Banco
Master e a república no bolso dos banqueiros: um sistema que precisa ser
enfrentado à esquerda
O Banco
Master, liquidado em novembro, está se tornando um dos maiores casos de fraude
no sistema financeiro brasileiro, com uma teia de fundos de investimento,
carteiras de crédito falsas e outras falcatruas. Como uma fraude deste tamanho,
termina por envolver políticos e outros peixes grandes. Até agora, o que tem se
envolvido mais diretamente é o ministro do STF, Dias Toffoli, que puxou para si
as investigações, decretou sigilo, obrigou uma acareação, que foi questionada
pelo Banco Central, e tem limitado os prazos e o que poderá ser periciado pela
Polícia Federal. Nos últimos dias, a Folha de São Paulo revelou que pessoas e
fundos envolvidos com o Banco Master compraram a participação de seus irmãos em
um resort no Paraná, que o ministro frequenta. Toffoli, no entanto, está longe
de ser o único com ligações com o caso, que revela também parte da podridão do
sistema financeiro.
O Banco
Master a partir do antigo Banco Máxima, comprado por Daniel Vorcaro em 2018.
Assume seu nome atual em 2021. A beira da falência quando foi comprado, começou
uma estratégia agressiva de captação de recursos, com CDBs [1] pagando até 140%
do CDI, e com a compra de outras instituições, a mais notável sendo o Will
Bank, em 2024. Vorcaro também se deu uma vida de esbanjamento, transferindo a
sede do Master para um dos prédios mais caros da Faria Lima, alugando um
escritório para o banco em Miami, e comprando para si uma mansão na mesma
cidade, avaliada em R$ 500 milhões, segundo o G1.
Um dos
elementos que alavancou o crescimento do Master foi a exclusividade que
conseguiram adquirir nos empréstimos consignados para servidores do estado da
Bahia. Isso foi conseguido através de Augusto Lima, que se tornou sócio do
banco em 2019 e se desligou para comandar o Banco Pleno poucos meses antes da
liquidação. Tal exclusividade veio no bojo da privatização dos supermercados
Cesta do Povo, promovida pelo governador Rui Costa (PT), em 2018, que incluiu a
Credicesta na venda. Em poucos anos, o crédito consignado se tornou um dos
principais negócios do Master.
A
partir de 2023, no entanto, começam as fraudes que foram reveladas até o
momento. As empresas tomavam empréstimos com o Master, investiam em fundos da
Reag, também liquidada, e iam sendo passados entre vários fundos como uma
maneira de inflar artificialmente os ativos do próprio Master e fazer parecer
que possuía uma solidez maior do que a realidade, e também para lavar dinheiro.
Somente nessa fraude junto a Reag os valores giram em torno de R$ 11 bilhões.
Um dos
casos desta fraude é o da compra de empresas que geravam créditos de carbono no
Amazonas. Estas empresas, registradas com um valor de R$ 45 bilhões, na verdade
estariam utilizando terras da União para gerar crédito de carbono que não
existiam.
A
captação de CDBs do Master também se tornou um esquema de pirâmide, onde CDBs
novos eram emitidos para pagar os que estavam vencendo.
Outra
pata da fraude era a criação e a venda de carteiras de crédito falsas. Através
de empresas em nome de laranjas, se criavam carteiras de crédito falsas, que
simplesmente nunca haviam existido, e se burlavam sistemas da B3 para dar um ar
de legitimidade a elas. O Master “comprava” essas carteiras, mas não chegava a
fazer o pagamento, e as revendia. O INSS, em análise feita em novembro, achou
inconsistências em cerca de 74% dos contratos de empréstimos consignados feitos
pelo Banco Master, como falta de documentos que comprovem a existência da
operação. Cerca de R$ 12 bilhões dessas carteiras foram vendidas ao Banco de
Brasília (BRB).
É
nestas últimas movimentações que aparecem mais claramente as ligações do Master
com setores do bolsonarismo, que tentaram salvar o banco. O fundo de
previdência dos servidores estaduais do Rio de Janeiro, o Rioprevidência,
gerido pelo governo de Cláudio Castro, investiu cerca de R$ 1 bilhão em letras
financeiras do Master, além de investir R$ 150 milhões em um fundo que investe
apenas em ações da Ambipar. A CVM investiga o Master e seus fundos por terem,
junto com o empresário Nelson Tanure, inflado artificialmente o preço das ações
da empresa, que subiram 700% em 2024, antes dela ir à falência no ano seguinte.
Segundo o Metrópoles, o valor atual deste investimento é de R$ 17 milhões,
tendo funcionado efetivamente como uma maneira de drenar recursos dos servidores
estaduais fluminenses, mas gerando um lucro de cerca de R$ 1,2 bilhão a
Mauricio Quadrado, ex-sócio do Master, segundo o UOL.
O maior
envolvimento do Master, no entanto, foi com o BRB, que é controlado pelo
governo do também bolsonarista Ibaneis Rocha. O BRB, ao longo de um ano,
comprou mais de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito falsas do Banco Master,
valor que certamente ajudou o banco a atrasar sua liquidação. O BRB também
propôs uma operação de resgate do Banco Master, posteriormente vetada pelo
Banco Central, em que Vorcaro manteria o controle das decisões e a presidência
do banco, mesmo não detendo a maioria de seu capital. Vorcaro revelou, ainda,
em depoimento à PF, que se reuniu diretamente com Ibaneis para tratar da
operação de venda do Master, em uma operação que iria socializar os prejuízos
do Master, mas manter os lucros privados de seus donos.
O saldo
dessas operações é que agora o BRB se vê em risco, apesar das declarações
diárias de seu presidente que o banco não corre risco. Necessitando fazer uma
provisão no valor de R$ 2,6 bilhões, estão em estudo três possibilidades. Uma
seria um aporte direto do Governo do Distrito Federal, o que poderia levar a
cortes de gastos em outras áreas, incluindo áreas sociais. Outra opção seria um
empréstimo junto ao FGC, em que imóveis públicos e ações da CEB seriam usadas
como garantia, levando a privatização de bens públicos em caso de problemas com
o pagamento. Por fim, outra opção seria a criação de um fundo imobiliário com
imóveis do estado, que passaria a pagar aluguel destes imóveis como maneira de
gerar renda no fundo. Em todas elas recai sobre o dinheiro público a
responsabilidade de salvar os danos causados em nome do lucro privado de
Vorcaro.
Na teia
de relações de Vorcaro está ainda o nome do senador Ciro Nogueira, do PP, que
teria atuado para impedir uma CPI que investigasse o banco. Ele teria relações
ainda com Antônio Rueda, presidente do União Brasil. Fabiano Zettel, cunhado de
Vorcaro e também investigado no esquema, foi o maior doador individual das
campanhas de Bolsonaro e de Tarcísio em 2022, tendo doado mais de R$ 5 milhões.
O ministro do TCU Jhonatan de Jesus que questionou a liquidação foi deputado
federal pelo Republicanos e chegou ao TCU com apoio de Arthur Lira.
O
ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, não agiu mesmo vendo os
graves problemas e riscos que o Master representava. Segundo o Estadão, atuou
em dois momentos, ao longo de 2024, para evitar uma liquidação.
Mas as
relações não se esgotam com o bolsonarismo e o centrão. Através de Augusto
Lima, o Master tinha relações com figuras do PT baiano, em especial Jaques
Wagner. Wagner afirmou ter indicado Ricardo Lewandowski ao banco, como
consultor. O escritório do ex-ministro foi contratado pelo banco, em um momento
em que ele ainda não tinha assumido o cargo. Outro que prestou serviço ao banco
foi Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, que atuou para viabilizar a operação
de resgate pretendida pelo BRB e chegou a organizar uma reunião com Lula, onde
o presidente disse que não iria interferir no caso. Segundo o Metrópoles,
também teria sido Jaques Wagner quem indicou Mantega. O ex-presidente Michel
Temer também foi contratado pelo Master para garantir a compra pelo BRB.
O
escritório de Viviane Barci Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, foi
contratado para defender o Master em casos na justiça, por valores milionários.
Moraes se reuniu quatro vezes com Gabriel Galípolo enquanto aconteciam as
investigações do Master. Este é o principal elemento que leva a que os
bolsonaristas no Congresso peçam uma CPI do Master, para usar como um cavalo de
batalha contra o STF, mesmo enfiados até o pescoço no escândalo.
Como se
não bastasse, 6 fundos ligados ao Banco Master na Reag, incluindo o fundo por
meio do qual Vorcaro detém participação no Atlético Mineiro, são citados também
na Operação Carbono Oculto, da PF, que investiga o uso de fundos de
investimento para lavagem de dinheiro pelo PCC.
Se
existem ligações de nomes importantes do regime com a teia do Master, e as
tentativas de contenção das investigações o demonstram, existe outro elemento
em jogo, das disputas dentro do próprio sistema financeiro. Os grandes bancos
têm bancado a atuação mais agressiva de Galípolo e do Banco Central no caso,
querendo fazer do Master um exemplo para outros bancos pequenos.
Nos
últimos anos, estes grandes bancos têm perdido mercado frente ao surgimento de
bancos digitais, financeiras, fintechs, cooperativas e outras instituições
menores. Dados do Banco Central mostram que os quatro maiores bancos do país
(Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Itaú e Bradesco) viram, entre 2019 e
2024, sua participação nos depósitos totais do sistema passar de 67% para 57%,
e no total do crédito cair de 60,6% para 57,9%. Em algumas linhas, como capital
de giro, cartão de crédito ou antecipação de recebíveis, as quedas foram ainda
mais acentuadas. No mercado de captação de recursos, necessário para a
concessão de empréstimos e que envolve produtos como poupança, CDBs, letras
financeiras e de crédito, a participação das cooperativas e bancos digitais
chegou a 16% do total no ano passado, dobrando sua fatia em relação a 2021.
Os
grandes bancos se incomodam ainda com o uso do FGC para a captação por parte
dos bancos pequenos, e que Vorcaro admitiu que era a base de sua estratégia.
Por serem os principais emissores de papéis, são também os principais
contribuidores do fundo, que termina sendo usado para garantir os investimentos
feitos em bancos menores.
Mostra
deste apoio é a nota divulgada pela Febraban frente aos questionamentos do TCU
em relação à liquidação do Master. Na nota, declararam seu apoio à atuação do
Bacen, que após isso liquidou a Reag, o Will Bank e agora faz exigências ao
BRB. Uma linha mais dura do Bacen em relação aos bancos menores termina por
favorecer estes grandes bancos. O escândalo tem ainda a possibilidade de
diminuir a confiança de investidores e tomadores em bancos menores, e se coloca
como uma chance para uma retomada de posições.
Parte
desta pressão vai no sentido de alterar as contribuições ao FGC, aumentando os
pagamentos dos bancos menores e diminuindo o peso dos grandes. A recente
mudança regulatória, proibindo as financeiras de usar banco ou bank em seus
nomes, também é uma reivindicação desse setor. Com isso, instituições como o
NuBank terão de mudar de nome, o que traria problemas em termos de marketing e
reputação, ou se tornarem efetivamente bancos, o que traria novos custos e
aumentaria as regulações a que estão sujeitos, inclusive trabalhistas.
Há que
se citar ainda o papel de dois tipos de instituições do mercado financeiro, que
foram importantes para que se chegue até aqui: as corretoras de investimentos e
as agências de rating. Essas últimas são responsáveis por elaborar pareceres
sobre o risco de títulos de crédito não serem pagos, seja por empresas ou por
governos. São parte de um mercado concentrado globalmente em basicamente três
empresas com um enorme poder de dar ou tirar credibilidade, sendo utilizadas,
entre outras coisas, para pressionar governos por mais juros ou mais cortes de
gastos através de revisões negativas de seus ratings de crédito. Umas dessas
três grandes, a Fitch, deu nota A- para o Banco Master em outubro de 2024,
enquanto era operado um verdadeiro esquema de pirâmide. Esta nota agora é
utilizada pela Rioprevidência como justificativa para os investimentos que
fizeram. Nunca é demais lembrar também que estas empresas davam notas AAA para
os títulos subprime em 2008, até poucas semanas antes de se tornarem papéis
podres.
As
corretoras, por sua vez, são as responsáveis por fazer os CDBs e outros papéis
do Master chegarem até possíveis investidores. Oferecendo, por vezes até
ativamente, os títulos do banco, com uma rentabilidade que por si só deveria
levantar suspeitas, cumpriram um importante papel de captação de recursos na
engrenagem do esquema, e foram remuneradas por isso, com comissões maiores que
a média do mercado pagas pelo Master.
Mesmo
que não coloque um risco sistêmico ao sistema financeiro nacional, pelo seu
tamanho, o escândalo do Banco Master coloca em evidência a podridão do regime
político brasileiro e do mercado financeiro. A liquidação de um banco sempre
representa, entre outras coisas, o desemprego para os funcionários deste banco,
economias, às vezes de uma vida, presas por meses esperando o pagamento do FGC
e até mesmo o saldo da conta, para pagar aluguel e outras contas do mês, preso
por meses.
A
ligação com nomes grandes da política, mesmo sendo um banco pequeno, foi uma
estratégia de Vorcaro de buscar se blindar para se, e quando, seu esquema
viesse à tona, mas não deixa de mostrar um regime completamente envolvido com
mais este escândalo. A atuação dos grandes bancos, por sua vez, não se trata de
buscar mais segurança para o sistema ou algo melhor para a população, mas
sobretudo uma disputa por espaço no altamente lucrativo mercado financeiro
brasileiro.
Os
prejuízos, como costuma acontecer, terminarão caindo para o setor público, como
no caso do resgate ao BRB e aos fundos de previdência, e por essa via irá
recair sobre a população, no corte de gastos ou em tentativas de novas
contribuições previdenciárias de servidores para cobrir os rombos gerados.
Enquanto isso, porém, figuras do Master, como Augusto Lima, seguem como donos
de outros bancos e atuando no mercado.
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As implicações políticas e geopolíticas
No
momento, o amplo esquema de corrupção compromete a credibilidade do judiciário,
em especial de Toffoli e Moraes, o que tem implicações diretas para a
legitimidade do tribunal, enquanto a defesa de Bolsonaro fustiga diariamente
Moraes com pedidos de autorização de visitas de políticos a Bolsonaro na
prisão. Nos últimos dias a contaminação chegou também ao gabinete presidencial,
pela via das relações do PT baiano com o Banco Master. As implicações políticas
e eleitorais são potencialmente grandes e Lula vai ter que atuar crescentemente
para evitar a contaminação eleitoral dessa crise. Mesmo que seja de um enorme
cinismo o bolsonarismo se utilizar desse caso, dado que não só a criação do
esquema se deu durante o governo Bolsonaro, mas também os pilares dele estão
ligados aos governo do DF e do RJ, controlados pelo bolsonarismo, quem abre
essas brechas para isso é o próprio Lula, que considera normal receber
banqueiros em seu gabinete presidencial, na companhia de seu indicado ao Banco
Central. Apesar do governo até agora estar bloqueando a criação de uma CPI, o
caso pode começar a ser investigado na CPI do crime organizado que corre na
Câmara de Deputados.
As
implicações geopolíticas vão se tornando mais concretas e preocupantes, na
medida em que vai aparecendo o envolvimento da justiça americana e francesa nas
investigações da Polícia Federal. A partir da justiça da Flórida ter aceitado a
liquidação executada pelo Banco Central brasileiro como válida para as
operações do Master e seus sócios dentro dos EUA, se inicia uma fase de
cooperação internacional para localização de fundos e coleta de provas que
inclui colaboração inclusive com o FBI - ainda que mediada pelo agente de
liquidação, representado nos EUA pelo advogado Fernando J. Menendez Jr. Uma
parte importante dessa equação, que a partir da decisão da corte de Miami tem
poderes para intimar diretamente os bancos americanos, Menendez possui
experiência com implicância geopolítica, tendo representado credores em caso
contra o governo Chávez e a PDVSA (caso Crystallex contra CITGO) e contra a RDC
(República Democrática do Congo). A parte da colaboração com a França ainda
permanece sob sigilo.
É uma
piada de mal gosto o ministro Fernando Haddad querer responder a uma crise
dessa magnitude, que envolve todas as instituições de controle do sistema
financeiro, transferindo a responsabilidade da fiscalização da CVM para o Banco
Central e tampouco podemos aceitar a retórica mentirosa de Lula e de Edson
Fachin, atual presidente do STF, que é necessário investigar, doa a quem doer.
O
perigo e as consequências de um processo dessa magnitude não podem ser
diminuídos, ainda mais quando envolvem uma colaboração com o FBI e a justiça da
Flórida. Os sindicatos, o movimento estudantil, os movimentos populares e a
esquerda independente do governo não podem ficar na defensiva frente às
denúncias que envolvem cada vez mais fortemente o STF e inclusive o governo
Lula. Os setores que transformaram Moraes e o STF em heróis na luta em defesa
da democracia e contra a extrema direita, agora vão precisar acertar as contas
com a realidade. O STF foi crucial para a ascensão da extrema direita e agora é
pilar da governabilidade do governo Lula. Com o caso Master fica evidente a
serviço de quem eles sempre estiveram, que é o grande capital.
É
preciso tomar nas nossas mãos o enfrentamento às instituições dessa democracia
corrompida e degrada, que estavam todas na lista de pagamento de Daniel
Vorcaro, levantando nossa voz para denunciar o conjunto do sistema financeiro,
seu atrelamento inclusive com o crime organizado e o envolvimento dos políticos
do governo e do bolsonarismo, assim como o judiciário. Precisamos fortalecer
uma esquerda que não só seja crítica ao governo, mas a todo esse regime
político podre e este Estado, defendendo a punição e prisão para Bolsonaro,
militares e todos os apoiadores do que foi esse governo, e sem nenhum
atrelamento ao STF como fez grande parte da esquerda, justamente porque o STF,
ao mesmo tempo que se vendia como “democrático”, julgou sempre a favor da
reforma trabalhista, das escolas cívico-militares, contra o direito dos
entregadores, enfim, esteve a favor de todos os ataques e reformas contra os
trabalhadores.
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A resposta é pela esquerda
Em
primeiro lugar, é necessário tirar das mãos das instituições desse regime podre
a investigação deste caso pois, como já vimos com a operação Lava-Jato, a
Polícia Federal e o judiciário se utilizam do tema do “combate à corrupção”
para fins políticos de determinadas alas da burguesia e do regime político.
Naquele momento, serviu para substituir um esquema de corrupção ligado às
global players nacionais por outros esquemas ligados a grandes empresas
imperialistas. Foram elas que se beneficiaram da Lava-Jato para fortalecer seus
negócios na exploração de petróleo, na construção civil e outras áreas. Tanto
que os negócios bilionários da Petrobrás com a imperialista Shell nunca foram
tocados.
Por
isso, é necessário uma mobilização que imponha um júri popular, com acesso
pleno e público aos dados e provas da investigação em curso. Essa investigação
precisa ser levada à frente pelos movimentos sociais, sindicatos, organizações
da esquerda, com trabalhadores do sistema bancário e especialistas, para que
nenhum juiz, político ou empresário seja poupado. É necessário, como parte da
punição aos envolvidos, o confisco de bens dos políticos e dos capitalistas
responsáveis por toda essa fraude. Não haverá nenhum combate à corrupção sério
se conduzido pelos que se envolvem em casos como esse enquanto votam ataques
contra a classe trabalhadora, seja pelo STF ou pela PF, seja pelos próprios
parlamentares através de uma CPMI, como vem sendo defendido por Jones Manoel e
outros setores da esquerda.
Ao
mesmo tempo, sabemos que a corrupção é o óleo que lubrifica a relação entre o
Estado e as diferentes frações burguesas da sociedade, agindo como componente
fundamental para garantir que o Estado seja sempre um balcão de negócios dos
capitalistas. Nunca existiu ou poderá existir um Estado capitalista “ético”,
sem corrupção. Portanto, a mobilização contra esse esquema corrupto do Master
deve levar a um enfrentamento estrutural contra as instituições do regime
político e o próprio sistema financeiro, com uma Assembleia Constituinte Livre
e Soberana imposta pela mobilização. Uma constituinte que ataque os privilégios
da casta política e burocrática do Estado - pagos para garantir seu vínculo com
a classe dominante e para que estejam a serviço de ataques como fizeram com o
golpe institucional, a reforma trabalhista, da previdência, entre tantos outras
medidas anti-operárias - impondo que todo juiz seja eleito e tenha mandato
revogável, assim como os parlamentares, e recebam o mesmo salário médio de um
trabalhador. Mas também que o sistema financeiro, os bancos, sejam estatizados
sob controle dos trabalhadores, com a criação de um banco estatal único que
controle os fluxos de capital e acabe de uma vez com as folhas de pagamento
paralelas dos bancos ao crime organizado, aos juízes e ministros.
Além
disso, é necessário impor o não pagamento da dívida pública, pois se trata do
maior roubo legalizado do patrimônio público, tanto por bancos nacionais, mas
sobretudo pelo capital financeiro imperialista, que todos anos sequestram mais
de 40% do nosso orçamento e seguem cobrando cada vez mais, através da rolagem
de juros. Essa luta é parte de um necessário combate anti-imperialista, que
mais do que nunca é urgente diante da invasão da Venezuela, nos colocando lado
a lado aos povos da América Latina que sofrem nas mãos do imperialismo e também
aos manifestantes que nos EUA enfrentam a violência brutal do ICE de Trump.
As
centrais sindicais governistas CUT e CTB precisam romper a sua paralisia
funcional à estabilidade desse regime podre e organizar essa luta em cada local
de trabalho. Somente assim será possível uma constituinte que realmente coloque
nas mãos da maioria da população as decisões sobre os rumos do país, com
eleição livre de deputados constituintes, com base ao sufrágio universal, com
mandatos revogáveis e que recebam o salário médio de um trabalhador. E para que
essa experiência da Constituinte possa servir de fato para mostrar para amplos
setores da sociedade o caráter inerentemente corrupto do Estado capitalista, do
sistema financeiro, é necessária a defesa de um programa de superação desse
sistema capitalista decadente, fortalecendo as bases para a luta por um governo
operário de ruptura com o capitalismo.
Fonte:
Por Thiago Flamé, para Esquerda Diário

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