Depoimento:
'Uma pastora me convidou para sair. Quando disse não, ela começou a me
perseguir'
Parecia
ser um encontro inofensivo.
No
verão de 2021, Jay Hulme, voluntário da Igreja de São Nicolau em Leicester, no
Reino Unido, recebia as pessoas na porta do santuário. Foi quando Venessa Pinto
entrou.
"Havia
algo estranho com ela", relembra Hulme. "Mas achei que fosse por
estar em uma igreja nova, com outras pessoas, e estávamos saindo da pandemia.
Não havia motivo para alerta."
Venessa
Pinto foi contratada pela diocese de Leicester da Igreja da Inglaterra como
pregadora leiga — uma pessoa não consagrada, autorizada a liderar o culto. Ela
retornaria mais algumas vezes à igreja de Hulme.
Algumas
semanas depois, eles estavam em uma missa no meio de semana, na catedral de
Leicester. Quando terminou, ela se aproximou e pediu para falar com ele em
particular.
Eles
foram até o tranquilo cemitério da velha catedral e ela o convidou para sair.
"Fiquei
muito surpreso, pois não a conhecia", ele conta. "Respondi 'sou gay,
mas obrigado pelo convite' e ela perguntou se era porque ela era negra."
Jay
ficou espantado com a pergunta. Ele repetiu gentilmente que não poderia sair
com ela porque é gay, além de não estar no lugar certo para um relacionamento.
"Saí
dali pensando: 'foi muito estranho'. Mas pensei 'já acabou'."
Mas não
foi assim. Na verdade, aquele foi o início de uma devastadora campanha de
perseguição e assédio.
Quando
ele a denunciou, a mais alta autoridade eclesiástica de Leicester, forte
candidato a ser o próximo arcebispo da Cantuária (o principal líder espiritual
da Igreja da Inglaterra), afirmou não acreditar nele. E chegou a acusar Jay
Hulme de bruxaria.
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'Homem vil'
Jay
Hulme tinha pouco mais de 20 anos de idade. Ele vivia um momento muito feliz
naquele verão.
O jovem
era poeta e escritor, assistente de supervisão na Igreja de São Nicolau, que
acolhe a comunidade LGBTQIA+, e conhecido nas redes sociais pelo seu amor pelas
edificações e pela teologia da igreja.
Ele
analisava sua fé cristã, considerando a possibilidade de estudar e se tornar
padre nos próximos anos.
"Também
sou trans, assumi há alguns anos e, finalmente, cheguei a um ponto de total e
completa felicidade com quem eu era", relembra ele. "Eu via meu
futuro se desenrolando à minha frente de uma forma que, até então, parecia
impossível."
Venessa
também tinha pouco mais de 20 anos. Depois de ser rejeitada, ela enviou
diversas mensagens "furiosas e acusatórias" para Jay, dizendo que ele
estava falando mal dela.
Ele
tentou convencê-la de que não aquilo não era verdade, mas ela foi inflexível.
Para
tentar resolver a situação, Jay concordou quando ela exigiu que eles se
encontrassem.
Ele
estava determinado a se encontrar em um local público, mas uma forte tempestade
fez com que eles acabassem se reunindo em um ambiente interno, sozinhos, no
local de trabalho dela.
Ele
conta que ela gritou com ele e o chamou de mentiroso, racista e uma pessoa
horrível. Ela exigiu repetidamente um pedido de desculpas, sem dizer o que ele
supostamente teria feito.
Jay
ficou desestabilizado e deixou de interagir com Venessa. Ela continuou a
frequentar a igreja, mas ele passou a evitar a jovem.
Foi
quando ele começou a receber mensagens de contas online anônimas, que eram
visíveis para os seus seguidores nas redes sociais.
Ele
logo percebeu que Venessa era a autora das mensagens. Ela chegou a enviar um
e-mail da sua conta pessoal, pedindo desculpas pela "dor" que ela
havia causado.
Mas a
grosseria online aumentou e ela começou a postar ameaças e acusações falsas em
público.
Jay
ficou preocupado com a sua segurança e denunciou o assédio à polícia de
Leicestershire. Ele não pretendia iniciar um processo naquele momento, mas sim
que o abuso cessasse.
O jovem
não teve retorno e os abusos continuaram implacáveis. A cada vez que ele
bloqueava uma conta, surgia outra e ele achava que não haveria escapatória.
"Minha
sensação era que ela estava nos meus bolsos, na minha casa, no meu cérebro todo
o tempo, dizendo aquelas coisas horríveis e eu não conseguia escapar
daquilo", ele conta.
Jay
precisava permanecer online devido aos seus compromissos como escritor e
palestrante. Mas ele começou a perder contatos e suspeita que isso se deveu às
acusações sobre ele na internet.
Por
fim, semanas depois de avisada, a polícia visitou Venessa. Mas o resultado não
foi nada satisfatório para Jay.
"Ela
disse ao policial que seus amigos estavam enviando as mensagens e o policial
respondeu que ela deveria dizer a eles que parassem", ele conta. "A
polícia me disse que eu deveria simplesmente apagar minhas redes sociais."
Ele
afirma que sua impressão foi que a polícia não considerou a seriedade dos
abusos por terem sido praticados online.
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Reservas no mesmo retiro
A
visita da polícia gerou mensagens ainda mais furiosas contra o jovem.
Jay
começou a reunir um poderoso conjunto de evidências. Sua missão, agora, era
provar que as mensagens não haviam sido enviadas pelos amigos de Venessa, mas
por ela própria.
Ele
montou uma planilha detalhada, especificando as conexões entre as diversas
contas anônimas que haviam postado mensagens abusivas ou acusações contra ele.
Todas elas levavam a Venessa.
Depois
de perder a confiança na polícia, Jay entregou todas as evidências para a
Igreja da Inglaterra, que prometeu investigar sua queixa formal.
Enquanto
esperava, ele pensou em descansar um pouco, em um silencioso retiro jesuíta na
zona rural do País de Gales. Mas, dias depois, um colega contou que Venessa
havia reservado o mesmo retiro.
Jay
havia feito uma reserva de última hora e, segundo ele, não havia muitas vagas.
"Fica
no meio do nada. Para mim, é impossível que tivesse acontecido por acaso."
Ele
saiu do retiro horas antes da chegada de Venessa. Aquilo o deixou horrorizado,
com a sensação de que o stalking (perseguição) havia ultrapassado os limites da
internet.
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Acusado de bruxaria
Foi
quando, finalmente, surgiram as primeiras notícias positivas. De volta a
Leicester, a investigação da Igreja da Inglaterra concluiu que Venessa Pinto
era responsável pelo abuso, para grande alívio de Jay.
Ele
acreditou que aquilo fosse o fim de tudo. Mas, quase instantaneamente, veio um
golpe inesperado.
Ele foi
convocado para uma reunião com o bispo de Leicester, Martyn Snow, considerado
favorito para ser o próximo arcebispo da Cantuária, o líder da Igreja da
Inglaterra.
Jay
acreditava que Venessa fosse perder o emprego. Ocorre que o bispo realizou sua
própria investigação.
"Eu
entro e o bispo se senta com uma grossa pasta no colo. E começa a me questionar
sobre a minha denúncia", relembra ele. "Ele chega a dizer 'é o que
ele disse e o que ela disse'."
O bispo
afirmou que não acreditava que Venessa fosse responsável pelo assédio e não
apoiaria a denúncia de Jay contra ela.
Ele,
então, fez uma acusação extraordinária contra Jay.
"Alguém
declarou que eu fui visto na igreja, no escuro, com uma vela — e pensaram que
eu estivesse fazendo uma sessão espírita."
"Para
deixar claro, eu estava rezando com uma vela no escuro, porque é algo que fazem
os cristãos", explica ele.
Mas
tudo ficou pior.
O bispo
Snow o acusou de prática de feitiçaria, devido à "sessão espírita" e
porque Jay, por acaso, tem um amigo próximo que faz leitura de tarô.
"Parecia
um enorme soco no estômago", descreve ele.
"Essas
acusações inventadas me foram apresentadas por uma pessoa com o poder de um
bispo, em uma reunião que eu percebi subitamente que não podia controlar."
"De
alguma forma, ela [Venessa] havia conseguido fazer com que um bispo
participasse da sua campanha de perseguição, abusos e ameaças, usando seu poder
e seu cargo. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo."
Jay
conta que foi informado que Venessa não perderia sua licença para pregar, mas
que ele, sim, sofreria uma punição.
Ele
havia decidido seguir o caminho do sacerdócio e conta que o bispo Snow disse
que o processo para iniciar seus estudos seria "desacelerado".
Jay
ficou devastado. Ele foi para casa com a sensação de que havia caído em uma
armadilha. E, depois que a denúncia foi descartada, foram postadas novas
mensagens na internet.
"Coisas
realmente horríveis, dizendo que eu estuprei crianças, que roubei dinheiro, que
fui racista, que pratiquei bullying", ele conta. "Ela criava contas
falsas minhas, dizendo coisas realmente racistas, tirava cópias de tela e
compartilhava."
O bispo
Snow sugeriu que suas acusações não condiziam com o caráter de Venessa. Mas Jay
logo descobriu que ele não era a única pessoa prejudicada pelo comportamento
dela.
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Queixas 'de 30 pessoas'
Uma
colega que trabalhava próxima a Venessa, Kat Gibson, havia se queixado dela
mais de um ano antes do início da campanha contra Jay.
Ela
conta que Venessa era imprevisível e antagônica ao extremo.
"Eu
ficava muito assustada quando estava perto dela, pensando, 'por que será que
ela vai explodir comigo desta vez?'", relembra ela, "com esses surtos
de raiva explosivos e imprevisíveis."
Ela
destaca que, com o passar dos meses, "cerca de 30 pessoas" de oito
igrejas fizeram contato com ela, se queixando informalmente do comportamento de
Venessa. Ela relembra o episódio como um "segredo aberto", que os
gerentes se sentiam incapazes de enfrentar.
Em
declaração conjunta, o chefe de Kat Gibson, Lusa Nsenga Ngoy (hoje, bispo da
Igreja da Inglaterra em Londres) e a diocese de Leicester afirmaram que foi
oferecido apoio pastoral e psicológico às pessoas afetadas. A Igreja da
Inglaterra declarou que as queixas de Kat Gibson foram tratadas com cuidado e
seriedade.
Gibson
era pregadora leiga em Leicester, mas Venessa logo ganhou proeminência cada vez
maior em nível nacional.
Em
2022, vários meses após sua campanha de perseguição contra Jay Hulme, ela foi
eleita para a assembleia nacional da Igreja da Inglaterra, o Sínodo Geral.
Pouco
tempo depois, Venessa foi uma das poucas pessoas do Sínodo indicadas para o
Comitê de Nomeações da Coroa, um grupo que seleciona novos bispos e arcebispos.
Mas, ainda nessa época, ela continuava enviando incontáveis mensagens sinistras
para Jay Hulme.
O
assédio online, agora, incluía conteúdo pornográfico extremo postado nas suas
redes sociais, até que ela twittou o endereço de Jay.
Ele foi
à polícia pela segunda vez, mas novamente não percebeu urgência por parte das
autoridades.
"Houve
uma época em que, todas as noites, eu acordava gritando, porque sonhava que
Venessa estava me assassinando", ele conta. "Coloquei mais travas na
minha porta."
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Desculpas e condenação
Apesar
da aparente passividade, a Igreja da Inglaterra claramente começou a perceber
nos bastidores que tinha um problema nas mãos.
Por um
lado, Jay foi informado, no verão de 2022, que uma investigação da diocese de
Leicester considerou Venessa responsável pelo assédio a Jay. Mas também foi
dito a ele que o bispo de Leicester decidiu exatamente o contrário.
A BBC
tomou conhecimento de que, pouco antes do anúncio, o bispo, na verdade, disse a
Venessa que se afastasse do ministério devido ao "seu comportamento",
embora não se saiba o que isso significava.
Ele
também revogou sua licença para pregar posteriormente, devido ao surgimento de
"novas evidências", segundo o bispo. A diocese também recomendou o
seu afastamento.
Mas
nada disso veio a público, nem impediu sua implacável perseguição a Jay.
Subitamente,
no final de 2022, a diocese de Leicester anunciou a saída de Venessa da igreja.
O anúncio dizia que ela iria "buscar outras oportunidades" e
agradeceu pelas suas contribuições positivas.
Mais
uma vez, aparentemente não houve impacto sobre a artilharia repleta de ódio
voltada contra Jay.
"Escrevi
meu testamento", relembra ele. "Senti que a polícia havia me
abandonado, a diocese havia me abandonado e eu acreditava que isso continuaria
até que um de nós dois estivesse morto."
Tomado
pelo desespero, Jay foi à polícia novamente em dezembro de 2022.
A
polícia finalmente agiu contra Venessa em março de 2023 — 21 meses após o
início da campanha de perseguição contra Jay e oito meses depois que o bispo de
Leicester disse ao jovem que não acreditava nele.
"Recebi
uma ligação da polícia de Leicestershire, basicamente reconhecendo que agiu mal
neste caso", ele conta. "E, muito pouco tempo depois, Venessa foi
presa. Seus aparelhos foram confiscados."
Em
nota, a polícia de Leicestershire declarou que sua reação inicial ficou aquém
dos padrões esperados e destacou que continuaria a "desenvolver seu
conhecimento e treinamento em relação à prevenção e detecção de crimes de
stalking".
No
final de 2023, Venessa recebeu suas acusações. Em maio de 2024, ela se declarou
culpada de stalking, causando sérios danos ou sofrimento. Ela foi condenada a
18 meses de serviços comunitários e proibida de manter contato com Jay por um
ano.
Após a
condenação de Venessa, Jay pediu uma audiência com o bispo de Leicester, Martyn
Snow, que pediu desculpas pelo ocorrido.
"Ele
reconheceu sua participação, de certa forma, e disse que deveria ter agido
melhor", conta Jay. "E eu concordo."
A
diocese de Leicester declarou à BBC que recebeu aconselhamento legal e tem a
confiança de ter seguido a prática de recursos humanos e processo devido, ao
lidar com a queixa de Jay. Mas não informou por que levou meses para dispensar
Venessa, depois de concluir que ela havia enviado as mensagens para ele.
Um
porta-voz da Igreja da Inglaterra afirma estar "chocado com o sério
comportamento criminoso que levou à condenação de Venessa Pinto".
Kat
Gibson foi recentemente dispensada do seu cargo em Leicester. Ela afirma que se
sente muito melhor, física e mentalmente, e está feliz por não ser mais
funcionária da Igreja da Inglaterra.
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'Todos deixaram de me proteger'
Mas o
que aconteceu com Venessa Pinto?
Depois
do seu serviço comunitário e obedecendo sua ordem de restrição, ela voltou a
pregar e também realizou trabalhos missionários no Brasil.
Ela
declarou à BBC que houve um aspecto específico da ação judicial que mudou tudo
para ela.
"Ler
a declaração de impacto à vítima escrita por Jay destacou ainda mais as dores
que causei e fortaleceu minha resolução de assumir a responsabilidade e fazer
correções", afirma ela.
"Reconheço
a seriedade da minha conduta do passado e não pretendo diminuir as suas
consequências. Levei minha vida adiante e espero que as pessoas prejudicadas em
Leicester e em outros lugares possam encontrar, nos seus corações, espaço para
cura e crescimento."
Embora
admita o assédio pelo qual foi condenada, Venessa nega algumas das outras
acusações, como os frequentes surtos de raiva relatados por Kat Gibson e outras
pessoas.
Na
verdade, ela afirma que essas acusações de comportamento agressivo nunca foram
formalmente levantadas quando ela estava em Leicester.
Venessa
afirma que estava passando por um período difícil e enfrentava problemas de
saúde mental, durante o tempo que passou na cidade.
Seus
ataques deixaram cicatrizes em Jay.
Ele tem
dificuldade para abrir seu e-mail, com medo do que irá encontrar, e afirma que
suas finanças foram destruídas por anos de trabalho esporádico.
"Sinto
que todos deixaram de me proteger. Quase me sinto como tendo sido ingênuo
quando pensei que a Igreja, que tanto fala em proteção, iria me proteger depois
que a polícia falhou comigo."
"A
Igreja falha porque as pessoas têm medo de fazer o que é certo", segundo
ele.
"Na
Epístola de Tiago, meu livro favorito da Bíblia, existe um trecho que diz que
qualquer pessoa que saiba o que é certo e deixa de fazê-lo comete pecado. E
este é o problema central desta Igreja."
Fonte:
Por Aleem Maqbool, editor de religião, e Steve Swann - Programa "File on 4
Investigates", BBC Rádio 4

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