O
urbanismo de “ordem e o progresso” no Brasil
Dentro
do contexto sociopolítico contemporâneo marcado pelo signo do colapso social e
pela crise endógena do moderno sistema produtor de mercadorias — que engendrou
o amálgama da modernização retardatária1, surgiram novos arranjos de poder
alinhados a formas empresariais/corporativas que impactaram as formas de gerir
as cidades e tomar as decisões no que tange aos processos de planejamento
urbano. Apesar de apresentar um caráter híbrido, multifacetado e não-linear, a
tendência de mercantilização das formas de governar as cidades e gerir os rumos
das decisões urbanísticas pode ser observada em várias cidades pelo Brasil e em
outras partes do mundo. Há um fio condutor neoliberal que sustenta a integração
física e simbólica das cidades nos circuitos e fluxos da reprodução de capital.
Esse
fio condutor, por sua vez, dá o tom da encruzilhada civilizatória em que as
cidades estão inscritas. Oferta de serviços públicos precarizada; profundo
déficit habitacional; mobilidade urbana ineficiente; infraestrutura pública
defasada; acesso aos equipamentos culturais inacessível para a maior parte da
população; e a escalada da violência, são alguns exemplos que materializam a
realidade urbana contemporânea sob a égide do capitalismo e da sua catástrofe2.
Tal como ressaltou o geógrafo Stephen Graham na obra “Cidades Sitiadas: O Novo
Urbanismo Militar”, em decorrência da articulação entre capitalismo e produção
do espaço, as cidades estão sendo exponencialmente militarizadas. Porém, o que
mais chama atenção no argumento de Graham é que esse processo de militarização
deixou de ser uma exceção e se tornou princípio organizador da vida urbana
cotidiana.
Sob o
véu da eficiência e da modernidade neoliberal, as técnicas militares passaram a
estruturar o planejamento urbano; a segurança pública; a arquitetura; e a
gestão do espaço como um todo. Nessa linha, as recentes incursões da Polícia
Militar e do BOPE no Complexo do Alemão na Zona Norte do Rio de Janeiro (para
“confrontar” o Comando Vermelho) emergem como expressão material do novo
urbanismo militar. Para além da mais imediata guerra urbana e das mortes
proporcionadas pelo Estado, as operações policiais impuseram situações de
exceção em outras dimensões da cidade, incluindo a mobilidade3.
Aquilo
que David Harvey chamou de “empresariamento urbano” construiu um renovado
repertório de representações para as cidades com base na sua inserção no
circuito capitalista contemporâneo, marcado pela flexibilidade, fluidez e
crescente mercantilização de espaços até então não apropriados plenamente pela
égide capitalista4. Além disso, o geógrafo marxista considera que o capital
opera pela destruição-criativa dos territórios e das paisagens geográficas,
visando postergar seus processos imanentes de crise. Uma vez que capital é
crise e não existe capitalismo sem crise — segundo a própria contribuição
marxiana n’O Capital —, a produção social do espaço é fortemente impactada
pelos ritmos destrutivos/criativos.
Em
síntese, a forma de gestão urbana empreendedorista, cujas unicidades espaciais
e vocações locacionais são apropriadas como oportunidades para negócios dos
mais diversos ramos, desvenda um terreno fértil para impor suas demandas por
intermédio de mecanismos normativos como legislações e regulações fundiárias.
Desde a década de 1990, as ditas políticas urbanas de “revitalização” ficaram
famosas, principalmente nas capitais mundo afora. A partir da justificativa de
“salvar”, “desenvolver” ou “modernizar” um certo recorte da cidade, esse tipo
de política urbana busca, ao fim e ao cabo, (re)inserir um determinado
território nos fluxos de reprodução capitalista. As Operações Urbanas
Consorciadas implementadas em São Paulo nos anos 2000 e as obras megalomaníacas
no Rio de Janeiro durante o período dos megaeventos esportivos podem ser
interpretadas como expressão material desse arquétipo de planejamento urbano: é
o uso do espaço, viabilizado pela parceria entre Estado e mercado, como
ferramenta para postergar os efeitos mais deletérios da crise do capital.
Desse
modo, é possível apreender que a própria urbanização é um processo produzido,
onde milhares de trabalhadores participam de sua produção, e seu trabalho gera
valor e mais-valia.” Por isso a produção capitalista da cidade deve estar
associada, por essência, às lutas de classes5. As disputas pelas decisões
urbanísticas despontam como traço fundador da urbanização e por isso quando
tratamos do espaço físico (paisagens geográficas), estamos tratando do espaço
social reificado, na medida em que a cidade consiste na manifestação das
contradições sociais corporificadas. A apropriação privada e a subordinação do
espaço ao capital, viabilizada por dispositivos de mediação estatais, efetivam
o fetiche da produção capitalista do espaço e ocultam as relações sociais
presentes nas cidades.
Como
acertadamente salienta Thiago Canettieri, em artigo publicado ainda em 20176, o
progresso do capitalismo só pode ser compreendido a partir de seu excesso
materializado pelas ruínas que se acumulam, escombros sobre escombros.
Trata-se, para o autor, da urbanização da barbárie estabelecida pelo urbanismo
destrutivo que se coloca como negação do discurso civilizatório moderno. A
“ordem e o progresso” realizam-se, assim, pela destruição. Dessa maneira, o
cerne da atividade violenta, injetada no seio do capitalismo como parte do
processo de acumulação por despossessão, constitui um momento fundamental para
a organização neoliberal da produção, baseado na aplicação da violência direta
para garantir que as engrenagens da valorização de capital não cessem.
Esse
processo ocorre, em geral, às custas das populações vulneráveis justamente para
realizar maior acumulação de capital. Paradoxalmente, essa dinâmica se reproduz
espaço-temporalmente e mantém ativa a circulação do capital, abrindo novas
fronteiras para sua expansão urbanística. A precariedade da cidade, rebatida em
demonstrações concretas na vida cotidiana dos cidadãos, faz parte
intrinsecamente da gestão capitalista do espaço. A lógica da destruição é
estrutural e a urbanização enquanto mecanismo de sobrevida do capital,
internaliza essa lógica, tornando-se uma das suas expressões mais
significativas. O progresso capitalista só se concretiza pela destruição das
formas que ele próprio cria em um contínuo processo de renovação violenta. É
exatamente nesse movimento que se assenta a urbanização contemporânea.
Fonte:
Por Breno Serodio, em Outras Palavras

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