Uma
revolução esquecida
Entre
novembro de 1918 e janeiro de 1919, a Alemanha foi sacudida por um processo
revolucionário desencadeado pelo desastre militar na Primeira Guerra Mundial e
pelo impacto da Revolução Russa. Uma insurreição que colocou o poder operário e
socialista em primeiro plano, precipitou a abdicação do kaiser Guilherme II e
minou os alicerces do imperialismo alemão.
Embora
tenha ficado eclipsada por eventos como a ascensão do nazismo e a Segunda
Guerra Mundial, um desfecho diferente poderia ter alterado profundamente a
história europeia do século XX e, em grande medida, a do mundo. Resgatar do
esquecimento essa proeza operária e refletir sobre seus ensinamentos segue
sendo uma tarefa necessária.
O
colapso da frente ocidental em setembro de 1918 acentuou o cansaço da população
diante dos salários reais em queda, da miséria, do racionamento e da percepção
de se estar travando uma batalha perdida. O descontentamento crescente se
manifestava em deserções, assembleias e nas grandes greves de 1916, 1917 e
1918.
Nas
ruas, a “União Sagrada” que sustentava o chauvinismo bélico se rompeu, e ficou
evidente a falência do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), de origem
marxista, que ao votar os créditos de guerra em 1914 traiu o internacionalismo
proletário.
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A falência do Partido Social-Democrata Alemão (SPD)
O SPD
era então a principal força operária da Europa: com mais de um milhão de
filiados, controlava os “sindicatos livres”, que organizavam 2,5 milhões de
trabalhadores. Esse enorme aparato – que incluía 90 jornais com 267
jornalistas, “casas do povo” e uma ampla rede de universidades populares,
clubes e bibliotecas – empregava mais de 10.000 funcionários remunerados.
A
preservação desse patrimônio material, resultado de uma impressionante
capacidade organizativa (mas também fonte de privilégios para a burocracia
partidária e sindical), converteu-se em prioridade absoluta, transformando o
partido em uma força conservadora e temerosa de qualquer ação que pudesse
colocar em risco sua existência legal.
Em
1912, o SPD obteve 4,2 milhões de votos e 110 cadeiras no Reichstag,
tornando-se o principal partido parlamentar. À medida que seu peso eleitoral
aumentava, crescia também a ala reformista, que defendia uma “evolução” gradual
e pacífica para o socialismo, e inclusive justificava a política colonial
alemã. O socialismo alemão, como é sabido, era a referência da Segunda
Internacional.
No
entanto, diante da guerra “pela divisão do mundo”, em vez de chamar a classe
operária a voltar as armas contra seus governos, alimentou um social-chovinismo
que enviou milhões de operários alemães para matar operários de outros países,
em nome dos interesses de sua burguesia nacional.
Desde a
votação dos créditos de guerra em 1914, a política de Burgfrieden –
paz social com o império – subordinou o SPD e a cúpula sindical à continuidade
do esforço bélico e aos lucros extraordinários dos grandes conglomerados
industriais que se enriqueciam com a guerra, como Krupp, Thyssen, BASF, Bayer
ou o nascente trust IG Farben. Carl Legien, líder dos sindicatos
social-democratas, foi uma peça-chave nessa engrenagem: tanto ele quanto a
direção do partido fizeram o possível para conter e derrotar a partir de dentro
as greves políticas e o emergente movimento dos conselhos.
Após a
eclosão revolucionária, o pacto Stinnes-Legien de 15 de novembro de 1918
renovou essa colaboração de classes: Hugo Stinnes, um dos magnatas mais
poderosos da Alemanha, concordou com concessões trabalhistas – como a jornada
de oito horas – em troca da preservação da propriedade capitalista e do
desmonte do poder dos conselhos operários.
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Os espartaquistas
Assim,
o SPD se colocou a serviço de bloquear a luta de classes para que a burguesia
alemã pudesse, primeiro, continuar a guerra e, depois, salvar a ordem social
que garantia suas fortunas.
Os
únicos que se opuseram à política da maioria do SPD foram os setores
revolucionários e internacionalistas, liderados por Karl Liebknecht, Rosa
Luxemburgo, Clara Zetkin e Franz Mehring, entre outros.
Em
1914, esses setores formaram o Gruppe Internationale, uma fração do
SPD. Karl Liebknecht foi o único deputado socialista que votou contra os
créditos de guerra em dezembro daquele ano e, assim como Rosa Luxemburgo, foi
preso em diferentes momentos entre 1915 e 1918 por sua oposição à guerra.
Apesar da repressão, a fração se consolidou no início de 1916 como o Grupo
Espártaco (Spartakusgruppe), que atuava dentro do USPD, ainda que
com independência. Após a eclosão revolucionária, adotaria o nome de Liga Espartaquista
(Spartakusbund), núcleo do Partido Comunista Alemão (KPD) fundado em
dezembro de 1918.
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A revolta dos marinheiros de Kiel
Desde
1916, o poder real havia passado às mãos do Comando Supremo do Exército (Oberste
Heeresleitung, OHL), dirigido por Hindenburg e Ludendorff, que instaurou
uma ditadura militar de fato, reforçando a censura e a repressão interna.
No front, os soldados suportavam privações crescentes; na
retaguarda, o Estado imperial impôs uma disciplina militar rigorosa nas
fábricas, com jornadas diárias de até doze horas e queda do poder aquisitivo da
classe operária. Tudo com o respaldo político do SPD, que mantinha seu
compromisso com o esforço bélico sob o Burgfrieden.
O ponto
de inflexão do processo ocorreu em 29 de outubro de 1918, com a revolta
dos marinheiros de Kiel. A recusa em cumprir uma ordem suicida do Alto Comando
(OHL) – uma ofensiva naval contra a frota britânica no Canal da Mancha –
resultou em rebelião: os marinheiros desarmaram os oficiais, tomaram os navios
de guerra, ocuparam os arsenais, libertaram seus companheiros presos e, com o
apoio dos trabalhadores dos estaleiros, formaram um Conselho de Operários e
Soldados que assumiu o controle efetivo de Kiel.
Os
rebeldes resistiram à repressão e, na manhã de 5 de novembro, a bandeira
vermelha tremulava nos navios da Marinha Imperial ancorados no porto. A
Revolução Alemã havia começado.
Delegações
de marinheiros de Kiel levaram a insurreição para Hamburgo, Bremen, Hannover,
Colônia, Munique e Berlim, impulsionando a criação de conselhos de operários e
soldados e sua rápida articulação. Esses conselhos eram eleitos diretamente
pelas bases e seus representantes podiam ser revogados a qualquer momento.
Em
poucos dias, o movimento adquiriu um caráter abertamente político: exigia a paz
imediata, uma profunda democratização do Estado e do Exército e a abdicação de
Guilherme II. O SPD, completamente adaptado às instituições do Estado burguês,
fez o possível para conter a revolução e mostrar-se confiável perante a classe
dominante e o alto comando militar.
Em 3 de
outubro de 1918, o príncipe Max von Baden assumiu como último chanceler do
Império e incorporou pela primeira vez líderes do SPD ao gabinete [de
ministros]: Philipp Scheidemann como Secretário de Estado e Gustav Bauer à
frente do novo Ministério do Trabalho. Gustav Noske, futuro Ministro da Defesa,
foi enviado para apaziguar a rebelião em Kiel.
A
função central do SPD era apoiar as negociações e conter as insurreições que se
espalhavam a partir de Kiel, desmontando os conselhos de operários e soldados.
Friedrich Ebert, principal líder social-democrata, expressou claramente sua
posição em 7 de novembro, em conversa com o príncipe: “Se o imperador não
abdicar, a revolução social será inevitável. Mas eu não a quero; eu a odeio de
toda a minha alma”.
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Dualidade de poderes
A
revolução chega a Berlim em 9 de novembro de 1918, com uma greve geral
insurreccional. O Kaiser abdica e foge do país. Quase ao mesmo tempo, processos
revolucionários se desencadeiam no Império Austro-Húngaro, aliado estratégico
da monarquia alemã. Na Áustria e na Hungria também surgiram conselhos de
operários e soldados, seguindo o exemplo russo. Mas – da mesma forma que com o
SPD na Alemanha – as direções social-democratas locais agiram para conter a
revolução e canalizá-la para a instauração de repúblicas burguesas. O núcleo
dos impérios centrais de 1914 desmoronava em uníssono.
Cabe
destacar o papel decisivo que os Revolutionäre Obleute (ROs) –
delegados operários eleitos nas grandes fábricas de Berlim que impulsionavam as
greves desde 1916 – desempenharam na queda do II Reich e na instauração dos
conselhos de operários e soldados em 9 de novembro de 1918. Embora tenham
colaborado com a Liga Espartaquista durante a insurreição e participado da
criação do KPD em dezembro, eles mantiveram uma estratégia autônoma e
conselhista, desconfiando do centralismo partidário. Por isso, dirigentes como
Richard Müller não se integraram plenamente ao KPD.
O dia 9
de novembro de 1918 ficou marcado pela coexistência de dois projetos de poder.
Do Palácio Imperial, Karl Liebknecht proclamou a “República Socialista Livre da
Alemanha”, sustentada pelos conselhos de operários e soldados que se espalhavam
por todo o país. Horas antes, de uma sacada do Reichstag, Philipp Scheidemann
havia anunciado uma república parlamentar, destinada a preservar o Estado
burguês com uma fachada “democrática” e a manter intacta a estrutura do
Exército.
Essa
disputa entre duas repúblicas resumia o choque central do processo
revolucionário: conselhos ou parlamento; revolução socialista ou continuidade
da ordem capitalista. De um lado, o poder operário emergente, encarnado nos
conselhos; do outro, o poder burguês em crise, sustentado pelo velho aparato
administrativo e militar, que sobrevivia graças ao apoio do SPD. A direção
social-democrata havia decidido que seu principal inimigo não era a ordem
capitalista nem os resquícios da monarquia, mas a revolução operária que
ameaçava transformar tudo.
Essa
dualidade de poderes – expressão aguda da luta de classes – não poderia se
sustentar por muito tempo. Ambas as classes sociais se preparavam para um
confronto definitivo. Em Moscou e Petrogrado, os bolcheviques depositavam
enormes esperanças no impulso que uma revolução triunfante na Alemanha poderia
dar à revolução europeia.
Nesse
contexto, após a queda da dinastia Hohenzollern, formou-se um governo
provisório denominado Conselho dos Comissários do Povo (Rat der
Volksbeauftragten), uma coalizão do SPD e do USPD. Friedrich Ebert assumiu
como chefe do governo. O reformismo social-democrata e o centrismo do USPD
chegaram assim ao poder e, como administradores da ordem burguesa, redobraram
seus esforços para frear e desviar a revolução em curso.
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O pacto entre o SPD e o Alto Comando militar
Desde o
primeiro dia, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo se posicionaram em oposição ao
novo governo. Sua crítica à linha do SPD foi implacável. A partir da Liga
Espartaquista, orientaram o processo em direção à conquista do poder socialista
por meio dos conselhos. Uma vez libertada da prisão de Breslau, em 8 de
novembro de 1918, Rosa dedicou todas as suas energias à edição do jornal Die
Rote Fahne (A bandeira vermelha), dedicado a impulsionar uma
saída socialista.
O
choque entre revolução e contrarrevolução se intensificava. A crise do Estado
capitalista, o colapso do Exército e o poder de atração dos sovietes russos
criavam condições objetivas excepcionais para transcender os limites da
democracia liberal, socializar a propriedade burguesa e avançar para a
construção de uma autêntica democracia operária.
Nesse
contexto, um dia após a queda da monarquia, Friedrich Ebert deu um passo
decisivo para esmagar a revolução: fez um pacto secreto com o general Wilhelm
Groener, comandante do OHL. Em troca de que o governo garantisse a continuidade
da antiga ordem e combatesse a ameaça “bolchevique”, o Exército se comprometia
a apoiar o gabinete social-democrata. Graças a esse acordo, a burocracia
imperial, os generais, a polícia e os juízes monarquistas permaneceram em seus
cargos.
O pacto
foi decisivo para bloquear qualquer avanço em direção a uma República dos
Conselhos (Räterepublik). Com a aprovação do SPD, o Exército organizou a
repressão às greves, o desarmamento das milícias operárias e o desmantelamento
dos conselhos.
Este
eixo contrarrevolucionário, reforçado posteriormente pela ação de grupos
armados de ultradireita, permitiu esmagar de forma sangrenta a insurreição de
janeiro de 1919 e canalizou o processo revolucionário para uma república
burguesa parlamentar, que seria consagrada na Assembleia Constituinte reunida
em Weimar.
Nos
meses seguintes, a contrarrevolução avançaria com armas em punho, inaugurando
uma repressão brutal que cobraria um preço de sangue da vanguarda operária
alemã.
¨ Ocidente não
conseguirá semear discórdia entre Rússia e China, diz Sergei Shoigu
O
Ocidente quer semear discórdia na parceria estratégica entre Rússia e China,
mas não terá sucesso, afirmou neste domingo (1º) o secretário do Conselho de
Segurança da Rússia, Sergei Shoigu.
Mais
cedo, Shoigu chegou à China para conversas com o ministro das
Relações Exteriores chinês, Wang Yi.
"Os
países ocidentais sonham dia e noite com a possibilidade de criar discórdia na
parceria estratégica entre nossos Estados. Gostaria de enfatizar mais uma vez:
Moscou e Pequim não ficarão de braços cruzados nem tolerarão insinuações
tendenciosas", declarou.
Segundo
o dirigente, os países ocidentais passaram a justificar suas ações com base
na suposta ameaça representada pela Rússia e pela China.
Além
disso, Shoigu declarou que os presidentes da
Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, mantêm um diálogo ativo e devem
continuar com contatos regulares ao longo deste ano.
"Os
líderes de nossos países mantêm relações amistosas e conduzem o diálogo mais
ativo possível. Portanto, é natural que essa comunicação continue de forma
regular neste ano", acrescentou.
Shoigu
acrescentou que suas conversas com Wang Yi foram muito substantivas, durante as
quais discutiram o cronograma de contatos, inclusive em alto nível.
Segundo
o comunicado, as discussões também abordaram os acontecimentos em diversas
regiões do mundo que afetam os interesses tanto de Moscou
quanto de Pequim.
¨ Lavrov acusa Europa
de tentar afastar relações entre Rússia e Estados Unidos
A
Europa segue tentando criar fissuras na relação entre Moscou e Washington,
afirmou neste domingo (1º) o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei
Lavrov.
"É
difícil nos acusar de provocar divisões", disse Lavrov em entrevista
publicada no site oficial do Ministério das Relações Exteriores russo.
"Quem tenta, e continua tentando, semear discórdia entre a Rússia e os
Estados Unidos é a Europa, que enxerga na política dos EUA sob o presidente
Donald Trump um suposto favorecimento a Moscou em detrimento dos interesses
europeus", complementou.
Segundo
o chanceler, quando um país defende seus
próprios interesses,
como faz a Rússia, passa a ser tratado de forma hostil.
Lavrov
argumentou ainda que a maioria dos líderes europeus abriu mão das questões
nacionais em favor da Ucrânia, utilizando o país para travar um conflito aberto contra a Rússia e, ao mesmo
tempo, se preparando para entrar diretamente nos embates.
Lavrov
também mencionou um encontro com o secretário de Estado dos EUA, Marco
Rubio,
realizado em Riad em fevereiro do ano passado. Na ocasião, Rubio teria
destacado que os interesses nacionais de grandes potências como
Rússia e Estados Unidos nem sempre coincidem.
Ainda
assim, segundo Lavrov, o chefe da diplomacia norte-americana ressaltou que
seria um erro deixar de buscar iniciativas econômicas, comerciais e de
investimento mutuamente vantajosas. "Quando esses interesses não
coincidem, permitir que a divergência evolua para o confronto não seria apenas
um erro, mas um crime", concluiu o ministro russo.
¨ 'Ele opera sob
ordens': coronel expõe por que a União Europeia ainda tolera as ações de
Zelensky
O
Ocidente tolera o comportamento inadequado do líder ucraniano Vladimir Zelensky
porque está interessado nele para continuar lutando com a Rússia, disse o
ex-assessor do Pentágono e coronel aposentado Douglas Macgregor no YouTube.
"Há
alguns meses, o presidente [dos EUA Donald] Trump deveria ter dito a
Zelensky para calar a boca e sair da Sala Oval. Ele é um tolo, e ele se
permitiu ser um tolo porque ele ainda está sendo financiado, assim que o seu
objetivo é manter a guerra por tanto tempo quanto possível. [...] Mas do Exército ucraniano há apenas uma
sombra de poder anterior", disse ele.
Ao
mesmo tempo, o analista enfatizou que Zelensky acredita erroneamente nas
garantias dos líderes ocidentais sobre o apoio infinito à
Ucrânia por
parte deles.
"Zelensky
não se importa. Ele opera sob as ordens de Londres e Washington. E tolos como
[o presidente francês Emmanuel] Macron e [o chanceler alemão Friedrich] Merz
ainda estão dizendo a ele: 'Claro, faça isso, faça isso, faremos tudo o que
pudermos por você'. Eles deveriam abandonar este homem ao seu destino. Esse é o
trabalho deles", acrescentou Macgregor.
Na
sexta-feira (30), a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores
da Rússia Maria Zakharova, falando sobre o roteiro da União Europeia (UE) para
o financiamento e desenvolvimento da Ucrânia, observou que a liderança da UE
está pronta para continuar a satisfazer os caprichos do regime
corrupto de Zelensky.
Fonte:
Por Ronald León Núñez - Tradução: Diego Russo, em A Terra é
Redonda/Sputnik Brasil

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