Nega
Pataxó entregou o seu peito à lança: a impunidade do crime do Invasão Zero na
Bahia
Um
tempo antes de ser assassinada, a pajé Nega Pataxó havia recebido um canto e
transmitido aos seus familiares, também cantando este canto em alguns rituais.
Ela tinha uma voz potente, aguda, alta, marcante e muito afinada. Esse canto
hoje parece ser premonitório para seus parentes. Tanto pela tragédia, quanto
pela coragem. Antes de morrer, em 2023, em visita à Aldeia Marakanã, no Rio de
Janeiro, Nega cantou:
“Eu sou
tupinambá guerreira,
mas eu
trabalho é para combater,
eu
entrego o meu peito à lança,
nossa
batalha temos que vencer.
Eu
entrego o meu peito à lança,
nossa
batalha temos que vencer”
Nega
Tupinambá, guerreira do povo Pataxó Hã Hã Hãe, entregou o seu peito à lança.
Assassinada covardemente por um jovem filho de fazendeiro no sul da Bahia, no
dia 21 de janeiro de 2024. Ao lado de seu irmão, o cacique Nailton Pataxó, que
também foi alvejado, mas sobreviveu ao ataque. Sua última imagem é emblemática:
o corpo caído no pasto, ao lado do irmão, com um curral ao fundo, seu braço
esticado acima da cabeça, segurando o maracá, fincado na terra. Nega, liderança
histórica na luta pela demarcação dos territórios Pataxó Hã Hã Hãe na Terra
Indígena Caramuru-Paraguassu há mais de 40 anos e hoje uma referência para
jovens e mulheres indígenas na sua comunidade e no País, foi morta durante um
ataque promovido por cerca de 200 fazendeiros do grupo autointitulado Movimento
Invasão Zero, na retomada da Fazenda Inhuma, no município de Potiraguá, no Sul
da Bahia, em janeiro de 2024.
O autor
do disparo, filho de fazendeiro, foi preso em flagrante, mas meses depois foi
liberado após pagar fiança. Exames balísticos comprovaram que o tiro que matou
Nega partiu de sua arma. Até hoje, o crime não foi a julgamento, nenhuma
autoridade policial foi responsabilizada, e os líderes e articuladores do grupo
permanecem impunes. A repercussão da tragédia trouxe para o funeral autoridades
indígenas: a ministra Sonia Guajajara foi até a aldeia, junto da deputada Celia
Xakriaba e da presidenta da Funai Joenia Wapishana. A comitiva interministerial
contou com representantes de diferentes escalões do Ministério da Justiça e
Segurança Pública. Uma série de ações foram feitas e nesses dois anos não
houve, nessa terra indígena, novos assassinatos. Entretanto, o sul da Bahia
segue marcado de sangue indígena. Algumas ações que interviram no território
serviram para combater violências ligadas ao narcotráfico, a prender suspeito
da morte do cacique Lucas Kariri-Sapuyá, assassinado um mês antes de Nega.
Essas ações após a tragédia de grande repercussão revelam que a omissão da
última década foi brutal: uma violência que ceifou quase 40 pessoas, e culminou
na morte das lideranças Nega e Lucas.
No sul
da Bahia, a milícia ruralista Invasão Zero segue atuando com impunidade e com
brutalidade. Foram pessoas ligadas ao movimento Invasão Zero que convocaram,
através de grupo no WhatsApp, a ação dos fazendeiros em 21 de janeiro de 2024,
quando o povo Pataxó Hã Hã Hãe fazia a retomada do território indígena sob a
liderança do cacique Nailton. Depois desse grave ocorrido, em junho de 2025 o
Invasão Zero ainda organizou o primeiro fórum nacional do grupo. Neste fórum,
um advogado palestrante explicou aos fazendeiros como obter porte de armas e
como atuar sem deixar provas de suas ações, entre outras estratégias que
revelam o caráter de milícia do movimento. É muito significativo que a Pajé
Nega tenha sido assassinada em janeiro de 2024, um mês depois de homologada a
lei 14.701, mais conhecida como Marco Temporal, ou Lei do Genocídio Indígena,
que praticamente inviabiliza novas demarcações no país, além de abrir os
territórios indígenas à exploração de grandes grupos econômicos, em especial
ligados ao agronegócio e à mineração. Segundo relatório elaborado pela CPT
sobre Conflitos no Campo, Nega foi a primeira indígena assassinada naquele ano
e o Invasão Zero esteve envolvido logo no primeiro caso de conflito. Desde a
aprovação da lei, as comunidades enfrentam ainda mais insegurança nos
territórios. Em 2025, o povo Pataxó da TI Comexatibá, no extremo sul da Bahia,
sofreu uma série de graves ataques e ameaças. Em carta pública, divulgada em
outubro, lideranças do território narram a ação violenta de pistoleiros encapuzados
e fortemente armados que deixou indígenas gravemente feridos. Os criminosos
identificados confessaram o envolvimento de um empresário do agronegócio,
também ligado ao Invasão Zero, como financiador do ataque. A Força de Segurança
Nacional tem sido constantemente convocada para atuar na região na tentativa de
conter a onda de violência.
Nega
Pataxó era uma defensora ambiental, da floresta, dos direitos humanos. Lutou
com seu povo contra a devastação. Seu assassinato não pode ser tratado como
caso isolado. Ele é emblemático de uma proximidade alarmante que vem se
estruturando entre fazendeiros, pistoleiros e forças policiais, configurando um
sistema penal subterrâneo e ilegal que opera com violência nos territórios para
criminalizar as lutas sociais e manter a hegemonia do agronegócio e do
latifúndio. Entre 2023 e 2024, o relatório Na Linha de Frente, elaborado pelas
organizações Justiça Global e Terra de Direitos, registrou 486 casos de
violência contra defensoras e defensores de direitos humanos no Brasil, dos
quais 55 pessoas foram assassinadas, em sua maioria por defender a terra, o território
e o meio ambiente – com um ataque a cada cerca de 36 horas no país. Entre 1985
e 2021, dos 1.536 assassinatos registrados, apenas 147 foram julgados, o que
implica que mais de 90% dos casos não chegam a um desfecho judicial.
Segundo
dados que constam no documento Década da resistência, publicado em 2022 pela
Global Witness, o Brasil foi o país que mais assassinou defensores da terra e
do meio ambiente na última década. Foram 342 ativistas mortos, representando
20% das mortes globais no período, ficando inclusive na frente da Colômbia,
país historicamente conhecido pela violência contra defensores e defensoras
ambientais.
Em
novembro de 2024, durante o VI Acampamento Terra Livre, em Salvador, organizado
pelo Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia, o Grupo de
Ecologias Políticas da UFBA passou um questionário e realizou 26 entrevistas
com indígenas presentes com o intuito fazer um breve levantamento da percepção
da violência. Quase todos eram lideranças e caciques (85%), dos três biomas da
Bahia, mas sobretudo Mata Atlântica e Caatinga. Todos se consideravam
defensores ambientais, e 70% já havia sido vítima de violência na luta pela
terra e 60% havia recebido uma ameaça de morte nos últimos cinco anos. Um
número ainda maior afirmava que havia outras pessoas ameaçadas no território,
e, o que era interessante, a maioria relatou que havia denunciado à polícia e
procurado ajuda do Estado para resolver os conflitos e a ameaça. Um número
parecido, 60% das respostas, as lideranças afirmavam que não se sentiam seguros
dentro de seus territórios. São dados que revelam como a violência contra os
povos indígenas na Bahia está internalizada, é sistêmica, constante, onde de um
lado sabem do envolvimento da PM, mas por outro, não deixam de denunciar para
essa mesma PM.
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A luta que segue
Nestes
dois anos que se seguiram ao assassinato da pajé Nega Pataxó, seus familiares
têm feito o movimento de transformar a dor do luto em luta. Lutar para que este
crime não vire estatística da covardia e da impunidade: mais uma pessoa
indígena assassinada por fazendeiros na Bahia. Negam-se a romantizar sua morte,
silenciar o trauma, preferem enfrentar a dor com indignação. Ao longo destes
dois anos, os povos Tupinambá e Pataxó Hãhãhãe vêm lutando nos espaços públicos
para chamar a atenção para a impunidade em torno desse crime e pressionar a
justiça e o Estado a agirem, sobretudo através da Associação Paraguaçu de
Mulheres Indígenas. Desde o assassinato de Nega, mulheres da família e da
comunidade movimentam-se num forte processo de luta política e espiritual. Se
organizaram para manter viva a memória de Nega, para seguir com o importante
trabalho de cuidado que ela fazia com as mulheres do território e para exigir
justiça por esse crime bárbaro. A Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas,
liderada por irmãs da pajé Nega Pataxó, numa aliança com o Laboratório de
Pesquisas sobre Corpos, Naturezas e Sentidos (Lab. CONATUS/UFF) e com o
coletivo Etinerâncias, organizou uma primeira Tenda de Cuidados em memória de
Nega durante o ATL em Brasília, ainda em abril de 2024. Uma segunda Tenda
aconteceu durante o ATL de Salvador, em novembro de 2024, e a mais recente na I
Conferência Nacional de Mulheres Indígenas, em agosto de 2025, novamente em
Brasília. Na plenária final deste evento, uma moção de protesto pela impunidade
do crime foi aprovada, com a assinatura de quase 500 delegadas, exigindo a
responsabilização de todos os envolvidos nesse crime.
O
assassinato de Nega marcou profundamente a trajetória de luta das mulheres da
Associação Paraguaçu. A brutalidade de sua morte não encerrou sua presença,
dando origem a um movimento que transforma o luto em força coletiva. Irmã de
Nega, Luzinete Pataxó, eleita em 2024 a primeira mulher indígena vereadora do
município de Pau Brasil (BA), afirma que a associação já era um desejo
compartilhado entre elas: “Foi um desejo também de Nega que a gente criasse
essa associação. Ela teve participação no início”, lembra. Após a morte de
Nega, a Associação Paraguaçu se fortalece como espaço de articulação política
das mulheres. “A associação tem se fortalecido como luta mesmo: luta pelo
território, luta pelos direitos, luta por justiça, luta por igualdade”, afirma
Luzinete. Entre as prioridades, estão a incidência nas políticas públicas, a
luta por justiça e a ampliação do protagonismo feminino dentro das próprias
comunidades. “A gente quer estar incluída nas políticas públicas, quer
visibilidade até dentro da comunidade, uma vez que todos os eventos antes eram
organizados por homens.” A reorganização marca também uma inflexão nas formas
de participação política. “Então, a gente decidiu que de agora em diante a
gente vai lutar pelas nossas causas”, conclui Luzinete, situando a associação
como um espaço de afirmação das mulheres indígenas e de continuidade da luta de
Nega.
Da dor
e da indignação, emergem práticas que reafirmam o cuidado como eixo político e
espiritual das resistências femininas indígenas. As Tendas de Cuidado Pajé Nega
Pataxó Hã Hã Hãe nasceram desse gesto de continuidade e memória. Co-criadas
entre mulheres Tupinambá, Pataxó Hã Hã Hãe e aliadas, as Tendas são
dispositivos ético-políticos de resistência e de honraria às mestras dos
saberes tradicionais. Montadas em territórios e eventos de mobilização social e
política indígena – como o Acampamento Terra Livre e a Marcha das Mulheres
Indígenas –, as Tendas se tornam espaços de articulação e denúncia, onde a
espiritualidade e a política se encontram na tessitura dos cuidados. Sobrinha
de Nega, Mônica Tupinambá relembra que a primeira tenda foi erguida apenas dois
meses após seu assassinato. “Logo após a morte dela, dois meses, nós fomos para
o ATL com essa primeira tenda de cuidados”, conta. Segundo ela, desde o início,
a proposta ultrapassava a dimensão do cuidado. “Essa tenda não é uma tenda só
de cuidados, nós usamos ela também como um pedido de justiça, né, pelo que
aconteceu, o que fez com a minha tia.” Nos encontros e mobilizações, a tenda se
consolida como um espaço de escuta, fortalecimento feminino e acolhimento. “Ali
é um lugar de você ouvir, de acolher as pessoas que chegam. As pessoas que
entram sempre falam: ‘eu passei aqui, eu senti de entrar’. É um lugar que te
chama, é um lugar que te acolhe. E era isso que Nega era, uma mulher de
acolher”, afirma Mônica.
Para
ela, manter as tendas ativas é também uma forma de impedir que a morte da tia
seja apagada ou reduzida a números. “A importância de nós estarmos fazendo esse
trabalho é para que isso não venha cair no esquecimento, para que não vire só
uma estatística. Eu não quero que a minha tia vire uma estatística”, diz.
Mônica conecta o assassinato à escalada da violência contra os povos indígenas
e às disputas em torno do marco temporal. “Esse marco temporal é um genocídio
dos povos indígenas. É o massacre do século XXI. A partir do momento que eles
aprovaram isso, foi quando aconteceu a tragédia. Aprovou, bum, mais um indígena
morto”, denuncia. Para ela, trata-se da continuidade histórica da violência
colonial: “Voltando ao massacre de 1500. Volta-se o massacre de 1500 para o
século XXI.”
Mestra
Mayá Tupinambá, irmã mais velha de Nega e professora visitante de Notório Saber
na UFBA, conta que a morte da pajé não interrompeu sua atuação no território.
“Nós estamos dando continuidade ao trabalho dela. Ela se foi, mas para nós ela
ainda existe, ainda está aí”. Para Mayá, Nega deixou um legado de força
espiritual, respeito e escuta dos ancestrais, que segue convocando o povo
Tupinambá e Pataxó Hã Hã Hãe a se fortalecer coletivamente. Ao falar da
violência no campo, Mestra Mayá recorda que os indígenas não são agentes da
morte, mas alvos dela: “nós nunca matamos nenhum fazendeiro e nenhum filho de
fazendeiro, mas hoje jorra sangue pela terra que nós reivindicamos”. Segundo
ela, grileiros, fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e integrantes do grupo
Invasão Zero têm aprofundado a violência nos territórios. A ausência de
demarcações expõe cotidianamente as comunidades ao risco: “estão lá os nossos
parentes morrendo, sangue jorrando como boi de corte, sendo assassinados hoje
um, amanhã outro, amanhã outro, e a gente passando por agonias.”, denuncia. Ela
amplia ainda o horizonte dessa luta, conectando a causa indígena a outras
populações historicamente violentadas. “A injustiça ainda é muito grande com
referência às nossas lutas indígenas”, afirma, lembrando que ela atravessa
também quilombolas, populações negras, ribeirinhas e pessoas sem teto. “São
povos que estão aí também reivindicando o seu direito, um lugar para morar.”
O
Encontro de Mulheres, realizado no território Caramuru Paraguaçu, na aldeia do
Ourinho, onde Nega morava, um ano após seu assassinato, constituiu outro marco
nesse percurso de não deixar seu assassinato cair no esquecimento.
Protagonizado por mulheres indígenas, o encontro reuniu lideranças de
diferentes comunidades em um espaço de articulação política, cultural e
espiritual, voltado ao fortalecimento da relação com a terra, à valorização da
ancestralidade e à reafirmação do papel das mulheres na luta pelos direitos
territoriais, pela memória e pela vida. Segundo Luzinete Pataxó, uma das
organizadoras, a escolha do local foi também um gesto político: “A gente quis
que esse Encontro de Mulheres fosse aqui justamente no território dela para que
fosse, além de uma homenagem, um pedido de justiça pela sua morte”. Ela destaca
que a Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas e a família seguem exigindo
respostas do Estado: “A gente tem cobrado punição dos verdadeiros culpados pelo
assassinato de Nega”. Foi nesse encontro de mulheres, sob a atmosfera de
indignação, dor e reconhecimento, que se iniciou o processo de realização do
Podcast Nega Pataxó: nosso luto é luta.
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Sobre o Podcast
Quais
mortes nos autorizam a chorar? Quais vidas são reconhecidas em um mundo que
silencia e interrompe a existência de mulheres indígenas? Que histórias serão
contadas, que vozes serão ouvidas? Pronunciar nossas mortas é também afirmar
suas vidas. Trazer à tona a memória viva de Nega – por meio de sua própria voz
e das vozes de mulheres que a conheceram, caminharam com ela ou foram por ela
tocadas – é um gesto de denúncia de sua morte e, ao mesmo tempo, de
reconhecimento de sua vida. Essas perguntas estiveram na origem da criação do
podcast. Ao construir um chão feito de palavras, lágrimas e afetos, a série
reinscreve Nega na memória coletiva. Ações, encontros e narrativas se trançam
ao longo desse percurso como forma de sustentar a experiência, elaborá-la
conjuntamente e impedir que o esquecimento se imponha. É uma proposição que é
fruto de uma antropologia engajada, vivida no corpo a corpo com o mundo, no
exercício de se importar com a vida umas das outras e de se implicar nos
acontecimentos que testemunhamos.
Foi com
esse compromisso que professoras, professores e estudantes da Universidade
Federal Fluminense e da Universidade Federal da Bahia, em parceria com a
Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas, a produtora Rádio Tertúlia e o Le
Monde Diplomatique Brasil, se uniram à família para realizar a série em quatro
episódios Nega Pataxó: Nosso Luto é Luta, lançada ao longo deste mês de janeiro
de 2026, quando se completam dois anos de seu assassinato, nas principais
plataformas de áudio, pelo Guilhotina, o podcast do Le Monde Diplomatique
Brasil. A proposta recebeu o apoio do Pulitzer center através do Fundo Semear
2025. Na COP30, a primeira escuta coletiva do Podcast foi marcada pela presença
de Rita Tupinambá, pajé e irmã mais nova de Nega, com Claudelice Santos (irmã
de José Claudio Ribeiro da Silva e cunhada de Maria do Espírito Santo,
assassinados em 2011), Angela Mendes (filha de Chico Mendes, assassinado em
1988), Alessandra Sampaio (viúva de Dom Phillips, assassinado ao lado de Bruno
Pereira em 2022) e Eliete Paraguassu (vereadora em Salvador, marisqueira e
quilombola, ameaçada de morte).
Nega
Pataxó: Nosso Luto é Luta se organiza em quatro episódios que articulam
investigação narrativa, memória coletiva e análise política da violência
fundiária no sul da Bahia. Ao acompanhar o assassinato da pajé e seus
desdobramentos, a série tensiona a naturalização da morte indígena, interroga a
impunidade e evidencia o protagonismo das mulheres como eixo da luta por
território, por justiça e pela vida.
Enfatizar
o protagonismo das mulheres nos conflitos por terra e território, como fizemos
neste podcast, é uma escolha política e epistemológica que amplia a compreensão
da própria violência fundiária, tornando visíveis dimensões historicamente
apagadas: o modo como a expropriação territorial e a colonização reconfiguram
relações familiares, produzindo vulnerabilidades específicas que incidem
diretamente sobre a vida das mulheres. Três meses antes do assassinato de Nega,
sua sobrinha Priscilla Xavier, mãe de cinco filhos, foi brutalmente assassinada
dentro do território. O crime, marcado por requintes de crueldade, praticamente
não teve repercussão nem investigação consistente. A sobreposição entre
violência fundiária, racismo e violência de gênero atravessa os depoimentos
deixados por Nega, quando ela fala de seu trabalho com mulheres indígenas e do
enfrentamento cotidiano às agressões nas aldeias. Em um dos trechos marcantes
de uma entrevista que deu em 2022 para a antropóloga Olivia von der Weid, Nega
afirmava: “se eu puder defender qualquer mulher, eu defendo. Com um pedaço de
pau, com uma lança, com o que eu tiver na mão. Eu não vou deixar uma mulher
apanhar encostada de mim, não. Ou apanha as duas, ou eu bato nele também.” Ao
longo dos anos, Nega se fortaleceu como liderança espiritual e política,
elaborando uma prática que aproximava a defesa do território, o cuidado com as
mulheres e o enfrentamento ao patriarcado. Sua experiência ecoa formulações do
feminismo indígena e do feminismo comunitário, que apontam como mulheres
indígenas e camponesas enfrentam múltiplas violências enraizadas
simultaneamente nos territórios, nos corpos e nas relações.
Nos
encontros de mulheres, nas tendas de cuidado e nas articulações entre
territórios, Nega é convocada como presença espiritual e comunitária. Sua
história passa a operar como espelho e como motor da luta. A vereadora da
cidade de Salvador Eliete Paraguaçu, liderança quilombola e marisqueira que
esteve no Encontro de Mulheres no território de Nega, afirma que não há luta
por justiça climática, por bem viver ou por território sem a centralidade das
mulheres. “É pensar com as mulheres, construir com as mulheres, retomar com as
mulheres.” Ao mesmo tempo, ela chama atenção para o custo desse protagonismo:
“somos nós que estamos no front, somos nós que recebemos as ameaças.” Daí a
insistência na construção de rodas, alianças e espaços de fortalecimento
coletivo, onde a dor deixa de ser individual e passa a ser politicamente
partilhada.
Dois
anos depois, a memória de Nega Pataxó não se organiza apenas em torno da
violência de sua morte, mas em torno daquilo que ela continua a produzir. Sua
última imagem – o corpo estendido no pasto, o maracá ainda erguido – não é
apenas vestígio da violência, é um acontecimento que desloca e instaura
sentidos. Com um único gesto, política e ancestralidade se encontram, Nega
recusa a condição de vítima, transformando a cena da sua morte em um chamado.
Para Inaiê Tupinambá, sobrinha de Nega, aquele instante condensa uma mensagem
que atravessa o tempo: “Quando ela morreu, que nós vimos aquela filmagem, o
drone passando por cima, foi desesperador. E ela com a maraca dela pra cima.
Naquele momento, eu ouvi e eu entendi a mensagem que foi passada por ela. E naquele
auge da dor, do desespero, da aflição, da morte dela, ecoava uma voz dizendo:
‘não pare, continua lutando, não pare. Aqui só é o início, continue.’”
Segundo
Inaiê, essa mensagem permanece gravada como impulso para seguir adiante. “E
ficou guardado isso, gravado na memória, para a gente não parar. Porque, na
verdade, é um luto, mas a gente nunca vai parar com essa luta. Possa ser que a
gente vai adquirir novas estratégias, mas a luta não vai parar, porque ela vai
estar sempre ali, entendeu? Tudo que ela passou, a dor que ela passou, tá
ecoando no nosso coração, no nosso pensamento. Então, assim, não vamos parar de
jeito nenhum.” Ela relata que a morte de Nega produziu um movimento que
ultrapassa o âmbito familiar e comunitário. “E foi um ímpeto. Às vezes a gente
não entende e aí você vê que criou grande movimento, né? Através da morte dela.
O trabalho dela, a força dela. Onde eu vou, o pessoal fala: ‘Ela era parente
sua, aquela guerreira? Guerreira ela.’ Porque isso mexeu com todo mundo. Creio
que foi com a humanidade, entendeu? Foi uma coisa muito grave.” Esse movimento
tem sido tecido principalmente pelas mulheres. Suas ações indicam que a luta
pela terra não é apenas territorial, mas também corpórea. Ao mobilizarem
memória, cuidado, espiritualidade, denúncia e organização política, elas
constroem formas de resistência que não se limitam ao confronto direto, mas
envolvem práticas de sustentação da vida, elaboração coletiva da dor e
reinscrição da presença daquelas que seguem agindo no mundo por meio dos vivos.
A
circulação da memória de Nega reinscreve sua luta em uma trama mais ampla de
resistências femininas e territoriais. Presente no VIII Encontro de Pajés
realizado na TI Caramuru Paraguaçu em 2025, Yashodan Abya Yala, liderança
kilombola da Nação Muzunguê, afirma que a luta de Nega não pertence apenas ao
passado e nem a um único povo. “Quando nasce uma mulher indígena, uma mulher
quilombola, uma mulher dos territórios de enfrentamento, Nega nasce junto”,
diz. Para ela, as mulheres gestam não apenas vidas, mas sonhos, coragem e
futuros possíveis. “Do sul ao norte, a gente vive porque se inspira em Nega
Pataxó. Ela não foi. Ela está aqui.” Ao se encerrar em 28 de janeiro, a série
não se coloca como memorial conclusivo, ela passa a compor com esse campo de
forças que foi aberto pela passagem de Nega. Uma escuta político-afetiva que
desafia o apagamento, denuncia a impunidade, afirmando o protagonismo das
mulheres indígenas como eixo político da luta por território, por justiça e
pela vida. Em um país onde a violência contra povos indígenas se estrutura na
normalização da morte e na ausência de responsabilização, trazer a voz de Nega
e das mulheres que seguem com ela é interromper o silêncio. É afirmar que, onde
houver resistência feminina, cuidado e luta, Nega Pataxó seguirá presente.
Fonte:
Por Felipe Milanez, Olivia von der Weid e Daniela Duarte Lima, Le Monde
Diplomatique Brasil

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