terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

J. J. Passos: Uma esquerda sem ilusões

Uma postura que substitui a fé na ruptura pela análise concreta, preservando o pensamento crítico em tempos de identidades rígidas e respostas instantâneas

<><> O ruído do mundo e a pergunta incômoda

Há algum tempo, conversando com um amigo venezuelano, intelectual da esquerda crítica, bibliotecário de formação, pesquisador atento dos arquivos, da teoria crítica e de seus impasses contemporâneos, ouvi algo que me atravessou mais do que muitos editoriais indignados. Torcedor fiel do Botafogo, brasileiro por acolhimento e por escolha afetiva, ele é um crítico persistente de Nicolás Maduro.

Conhece por dentro os mecanismos autoritários do regime, suas contradições econômicas e políticas, mas não pôde se posicionar publicamente. Não por ambiguidade teórica, tampouco por conveniência pessoal. O silêncio lhe foi imposto como condição de sobrevivência política, institucional e, em alguma medida, material. Falar teria significado perder o trabalho, a possibilidade de circulação, talvez a própria segurança.

Essa experiência concreta introduz uma fissura incômoda no debate que se trava à distância. O que fazemos, como intelectuais, quando julgamos contextos nos quais a palavra tem custo real? Quem tem o direito de falar, e quem paga o preço por fazê-lo? Quantos silêncios são lidos, apressadamente, como conivência, quando na verdade são resultado de coerções históricas específicas? E, sobretudo, que autoridade moral possui quem fala livremente para exigir coragem absoluta de quem vive sob constrangimento político direto?

A figura do intelectual calado incomoda porque desafia o ideal heroico da tomada de posição permanente. Mas talvez seja justamente aí que resida uma pergunta mais honesta: é possível exigir pureza política em contextos marcados pela vigilância, pela repressão e pela assimetria radical de poder? Ou esse tipo de exigência não passa de um conforto retórico, produzido à distância segura dos riscos que se impõem a outros corpos?

Esse tipo de relato, frequentemente descartado como “impressão pessoal” ou “testemunho isolado”, ocupa, no entanto, um lugar central tanto na história quanto na ciência da informação. Fontes orais, narrativas de vida, depoimentos e testemunhos não são resíduos subjetivos de menor valor cognitivo. Ao contrário, constituem formas legítimas de produção de conhecimento sobre o social, especialmente em contextos autoritários, nos quais os registros oficiais são incompletos, manipulados ou deliberadamente silenciadores.

A historiografia do século XX já demonstrou, à exaustão, que compreender regimes de exceção exige escutar aquilo que não pôde ser plenamente inscrito nos arquivos do poder.

Trazer essa dimensão para o debate não significa relativizar a crítica política, mas complexificá-la. Significa reconhecer que o real não se oferece apenas sob a forma de dados públicos, estatísticas ou declarações oficiais. Ele também se manifesta nas hesitações, nos silêncios forçados e nas falas interrompidas.

É a partir desse terreno instável, atravessado por contradições e limites, que qualquer crítica responsável precisa se mover, não como tribunal moral, mas como exercício permanente de escuta, análise e autocontenção. Esse silêncio forçado ressoa de maneira inquietante no que se vê diariamente nas redes e nos debates públicos: um fluxo incessante de certezas rápidas, opiniões amplificadas e paixões previsíveis, muitas vezes sem qualquer vínculo com a realidade material ou histórica que pretendem descrever.

Era um sábado de manhã quando acordei e, como acontece quase sempre, as redes já haviam decidido o que o mundo deveria saber naquele dia. Circulava com insistência a notícia de que Donald Trump teria liderado uma grande operação militar, apresentada sob o léxico jurídico, humanitário e político, mas atravessada por interesses econômicos evidentes, que teria resultado na captura e remoção de Nicolás Maduro. Verdadeira ou não, a informação cumpriu sua função: incendiou o debate público, ativou paixões previsíveis e reabriu, no Brasil, velhas trincheiras ideológicas em pleno ano eleitoral.

Esquerda e direita se lançaram imediatamente a novos embates. Pouco importava a consistência dos dados ou a complexidade histórica da chamada “Questão da Venezuela”. O que se via era a repetição de doxas, opiniões rápidas, certezas sem lastro material, todas amplificadas pela velocidade das plataformas. A repercussão foi mundial, mas o ruído dizia mais sobre quem falava do que sobre o objeto de que se falava.

Foi nesse ambiente que senti a necessidade de me posicionar. Não por impulso militante, mas por uma exigência interior de coerência. Esse movimento me conduziu a uma conversa silenciosa e, em muitos momentos, desconfortável com autores que, embora mortos, seguem nos interpelando com força. Platão, Hegel, Marx, Freud, Foucault, Adorno. A pergunta que se impôs não foi retórica nem confortável: se me reconheço à esquerda, por que não sou revolucionário nos moldes leninista, chavista ou cubano?

Continuo à esquerda, mas não me vejo naquela que hoje ocupa o centro do debate público. Não na esquerda que transforma a política em um tribunal moral permanente, nem naquela que substitui a crítica social por performances identitárias ou por nostalgias revolucionárias que ignoram a experiência histórica. É uma posição incômoda, porque não oferece pertencimento imediato nem slogans fáceis. Recusa tanto a capitulação quanto a ilusão, e talvez por isso tenha se tornado rara.

Não me considero um revolucionário, nem no plano da ação nem no da teoria. O século XX foi suficientemente pedagógico ao demonstrar os riscos de toda política que se apresenta como portadora de uma verdade final da história. As promessas de redenção, quando convertidas em programa, frequentemente produziram novas formas de dominação. Uma crítica social que pretenda ser responsável precisa abandonar o messianismo e aceitar que opera sem garantias últimas, sem finais felizes assegurados.

<><> Crítica, limites e responsabilidade

É nesse ponto que a Teoria Crítica se torna, para mim, menos uma escola e mais uma postura intelectual. O que ainda torna a tradição de Frankfurt relevante não são suas respostas prontas, mas sua desconfiança sistemática diante das soluções fáceis. A razão, quando reduzida a instrumento de administração total da vida, deixa de ser emancipatória e passa a integrar o problema. Mas sua abdicação, em favor do afeto, da crença ou da identidade, tampouco oferece saída. Apenas aprofunda processos de regressão social e política.

A leitura de Michel Foucault reforçou esse diagnóstico ao mostrar que o poder não se concentra apenas no Estado ou na economia. Ele circula, produz saberes, molda subjetividades, institui normalizações. Levo essa lição a sério, inclusive quando ela incide sobre o próprio campo progressista. Nenhum discurso emancipatório está imune à captura. Nenhuma causa justa dispensa vigilância crítica. Quando a esquerda se imagina moralmente protegida, costuma se tornar especialmente vulnerável à reprodução daquilo que afirma combater.

Minha aproximação com a social-democracia é menos entusiasmada do que refletida. Não se trata de um horizonte utópico, mas de uma escolha normativa e institucional. A democracia liberal é frágil, incompleta e profundamente desigual. Ainda assim, continua sendo o único espaço no qual a crítica pode existir sem se converter em dogma ou violência. Defendê-la não significa naturalizar o capitalismo, mas reconhecer que a política é feita de mediações, conflitos e limites, não de gestos absolutos.

Reconheço a importância histórica das pautas identitárias e não ignoro as violências reais que lhes dão origem. O problema surge quando o reconhecimento simbólico passa a ocupar o lugar da crítica estrutural ou quando a linguagem se transforma em um fim em si mesma. Uma política que abdica da universalidade corre o risco de reconciliar-se com a própria ordem que pretende contestar. A desigualdade não se dissolve no discurso; ela se reproduz material e institucionalmente.

Não sou marxista, embora reconheça no marxismo uma das críticas mais contundentes já formuladas ao capitalismo. O que recuso é seu determinismo histórico e sua confiança excessiva na ruptura como solução. O capitalismo não colapsa por necessidade histórica; ele se reinventa. Enfrentá-lo exige menos fé e mais análise, menos promessas redentoras e mais política concreta.

Habito, assim, um lugar desconfortável. Entre a crítica radical e a responsabilidade democrática. Entre o ceticismo e o compromisso. Entre a recusa da ilusão e a recusa do cinismo. Sei que essa posição não mobiliza afetos nem produz adesões imediatas. Mas talvez ainda seja capaz de oferecer algo raro em tempos de alinhamentos automáticos: lucidez.

Se resta uma tarefa à esquerda, parece-me ser a de preservar a possibilidade do pensamento crítico em um tempo que exige respostas instantâneas, identidades rígidas e certezas performáticas. Não para ocupar um lugar de superioridade moral, mas para manter viva a capacidade da política de pensar contra si mesma. Sem isso, ela corre o risco de se tornar apenas mais um instrumento da barbárie que afirma combater.

¨      América Latina – riqueza capturada. Por João dos Reis Silva Júnior

O ataque à Venezuela não pode ser compreendido como um episódio isolado da política internacional nem como mais uma crise regional periférica. Ele expressa uma transformação mais profunda na forma contemporânea da soberania e na racionalidade que organiza a ação dos Estados centrais. Ao longo do século XX, a soberania estruturou-se, em grande medida, a partir do controle territorial, da capacidade militar e da centralidade energética, com o petróleo ocupando posição estratégica.

No presente, esse eixo se desloca. O núcleo da soberania passa a organizar-se em torno do domínio de insumos estratégicos ligados à economia do conhecimento, à transição energética, à digitalização e às cadeias produtivas de alta complexidade tecnológica. A disputa geopolítica deixa de se organizar prioritariamente pela ocupação do espaço físico e passa a envolver a capacidade de estruturar temporalidades, projetar cenários e interferir nos futuros possíveis.

O problema central já não é a posse direta de recursos naturais, mas o controle das bases materiais que sustentam as cadeias tecnológicas globais e os sistemas produtivos de maior valor agregado, responsáveis por definir relações de poder, segurança e hegemonia no capitalismo contemporâneo (Harvey, 2014; Chesnais, 1996).

Nesse contexto, a soberania deixa de operar apenas como categoria jurídico-política e assume caráter estratégico, diretamente integrado à economia política do futuro. O controle de elementos como lítio, cobre, grafite, nióbio, terras raras, níquel, cobalto, silício, manganês e molibdênio adquire importância equivalente à que, em outros períodos históricos, tiveram territórios e rotas comerciais.

Esses elementos deixam de ser apenas matéria-prima e passam a operar como ativos estratégicos. Jazidas convertem-se em pontos de inserção em arquiteturas globais de segurança econômica. Recursos naturais passam a carregar expectativas de valor, projeções de poder e promessas de soberania tecnológica. O Estado contemporâneo, nesse cenário, já não atua apenas como gestor territorial, mas como operador de futuros, administrador de expectativas e mediador de processos de antecipação histórica.

É por isso que a América Latina adquire centralidade no novo arranjo da razão de Estado global. Não como periferia frágil, mas como território de abundância estrutural. O subcontinente concentra uma das maiores reservas geoestratégicas de riqueza material do planeta: lítio nos salares do Chile e da Argentina, cobre em escala continental nos Andes, quase a totalidade do nióbio mundial concentrada no Brasil, grandes jazidas de grafite, níquel, manganês, ferro, bauxita e terras raras distribuídas pela região, além de água doce, biodiversidade, terras agricultáveis, biomassa e elevado potencial energético (CEPAL, 2024; IEA, 2023).

Poucas regiões do mundo reúnem simultaneamente riqueza mineral, hídrica, biológica, territorial e energética nessa escala. Essa abundância não expressa fragilidade. Ela expressa valor sistêmico e centralidade estratégica.

O paradoxo histórico reside no fato de que essa abundância jamais se converteu em soberania histórica. Ao contrário, transformou-se em base material da dependência. A riqueza natural não deu origem a projetos civilizatórios autônomos, mas alimentou cadeias externas de valorização.

O subsolo não organizou futuros próprios, mas futuros alheios. A abundância operou como vetor de subordinação, não de autonomia. A condição estrutural da América Latina não é a escassez, mas a expropriação histórica da riqueza, como já apontado pela tradição da teoria da dependência (Marini, 1973; Bambirra, 1978).

Essa dependência, no entanto, não permanece apenas econômica. Ela se reconfigura. Já não se trata somente de exportar matérias-primas e importar bens industrializados. Passa-se a exportar futuro e importar presente. Os recursos estratégicos deixam de ser apropriados apenas como matéria e passam a ser capturados como expectativas de valor, projeções de rentabilidade e ativos financeiros.

O valor deixa de se constituir exclusivamente no processo produtivo e passa a ser antecipado por meio de contratos, fundos, garantias e projeções de demanda futura (Chesnais, 1996). A dependência assume, assim, uma forma temporal. O futuro é capturado antes de existir. A história passa a ser governada por mecanismos de antecipação. A extração deixa de ser apenas material e passa a ser extração do porvir.

O bloqueio do tempo histórico não resulta de atraso técnico, déficit científico ou ausência de inteligência social. Ele constitui uma forma estrutural de organização do porvir. Nos países dependentes, o futuro não se apresenta como horizonte político coletivo, mas como passivo histórico. Não surge como projeto, mas como dívida. Não se constitui como obra social, mas como ativo financeiro. O porvir deixa de ser político e converte-se em mercado. A dependência deixa de ser apenas posição econômica e passa a operar como regime de temporalidade.

Nesse quadro, a política bélica das grandes potências não pode ser lida apenas como instrumento militar. Ela se configura como tecnologia de governo do tempo histórico. Intervenções, coerções, bloqueios, sanções e operações de força não reorganizam apenas territórios: reorganizam futuros.

Governar um Estado passa a significar condicionar seus projetos históricos, redirecionar seus horizontes e submeter seu porvir a centros externos de decisão. A guerra contemporânea não se limita à ocupação do espaço; ela atua sobre a temporalidade dos povos, sobre suas possibilidades históricas e sobre seus projetos de futuro.

A dependência, nesse sentido, fecha-se como sistema integrado: econômico, político, financeiro, tecnológico e temporal. O poder militar articula-se ao poder econômico e financeiro, produzindo uma forma de dominação que subordina simultaneamente território, recursos, decisões e tempo histórico.

É nesse contexto que a universidade pública assume papel central como núcleo simbólico e funcional da liturgia da dependência. Ela concentra o intelecto social, a capacidade científica, a produção de conhecimento e a densidade técnica, mas não concentra poder de direção histórica. Produz ciência de alto nível, mas não governa agendas estratégicas. Forma quadros altamente qualificados, mas esses quadros operam em sistemas cujos centros decisórios estão deslocados.

Internacionaliza-se, mas não define prioridades. Publica-se globalmente, mas não constrói projeto civilizatório próprio. A produção científica passa a ser organizada por critérios externos de validação, não por necessidades históricas internas (Quijano, 2000; Santos, 2010).

A universidade deixa de ser apenas espaço de crítica e passa a operar como infraestrutura cognitiva da dependência. Ela abastece cadeias globais de valor, circuitos internacionais de inovação e sistemas transnacionais de produção científica sem jamais controlar o projeto histórico ao qual serve. O futuro que ela pesquisa não é o futuro que ela escolhe. As agendas que ela investiga não são aquelas que ela define. Ela não constrói horizontes: responde a horizontes já dados. Não funda temporalidades: administra antecipações.

A dualidade estrutural reaparece de forma radical: produz-se ciência sem soberania, conhecimento sem projeto, lucidez sem comando, crítica sem direção histórica (Oliveira, 1972). A universidade torna-se o lugar onde a inteligência social atinge seu máximo e a soberania histórica seu mínimo. Compreende-se o sistema, mas não se governa o tempo. Entende-se a estrutura, mas não se reorganiza a história.

Nesse regime, a indústria de ponta não se estrutura como sistema, mas como enclave. Podem existir centros de excelência e polos tecnológicos sem que isso produza soberania histórica. Cadeias tecnológicas exigem continuidade, planejamento e projeto intergeracional.

Onde o tempo está capturado, só existem ilhas. A riqueza material alimenta cadeias externas de valor. O subsolo sustenta futuros alheios. O intelecto social integra circuitos globais de inovação. A universidade abastece sistemas internacionais de conhecimento. Tudo opera, mas nada se converte em futuro próprio.

O capital fictício torna-se operador central dessa racionalidade. Não busca apenas recursos, mas expectativas de valorização. Não busca apenas produção, mas antecipação de valor. O futuro transforma-se em mercadoria antes de ser história. O porvir torna-se ativo antes de ser projeto. A financeirização reorganiza não apenas a economia, mas o tempo (Chesnais, 1996; Harvey, 2014).

A tragédia estrutural dos países dependentes não está na ausência de recursos nem na falta de inteligência social. Está na interdição da conversão disso em soberania histórica. Na impossibilidade estrutural de transformar ciência em direção, conhecimento em projeto, lucidez em comando e riqueza em futuro próprio. A dependência ampliada configura-se, assim, como arquitetura civilizatória: um sistema que permite modernização, inovação e crescimento sem emancipação histórica.

A questão deixa de ser econômica e torna-se civilizatória. Trata-se de quem governa o tempo, quem define o futuro e quem transforma o porvir em projeto coletivo ou em ativo financeiro. Trata-se de decidir se os países dependentes continuarão a existir como territórios de extração do futuro alheio ou se conseguirão constituir-se como sujeitos históricos do próprio destino.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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