiro na capital emiradense. Um novo encontro é esperado, de forma preliminar, para o domingo (1º). O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, havia declarado que essa rodada seria bilateral, mas que Washington poderia se juntar às partes.

Anteriormente, o assessor presidencial russo Yuri Ushakov afirmou que a retirada das tropas ucranianas do Donbass é um componente importante de todo o plano de solução pacífica.

<><> Negociações sobre a Ucrânia em Abu Dhabi são adiadas após encontro entre Rússia e EUA, diz mídia

A segunda rodada das negociações entre Rússia e Ucrânia estava prevista para acontecer neste domingo (1º) em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Conforme o jornal The New York Times, o encontro foi adiado "por vários dias" após uma reunião surpresa entre representantes russos e norte-americanos na Flórida.

"As negociações estavam previstas para domingo em Abu Dhabi. Mas, no início da tarde de domingo [horário local], Vladimir Zelensky anunciou nas redes sociais que as reuniões foram transferidas para [as próximas] quarta e quinta-feira. Não está claro porque houve atrasos", apontou a publicação.

No último sábado (31), o enviado especial do presidente dos Estados Unidos, Steve Witkoff, se reuniu com o representante especial do presidente da Rússia para cooperação em investimentos e economia com países estrangeiros, Kirill Dmitriev, em Miami. Também participaram no encontro o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, o genro do presidente norte-americano, Jared Kushner, e o assessor sênior da Casa Branca, Josh Gruenbaum.

Conforme Dmitriev, as conversas tiveram bons resultados. "Encontro construtivo com a delegação pacificadora dos EUA. Também houve uma discussão produtiva sobre a questão do grupo de trabalho econômico EUA-Rússia", acrescentou.

Já o enviado norte-americano afirmou que os Estados Unidos estão "encorajados" pelos resultados do encontro e pelo fato de a Rússia estar trabalhando para alcançar a paz no conflito ucraniano.

"Estamos encorajados por essa reunião, pelo fato de a Rússia trabalhar para garantir a paz na Ucrânia, e agradecemos ao presidente dos EUA [Donald Trump] por seu papel fundamental na busca por uma paz sólida e duradoura", afirmou.

<><> 'Ucrânia está em impasse'

Também no sábado, o cientista político e membro do Conselho para Relações Interétnicas junto à Presidência da Rússia, Bogdan Bezpalko, avaliou à Sputnik que a Ucrânia estaria em impasse sobre pontos das negociações às vésperas da reunião em Abu Dhabi.

"A Ucrânia está hoje, sem dúvida, em uma posição vulnerável. E, mais importante, é uma posição sem saída. Não está claro para onde ir, em que se apoiar, em quem confiar. Para a elite política ucraniana, a continuidade do conflito é uma questão de sobrevivência. Já na Rússia, ou mesmo nos Estados Unidos e na Europa, essa alternativa não se coloca. Por isso, Kiev tenta se apoiar ora na Europa, ora nos EUA, buscando, ainda assim, a continuação dos confrontos", disse Bezpalko.

Segundo o analista, os Estados Unidos têm interesse em um acordo de paz por motivos próprios. "Eles precisam obter um efeito de imagem, o de que Trump encerrou a guerra", destacou.

Sobre o andamento das próximas negociações, Bezpalko ressaltou que, devido ao caráter fechado dos encontros, é prematuro fazer previsões.

¨      Rússia não pode aceitar tropas da OTAN na Ucrânia sob garantias de segurança, diz chancelaria russa

A Rússia não aceitará o destacamento de forças da União Europeia (UE) ou da OTAN em território ucraniano como parte das garantias de segurança para Kiev, declarou o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Aleksandr Grushko, à Sputnik.

Na quarta-feira (28), o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse que a versão atual das garantias de segurança inclui o destacamento de tropas de vários países europeus na Ucrânia, principalmente da França e do Reino Unido, com o apoio de Washington. No entanto, ele não divulgou mais detalhes sobre esse apoio.

"Já dissemos que isso é inaceitável, não haverá adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte [OTAN] nem forças militares estrangeiras. Não faz diferença se, por exemplo, um cabo francês usa um boné com a inscrição 'OTAN' ou 'UE'. Isso não muda nada. Portanto, não nos desviamos de nossa posição", afirmou o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Aleksandr Grushko.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que qualquer cenário de destacamento de tropas de países-membros da OTAN na Ucrânia é categoricamente inaceitável para a Rússia e acarretaria uma escalada grave.

Moscou classificou anteriormente as declarações sobre a possibilidade de envio de um contingente de Estados-membros da OTAN para a Ucrânia, feitas no Reino Unido e em outros países europeus, como uma incitação à continuação das hostilidades.

¨      Hungria não toma partido sobre conflito na Ucrânia e prioriza seus próprios interesses, diz Orbán

A Hungria não toma partido no conflito na Ucrânia e prefere defender apenas seus próprios interesses, afirmou neste sábado (31) o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán.

"De que lado a Hungria está, da Ucrânia ou da Rússia? Por que eu deveria estar de um lado ou de outro? Eu estou do lado da Hungria", disse Orbán durante um evento na cidade de Hatvan.

Segundo o primeiro-ministro, a Hungria não é obrigada a definir sua posição a partir de "alguém de fora" e deve defender seus interesses nacionais.

"Cooperamos com aqueles com quem conseguimos defender melhor nossos interesses. Vamos comprar gás e petróleo da Rússia. Depois que a guerra terminar, precisaremos construir boas relações de vizinhança com os ucranianos. Há espaço para tudo", acrescentou.

No início de janeiro, Orbán afirmou que a Hungria não permitirá mais ser arrastada para conflitos em nome dos interesses de terceiros, como ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o país participou do conflito ao lado da Alemanha nazista.

 

Fonte: BBC News Mundo/Sputnik Brasil

 

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