Marcelo
Sanches: “Júlio Lancellotti”
A
leitura dominante do cristianismo como religião voltada prioritariamente à
salvação da alma e à recompensa pós-morte não é apenas uma interpretação
possível entre outras; ela é o resultado de um longo processo histórico de
deslocamento de sentido. Ao longo dos séculos, a mensagem de Jesus de Nazaré –
profundamente enraizada no judaísmo popular do século I e voltada à
transformação concreta da vida – foi sendo progressivamente traduzida, adaptada
e, em muitos momentos, neutralizada.
Filosofia
grega, institucionalização religiosa, moral disciplinar e, mais recentemente,
racionalidade econômica neoliberal compõem essa trajetória.
Jesus
de Nazaré não surge como fundador de uma religião no sentido clássico. Ele não
apresenta um sistema doutrinário, nem uma metafísica do além. Atua como um
sábio popular, um camponês inserido num contexto de ocupação imperial romana,
marcado por pobreza estrutural, endividamento e violência simbólica.
Sua
experiência de Deus nasce do chão da vida cotidiana e não da abstração teórica.
Deus, para Jesus, não é um conceito metafísico, mas uma realidade relacional:
manifesta-se onde a vida é restituída, onde vínculos são recompostos, onde a
dignidade é recuperada.
É nesse
sentido que o Reino de Deus ocupa o centro de sua mensagem. Não se trata de uma
promessa pós-histórica, mas de uma reconfiguração concreta das relações
sociais. Falar do Reino é falar de comida repartida, de dívidas perdoadas, de
corpos reintegrados à comunidade. Quando Jesus fala de Deus como pai, ele
desmonta a imagem de um Deus contábil, fiscalizador e punitivo. O Deus de Jesus
não legitima a ordem vigente; ao contrário, torna-se um princípio permanente de
desestabilização dessa ordem.
As
curas atribuídas a Jesus devem ser compreendidas nesse horizonte. Não se trata,
prioritariamente, de suspensões das leis naturais, mas de gestos de restituição
social. Muitas das enfermidades narradas nos Evangelhos correspondiam a
mecanismos de exclusão ritual, econômica e simbólica. Curar significa devolver
o sujeito à vida pública, ao trabalho, ao convívio. Trata-se de uma prática que
confronta diretamente uma lógica que transforma sofrimento em culpa e miséria
em punição divina.
Essa
prática tem consequências políticas claras. Jesus não propõe um programa
institucional, mas sua atuação desorganiza os pilares do poder: o controle do
sagrado pelas elites religiosas, a sacralização da dívida, a legitimação
religiosa da desigualdade. Sua morte não é um acidente teológico, mas o
desfecho coerente de uma trajetória historicamente incômoda. A crucificação é
uma execução política, instrumento de pedagogia do terror imperial.
A cruz,
no entanto, não encerra o sentido. Ela inaugura uma disputa. Como sustentar a
fé diante de um Messias derrotado? É nesse contexto que surge o Cristo como
elaboração teológica. Essa construção não é ilegítima em si; ela nasce da
tentativa de dar sentido à derrota. Torna-se problemática quando apaga o Jesus
histórico e desloca o foco da violência estrutural para o pecado individual. O
Cristo metafísico cresce à medida que o Jesus camponês, sábio e politicamente
situado vai sendo silenciado.
A
helenização do cristianismo aprofunda esse deslocamento. Categorias como alma,
essência e verdade eterna permitem a universalização da fé, mas relativizam sua
materialidade histórica. O Reino perde centralidade, a obediência ganha valor
absoluto e o sofrimento passa a ser interpretado como virtude. O cristianismo
torna-se progressivamente compatível com o Império.
Com a
modernidade, esse processo assume novas formas. A análise de Max Weber mostra
como o protestantismo ascético oferece a base simbólica para o capitalismo
nascente. O trabalho torna-se vocação, o sucesso sinal indireto de eleição, o
fracasso culpa pessoal. Deus deixa de ser mistério e passa a funcionar como
auditor moral da vida econômica.
No
neoliberalismo contemporâneo, essa lógica se radicaliza. O mercado deixa de ser
apenas um espaço econômico e transforma-se em princípio organizador da
subjetividade. No Brasil, parte significativa do evangelicalismo opera como
suporte simbólico dessa racionalidade. Templos gigantescos erguem-se como
catedrais da prosperidade; a estética é empresarial, a linguagem é
motivacional, a fé é performance. Pastores milionários tornam-se provas vivas
da “bênção”, enquanto fiéis pobres são convocados a perseverar, contribuir e
esperar.
O abuso
é duplo: econômico e simbólico. Explora-se financeiramente populações
vulneráveis prometendo retorno espiritual, e explora-se simbolicamente a dor ao
transformar sofrimento social em falha individual. A pobreza deixa de ser
problema político e passa a ser lida como déficit de fé. Deus é funcionalizado
como legitimador da desigualdade.
É nesse
cenário que a figura de Padre Júlio Lancellotti adquire relevância singular.
Sua atuação junto à população em situação de rua não é assistencialismo
moralizante, mas denúncia prática de um sistema que produz descarte humano.
Padre Júlio Lancellotti não espiritualiza a pobreza nem a transforma em
virtude; ele a nomeia corretamente: injustiça estrutural.
Como
Jesus, atua nas margens e, por isso, sofre perseguição política, religiosa e
midiática. Essa hostilidade revela que o conflito não é entre fé e ausência de
fé, mas entre um cristianismo alinhado ao poder e outro enraizado na vida
concreta dos pobres.
Recuperar
o Jesus histórico não é negar a fé, mas libertá-la de suas capturas
ideológicas. Significa recolocar limites éticos ao movimento infinito do
capital e reinscrever as necessidades reais, finitas e corporais da vida humana
no centro da reflexão política.
A
pergunta decisiva, portanto, não é abstrata nem teológica, mas histórica e
política: a quem serve a fé quando a voz de Jesus é forjada nas vozes de quem
ostenta e representa justamente o contrário do que ele pregou em essência? É
nessa resposta concreta – e não em confissões de fé – que se decide se o
cristianismo opera como força de libertação ou como linguagem sagrada de
legitimação da injustiça.
Fonte:
A Terra é Redonda

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