Influenciadores
ajudaram perfis de direita
A
suspeita de contratação de influenciadores digitais para atacar o Banco Central
— após a liquidação extrajudicial do Banco Master — trouxe para o inquérito
outras frentes de investigação. A Polícia Federal identificou um ecossistema
digital composto pelas chamadas "páginas de fofoca" que, somadas,
alcançam mais de 70 milhões de seguidores, além do uso dessas redes para
promover figuras políticas de direita na internet.
No
relatório preliminar entregue ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Dias Toffoli, relator do caso, a PF citou a suspeita de contratação das
agências de marketing MiThi, Portal GroupBR, Agência Grupo Farol, Deu Buzz,
Mynd8 e a Eleven. Foram mapeados cerca de 40 perfis que teriam sido contratados
para disseminar críticas à autoridade monetária entre 9 de dezembro e 6 de
janeiro.
O
documento indica que a mesma rede pode ter sido empregada para promover figuras
políticas de direita, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas
Ferreira (PL-MG). Foram rastreados pagamentos entre novembro do ano passado e
janeiro deste ano.
As
suspeitas sobre a suposta campanha negativa contra o BC surgiram após denúncias
de influenciadores que disseram ter sido abordados com propostas financeiras
para gravar vídeos com críticas à autarquia. O objetivo seria criticar a
liquidação do Master e colocar em xeque a credibilidade do Banco Central.
A
apuração iniciou-se após a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban)
identificar um volume atípico de publicações nas redes sociais relacionadas ao
processo de liquidação, em novembro do ano passado. Os influenciadores Rony
Gabriel e Juliana Moreira Leite afirmaram ter recebido propostas para postar em
seus perfis discursos em defesa da instituição de Vorcaro.
O
objetivo seria colocar em dúvida a credibilidade do BC, alegando que a
liquidação foi "precipitada" e que prejudicaria a população. Os
investigadores apontam que o financiamento das publicações pode ter partido de
empresas de Vorcaro e casas de apostas on-line, como 7GamesBet — ligada a
Fernando Oliveira Lima —, VaiDeBet — controlada pelo cantor Gusttavo Lima — e
ZeroUm.Bet.
A PF
fez uma análise preliminar das postagens e identificou possíveis crimes. Ao
Supremo, justificou que a abertura do inquérito é para apurar se houve uma ação
orquestrada — e paga — contra o Banco Central. A investigação é conduzida pela
Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor) e
tramita sob sigilo no âmbito da corporação. Com isso, a polícia poderá tomar
depoimentos e analisar mais profundamente o material colhido.
A
defesa de Daniel Vorcaro negou a contratação de influenciadores e informou que
ele não "tem qualquer relação com a contratação ou difusão de fake news,
tampouco com campanhas digitais de difamação contra autoridade pública".
A
Operação Compliance Zero da PF indica que o Banco de Brasília (BRB) realizou
operações consideradas irregulares com o Master numa tentativa de dar fôlego à
instituição, enquanto o Banco Central analisava a proposta de aquisição. O BRB
chegou a formalizar a oferta em março deste ano, mas o negócio foi vetado pelo
BC.
Segundo
as apurações que embasam a operação, o Master teria tentado vender R$ 12,7
bilhões em carteiras de crédito falsas ao banco público e tentou justificar a
operação junto à autoridade monetária com documentos falsificados. Os
investigadores apontam que integrantes da cúpula dos dois bancos produziram
cerca de 20 títulos fictícios para dar aparência de legalidade à transferência
de valores realizada entre janeiro e maio de 2025.
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Crimes digitais
O
advogado Matheus Puppe, especialista em direito digital, destaca que ataques ao
BC podem ser tipificados como crimes contra o sistema financeiro, caso afetem a
credibilidade da autoridade monetária ou a estabilidade bancária. Caso seja
confirmado que o objetivo era desestabilizar instituições, os envolvidos também
podem responder por crimes contra o Estado Democrático de Direito.
"Isso
pode se dar por meio de contratos de publicidade, ordens de serviço, notas
fiscais, comprovantes de transferência e mensagens que revelem orientação de
conteúdo. A prova pericial em dispositivos eletrônicos, somada a eventuais
quebras de sigilo bancário e telemático autorizadas judicialmente, é crucial
nesse contexto", explicou.
A
advogada Laís Bergstein reforça que os ataques coordenados ao BC, mesmo em
ambiente digital, podem configurar crimes contra o sistema financeiro nacional
ou contra a ordem econômica. Isso ocorre se a desinformação for capaz de gerar
instabilidade ou manipular informações de forma a abalar a confiança
institucional.
Ela
define que o limite da liberdade de expressão é ultrapassado quando a
manifestação deixa de ser espontânea para ser financiada e ocultamente
coordenada. Bergstein argumenta que a Constituição Federal não protege a
"fraude informacional" ou campanhas estruturadas para manipulação
econômica. Tais atos são vistos como abuso de direito, sujeitos a punição
cível.
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Investigação
Devido
à situação dos influenciadores, o ministro Dias Toffoli solicitou uma avaliação
da Procuradoria-Geral da República (PGR) para decidir se o caso deve permanecer
na Corte ou ser enviado para a primeira instância. As autoridades investigam se
as ações configuram crime de tentativa de atrapalhar as investigações
financeiras em curso.
Para
Matheus Puppe, o cenário jurídico que envolve a contratação de influenciadores
para esses ataques é complexo e abrange diversas esferas penais. Ele afirma que
a contratação coordenada para atacar as instituições públicas pode, sim, ser
enquadrada como organização criminosa. "O contexto digital não
descaracteriza a prática, apenas altera o meio de execução, podendo, inclusive,
agravar a repercussão do crime, sobretudo quando se utiliza tecnologia para
amplificar o impacto", diz.
Puppe
ressalta que a responsabilidade jurídica não se limita a quem posta o conteúdo,
mas alcança todos os elos da operação. Os influenciadores podem responder como
executores diretos, os financiados, mandantes e agências como coautores ou
partícipes e as pessoas jurídicas podem sofrer responsabilização objetiva por
atos lesivos à administração pública.
• Bolsonaro centraliza decisões sobre a
corrida eleitoral na Papudinha
Sob
custódia e com visitas controladas por decisão judicial, o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) continua no centro das articulações políticas da direita. Nos
bastidores, aliados admitem que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
Tribunal Federal (STF), não autorizará todos os pedidos de visita, mas afirmam
que há uma estratégia em curso para garantir que as orientações e
"desejos" do ex-chefe do Executivo circulem entre os principais nomes
do campo bolsonarista.
Segundo
uma aliada do primeiro escalão, a movimentação tem como objetivo manter a
coesão do grupo e assegurar que decisões políticas sejam alinhadas com
Bolsonaro, independentemente do local onde ele esteja. "Nós sabemos que
Moraes não autorizará todos a visitar Bolsonaro, mas estamos nos articulando
para que todos estejam a par dos desejos do ex-presidente. Não tenho dúvidas de
que, onde quer que ele esteja, nós vamos cumprir o que for dito."
A fonte
ainda sustenta que o ex-presidente segue mobilizado, apesar do quadro pessoal
delicado, e que uma de suas maiores preocupações são os condenados pelos atos
antidemocráticos de 8 de janeiro. Para aliados, isso explica a centralidade das
pautas da anistia e da revisão de penas, por meio da chamada dosimetria.
"A dosimetria é a prova de que Bolsonaro não está pensando nele, porque
ele não vai ser beneficiado agora", disse a aliada, ao defender que o tema
extrapola interesses individuais. Vale destacar que o presidente Lula vetou a
dosimetria no último dia 8 de janeiro, mas a oposição se articula para derrubar
o veto.
Nesse
contexto, a visita do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), autorizada por
Moraes na sexta-feira, é tratada como estratégica. Aliados destacam o capital
político do parlamentar e a projeção nacional adquirida após a chamada
"Caminhada pela Liberdade", mobilização liderada por ele que durou
cerca de seis dias e reuniu discursos contra o STF e em defesa da anistia aos
condenados pelos ataques às sedes dos Três Poderes e principalmente a
Bolsonaro. A expectativa é que o encontro reforce a sintonia entre Bolsonaro e
uma das principais vozes do bolsonarismo no Congresso.
Enquanto
alguns conseguem avançar, outros esbarram nas restrições impostas pelo
Judiciário. Nesta semana, o magistrado negou pedidos de visita feitos pelos
advogados de Bolsonaro para encontros com o presidente nacional do PL, Valdemar
Costa Neto, e com o senador Magno Malta (PL-ES). No caso de Valdemar, a
justificativa foi objetiva: ambos respondem ao mesmo processo por tentativa de
golpe, o que impede qualquer comunicação direta entre eles.
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Palanque
Apesar
das negativas, a fila de aliados que buscam a chamada "bênção" de
Bolsonaro só cresce. Também na sexta-feira, parlamentares do Rio de Janeiro e
do Rio Grande do Sul protocolaram pedidos formais ao STF solicitando
autorização para visitas. A avaliação entre aliados é de que estar próximo do
ex-presidente, ainda que indiretamente, pode pesar nas disputas internas do PL
e na definição de estratégias eleitorais.
Prova
disso é que decisões consideradas centrais já teriam partido de Bolsonaro mesmo
antes de sua transferência para a Papudinha, no Distrito Federal. Ainda na
Superintendência da Polícia Federal, ele teria batido o martelo em favor do
nome do filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como aposta do grupo para a
disputa presidencial de 2026.
As
conversas sobre o futuro eleitoral continuaram nos encontros autorizados. Na
quinta-feira passada, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos), visitou Bolsonaro e reiterou que disputará a reeleição no
estado, ao mesmo tempo em que reforçou apoio a Flávio para a corrida
presidencial. O diálogo evidenciou que, mesmo atrás das grades, Bolsonaro segue
sendo uma referência incontornável para aliados e potenciais candidatos.
Ainda
assim, o cerco judicial impõe limites claros. Tentativas de alinhar estratégias
partidárias mais amplas, como a formação de alianças para o Senado, têm
encontrado resistência no STF. Para aliados, o desafio agora é manter a
influência política do ex-presidente ativa, navegando entre autorizações
pontuais, negativas do Judiciário e uma base que continua a enxergá-lo como
principal fiador do projeto político do bolsonarismo.
Fonte:
Correio Braziliense

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