terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Uma revolução esquecida

Entre novembro de 1918 e janeiro de 1919, a Alemanha foi sacudida por um processo revolucionário desencadeado pelo desastre militar na Primeira Guerra Mundial e pelo impacto da Revolução Russa. Uma insurreição que colocou o poder operário e socialista em primeiro plano, precipitou a abdicação do kaiser Guilherme II e minou os alicerces do imperialismo alemão.

Embora tenha ficado eclipsada por eventos como a ascensão do nazismo e a Segunda Guerra Mundial, um desfecho diferente poderia ter alterado profundamente a história europeia do século XX e, em grande medida, a do mundo. Resgatar do esquecimento essa proeza operária e refletir sobre seus ensinamentos segue sendo uma tarefa necessária.

O colapso da frente ocidental em setembro de 1918 acentuou o cansaço da população diante dos salários reais em queda, da miséria, do racionamento e da percepção de se estar travando uma batalha perdida. O descontentamento crescente se manifestava em deserções, assembleias e nas grandes greves de 1916, 1917 e 1918.

Nas ruas, a “União Sagrada” que sustentava o chauvinismo bélico se rompeu, e ficou evidente a falência do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), de origem marxista, que ao votar os créditos de guerra em 1914 traiu o internacionalismo proletário.

<><> A falência do Partido Social-Democrata Alemão (SPD)

O SPD era então a principal força operária da Europa: com mais de um milhão de filiados, controlava os “sindicatos livres”, que organizavam 2,5 milhões de trabalhadores. Esse enorme aparato – que incluía 90 jornais com 267 jornalistas, “casas do povo” e uma ampla rede de universidades populares, clubes e bibliotecas – empregava mais de 10.000 funcionários remunerados.

A preservação desse patrimônio material, resultado de uma impressionante capacidade organizativa (mas também fonte de privilégios para a burocracia partidária e sindical), converteu-se em prioridade absoluta, transformando o partido em uma força conservadora e temerosa de qualquer ação que pudesse colocar em risco sua existência legal.

Em 1912, o SPD obteve 4,2 milhões de votos e 110 cadeiras no Reichstag, tornando-se o principal partido parlamentar. À medida que seu peso eleitoral aumentava, crescia também a ala reformista, que defendia uma “evolução” gradual e pacífica para o socialismo, e inclusive justificava a política colonial alemã. O socialismo alemão, como é sabido, era a referência da Segunda Internacional.

No entanto, diante da guerra “pela divisão do mundo”, em vez de chamar a classe operária a voltar as armas contra seus governos, alimentou um social-chovinismo que enviou milhões de operários alemães para matar operários de outros países, em nome dos interesses de sua burguesia nacional.

Desde a votação dos créditos de guerra em 1914, a política de Burgfrieden – paz social com o império – subordinou o SPD e a cúpula sindical à continuidade do esforço bélico e aos lucros extraordinários dos grandes conglomerados industriais que se enriqueciam com a guerra, como Krupp, Thyssen, BASF, Bayer ou o nascente trust IG Farben. Carl Legien, líder dos sindicatos social-democratas, foi uma peça-chave nessa engrenagem: tanto ele quanto a direção do partido fizeram o possível para conter e derrotar a partir de dentro as greves políticas e o emergente movimento dos conselhos.

Após a eclosão revolucionária, o pacto Stinnes-Legien de 15 de novembro de 1918 renovou essa colaboração de classes: Hugo Stinnes, um dos magnatas mais poderosos da Alemanha, concordou com concessões trabalhistas – como a jornada de oito horas – em troca da preservação da propriedade capitalista e do desmonte do poder dos conselhos operários.

<><> Os espartaquistas

Assim, o SPD se colocou a serviço de bloquear a luta de classes para que a burguesia alemã pudesse, primeiro, continuar a guerra e, depois, salvar a ordem social que garantia suas fortunas.

Os únicos que se opuseram à política da maioria do SPD foram os setores revolucionários e internacionalistas, liderados por Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin e Franz Mehring, entre outros.

Em 1914, esses setores formaram o Gruppe Internationale, uma fração do SPD. Karl Liebknecht foi o único deputado socialista que votou contra os créditos de guerra em dezembro daquele ano e, assim como Rosa Luxemburgo, foi preso em diferentes momentos entre 1915 e 1918 por sua oposição à guerra. Apesar da repressão, a fração se consolidou no início de 1916 como o Grupo Espártaco (Spartakusgruppe), que atuava dentro do USPD, ainda que com independência. Após a eclosão revolucionária, adotaria o nome de Liga Espartaquista (Spartakusbund), núcleo do Partido Comunista Alemão (KPD) fundado em dezembro de 1918.

<><> A revolta dos marinheiros de Kiel

Desde 1916, o poder real havia passado às mãos do Comando Supremo do Exército (Oberste Heeresleitung, OHL), dirigido por Hindenburg e Ludendorff, que instaurou uma ditadura militar de fato, reforçando a censura e a repressão interna. No front, os soldados suportavam privações crescentes; na retaguarda, o Estado imperial impôs uma disciplina militar rigorosa nas fábricas, com jornadas diárias de até doze horas e queda do poder aquisitivo da classe operária. Tudo com o respaldo político do SPD, que mantinha seu compromisso com o esforço bélico sob o Burgfrieden.

O ponto de inflexão do processo ocorreu em 29 de outubro de 1918, com a  revolta dos marinheiros de Kiel. A recusa em cumprir uma ordem suicida do Alto Comando (OHL) – uma ofensiva naval contra a frota britânica no Canal da Mancha – resultou em rebelião: os marinheiros desarmaram os oficiais, tomaram os navios de guerra, ocuparam os arsenais, libertaram seus companheiros presos e, com o apoio dos trabalhadores dos estaleiros, formaram um Conselho de Operários e Soldados que assumiu o controle efetivo de Kiel.

Os rebeldes resistiram à repressão e, na manhã de 5 de novembro, a bandeira vermelha tremulava nos navios da Marinha Imperial ancorados no porto. A Revolução Alemã havia começado.

Delegações de marinheiros de Kiel levaram a insurreição para Hamburgo, Bremen, Hannover, Colônia, Munique e Berlim, impulsionando a criação de conselhos de operários e soldados e sua rápida articulação. Esses conselhos eram eleitos diretamente pelas bases e seus representantes podiam ser revogados a qualquer momento.

Em poucos dias, o movimento adquiriu um caráter abertamente político: exigia a paz imediata, uma profunda democratização do Estado e do Exército e a abdicação de Guilherme II. O SPD, completamente adaptado às instituições do Estado burguês, fez o possível para conter a revolução e mostrar-se confiável perante a classe dominante e o alto comando militar.

Em 3 de outubro de 1918, o príncipe Max von Baden assumiu como último chanceler do Império e incorporou pela primeira vez líderes do SPD ao gabinete [de ministros]: Philipp Scheidemann como Secretário de Estado e Gustav Bauer à frente do novo Ministério do Trabalho. Gustav Noske, futuro Ministro da Defesa, foi enviado para apaziguar a rebelião em Kiel.

A função central do SPD era apoiar as negociações e conter as insurreições que se espalhavam a partir de Kiel, desmontando os conselhos de operários e soldados. Friedrich Ebert, principal líder social-democrata, expressou claramente sua posição em 7 de novembro, em conversa com o príncipe: “Se o imperador não abdicar, a revolução social será inevitável. Mas eu não a quero; eu a odeio de toda a minha alma”.

<><> Dualidade de poderes

A revolução chega a Berlim em 9 de novembro de 1918, com uma greve geral insurreccional. O Kaiser abdica e foge do país. Quase ao mesmo tempo, processos revolucionários se desencadeiam no Império Austro-Húngaro, aliado estratégico da monarquia alemã. Na Áustria e na Hungria também surgiram conselhos de operários e soldados, seguindo o exemplo russo. Mas – da mesma forma que com o SPD na Alemanha – as direções social-democratas locais agiram para conter a revolução e canalizá-la para a instauração de repúblicas burguesas. O núcleo dos impérios centrais de 1914 desmoronava em uníssono.

Cabe destacar o papel decisivo que os Revolutionäre Obleute (ROs) – delegados operários eleitos nas grandes fábricas de Berlim que impulsionavam as greves desde 1916 – desempenharam na queda do II Reich e na instauração dos conselhos de operários e soldados em 9 de novembro de 1918. Embora tenham colaborado com a Liga Espartaquista durante a insurreição e participado da criação do KPD em dezembro, eles mantiveram uma estratégia autônoma e conselhista, desconfiando do centralismo partidário. Por isso, dirigentes como Richard Müller não se integraram plenamente ao KPD.

O dia 9 de novembro de 1918 ficou marcado pela coexistência de dois projetos de poder. Do Palácio Imperial, Karl Liebknecht proclamou a “República Socialista Livre da Alemanha”, sustentada pelos conselhos de operários e soldados que se espalhavam por todo o país. Horas antes, de uma sacada do Reichstag, Philipp Scheidemann havia anunciado uma república parlamentar, destinada a preservar o Estado burguês com uma fachada “democrática” e a manter intacta a estrutura do Exército.

Essa disputa entre duas repúblicas resumia o choque central do processo revolucionário: conselhos ou parlamento; revolução socialista ou continuidade da ordem capitalista. De um lado, o poder operário emergente, encarnado nos conselhos; do outro, o poder burguês em crise, sustentado pelo velho aparato administrativo e militar, que sobrevivia graças ao apoio do SPD. A direção social-democrata havia decidido que seu principal inimigo não era a ordem capitalista nem os resquícios da monarquia, mas a revolução operária que ameaçava transformar tudo.

Essa dualidade de poderes – expressão aguda da luta de classes – não poderia se sustentar por muito tempo. Ambas as classes sociais se preparavam para um confronto definitivo. Em Moscou e Petrogrado, os bolcheviques depositavam enormes esperanças no impulso que uma revolução triunfante na Alemanha poderia dar à revolução europeia.

Nesse contexto, após a queda da dinastia Hohenzollern, formou-se um governo provisório denominado Conselho dos Comissários do Povo (Rat der Volksbeauftragten), uma coalizão do SPD e do USPD. Friedrich Ebert assumiu como chefe do governo. O reformismo social-democrata e o centrismo do USPD chegaram assim ao poder e, como administradores da ordem burguesa, redobraram seus esforços para frear e desviar a revolução em curso.

<><> O pacto entre o SPD e o Alto Comando militar

Desde o primeiro dia, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo se posicionaram em oposição ao novo governo. Sua crítica à linha do SPD foi implacável. A partir da Liga Espartaquista, orientaram o processo em direção à conquista do poder socialista por meio dos conselhos. Uma vez libertada da prisão de Breslau, em 8 de novembro de 1918, Rosa dedicou todas as suas energias à edição do jornal Die Rote Fahne (A bandeira vermelha), dedicado a impulsionar uma saída socialista.

O choque entre revolução e contrarrevolução se intensificava. A crise do Estado capitalista, o colapso do Exército e o poder de atração dos sovietes russos criavam condições objetivas excepcionais para transcender os limites da democracia liberal, socializar a propriedade burguesa e avançar para a construção de uma autêntica democracia operária.

Nesse contexto, um dia após a queda da monarquia, Friedrich Ebert deu um passo decisivo para esmagar a revolução: fez um pacto secreto com o general Wilhelm Groener, comandante do OHL. Em troca de que o governo garantisse a continuidade da antiga ordem e combatesse a ameaça “bolchevique”, o Exército se comprometia a apoiar o gabinete social-democrata. Graças a esse acordo, a burocracia imperial, os generais, a polícia e os juízes monarquistas permaneceram em seus cargos.

O pacto foi decisivo para bloquear qualquer avanço em direção a uma República dos Conselhos (Räterepublik). Com a aprovação do SPD, o Exército organizou a repressão às greves, o desarmamento das milícias operárias e o desmantelamento dos conselhos.

Este eixo contrarrevolucionário, reforçado posteriormente pela ação de grupos armados de ultradireita, permitiu esmagar de forma sangrenta a insurreição de janeiro de 1919 e canalizou o processo revolucionário para uma república burguesa parlamentar, que seria consagrada na Assembleia Constituinte reunida em Weimar.

Nos meses seguintes, a contrarrevolução avançaria com armas em punho, inaugurando uma repressão brutal que cobraria um preço de sangue da vanguarda operária alemã.

¨      Ocidente não conseguirá semear discórdia entre Rússia e China, diz Sergei Shoigu

O Ocidente quer semear discórdia na parceria estratégica entre Rússia e China, mas não terá sucesso, afirmou neste domingo (1º) o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu.

Mais cedo, Shoigu chegou à China para conversas com o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi.

"Os países ocidentais sonham dia e noite com a possibilidade de criar discórdia na parceria estratégica entre nossos Estados. Gostaria de enfatizar mais uma vez: Moscou e Pequim não ficarão de braços cruzados nem tolerarão insinuações tendenciosas", declarou.

Segundo o dirigente, os países ocidentais passaram a justificar suas ações com base na suposta ameaça representada pela Rússia e pela China.

Além disso, Shoigu declarou que os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, mantêm um diálogo ativo e devem continuar com contatos regulares ao longo deste ano.

"Os líderes de nossos países mantêm relações amistosas e conduzem o diálogo mais ativo possível. Portanto, é natural que essa comunicação continue de forma regular neste ano", acrescentou.

Shoigu acrescentou que suas conversas com Wang Yi foram muito substantivas, durante as quais discutiram o cronograma de contatos, inclusive em alto nível.

Segundo o comunicado, as discussões também abordaram os acontecimentos em diversas regiões do mundo que afetam os interesses tanto de Moscou quanto de Pequim.

¨      Lavrov acusa Europa de tentar afastar relações entre Rússia e Estados Unidos

A Europa segue tentando criar fissuras na relação entre Moscou e Washington, afirmou neste domingo (1º) o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.

"É difícil nos acusar de provocar divisões", disse Lavrov em entrevista publicada no site oficial do Ministério das Relações Exteriores russo. "Quem tenta, e continua tentando, semear discórdia entre a Rússia e os Estados Unidos é a Europa, que enxerga na política dos EUA sob o presidente Donald Trump um suposto favorecimento a Moscou em detrimento dos interesses europeus", complementou.

Segundo o chanceler, quando um país defende seus próprios interesses, como faz a Rússia, passa a ser tratado de forma hostil.

Lavrov argumentou ainda que a maioria dos líderes europeus abriu mão das questões nacionais em favor da Ucrânia, utilizando o país para travar um conflito aberto contra a Rússia e, ao mesmo tempo, se preparando para entrar diretamente nos embates.

Lavrov também mencionou um encontro com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, realizado em Riad em fevereiro do ano passado. Na ocasião, Rubio teria destacado que os interesses nacionais de grandes potências como Rússia e Estados Unidos nem sempre coincidem.

Ainda assim, segundo Lavrov, o chefe da diplomacia norte-americana ressaltou que seria um erro deixar de buscar iniciativas econômicas, comerciais e de investimento mutuamente vantajosas. "Quando esses interesses não coincidem, permitir que a divergência evolua para o confronto não seria apenas um erro, mas um crime", concluiu o ministro russo.

¨      'Ele opera sob ordens': coronel expõe por que a União Europeia ainda tolera as ações de Zelensky

O Ocidente tolera o comportamento inadequado do líder ucraniano Vladimir Zelensky porque está interessado nele para continuar lutando com a Rússia, disse o ex-assessor do Pentágono e coronel aposentado Douglas Macgregor no YouTube.

"Há alguns meses, o presidente [dos EUA Donald] Trump deveria ter dito a Zelensky para calar a boca e sair da Sala Oval. Ele é um tolo, e ele se permitiu ser um tolo porque ele ainda está sendo financiado, assim que o seu objetivo é manter a guerra por tanto tempo quanto possível. [...] Mas do Exército ucraniano há apenas uma sombra de poder anterior", disse ele.

Ao mesmo tempo, o analista enfatizou que Zelensky acredita erroneamente nas garantias dos líderes ocidentais sobre o apoio infinito à Ucrânia por parte deles.

"Zelensky não se importa. Ele opera sob as ordens de Londres e Washington. E tolos como [o presidente francês Emmanuel] Macron e [o chanceler alemão Friedrich] Merz ainda estão dizendo a ele: 'Claro, faça isso, faça isso, faremos tudo o que pudermos por você'. Eles deveriam abandonar este homem ao seu destino. Esse é o trabalho deles", acrescentou Macgregor.

Na sexta-feira (30), a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia Maria Zakharova, falando sobre o roteiro da União Europeia (UE) para o financiamento e desenvolvimento da Ucrânia, observou que a liderança da UE está pronta para continuar a satisfazer os caprichos do regime corrupto de Zelensky.

 

Fonte: Por Ronald León Núñez - Tradução: Diego Russo, em A Terra é Redonda/Sputnik Brasil

 

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