terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

PF investiga: mesma teia de ‘influenciadores’ serviu a Vorcaro, Tarcísio, Nikolas e Flávio

A agência Qualimedia — Digital Inteligence, uma espécie de pequena-gigante empresa de planejamento estratégico e marketing digital que tem em seu portfólio de clientes o portal UOL, o metrô de São Paulo e o Instituto Ayrton Senna, está na base da pirâmide de pessoas físicas e jurídicas que desde esta quarta-feira (28) são formalmente investigadas pela Polícia Federal por disseminarem mentiras nas redes sociais a partir de perfis de “influenciadores digitais” e de sites de caráter tóxico.

Um relatório preliminar de investigação, usado como base da PF para abrir o procedimento oficial, mostra que a Qualimedia (que surge nos papéis prévios em nome dos empresários Beni Marcus Biston e Kleber Rodrigues) é sócia da agência Eleven. Dedicada à administração de perfis e carreiras de influenciadores digitais, a Eleven subcontrata ou administra os perfis @alfinetei, @futrikei, @garotxsdoblog, @otariano e os sites “Bacci Notícias”, de Luiz Bacci, Portal Babados, Lugar da Fama e Planeta Jovem.

Num dos fluxogramas desenhados pelos investigadores fica claro que nos dias 28 e 29 de dezembro de 2025 esses perfis de redes sociais e sites da chamada “esgotosfera” da internet engajaram-se no chamado “Projeto DV” (iniciais de Daniel Vorcaro) e postaram insistentemente críticas à “velocidade da liquidação” do Banco Master, à Federação Brasileira dos Bancos (Febraban, que elogiou e apoiou a ação do Banco Central), ataques ao diretor de normas do BC, Renato Gomes, e ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, além de acusações ao banqueiro André Esteves (BTG) como sendo um “idealizador” da liquidação do ex-banco de Daniel Vorcaro.

<><> Teia de intrigas contra BC e elogios à extrema direita

Todas as denominações virtuais enredadas na teia tecida pelos investigadores da PF têm mais de 70 milhões de seguidores somados no país. Entre os meses de novembro de 2025 e janeiro de 2026, publicaram postagens elogiosas ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, referentes à redução do valor do IPVA, a obras do Rodoanel, a ações de segurança pública e denotando “firmeza” dele na cobrança à multinacional italiana Enel, culpando-a pelos apagões na capital paulista.

Segundo as investigações preliminares que agora serão aprofundadas, os perfis também foram usados para turbinar críticas do deputado Nikolas Ferreira à Caixa Econômica Federal em razão do atraso do sorteio da “Mega da Virada”, no dia 31 de dezembro do ano passado, e ainda para anunciar e cobrir a “caminhada da insensatez” do parlamentar, em janeiro deste ano, entre Paracatu (MG) e Brasília (DF) a fim de clamar por “liberdade” ao ex-presidente Jair Bolsonaro (sentenciado a 27 anos e 4 meses de cadeia por tentativa de golpe de Estado). No mesmo período, a fauna de influenciadores contida nesse mesmo zoológico virtual foi usada espalhar informações a favor da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência.

Entre os vários serviços que oferece ao mercado digital, a Qualimedia é usada como chanceladora da audiência de portais e de páginas da internet na relação comercial com governos dos três níveis — federal, estaduais e municipais — e suas respectivas agências de publicidade licitadas para o atendimento. As auditorias de audiência da Qualimedia determinam o volume de recursos a ser recebido pelos veículos em cada campanha pública que ela designada a atuar como “AdTracker”.

Muitas das agências que trabalham com o atual governo federal utilizam ou já utilizaram serviços da Qualimedia. Há um disclaimer no rol de informações advertindo que o relatório foi elaborado a partir de “OSINT – Open Source Intelligence”, ou seja, pesquisa em fontes abertas, e que “os achados apresentados… não devem ser entendidos como afirmações definitivas”.

<><> Saiba quem eram os trens-pagadores

Associados à Eleven surgem nos papéis prévios os nomes de Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians e ex-deputado federal pelo PT de São Paulo, e do filho dele, Lucas Sanchez. O filho de Andrés Sanchez, por sua vez, surge no dossiê associado a Felipe Filipelli, publicitário dono da agência Banca Digital e filho do ex-vice-governador do Distrital Tadeu Filipelli (MDB). A Banca Digital contratou a empresa Lorena Magazine, responsável por bancar financeiramente publicações elogiosas a supostas ações de Tarcísio de Freitas no Rodoanel naquela miríade de @s descritas no início desta reportagem.

O capítulo financeiro será destaque nos procedimentos investigatórios da Polícia Federal. Nos levantamentos feitos anteriormente à instauração do inquérito e que balizam as ações, os nomes dos empresários mineiros Flávio Carneiro e Antônio Carlos Freixo protagonizam alentados parágrafos. Carneiro é dono de 100% do site PlatôBR e de 49% do Brazil Journal. Nos registros de posse da PF ele aparece como tendo admitido possuir 60% das ações do site de fofocas “Leo Dias”.

No ano passado, Carneiro e Freixo Júnior montaram uma Sociedade Para Fins Específicos chamado “FOONE” que, segundo os organizadores do dossiê, tinha participação oculta de Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, por meio do Duke Fundo de Investimento em Participações e Multiestratégia.

A Sociedade Para Fins Específicos unia as empresas de mídia de Carneiro à operação digital da Istoé e ao portal Infomoney, de Freixo, além do site de Leo Dias, num único “conglomerado” de mídia digital. O objetivo era partilhar captações publicitárias públicas e privadas em conjunto e partilhar os lucros. “Não deu certo. Foi um projeto que deu errado. Desfizemos essa sociedade ainda em 2025”, admitiu Flávio Carneiro ao ICL Notícias há duas semanas.

<><> Vorcaro pode voltar para a cadeia

Caso o aprofundamento das investigações da Polícia Federal leve ao estabelecimento de conexão financeira entre Vorcaro, o fundo Duke, a FOONE e o pagamento das postagens derrogatórias ao Banco Central, ao seu diretor Renato Gomes e ao ministro Alexandre de Moraes, o ex-controlador do Master voltará ao regime de prisão preventiva em regime fechado por obstrução de Justiça. Criar obstáculos a uma investigação ou atrapalhar a atuação judicial com disseminação de mentiras e aleivosias, por exemplo, é crime inafiançável e sem possibilidade de relaxamento de medidas cautelares.

No material com o qual a PF trabalha há mapas gráficos determinando o “ecossistema digital de influenciadores”. Nele, lê-se que “foram identificadas contas relacionadas a pelo menos cinco agências de marketing e três empresas de aposta on line” responsáveis por viabilizar o pagamento das postagens que enaltecem Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira enquanto detratam o BC, Moraes e Gomes e tentam criar burburinho e confusão em torno da compreensão pública do fato “liquidação do Banco Master”.

As cinco agências de marketing digital referenciadas são MiThi, relacionada diretamente ao publicitário brasiliense Thiago Miranda, Portal GroupBR, Agência Grupo Farol, Deu Buzz e Mynd8. Todas estão sob investigação.

Entre as ‘bets’, surgem destacadas a 7GamesBet, administrada por um operador de Goiás chamado Fernando Oliveira Lima. Este operador está referenciado nos textos de posse da PF e do BC como sendo alguém “estreitamente ligado” ao senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, e ao cantor sertanejo Gusttavo Lima. O cantor, por sua vez, é associado nos levantamentos prévios da Polícia Federal como sendo controlador da VaiDeBet, outra das empresas do ramo de “jogos de azar” eletrônicos que teriam viabilizado recursos para pagar as postagens. Por fim, a terceira ‘bet’ do sistema é a ZeroUm.Bet cujos administradores parecem ser meros testas-de-ferro na visão dos investigadores.

 (*) Às 12h do dia 31/01/2025 o jornalista Alberto Pereira Jr., assessor de imprensa da empresa Banca Digital, enviou a seguinte carta à redação do ICL Notícias:

“Sobre a reportagem “PF investiga: mesma teia de ‘influenciadores’ serviu a Vorcaro, Tarcísio, Nikolas e Flávio”, publicada em 29 de janeiro no ICL Notícias, a Banca Digital, agência brasileira independente de marketing digital, esclarece que Felipe Filippelli não é dono nem sócio da empresa, atuando exclusivamente na área comercial, sendo a Banca fundada por Murilo Henare.

A Banca Digital informa ainda que não foi contratada para divulgar conteúdos relacionados ao caso Banco Master ou ao governador Tarcísio de Freitas. A empresa foi procurada para possíveis ações sobre esses temas, mas recusou imediatamente qualquer participação, posicionamento já manifestado publicamente anteriormente. Também esclarece não ter ligação com as empresas mencionadas.

A reportagem também incorre em equívoco ao mencionar o perfil @lorenamagazine, agenciado pela Banca Digital, como “responsável por bancar financeiramente” publicações elogiosas sobre supostas ações do governo de São Paulo no Rodoanel. Trata-se de um perfil de entretenimento e site de notícias sobre temas em alta, que não realizou publicações sobre o projeto citado. As menções ao governador nos últimos meses tiveram caráter estritamente informativo.

Desde abril de 2024, a Banca Digital mantém um protocolo formal de brand safety, com monitoramento diário de conteúdos publicitários e editoriais por meio de inteligência artificial e curadoria humana especializada. Desde sua implementação, mais de 60 conteúdos identificados como sensíveis foram removidos e cerca de 200 publicações passaram por retificações.

Com uma rede que alcança aproximadamente 136 milhões de seguidores e cerca de 71 milhões de usuários únicos no Instagram, a Banca Digital reforça seu compromisso com a ética, a profissionalização do setor de marketing digital e a saúde da conversa pública.

Banca Digital”

¨      As pirâmides criminosas. Por Weiller Diniz

Bernie Madoff, lenda colossal do crime de colarinho branco, ergueu entre 1987 e 2008, em Nova Iorque — delta do poder financeiro — um fundo de investimentos calçado no prestígio daquele que era visto como um semideus, um iluminado das finanças, mas que não passava de um fraudador. Os sacrificados — professores, agricultores, artistas, bancos e outros milionários — confiaram suas economias ao trapaceiro, onde os aplicadores novos, adoradores cegos da rentabilidade irreal e do brilho do ouro de tolo, bancavam os investidores anteriores. Foi a maior pirâmide financeira da história. Uma fraude de US$ 65 bilhões que ruiu, provocando maldições e tragédias, inclusive suicídios.

Madoff foi o faraó supremo da Nasdaq e engenheiro de um obelisco financeiro que chegou a ser o sexto maior negociador de ações, respondendo por até 5% de tudo o que era comprado e vendido no panteão da Bolsa dos EUA. Era afável, discreto, filantropo e circulava desenvolto no topo da cadeia financeira e nos convescotes da realeza norte-americana, sempre ao lado de ungidos. Sua firma foi escavada oito vezes pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC). A SEC vasculhava a Bernard L. Madoff Investment Securities, mas não sua empresa de assessoria financeira, que reinava na vigarice a partir da câmara secreta do 17º andar do Lipstick Building, na Terceira Avenida.

A dinastia do trapaceiro foi encerrada em 2008, quando a enchente das hipotecas imobiliárias quebrou gigantes sagrados da banca. Os arautos de Madoff correram aos bancos e o levaram à insolvência. Ninguém questionava os poderes sobrenaturais do trambiqueiro, mas simplesmente não havia dinheiro para cobrir os saques depois de lançada a praga capitalista do subprime. Os sacerdotes de Madoff pediram saques de US$ 7 bilhões, quando havia apenas US$ 300 milhões no caixa. Em 2009, Madoff foi sentenciado a 150 anos de cadeia por 11 crimes. Migrou para a câmara mortuária em 2021, aos 82 anos, sem nenhuma lembrança da antiga respeitabilidade e completamente abandonado.

Como os mortais podem enganar tantas pessoas por tanto tempo? Como o enigma da multiplicação do dinheiro não levantou suspeitas dos órgãos reguladores dos Estados Unidos? O prestígio pessoal de Madoff, a exploração de brechas no sistema financeiro, a vista grossa de autoridades e a cegueira deliberada no mercado explicam boa parte do fôlego criminoso alcançado por quase 10 anos. Disse ele, em um dos depoimentos, que muitos preferiam não entender os complexos hieróglifos de suas operações.

No mesmo cânone de permissividade, promiscuidade entre o público e o privado, cegueira deliberada dos órgãos fiscalizadores, contratos e contatos com semideuses, o banco Master reinou no crime para capitanear uma fraude, até aqui estimada em R$ 50 bilhões. Uma mini pirâmide, a Miquerinos, se comparada à grande Quéops de Madoff. O Master expandiu seu império entre 2019 e 2024 com base em um modelo de emissão de Certificados de Depósito Bancário, prometendo tesouros inexistentes. CDBs, ofertados por bancos ou corretoras, pagavam taxas acima do mercado e serviam para atrair adoradores desatentos.

A fraude por aqui era lastreada pelo FGC e usada como propaganda para estimular aportes em títulos arriscados. O sarcófago do Master se abriu depois que o tamborete começou a ter problemas para captar recursos com os quais deveria pagar os juros dos CDBs que emitia. Tentando reverter a insolvência, passou a vender supostos tesouros enterrados. As cessões de ativos foram intensificadas a partir de novembro de 2024, quando o rio secou e agravou o risco de liquidez. Eis que surge o grande amuleto, o Nilo, com toda a sua fertilidade. A carteira de consignado da Tirreno, título podre de R$ 6,7 bilhões, passaria para um banco público (BRB) por R$ 12,7 bilhões. O BC fechou a mangueira da irrigação suspeita. De lá para cá, surgiram as vinculações de Vorcaro. Elas rebaixariam Madoff à condição de simples mortal.

Os papiros iniciais da PF e da imprensa expuseram as pegadas impuras de Daniel Vorcaro nas areias escaldantes do poder, em vários governos e em muitos pavilhões. A entidade mais exposta é o ministro-relator do caso, Dias Toffoli, no STF, por ora um altar impróprio para o caso. As decisões do relator geraram contestações generalizadas, notadamente depois da revelação dos vínculos empresariais da família Toffoli em um resort com gestoras ligadas ao Master. Há críticas à condução do inquérito, acareações precipitadas, viagens particulares com partes da investigação, designação nominal de peritos e sigilos anômalos, sob um silêncio característico das tumbas faraônicas mais profundas.

Contratos com a esposa do ministro Alexandre de Moraes, o ex-ministro Ricardo Lewandowski, o ex-ministro Fábio Faria, encontros com o governador de Brasília, que controla o BRB, relações com Michel Temer, Henrique Meirelles, Guido Mantega, presidentes de partidos e outros beduínos esturricados pela inclemência solar da política revelam que a maior aplicação de Vorcaro era a proteção entre os faraós de várias linhagens da República. O modus operandi, venda de títulos podres para encobrir o adobe malcheiroso da pirâmide, já virou cartão-postal de tão escancarado. A arqueologia da investigação precisa apontar a identidade das poderosas esfinges que deram cobertura ao golpe.

A pilhagem nos cofres públicos, além dos aportes que BB e CEF fazem no FGC, pode ser maior. Há investimentos feitos por fundos de previdência vinculados a governos estaduais e municipais em títulos emitidos pelo Master. Os recursos dos fundos de pensão não são cobertos pelo FGC e o prejuízo será bancado pelas instituições e pelos governos municipais e estaduais responsáveis. Entre eles estão o Rio de Janeiro, Amazonas, Amapá e outras 15 prefeituras. Um rombo de R$ 1,5 bilhão.

Em sucessivas operações recentes, a PF vem comprovando o uso recorrente do sistema financeiro pelo crime. No Egito antigo, as pirâmides eram símbolos de poder e riqueza. As tumbas atuais abrigam delinquentes e precisam ser implodidas antes que o Estado seja enterrado e mumificado pelo crime.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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