Ciência
brasileira – complexidade e assimetrias
A
proposta deste pequeno artigo é analisar criticamente o perfil da ciência
brasileira nos últimos dez anos, tomando como referência os Boletins Anuais do
Observatório de Ciência, Tecnologia e Inovação (OCTI) (edições 2020-2024), do
Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Ao cotejar dados de produção
científica, indicadores de complexidade e inserção internacional, buscamos
compreender como o Brasil se posiciona no sistema global de conhecimento e
quais assimetrias internas e externas condicionam esse percurso.
A
pergunta que orienta nossa reflexão é direta: o que aconteceu com a ciência
brasileira na última década? A resposta exige olhar atento às evidências
empíricas, às tendências de especialização, às lacunas persistentes e às
oportunidades estratégicas, especialmente no contexto da emergência climática,
da transição energética e da necessidade de políticas públicas orientadas por
missões sociais.
O
Boletim OCTI 2024 consolida uma década de monitoramento da ciência brasileira e
mundial, oferecendo evidências empíricas que permitem compreender o lugar do
Brasil no sistema global de produção de conhecimento. Os dados mostram a
hegemonia da China, com 843,3 mil artigos indexados na Web of Science em 2024,
seguida pelos Estados Unidos com 467,8 mil, juntas responsáveis por mais da
metade da produção mundial.
O
Brasil, com cerca de 326 mil artigos entre 2021 e 2024, manteve-se na 13ª.
posição global e como principal polo científico da América Latina. Essa
trajetória revela resiliência após a pandemia, mas também limitações
estruturais diante da velocidade de expansão asiática e da emergência de novos
polos como a Arábia Saudita, que ascendeu ao grupo das 15 maiores nações
produtoras por meio de estratégias agressivas de financiamento.
A série
histórica dos boletins OCTI (2020–2024) mostra padrões consistentes e algumas
singularidades. O boletim de 2020 destacou o crescimento acelerado da produção
brasileira na década anterior, com aumento de 32,2% entre 2015 e 2020,
superando a média mundial. Já o de 2021 evidenciou o impacto da pandemia, com a
centralidade do cluster “Covid-19 e epidemiologia” e a capacidade adaptativa do
sistema nacional. O boletim de 2022 trouxe a análise inédita sobre bolsistas de
produtividade em pesquisa, revelando a concentração de elites acadêmicas em
áreas estratégicas.
O de
2023 reforçou a importância da biodiversidade e da sustentabilidade como
agendas emergentes. Finalmente, o de 2024 introduziu o Índice de Complexidade
Científica (ICC), que permite avaliar a sofisticação das capacidades
territoriais e projetar cenários futuros. Esse confronto revelou, também, que,
apesar da consistência metodológica, há lacunas persistentes, como a
invisibilidade das ciências humanas e sociais, sub-representadas nas bases
internacionais.
O OCTI,
com as cinco edições de seu Boletim Anual, vem se destacando como uma
plataforma metodológica de inteligência estratégica voltada ao monitoramento da
produção científica brasileira e mundial. Seu objetivo central é subsidiar
políticas públicas e decisões governamentais em CT&I por meio de evidências
consistentes, articulando dados bibliométricos e cientométricos com análises
territoriais e temáticas.
Para
isso, utiliza bases internacionais como a Web of Science para mapear tendências
globais, aplica metodologias próprias de prospecção e redes semânticas para
identificar clusters de conhecimento e, mais recentemente, como mostramos
acima, introduziu o Índice de Complexidade Científica (ICC). O trabalho combina
técnicas de inteligência artificial,processamento de linguagem natural e
modelagem de dados para construir indicadores robustos, permitindo comparações
internacionais e diagnósticos internos sobre desigualdades regionais.
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Desigualdade persistente
A
inovação metodológica do ICC é decisiva para compreender as assimetrias
internas. O Índice de Complexidade Científica dos Tópicos (ICCT) mostra que
biomedicina, neurociência e inteligência artificial aplicada concentram os
temas mais sofisticados, enquanto áreas como agrárias e meio ambiente
apresentam menor complexidade, mas ampla distribuição territorial.
O
Índice Regional (ICCR) confirma a concentração estrutural no Sudeste, com São
Paulo (1,00), Minas Gerais (0,63) e Rio de Janeiro (0,58) formando o núcleo
central. O Sul e o Distrito Federal também apresentam índices elevados,
enquanto o Nordeste revela heterogeneidade: Pernambuco (0,46) e Rio Grande do
Norte (0,39) despontam, mas Maranhão (0,17) e Bahia (0,20) ocupam posições
inferiores.
O
Nordeste, entretanto, apresenta dinâmicas singulares que merecem atenção
estratégica. Entre 2019 e 2023, capitais tradicionais como João Pessoa (-4
posições) e Campina Grande (-13) perderam densidade científica, enquanto
cidades intermediárias como Patos (+34), Sousa-Cajazeiras (+10), na Paraíba;
Juazeiro do Norte (+15) e Iguatu (+15), no Ceará; Petrolina (+13) e Caruaru
(+10), em Pernambuco, avançaram significativamente.
Esse
movimento de interiorização revela a emergência de “ilhas de complexidade” em
meio a vazios científicos, mostrando que novos ecossistemas locais,
impulsionados pela política de interiorização das universidades e institutos
federais, estão ganhando densidade e massa crítica. Contudo, a desconexão entre
essas ilhas e a base produtiva municipal permanece como gargalo, exigindo
políticas de especialização inteligente que aproximem as universidades públicas
das vocações territoriais.
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Inteligência climática
A
inteligência climática aparece no Boletim OCTI 2024 como um campo estratégico
em rápida expansão, articulando inteligência artificial, modelagem climática e
energias renováveis. Entre 2022 e outubro de 2025, foram registradas quase 30
mil publicações globaissobre o tema, das quais54% vieram dos países do Brics,
evidenciando o protagonismo do bloco na agenda climática mundial.
A China
domina com 34,7% da produção global, consolidando-se como centro de gravidade
em previsão solar e eólica, enquanto a Índia cresce em agricultura adaptativa e
meteorologia aplicada. O Brasil, embora com menor densidade de rede, aparece
com destaque em bioenergia, hidrologia e previsão agrícola, áreas diretamente
ligadas à sua matriz energética e à segurança alimentar. Essa inserção revela
que o país tem competências estratégicas, mas ainda precisa ampliar sua
capacidade de cooperação e especialização em temas de fronteira.
O
boletim contextualiza o cenário de pesquisa mostrando que a inteligência
climática se concentra em áreas críticas como energias renováveis, modelagem
ambiental, recursos hídricos e avaliação de riscos. No Brasil, essa agenda
dialoga diretamente com a emergência climática: secas prolongadas no Nordeste,
crises hídricas no Sudeste e eventos extremos cada vez mais frequentes.
A
associação entre inteligência climática e inteligência artificial é
particularmente relevante, pois permite integrar dados de sensoriamento remoto,
previsões meteorológicas e sistemas energéticos, otimizando a gestão de
recursos e antecipando cenários de risco. Ao mesmo tempo, o boletim evidencia
assimetrias internas: enquanto países como China e Índia apresentam redes
densas e diversificadas, o Brasil ainda mantém uma estratégia de cooperação
mais pulverizada, com apenas 19,2% de suas parcerias concentradas no Brics, o
que limita seu protagonismo no bloco.
As
competências por país revelam convergências e assimetrias que têm implicações
diretas para o Brasil. A China avança em clusters de integração energética e
modelagem climática; a Índia em agricultura adaptativa; e o Brasil em
bioenergia e hidrologia, mas com menor densidade de rede. Essa configuração
mostra que o Brasil possui vantagens comparativas ligadas à biodiversidade e à
matriz energética limpa, mas precisa transformar essas competências em
liderança tecnológica.
A
reflexão que emerge é clara: em um momento de transição energética e
transformação ecológica, a inteligência climática não é apenas uma agenda
científica, mas uma necessidade estratégica para enfrentar vulnerabilidades
socioambientais e reduzir desigualdades regionais. O Nordeste, com sua vocação
para energias renováveis, pode ser protagonista se houver políticas públicas
que articulem ciência, tecnologia e desenvolvimento territorial.
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Ciência para quê e para quem
A
leitura dos Boletins OCTI (2020–2024) confirma estudos do sociólogo argentino
Pablo Kreimer, segundo os quais a ciência latino-americana se organiza em torno
de agendas ditadas pelos centros hegemônicos, reproduzindo o padrão
centro-periferia. A antropóloga argentina-venezuelana Hebe Vessuri, também
especialista em estudos sociais da ciência e da tecnologia latino-americana,
acrescenta que essa dependência não é apenas técnica, mas estrutural, pois
condiciona a própria definição de prioridades científicas.
Os
dados do OCTI, em nossa leitura, reforçam essa percepção: o Brasil, embora
relevante em volume e líder regional, mantém forte vinculação com países
centrais, como os Estados Unidos (13,4% das colaborações em 2023), e apresenta
baixa densidade de cooperação intra-BRICS (19,2% em inteligência climática).
Essa dependência sinaliza, dentre outras questões, que o país ainda enfrenta o
desafio de construir agendas próprias e autônomas.
Já o
professor e pesquisador Renato Dagnino (DPCT/UNICAMP), um dos mais influentes
estudiosos da política científica e tecnológica no Brasil, sustenta que o país
tem seguido historicamente uma lógica de mimetismo das agendas do Norte Global,
reproduzindo prioridades que pouco dialogam com as necessidades sociais
internas. Em seus trabalhos, ele denuncia que a política de ciência e
tecnologia brasileira foi estruturada para atender às demandas de setores
industriais e acadêmicos alinhados às economias centrais, reforçando um padrão
de dependência e subordinação.
O
Boletim OCTI 2024 confirma a pertinência dessa crítica ao mostrar que, embora o
Brasil produza em volume e mantenha relevância internacional, sua cooperação
científica permanece fortemente vinculada a países centrais e pouco articulada,
por exemplo, ao bloco BRICS.
Celso
Furtado, em “Ciência para quê e para quem”, pontua que “se os cientistas
tomarem plena consciência da significação última do que produzem, como valores
sociais e humanos, terão necessariamente que contribuir de forma decisiva para
colocar a ciência e a tecnologia a serviço da solução dos imensos problemas que
enfrenta nossa sociedade”. A ciência brasileira, não resta dúvidas, é volumosa,
complexa e internacionalmente relevante, mas ainda marcada por desigualdades
internas e dependência externa. O desafio, como aponta Celso Furtado, é
transformar essa produção em força social organizada, capaz de orientar
políticas públicas e reduzir assimetrias.
Diante
do quadro revelado pelos Boletins OCTI e das reflexões críticas que o
acompanham, a pergunta de Celso Furtado – ciência para quê e para quem? – exige
uma resposta que vá além da estatística e da técnica. A ciência brasileira, se
permanecer como mera reprodução das agendas do Norte, continuará servindo a
interesses externos e reforçando dependências históricas.
Mas se
assumir sua responsabilidade social, poderá ser instrumento de emancipação,
voltado para enfrentar desigualdades, mitigar a emergência climática, orientar
a transição energética e transformar ecologias locais em projetos de futuro bem
viver. A quem deve servir? À sociedade brasileira, em sua diversidade e
complexidade, especialmente às regiões historicamente relegadas à periferia
científica. Para quê? Para construir soberania, inclusive cognitiva, reduzir
vulnerabilidades e garantir que o conhecimento seja motor de desenvolvimento
sustentável e equitativo.
Como
diz Celso Furtado, chamando a responsabilidade “dos homens e mulheres da
ciência”, se esses/essas tomarem plena consciência da significação última do
que produzem, como valores sociais e humanos, do contexto social em que estão
inseridos e da situação de dependência a que tem sido relegado o nosso país,
terão necessariamente que contribuir, de forma decisiva, para colocar a ciência
e a tecnologia a serviço da solução dos imensos problemas que enfrenta a
sociedade brasileira.
Só
assim a ciência liberta-se do seu caráter produtivista e assume, como
horizonte, a plenitude a cidadania.
Fonte:
Por Cidoval Morais de Sousa, em A Terra é Redonda

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