Como
mulheres pelo mundo lidam com a menopausa
Em
novembro de 2025, publiquei uma nota no LinkedIn sobre névoa mental (brain fog,
em inglês). Escrevi rapidamente, em cerca de dez minutos, relatando que, pela
primeira vez em 20 anos de carreira, precisei recorrer a anotações durante uma
transmissão de notícias ao vivo por causa da névoa mental da perimenopausa. Eu
não esperava muitas respostas.
Para
minha surpresa, a postagem gerou uma conversa nacional. Eu fiquei impressionada
com a quantidade de mensagens de apoio que recebi, quase 400 comentários no
LinkedIn, dezenas de mensagens privadas e centenas de interações em uma matéria
sobre o tema no site da BBC News. Muitas seguiam a mesma linha, me chamando de
"corajosa" por falar sobre o assunto ou agradecendo por
"normalizar" a névoa mental.
Na
época, eu não me senti particularmente corajosa (ou normal!), mas aquilo deixou
claro o quanto a vergonha e o estigma ainda cercam alguns sintomas da
perimenopausa e da menopausa, mesmo que eles afetem praticamente metade da
população em algum momento da vida.
Estrelas
de Hollywood, como Oprah Winfrey e Halle Berry, falaram sobre suas próprias
experiências com a menopausa e seu impacto, assim como as apresentadoras de TV
Davina McCall e Lorraine Kelly. Em 2018, a atriz Gwyneth Paltrow defendeu um
"rebranding" da menopausa.
E
algumas mudanças já ocorreram. Por exemplo, os exames de rastreamento da
menopausa serão oficialmente incorporados às consultas de saúde do NHS (Serviço
Nacional de Saúde do Reino Unido) para mulheres com mais de 40 anos a partir
deste ano.
Além
disso, o Employment Relations Bill (projeto de lei sobre direitos trabalhistas)
determina que os empregadores do Reino Unido com 250 ou mais funcionários devem
ter "planos de ação sobre menopausa". A medida entra em vigor em
abril de 2027 (e de forma voluntária a partir de abril deste ano).
Ainda
assim, uma pesquisa com autorrelato de cerca de 1.600 mulheres, publicada em
outubro de 2025 pela University College London (Reino Unido), apontou que mais
de 75% delas se sentem pouco informadas sobre a menopausa. O dado sugere que
algo não vai bem.
Além
disso, muitas mulheres afirmam que ainda existe estigma em torno da menopausa e
relatam não se sentir à vontade para falar abertamente sobre o tema.
Uma
mulher na casa dos 60 anos, acadêmica especializada em políticas sociais, me
enviou uma mensagem dizendo que passou a brincar sobre seus "momentos da
menopausa" com colegas mulheres. Ainda assim, destacou, era
"constrangedor", especialmente quando esquecia termos específicos de
políticas em sua área de atuação.
No
entanto, esconder os sintomas ou mascarar a menopausa pode ser desgastante.
"A
energia gasta em mascarar ou compensar os desafios enfrentados pelas mulheres
frequentemente esgota ainda mais suas reservas e reduz os limites para o
esgotamento", afirma Fionnuala Barton, médica generalista (GP, na sigla em
inglês) e especialista certificada em menopausa pela British Menopause Society
(Sociedade Britânica de Menopausa, em tradução livre).
Segundo
Barton, isso pode aumentar o risco de burnout e levanta uma questão importante:
será que o próprio ato de ocultar os sintomas pode afetar a vida das mulheres?
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Mascaramento da menopausa e burnout
O
sistema público de saúde do Reino Unido lista 34 sintomas possíveis da
menopausa (leia mais abaixo), alguns são mais comuns que outros. E muitos podem
ser debilitantes.
Uma
mulher que me procurou após ver minha publicação no LinkedIn relatou que a
queda de estrogênio havia provocado ressecamento vaginal, o que tornava
doloroso caminhar.
Uma
amiga revelou que desenvolveu fraqueza na bexiga. "Foi quase da noite para
o dia", disse, e agora nem sempre consegue chegar ao banheiro a tempo.
"É
mais incômodo do que qualquer outra coisa", admitiu, mas afirmou que não
gostaria de voltar a um escritório por causa disso e prefere trabalhar em casa.
Outra
mulher contou que evita socializar porque se sente incapaz de acompanhar
conversas quando está tomada pela névoa mental.
Muitas
outras mulheres compartilharam suas próprias estratégias de enfrentamento:
algumas mantêm ventiladores sobre as mesas no trabalho para lidar com as ondas
de calor, outras escrevem lembretes para si mesmas, como eu fiz, para contornar
a névoa mental durante reuniões e apresentações.
Por um
lado, tudo isso mostra a criatividade e a resiliência dessas mulheres, que
conseguem lidar com sintomas, em alguns casos debilitantes, e ainda seguir com
a vida.
Fiona
Clark, jornalista e autora do livro Menowars (Guerras da Menopausa, em tradução
livre), afirma que muitas mulheres passam por uma jornada ao começar a notar os
sintomas: "No começo, há confusão e negação, depois vem o luto e, depois,
a aceitação".
"Mas,
se você está escondendo ou mascarando, você não está buscando a ajuda de que
precisa."
O
mascaramento da menopausa pode ser um desafio particular no trabalho. Se estima
que haja 4 milhões de mulheres com idades entre 45 e 55 anos empregadas no
Reino Unido, segundo um relatório do governo publicado em 2024, e esta é a
faixa etária mais comum para a menopausa.
Jo
Brewis, professora de pessoas e organizações na The Open University Business
School (Reino Unido), afirma que, quando as pessoas mascaram os sintomas no
trabalho, isso pode gerar o que economistas chamam de custos na margem
intensiva. "Em outras palavras, o esforço envolvido cria um peso extra
para as pessoas afetadas."
Algumas
mulheres chegam a deixar seus empregos. Estima-se que 1 em cada 10 mulheres com
idades entre 40 e 55 anos que trabalham durante a menopausa tenha deixado um
emprego por causa dos sintomas, segundo um relatório da organização que luta
pela igualdade de gênero e pelos direitos das mulheres The Fawcett Society
(Reino Unido), divulgado em 2022, que analisou dados de uma pesquisa com cerca
de 4.000 mulheres britânicas realizada pela consultoria de pesquisa Savanta
ComRes.
"Esse
peso pode se manifestar na forma de se tornarem menos visíveis, como não se
candidatarem a promoções ou até mesmo migrarem para cargos de menor status,
geralmente com menor salário, para conseguir lidar com a situação", diz
Brewis, da The Open University Business School.
"As
pessoas também podem investir esforço extra para evitar qualquer percepção de
que estão descuidadas ou que seu desempenho está caindo. Por exemplo, podem
trabalhar horas extras para garantir que revisaram seu trabalho caso estejam
experienciando sintomas comuns, como perda de foco ou fadiga."
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Mulheres japonesas e a 'segunda primavera'
É claro
que algumas mulheres têm experiências positivas com a menopausa, e é importante
não generalizar.
E
algumas culturas também apresentam atitudes diferentes em relação à menopausa
enquanto sociedade. Por exemplo, a palavra japonesa para menopausa, konenki,
significa renovação e energia.
Lá, a
menopausa às vezes é descrita como uma "segunda primavera", uma
referência a uma transição positiva para uma fase diferente da vida.
Megan
Arnot, pesquisadora honorária em Antropologia Evolutiva na University College
London (Reino Unido), afirma: "Muitos países ainda carregam um estigma em
torno da menopausa, semelhante ao do Reino Unido, embora pareça que as atitudes
aqui começaram a mudar nos últimos anos."
No
entanto, ela sugere que existem culturas e países em que a menopausa é
enquadrada de forma mais positiva.
"Em
muitas comunidades indígenas, incluindo culturas nativo-americanas e maias, a
menopausa é vista como uma transição para a sabedoria e a liderança, conferindo
às mulheres maior respeito e influência […] Da mesma forma, entre comunidades
indígenas australianas, mulheres pós-menopáusicas frequentemente se tornam
Melissa
Melby, professora de Antropologia na Universidade de Delaware (EUA), concorda
que, no Ocidente, "há a percepção de que a menopausa será horrível,
difícil de enfrentar e que a vida vai só ladeira abaixo a partir daí".
"Geralmente,
damos às mulheres listas de sintomas negativos. Problemas. Nós nunca as
perguntamos: houve alguma mudança durante esse período que tenha sido positiva
para você? Se você só faz perguntas sobre aspectos negativos, vai acabar tendo
percepções muito negativas", diz Melby.
Ela
passou dez anos vivendo e trabalhando no Japão, e conversar com mulheres locais
a deixou com "uma sensação de potencial e esperança para a próxima fase da
[sua] vida".
Admito
que, atualmente, não compartilho dessa visão, e se meu marido me dissesse isso
agora, eu não poderia garantir sua segurança. Mas talvez haja algo na ideia de,
em vez de se fixar na montanha-russa de sintomas, considerar o quadro mais
amplo.
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Não há solução única
A
menopausa há muito tempo é um grande negócio: há suplementos alimentares,
rastreadores de sintomas, faixas terapêuticas para a cabeça e coaches de vida
especializados no tema. Meus feeds direcionados nas redes sociais estão cheios
de anúncios de remédios naturais para a meia-idade.
O
mercado de menopausa foi estimado em mais de US$ 17 bilhões (cerca de R$ 85
bilhões) em 2024, e projeta-se que alcance mais de US$ 24 bilhões
(aproximadamente R$ 120 bilhões) até 2030.
Mas,
frequentemente, nada disso é suficiente por si só.
No
ambiente de trabalho, Brewis, da The Open University Business School, ressalta
que os empregadores precisam ter cuidado na forma como oferecem suporte. Em sua
visão, os gerentes precisam de treinamento específico para apoiar suas equipes,
por exemplo, conduzindo conversas sensíveis e definindo ajustes razoáveis para
indivíduos. Ela acrescenta que identificar claramente a menopausa como um
motivo legítimo de ausência também é importante.
"Algumas
pessoas nunca vão querer revelar seu status menopausal no trabalho, não importa
quão compassiva ou apoiadora seja a organização, e isso é absolutamente
prerrogativa delas", acrescenta. "Mas iniciativas eficazes sobre
menopausa podem e devem facilitar a divulgação e reduzir esse estigma."
No fim
das contas, descobri que a atitude desempenha um papel crucial.
Foi
Margaret Mead (1901-1978), uma antropóloga pioneira dos Estados Unidos, quem
cunhou o termo post-menopausal zest (entusiasmo pós-menopausa, em tradução
livre) há mais de 70 anos.
Na
década de 1950, ela disse: "Não há poder maior no mundo do que o
entusiasmo de uma mulher pós-menopausa."
Por
enquanto, esse pensamento positivo é ao que muitas de nós precisamos nos
apegar.
Quanto
a mim, vou me agarrar a ele enquanto isso durar, também canalizar o konenki, e
fazer reposição hormonal.
Mas a
onda de apoio e as conversas provocadas pelo meu episódio de névoa mental me
mostraram outro fato, ainda mais reconfortante: que definitivamente não estou
sozinha.
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Menopausa e perimenopausa
Segundo
o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), a menopausa ocorre quando a
menstruação cessa devido à queda nos níveis hormonais. Geralmente afeta
mulheres entre 45 e 55 anos, mas pode ocorrer mais cedo, e atinge qualquer
pessoa que menstrue.
Ela
pode acontecer de forma natural ou por causas como cirurgia para remoção dos
ovários ou do útero, tratamentos contra o câncer, como quimioterapia, ou
fatores genéticos; às vezes, a causa é desconhecida.
A
perimenopausa é o período em que aparecem sintomas da menopausa, mas a
menstruação ainda não parou. A menopausa é confirmada após 12 meses sem
menstruação.
Tanto a
menopausa quanto a perimenopausa podem causar sintomas como ansiedade,
alterações de humor, névoa mental, ondas de calor e ciclos irregulares, que
podem surgir anos antes do fim da menstruação e persistir depois.
Esses
sintomas podem afetar significativamente a vida diária, incluindo relações
pessoais e trabalho. Há medidas e medicamentos que ajudam a aliviar os
sintomas, incluindo a reposição hormonal.
A
experiência varia de pessoa para pessoa: é possível apresentar diversos
sintomas ou nenhum. Eles geralmente começam meses ou anos antes da interrupção
da menstruação, período conhecido como perimenopausa.
Entre
os sintomas mais conhecidos, de acordo com o NHS, estão:
• Mudanças na duração e frequência da
menstruação;
• Mudanças na quantidade de sangramento
(maior ou menor);
• Secura vaginal e dor, coceira ou
desconforto durante o sexo;
• Diminuição do desejo sexual;
• Névoa mental;
• Mudanças de humor, ansiedade e baixa
autoestima;
• Ondas de calor;
• Dificuldade para dormir;
• Palpitações;
• Dor e rigidez das articulações;
• Dor de cabeça e enxaqueca;
• Redução da massa muscular;
• Mudanças na forma corporal e ganho de
peso;
• Dentes sensíveis, gengivas doloridas ou
outros problemas bucais;
• Alterações na pele, incluindo pele seca
e com coceira;
• Infecções do trato urinário recorrentes.
O NHS
recomenda alimentação equilibrada, exercícios, cuidados com sono e bem-estar
mental, atividades relaxantes e lubrificantes vaginais, além de evitar
tabagismo e álcool em excesso. O principal tratamento medicamentoso é a terapia
de reposição hormonal (TRH), que repõe estrogênio e, quando necessário,
progesterona, aliviando os sintomas; gel ou creme de testosterona, medicamentos
não hormonais e terapia podem ser usados em casos específicos. Consultas
regulares são essenciais para ajustar o tratamento e monitorar efeitos
colaterais.
Fonte:
Zoe Kleinman, editora de tecnologia, BBC News

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