terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Influenciadores ajudaram perfis de direita

A suspeita de contratação de influenciadores digitais para atacar o Banco Central — após a liquidação extrajudicial do Banco Master — trouxe para o inquérito outras frentes de investigação. A Polícia Federal identificou um ecossistema digital composto pelas chamadas "páginas de fofoca" que, somadas, alcançam mais de 70 milhões de seguidores, além do uso dessas redes para promover figuras políticas de direita na internet.

No relatório preliminar entregue ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, relator do caso, a PF citou a suspeita de contratação das agências de marketing MiThi, Portal GroupBR, Agência Grupo Farol, Deu Buzz, Mynd8 e a Eleven. Foram mapeados cerca de 40 perfis que teriam sido contratados para disseminar críticas à autoridade monetária entre 9 de dezembro e 6 de janeiro.

O documento indica que a mesma rede pode ter sido empregada para promover figuras políticas de direita, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Foram rastreados pagamentos entre novembro do ano passado e janeiro deste ano.

As suspeitas sobre a suposta campanha negativa contra o BC surgiram após denúncias de influenciadores que disseram ter sido abordados com propostas financeiras para gravar vídeos com críticas à autarquia. O objetivo seria criticar a liquidação do Master e colocar em xeque a credibilidade do Banco Central.

A apuração iniciou-se após a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) identificar um volume atípico de publicações nas redes sociais relacionadas ao processo de liquidação, em novembro do ano passado. Os influenciadores Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite afirmaram ter recebido propostas para postar em seus perfis discursos em defesa da instituição de Vorcaro.

O objetivo seria colocar em dúvida a credibilidade do BC, alegando que a liquidação foi "precipitada" e que prejudicaria a população. Os investigadores apontam que o financiamento das publicações pode ter partido de empresas de Vorcaro e casas de apostas on-line, como 7GamesBet — ligada a Fernando Oliveira Lima —, VaiDeBet — controlada pelo cantor Gusttavo Lima — e ZeroUm.Bet.

A PF fez uma análise preliminar das postagens e identificou possíveis crimes. Ao Supremo, justificou que a abertura do inquérito é para apurar se houve uma ação orquestrada — e paga — contra o Banco Central. A investigação é conduzida pela Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor) e tramita sob sigilo no âmbito da corporação. Com isso, a polícia poderá tomar depoimentos e analisar mais profundamente o material colhido.

A defesa de Daniel Vorcaro negou a contratação de influenciadores e informou que ele não "tem qualquer relação com a contratação ou difusão de fake news, tampouco com campanhas digitais de difamação contra autoridade pública".

A Operação Compliance Zero da PF indica que o Banco de Brasília (BRB) realizou operações consideradas irregulares com o Master numa tentativa de dar fôlego à instituição, enquanto o Banco Central analisava a proposta de aquisição. O BRB chegou a formalizar a oferta em março deste ano, mas o negócio foi vetado pelo BC.

Segundo as apurações que embasam a operação, o Master teria tentado vender R$ 12,7 bilhões em carteiras de crédito falsas ao banco público e tentou justificar a operação junto à autoridade monetária com documentos falsificados. Os investigadores apontam que integrantes da cúpula dos dois bancos produziram cerca de 20 títulos fictícios para dar aparência de legalidade à transferência de valores realizada entre janeiro e maio de 2025.

<><> Crimes digitais

O advogado Matheus Puppe, especialista em direito digital, destaca que ataques ao BC podem ser tipificados como crimes contra o sistema financeiro, caso afetem a credibilidade da autoridade monetária ou a estabilidade bancária. Caso seja confirmado que o objetivo era desestabilizar instituições, os envolvidos também podem responder por crimes contra o Estado Democrático de Direito.

"Isso pode se dar por meio de contratos de publicidade, ordens de serviço, notas fiscais, comprovantes de transferência e mensagens que revelem orientação de conteúdo. A prova pericial em dispositivos eletrônicos, somada a eventuais quebras de sigilo bancário e telemático autorizadas judicialmente, é crucial nesse contexto", explicou.

A advogada Laís Bergstein reforça que os ataques coordenados ao BC, mesmo em ambiente digital, podem configurar crimes contra o sistema financeiro nacional ou contra a ordem econômica. Isso ocorre se a desinformação for capaz de gerar instabilidade ou manipular informações de forma a abalar a confiança institucional.

Ela define que o limite da liberdade de expressão é ultrapassado quando a manifestação deixa de ser espontânea para ser financiada e ocultamente coordenada. Bergstein argumenta que a Constituição Federal não protege a "fraude informacional" ou campanhas estruturadas para manipulação econômica. Tais atos são vistos como abuso de direito, sujeitos a punição cível.

<><> Investigação

Devido à situação dos influenciadores, o ministro Dias Toffoli solicitou uma avaliação da Procuradoria-Geral da República (PGR) para decidir se o caso deve permanecer na Corte ou ser enviado para a primeira instância. As autoridades investigam se as ações configuram crime de tentativa de atrapalhar as investigações financeiras em curso.

Para Matheus Puppe, o cenário jurídico que envolve a contratação de influenciadores para esses ataques é complexo e abrange diversas esferas penais. Ele afirma que a contratação coordenada para atacar as instituições públicas pode, sim, ser enquadrada como organização criminosa. "O contexto digital não descaracteriza a prática, apenas altera o meio de execução, podendo, inclusive, agravar a repercussão do crime, sobretudo quando se utiliza tecnologia para amplificar o impacto", diz.

Puppe ressalta que a responsabilidade jurídica não se limita a quem posta o conteúdo, mas alcança todos os elos da operação. Os influenciadores podem responder como executores diretos, os financiados, mandantes e agências como coautores ou partícipes e as pessoas jurídicas podem sofrer responsabilização objetiva por atos lesivos à administração pública.

•        Bolsonaro centraliza decisões sobre a corrida eleitoral na Papudinha

Sob custódia e com visitas controladas por decisão judicial, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) continua no centro das articulações políticas da direita. Nos bastidores, aliados admitem que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), não autorizará todos os pedidos de visita, mas afirmam que há uma estratégia em curso para garantir que as orientações e "desejos" do ex-chefe do Executivo circulem entre os principais nomes do campo bolsonarista.

Segundo uma aliada do primeiro escalão, a movimentação tem como objetivo manter a coesão do grupo e assegurar que decisões políticas sejam alinhadas com Bolsonaro, independentemente do local onde ele esteja. "Nós sabemos que Moraes não autorizará todos a visitar Bolsonaro, mas estamos nos articulando para que todos estejam a par dos desejos do ex-presidente. Não tenho dúvidas de que, onde quer que ele esteja, nós vamos cumprir o que for dito."

A fonte ainda sustenta que o ex-presidente segue mobilizado, apesar do quadro pessoal delicado, e que uma de suas maiores preocupações são os condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Para aliados, isso explica a centralidade das pautas da anistia e da revisão de penas, por meio da chamada dosimetria. "A dosimetria é a prova de que Bolsonaro não está pensando nele, porque ele não vai ser beneficiado agora", disse a aliada, ao defender que o tema extrapola interesses individuais. Vale destacar que o presidente Lula vetou a dosimetria no último dia 8 de janeiro, mas a oposição se articula para derrubar o veto.

Nesse contexto, a visita do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), autorizada por Moraes na sexta-feira, é tratada como estratégica. Aliados destacam o capital político do parlamentar e a projeção nacional adquirida após a chamada "Caminhada pela Liberdade", mobilização liderada por ele que durou cerca de seis dias e reuniu discursos contra o STF e em defesa da anistia aos condenados pelos ataques às sedes dos Três Poderes e principalmente a Bolsonaro. A expectativa é que o encontro reforce a sintonia entre Bolsonaro e uma das principais vozes do bolsonarismo no Congresso.

Enquanto alguns conseguem avançar, outros esbarram nas restrições impostas pelo Judiciário. Nesta semana, o magistrado negou pedidos de visita feitos pelos advogados de Bolsonaro para encontros com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e com o senador Magno Malta (PL-ES). No caso de Valdemar, a justificativa foi objetiva: ambos respondem ao mesmo processo por tentativa de golpe, o que impede qualquer comunicação direta entre eles.

<><> Palanque

Apesar das negativas, a fila de aliados que buscam a chamada "bênção" de Bolsonaro só cresce. Também na sexta-feira, parlamentares do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul protocolaram pedidos formais ao STF solicitando autorização para visitas. A avaliação entre aliados é de que estar próximo do ex-presidente, ainda que indiretamente, pode pesar nas disputas internas do PL e na definição de estratégias eleitorais.

Prova disso é que decisões consideradas centrais já teriam partido de Bolsonaro mesmo antes de sua transferência para a Papudinha, no Distrito Federal. Ainda na Superintendência da Polícia Federal, ele teria batido o martelo em favor do nome do filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como aposta do grupo para a disputa presidencial de 2026.

As conversas sobre o futuro eleitoral continuaram nos encontros autorizados. Na quinta-feira passada, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), visitou Bolsonaro e reiterou que disputará a reeleição no estado, ao mesmo tempo em que reforçou apoio a Flávio para a corrida presidencial. O diálogo evidenciou que, mesmo atrás das grades, Bolsonaro segue sendo uma referência incontornável para aliados e potenciais candidatos.

Ainda assim, o cerco judicial impõe limites claros. Tentativas de alinhar estratégias partidárias mais amplas, como a formação de alianças para o Senado, têm encontrado resistência no STF. Para aliados, o desafio agora é manter a influência política do ex-presidente ativa, navegando entre autorizações pontuais, negativas do Judiciário e uma base que continua a enxergá-lo como principal fiador do projeto político do bolsonarismo.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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