Campanha
eleitoral 2026: candidatos estão mais preocupados em "desconstruir" o
adversário do que falar do futuro
As
eleições ainda estão distantes, mas o eleitor pode, desde já, ir preparando os
ouvidos e o espírito para uma campanha que, na melhor das hipóteses, será a
repetição das duas anteriores. Por mais que haja assuntos sérios a serem
tratados no país, ele ouvirá mais lacração do que propostas, mais bate-boca do
que debate sério. Daqui por diante, a temperatura estará sempre em elevação e a
troca de acusações entre os candidatos será cada vez mais estridente.
Quem
esperava que a abertura de uma “terceira via” ajudasse a distensionar o
ambiente e trazer um pouco de fidalguia às discussões, pode esquecer. A menos
que algum fato novo que esteja completamente fora do radar neste momento
provoque uma mudança radical no cenário, a disputa se dará entre o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, que concorrerá pelo PT, e o senador Flávio
Bolsonaro, que sairá pelo PL. Dia após dia, a corrida ficará mais afunilada
entre eles — e os outros nomes que permanecerem na raia serão tratados como
meros figurantes.
Daqui
em diante, todos os problemas do Brasil se resumirão em uma só: quem governará
o país nos próximos quatro anos? Esse é o tipo da pergunta cuja resposta, como
no poema de Cecília Meireles, “acende paixões que alastram sinistras
rivalidades”. Portanto, o aviso mais sensato a ser dado nesta hora é: “Senhoras
e senhores, apertem os cintos! Passaremos por uma zona de muita turbulência!”
Um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, divulgado na quinta-feira da
semana passada, avaliou as preferências do eleitor em dois cenários diferentes.
O primeiro tem como protagonistas Lula e Flávio Bolsonaro. No outro, o atual
presidente mede forças com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Por ser
um nome simpático ao “Centrão” — aquela turma de políticos adesistas que nunca
arrisca o próprio pescoço numa disputa, mas que está sempre disposta a embarcar
na canoa que mais tiver mais chance de vitória —, o governador de São Paulo
era, e ainda é apontado por muita gente como o nome da direita com mais chances
de vitória numa disputa contra o favorito Lula. Desde a semana passada, porém,
essa possibilidade foi sepultada. E, pelo que tudo indica, de uma vez por
todas.
O
próprio Tarcísio, na saída da visita que fez ao ex-presidente Jair Bolsonaro,
no presídio em que cumpre pena, em Brasília, também na quinta-feira, repetiu
pela enésima vez que não concorrerá à Presidência da República. Seus esforços
estarão concentrados na própria reeleição para o Palácio dos Bandeirantes.
Diante dessa declaração recorrente, qualquer afirmação em contrário daqui por
diante deve ser tratada como mera especulação. O melhor, então, é esquecer o
governador e concentrar as atenções na corrida entre o experiente Lula, que
pleiteia o quarto mandato, e o filho mais velho do ex-presidente, estreante na
disputa.
CONSUMO
E INFLAÇÃO
A
situação, é claro, pode sofrer alterações nos 245 dias — ou oito meses — que, a
contar de hoje, faltam para o primeiro turno das eleições. Dependendo do ponto
de vista, isso é tempo de sobra para alguma mudança que interfira no trajeto.
Quer um exemplo dessa possibilidade? Vamos lá: a partir de fevereiro, o mercado
começará a sentir os efeitos da isenção do Imposto de Renda para assalariados
que ganham até R$ 5 mil. A tendência é que isso injete mais dinheiro na
economia e estimule o consumo, certo? Certíssimo! Na visão dos marqueteiros,
isso aumentaria a popularidade do governo e consolidaria o favorito Lula como
um candidato praticamente imbatível.
O
debate não acaba aí. Qualquer vestibulando de economia sabe que o aumento
exagerado na demanda por alimentos em outras mercadorias pode gerar pressão
sobre os preços e aumentar a inflação, certo? Isso já aconteceu outras vezes no
Brasil e pode voltar a acontecer agora. Portanto, se a expansão do consumo
gerar desabastecimento, promover o desarranjo geral dos preços e exigir que o
Banco Central eleve ainda mais os juros para conter a inflação, o beneficiado
eleitoral será o senador Flávio.
É claro
que, no mundo real, a relação de causa e efeito entre esses fenômenos não é tão
simples e automática — e que as possibilidades apontadas acima não passam de
conjecturas. Elas foram mencionadas aqui apenas para deixar claro que novos
fatos podem surgir e alterar o cenário eleitoral nos próximos meses. Na
prática, porém, as eleições já estão logo aí e, naquilo que realmente
interessa—ou seja, nos nomes dos candidatos favoritos — nada indica a
possibilidade de uma guinada capaz de desviar a rota apontada pelo Paraná
Pesquisas na semana passada.
Pelo
levantamento, Lula lideraria o primeiro turno, com 39,8% dos votos. Flávio
viria em seguida, com 33,1%. A lista apresentada ao eleitor inclui os nomes dos
governadores Ratinho Júnior, do Paraná, Ronaldo Caiado, de Goiás, e Romeu Zema,
de Minas Gerais, e mais alguns políticos que anunciaram a intenção de postular
à presidência. Juntos, eles somariam 15,6% das intenções de voto. Um total de
11,5% dos entrevistados não escolheu, não opinou ou não sabe em quem votar.
Esses
percentuais, é claro, tendem a se alterar ao longo da campanha. O mais
interessante — e, para alguns, até surpreendente — é o resultado da simulação
para o segundo turno. Ali, Flávio desponta em “empate técnico” com Lula. O
presidente, que se comporta como candidato desde que derrotou o pai de Flávio,
Jair Bolsonaro, nas eleições de 2020, tem 44,8% das intenções de voto. O
senador, por sua vez, aparece com 42,2%. O empate se repete no quesito
rejeição. A de Lula é de 45,3%. A de Flávio, 44,7%. O simples anúncio desses
números já foi suficiente para atiçar o ânimo das hostes da direita.
CAMINHADA
DE NIKOLAS
Na
próxima quinta-feira, dia 5 de fevereiro, completam-se dois meses do dia em que
Flávio Bolsonaro, ao sair de uma visita a Jair, que, na época, se encontrava
preso na Polícia Federal, declarou que, por decisão do pai, se lançaria
candidato ao Palácio do Planalto. Isso mesmo: apenas dois meses. Considerado
até aquele momento uma peça descartável no baralho bolsonarista, o anúncio
causou surpresa — a ponto de muita gente lançar dúvidas sobre a seriedade da
candidatura. Muitas apostas indicavam que, ao se apresentar para uma disputa
para a qual não estava escalado, ele estava apenas criando um factoide que,
mais adiante, seria usado como moeda de troca em benefício do pai.
A trama
seria a seguinte: Flávio entraria na disputa, bagunçaria o cenário, esperaria o
momento oportuno e se retiraria em troca do compromisso do “Centrão” com uma
situação que, na pior das hipóteses, tirasse o pai da cadeia e o permitisse
cumprir em casa a pena a que foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal. O que
pouca gente observou foi que, enquanto os “analistas” tentavam provar por A
mais Bê que a candidatura não se manteria de pé, Flávio passou a falar, a se
comportar e a cumprir uma agenda de candidato a presidente da República. E essa
mudança de postura, pelo que já se viu, foi notada pelo eleitor e se refletiu
no resultado da pesquisa da semana passada.
É óbvio
que o crescimento de Flávio pode ter sido estimulado por acontecimentos
recentes, que deram mais projeção a seu nome. Mas isso apenas reforça a
viabilidade de sua candidatura. O levantamento do Paraná Pesquisas foi feito
entre os dias 25 e 28 de janeiro e, certamente, sofreu alguma influência da
caminhada liderada pelo deputado Nikolas Ferreira em apoio a Jair Bolsonaro.
Admitam ou não admitam os esquerdistas, a peregrinação de mais de 200
quilômetros entre a cidade de Paracatu, em Minas Gerais, e Brasília, por mais
que tenha sido tratada pela chamada “grande imprensa” como se não tivesse
acontecido, dominou as redes sociais e foi o acontecimento político mais
marcante no Brasil nos últimos dias. Isso, certamente, deu à candidatura de
Flávio uma projeção que os marqueteiros de Lula não conseguiram anular.
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Outro
acontecimento que também pode, em menor medida, ter influenciado o resultado da
pesquisa foi o discurso feito por Flávio, em Israel, na terça-feira passada,
dia 27. Falando na Conferência Internacional de Combate ao Antissemitismo, na
presença do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Flávio se expressou com
segurança, e em inglês. O senador criticou a postura no Brasil no cenário
internacional, se referiu ao presidente Lula como antissemita e disse que não
discursava apenas como senador, mas como futuro candidato à presidência.
Ter
assumido essa postura e ter chegado a uma posição como essa nas pesquisas em
tão pouco tempo é, de fato, animador para um candidato que, ainda hoje, tem a
candidatura posta em dúvida por muita gente. Mas, quem observar as
circunstâncias do ambiente político brasileiro, porém, notará que a
consolidação da candidatura de Flávio nada tem de surpreendente. E que, além
disso, ter como adversário um candidato com o sobrenome Bolsonaro é o que mais
atende aos interesses do presidente Lula.
DUELO
MARCADO
Não
existe eleição decidida antes da apuração dos votos, mas a evolução dos fatos
mostra que o bolsonarismo se tornou o adversário preferido de Lula ainda antes
das eleições de 2022. Tanto assim que, em seus discursos, o presidente não se
cansa de trazer Bolsonaro para a cena. Mesmo em situações que não tenham a ver
diretamente com o adversário, Lula sempre faz questão de incluir no enredo
alguma crítica ao “governo passado”. Como a menção sempre tem um efeito
positivo entre seus apoiadores, o presidente acaba abusando do recurso. Esse
recurso, ao invés de atrapalhar, acaba ajudando a delimitar o campo de batalha
e a não deixar dúvida sobre a identidade do adversário contra o qual todos os
seus seguidores devem se unir.
Mais de
uma vez já se falou, neste e em outros espaços, que, se Lula pudesse escolher a
quem enfrentar nas urnas deste ano, o nome de Jair Bolsonaro estaria na
cabeceira da lista. Afinal de contas, o presidente já o derrotou uma vez, sabe
como enfrentá-lo e, pela maneira com que se comporta, se sente à vontade nesse
embate. A questão é que, nesse caso, a recíproca é absolutamente verdadeira.
Desde 2022, os bolsonaristas sonham em enfrentar Lula numa revanche.
É como
se dois pugilistas veteranos, que já mediram forças dezenas de vezes, subissem
ao ringue para um novo combate. A essa altura, cada um deles já conhece os
pontos fortes e os pontos vulneráveis do adversário. Um sabe perfeitamente de
onde pode vir o golpe, sabe como se esquivar e como partir para o
contra-ataque. A luta que sairá daí é daquele tipo que inflama paixões dos dois
lados e gera barulho dos torcedores.
Com a
ausência forçada de Jair dessa disputa, o entorno de Lula chegou a sonhar com
uma liderança tão folgada que lhe garantisse algo que não teve nas três vezes
em que já foi eleito presidente da República: uma vitória no primeiro turno. As
circunstâncias do momento, no entanto, indicam que a luta não será decidida por
nocaute. Ganhe quem ganhar, a vitória será por pontos.
Ah,
sim! O candidato da vez não será Jair — mas alguém mais jovem e, teoricamente,
menos desgastado do que ele. Dadas as circunstâncias, porém, esse detalhe é
insignificante: haverá um momento da campanha em que o eleitor olhará para
Flávio e enxergará Jair em seu lugar. Em outras palavras, a consolidação do
nome do senador como um candidato viável e com chances de colocar Lula contra
as cordas dá ao cenário eleitoral de 2026 a feição que ele já teria há mais
tempo, caso Jair não estivesse inelegível e pudesse ser — ele, não o filho — o
protagonista de um duelo que já estava marcado há quatro anos.
Flávio
ocupa a posição que a Justiça impediu que Jair ocupasse. Por mais que procure
evitar os exageros retóricos e a agressividade que sempre fizeram parte do
discurso de seu pai, ele só está na disputa porque o outro não pode estar. O
sobrenome, nesse caso, conta pontos desfavoráveis ao senador — que herda
automaticamente a rejeição ao pai. Mas, também, conta pontos a favor: com o
sobrenome que carrega, ele herdará, também, a fidelidade cega que a “direita
raiz” tem ao ex-presidente.
Lula,
por sua vez, é o mesmo Lula de sempre. Ele terá os benefícios de estar no
comando da máquina, e isso não é pouco. Terá o bônus e o ônus de estar à frente
de um governo que não vai tão bem como dizem seus apoiadores, mas está longe de
ir tão mal como apontam os adversários.
DESCONSTRUÇÃO
Num
cenário como o que está se desenhando para outubro, nenhum eleitor deve esperar
por uma campanha propositiva e inovadora. Pelo contrário: pelo que já se viu
até aqui, a corrida eleitoral de 2026 será mais influenciada por comparações e
pelo que já se foi do que para o que está por vir. Mais pelo passado do que
pelo futuro!
É aí
que está o problema. Essa situação de confronto permanente, em que ninguém
parece ter força suficiente para apontar novos caminhos, mantém o país sempre
preso a políticas que já não deram certo. Assim como aconteceu em 2018 e 2022,
o eleitor não deve esperar pela apresentação de programas consistentes, por
propostas disruptivas e por soluções viáveis para os problemas do país. De
agora em diante, e antes mesmo que se cumpram todos os ritos e prazos que a
Justiça Eleitoral estabelece para a disputa, a única certeza que se pode ter em
relação ao pleito de 2026 é a de que a campanha será marcada pela tentativa de
cada um dos adversários “desconstruir” a imagem do outro.
O verbo
“desconstruir” é um eufemismo alimentado por marqueteiros para se referir a um
tipo de propaganda eleitoral que mais aponta os defeitos (reais ou imaginários)
do adversário do que mostra as propostas e realça as qualidades eleitorais do
próprio candidato. O que interessa não é conquistar a simpatia do eleitor — mas
fazer com que ele rejeite a ideia de votar no outro. Nesse esforço, os dois
lados em disputa provavelmente se esquecerão de tocar em pontos essenciais que
— eleição vai, eleição vem — raramente são tratados com a seriedade necessária.
O
Brasil tem muitos problemas a resolver e alguns foram aprofundados pelas
administrações mais recentes. Um deles — certamente, o principal deles — é a
situação das finanças federais e a falta de dinheiro que o próximo governo,
qualquer um que vier a ser eleito, terá de enfrentar para conseguir o dinheiro
necessário para cumprir os compromissos de campanha. Sem recursos no caixa,
qualquer compromisso de campanha se torna uma promessa vazia.
Outro
ponto importante é a necessidade de se reduzir o peso de um Estado perdulário,
que se agigantou sem mostrar qualquer eficiência e que pesa cada vez mais nos
ombros de uma sociedade já sobrecarregada de impostos. A segurança pública é
outro problema que sempre preocupa o eleitor — já cansado de promessas de
soluções que nunca dão os resultados esperados. Nessa hora decisiva da
campanha, seria muito bom que o voto do eleitor fosse orientado por programas
que mostrasse como o candidato pretende lidar com essas e outras situações
delicadas. O mais provável, porém, é que ele só ouça um candidato falar sobre a
incapacidade do outro em lidar com essas situações.
Fonte:
Por Nuno Vasconcellos, em O Dia

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