Elisabeth
Lopes: O escândalo Master e as ofensivas coordenadas contra o STF
Nas
últimas semanas, ministros do Supremo Tribunal Federal passaram a ser alvos de
uma ofensiva midiática incessante, impulsionada por suspeitas difusas
associadas ao escândalo financeiro do Banco Master. Sob o verniz de um suposto
jornalismo vigilante, a mídia corporativa converte conjecturas em editoriais,
produzindo um ambiente contínuo de deslegitimação institucional. Portais como
Metrópoles, Folha de São Paulo, Estadão, O Globo e o site Brasil Agro, ao lado
de canais como GloboNews e CNN, ainda hegemônicos no campo da comunicação,
operam em sintonia com os interesses das elites financeiras que insistem em se
apresentar como tutoras do país. O resultado é uma ação deliberada e
orquestrada cujo alvo não é um ministro específico, mas a própria autoridade da
Suprema Corte.
Trata-se
de uma ofensiva que ignora, de forma conveniente, o papel histórico
desempenhado pelo STF na defesa da democracia e no fortalecimento das
instituições republicanas, especialmente diante da tentativa de golpe
arquitetada pela extrema direita bolsonarista, uma empreitada que, se
consumada, teria demolido o Estado Democrático de Direito. O Supremo cumpriu,
de maneira exemplar, sua função constitucional de guardião da Carta Magna,
impondo limites ao autoritarismo e preservando a ordem democrática. O que teria
sido do país se aquele projeto golpista, concebido por um grupo disposto a
atropelar o bem mais precioso de uma nação democrática, a soberania popular,
tivesse obtido êxito para se perpetuar no poder sob um regime ditatorial?
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É
justamente por isso que a defesa do Supremo Tribunal Federal não pode ser
confundida com adesão acrítica às suas decisões ou com complacência diante de
seus erros. Preservar o STF não significa endossar as distorções
constitucionais cometidas ao longo de sua história recente. Significa
reconhecer falhas graves, como o aval concedido aos abusos da Operação Lava
Jato, marcada por reiteradas violações ao devido processo legal, posicionamento
que a própria Corte revisou mais tarde. Tampouco implica ignorar a responsabilidade
do tribunal ao rejeitar o pedido do governo Dilma Rousseff e de parlamentares
de sua base para anular um processo de impeachment articulado pelo
ex-presidente corrupto da Câmara, Eduardo Cunha, processo manifestamente
indevido, conduzido sem a configuração de crimes de responsabilidade ou
corrupção, mas sustentado exclusivamente pela perda de sustentação política,
como posteriormente reconheceu o ex-ministro Luís Roberto Barroso.
Preservar
o STF, portanto, não significa silenciar diante de posturas indevidas de alguns
de seus ministros, que, em determinados momentos, se deixam capturar por
mecanismos de cooptação oportunista das elites econômicas e políticas. Ainda
assim, mesmo com todos esses desvios, a preservação da Suprema Corte é
imperativa, não para blindá-la, mas para aprimorá-la, vigiá-la e exigir que
cumpra, com isenção ética e rigor institucional, o seu papel de guardiã da
Constituição. Em um cenário de colapso deliberativo do Congresso Nacional, hoje
dominado por uma maioria fisiológica do Centrão e por setores da extrema
direita politicamente desqualificados, o STF passou a ocupar, ainda que de
forma imperfeita e tensionada, um espaço central na efetivação de direitos e na
contenção de retrocessos democráticos.
A
campanha de desmoralização do Supremo Tribunal Federal não nasce de um súbito
apego à legalidade ou à democracia, mas do incômodo crescente de setores
autoritários, elites econômicas e forças políticas comprometidas com a
impunidade diante de uma Corte que, apesar de seus erros, passou a frustrar
seus projetos de poder.
Assim,
a ofensiva midiática também revela uma contradição que a história brasileira
nos aponta. Caso um regime autoritário tivesse se imposto, esses mesmos
veículos que hoje se apresentam como fiscalizadores do poder não estariam
imunes à lógica da força. Ao contrário, estariam, como sempre estiveram em
momentos de ruptura democrática, submetidos ao arbítrio do governo ditatorial,
com sua linha editorial marcada pelo medo, pela censura ou pela conveniência.
Foi
exatamente isso que ocorreu em 1964. Diante da instalação da ditadura, grande
parte da elite econômica e dos principais conglomerados de comunicação não
apenas se adaptou ao novo regime, como rapidamente se alinhou a ele,
legitimando-o política e simbolicamente. Jornais que hoje se pretendem
guardiões da democracia apoiaram o golpe que rasgou a Constituição, enquanto
grupos empresariais da mídia prosperaram à sombra do poder militar,
naturalizando a repressão e silenciando dissidências. Roberto Marinho, dono da
Rede Globo, constitui uma expressão irrefutável dessa acomodação interessada,
assim como o comportamento editorial da Folha de São Paulo ao longo dos
primeiros anos do regime.
Documentos
e depoimentos reunidos pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense
(CAAF), vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revelam que o
grau de colaboração da Folha de São Paulo com a ditadura militar foi intenso.
As investigações demonstraram que o jornal chegou a ceder veículos de sua frota
de distribuição para serem utilizados por agentes da repressão, que se valiam
desse disfarce para conduzir operações clandestinas nas ruas. Essas ações
teriam culminado em prisões ilegais, assassinatos e no desaparecimento de
militantes ligados à luta armada de esquerda.
Portanto,
não houve heroísmo nem resistência institucional relevante por parte dessas
elites. Houve conveniência, alinhamento e adesão. A liberdade de imprensa, tão
evocada nos discursos atuais, foi relativizada sempre que colidiu com os
interesses econômicos e políticos dominantes. Quando o autoritarismo se
apresentou como projeto de poder viável, a imprensa hegemônica preferiu
caminhar ao lado dele.
É por
isso que soa mal a tentativa de deslegitimar o Supremo Tribunal Federal sob o
pretexto de zelo republicano. O STF não apenas cumpriu sua missão
constitucional ao conter a escalada autoritária, como impediu que o país
voltasse a um passado no qual instituições eram dobradas pela força e a
imprensa, longe de ser livre, operava sob tutela. Fragilizar a Corte é abrir
caminho para que amanhã não reste nenhuma instância capaz de conter o arbítrio,
nem mesmo para aqueles que hoje apostam no caos como método.
É
fundamental estabelecer a conexão entre o direcionamento da campanha de
difamação contra ministros do Supremo Tribunal Federal, em especial contra Dias
Toffoli, e a trajetória pregressa do proprietário do portal Metrópoles, o
empresário e ex-senador Luiz Estevão. A personalização dos ataques não se dá ao
acaso, tampouco pode ser dissociada de interesses e ressentimentos acumulados
ao longo do tempo.
Em
2014, Luiz Estevão iniciou o cumprimento de uma pena de três anos e seis meses
de prisão pelo uso de documento falso, na tentativa de liberar bens que haviam
sido bloqueados por determinação judicial. A decisão que levou à execução
imediata da pena foi proferida pelo ministro Dias Toffoli, com base no
entendimento de que o recurso apresentado pelo ex-senador tinha caráter
meramente protelatório, ao buscar adiar indefinidamente os efeitos da
condenação até o julgamento final pelo Supremo.
Em
contraste, chama atenção o silêncio seletivo da cobertura midiática sobre
agentes políticos diretamente implicados no escândalo financeiro. Pouco ou nada
se vê nas manchetes sobre políticos do Centrão. Entre esses, o presidente do
União Brasil, Antonio Rueda, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), cuja tentativa
de elevar o teto do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão
levantou suspeitas por buscar blindar operações de alto risco, como as do Banco
Master. Também permanece fora do foco crítico o governador Ibaneis Rocha (MDB),
do Distrito Federal. É nesse cenário que ganha relevo o fato de o portal
Metrópoles receber verbas de publicidade institucional do governo de Ibaneis
Rocha, figurando de forma recorrente nas listas oficiais de distribuição de
recursos do Governo do DF, um dado que ajuda a compreender possíveis conflitos
de interesse na linha editorial adotada.
O
governador Cláudio Castro (PL) também foi esquecido pela mídia corporativa. Até
agora, ele não apresentou explicações convincentes para a retirada de mais de
R$ 1 bilhão do Rioprevidência para a compra de títulos já classificados como
“podres”, quando a situação de pré-falência do banco era pública. Ibaneis Rocha
tentou viabilizar, de forma discreta, a aquisição do Banco Master pelo Banco de
Brasília (BRB), operação que envolveria R$ 12 bilhões em recursos públicos.
Segundo depoimento do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino,
à Polícia Federal, as perdas potenciais do BRB com o Master podem chegar a R$ 5
bilhões.
Daniel
Vorcaro adotou uma estratégia de articulação abrangente, construindo uma rede
de proteção política ao circular sem constrangimentos por distintos espectros
partidários. Por meio de seu cunhado, Daniel Vorcaro doou R$ 3 milhões à
campanha de Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões à de Tarcísio de Freitas. O deputado
Nikolas Ferreira aparece em relatórios da Polícia Federal como próximo ao
banqueiro. Esse grupo também atua reiteradamente para tensionar o ambiente
institucional e enfraquecer o Supremo Tribunal Federal, sobretudo em períodos
eleitorais, quando busca lançar suspeitas sobre o processo.
Convém
assinalar que Daniel Vorcaro iniciou tratativas para entrada no sistema
financeiro em 2018, em associação com os irmãos Conte, obtendo, em 2019, a
aprovação regulatória para a transferência de controle da instituição que, dois
anos depois, passaria a operar sob o nome Banco Master. Esse rápido processo de
consolidação ocorreu em um ambiente de notória complacência institucional,
favorecido pelo governo Bolsonaro, no qual Vorcaro encontrou condições
propícias para a expansão de práticas financeiras de natureza duvidosa.
Nessa
perspectiva, ganha relevo um aspecto ainda pouco explorado: a omissão do então
presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro,
que, provavelmente ciente das operações de elevado risco conduzidas pelo Banco
Master, deixou de adotar medidas para interromper ou coibir procedimentos que
se revelaram lesivos aos clientes e aos fundos envolvidos.
Para
além da ofensiva midiática dirigida aos ministros do Supremo Tribunal Federal,
surgiram também insinuações que tentam envolver o próprio governo federal. No
ano passado, o colunista Lauro Jardim, de O Globo, divulgou que o banqueiro
Daniel Vorcaro teria se reunido com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em
4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial. A narrativa, no entanto, foi
desmontada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao esclarecer que o
encontro ocorreu em um momento em que não havia qualquer indício de
irregularidade e que Lula deixou claro ao banqueiro que eventuais decisões do
Banco Central sobre o Banco Master seriam estritamente de natureza técnica.
Em
outra manchete, o portal Metrópoles insinuou a existência de um suposto
encontro entre o ministro Alexandre de Moraes e o então presidente do BRB,
Paulo Henrique Costa, na residência do banqueiro Daniel Vorcaro. A informação
foi prontamente desmentida. Em nota oficial, o ministro afirmou que a reunião
jamais ocorreu e classificou a publicação como falsa e mentirosa, denunciando
um padrão reiterado de ataques criminosos e desqualificados dirigidos aos
integrantes do Supremo Tribunal Federal.
O mesmo
veículo voltou a investir contra o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski
ao publicar que seu escritório de advocacia teria prestado consultoria ao Banco
Master, inclusive após sua posse no ministério. A assessoria de Lewandowski
esclareceu que a prestação de serviços ocorreu exclusivamente após sua saída do
Supremo Tribunal Federal, em abril de 2023, e que, ao assumir cargo no governo
Lula, ele se desligou formalmente do escritório e suspendeu seu registro na
Ordem dos Advogados do Brasil.
O
conjunto dessas indiretas e afirmações desprovidas de provas revela uma
estratégia clara de colocar o Supremo Tribunal Federal no centro das mediações
do escândalo financeiro, deslocando responsabilidades e fabricando suspeições.
Nessa teia de intrigas, impõe-se a pergunta sobre quem se beneficia da
tentativa sistemática de descredibilizar a Corte.
Em meio
às tensões institucionais e à cobertura reiteradamente hostil da mídia
corporativa, voltam ao debate temas como ética e a adoção de um código de
conduta mais rigoroso para os ministros. Embora estes já estejam submetidos ao
Código de Ética da Magistratura Nacional, à Lei Orgânica da Magistratura
Nacional e ao Regimento Interno do STF, discute-se agora a criação de um código
específico para a Suprema Corte, debate que, curiosamente, emerge no mesmo
momento em que se intensificam os ataques à sua legitimidade.
Na
quinta-feira, dia 29/01, depois de tantas suposições da mídia sobre possíveis
deslizes do ministro Dias Toffoli na relatoria do caso Master, seu gabinete
publicou uma nota esclarecendo ponto a ponto suas decisões no processo. Foi
referido, ainda, que o caso pode ser enviado à primeira instância, mas essa
decisão, caso aconteça, será após o encerramento das investigações da Polícia
Federal, que terá mais 60 dias para prosseguir nas apurações.
Embora
alguns jornalistas da GloboNews tenham reconhecido que determinados pontos da
nota seguiram o rito do devido processo legal, continuaram emitindo críticas a
aspectos que não foram explicitados pelo ministro, como a sua decisão pela
realização de acareações antes dos depoimentos individuais dos investigados e
insinuações sobre supostas ligações de seus parentes com o resort Tayayá,
beneficiado por recursos do Master. O que mais chamou a atenção, contudo, foi o
coro de justificativas dos jornalistas no sentido de que seus comentários
reiterados ao longo de diversos programas não se caracterizaram como ataques
aos ministros do STF, mas como contribuições destinadas a esclarecer à
sociedade decisões consideradas controversas.
Vale
ressaltar que a investigação conduzida pela Polícia Federal no caso Master vem
se desdobrando em múltiplas frentes, alcançando personagens que transitam por
diferentes esferas de poder, da Faria Lima ao meio político, passando por
empresários e influenciadores. A amplitude e a convergência desses eixos
investigativos indicam que a apuração tende a revelar, de forma ainda mais
consistente, vínculos e eventuais responsabilidades decorrentes das relações
mantidas entre o banco e esse conjunto de partícipes.
O caso
Master revela uma operação de deslocamento de responsabilidades, na qual a
exposição seletiva, a insinuação sem provas e a personalização dos ataques
cumprem a função de proteger interesses econômicos e redes políticas implicadas
no escândalo. Ao tentar arrastar o Supremo Tribunal Federal para o centro da
controvérsia, enfraquece-se deliberadamente a única instituição que, nos
momentos mais críticos da história recente, foi capaz de conter a escalada
autoritária e preservar o Estado de Direito. Não se trata de defender
ministros, mas de defender a integridade institucional. Quando a Justiça é
colocada sob suspeita por conveniência, abre-se espaço para que o arbítrio
avance, inclusive contra aqueles que hoje se julgam a salvo dele.
Fonte:
Brasil 247

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