J.
J. Passos: Uma esquerda sem ilusões
Uma
postura que substitui a fé na ruptura pela análise concreta, preservando o
pensamento crítico em tempos de identidades rígidas e respostas instantâneas
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O ruído do mundo e a pergunta incômoda
Há
algum tempo, conversando com um amigo venezuelano, intelectual da esquerda
crítica, bibliotecário de formação, pesquisador atento dos arquivos, da teoria
crítica e de seus impasses contemporâneos, ouvi algo que me atravessou mais do
que muitos editoriais indignados. Torcedor fiel do Botafogo, brasileiro por
acolhimento e por escolha afetiva, ele é um crítico persistente de Nicolás
Maduro.
Conhece
por dentro os mecanismos autoritários do regime, suas contradições econômicas e
políticas, mas não pôde se posicionar publicamente. Não por ambiguidade
teórica, tampouco por conveniência pessoal. O silêncio lhe foi imposto como
condição de sobrevivência política, institucional e, em alguma medida,
material. Falar teria significado perder o trabalho, a possibilidade de
circulação, talvez a própria segurança.
Essa
experiência concreta introduz uma fissura incômoda no debate que se trava à
distância. O que fazemos, como intelectuais, quando julgamos contextos nos
quais a palavra tem custo real? Quem tem o direito de falar, e quem paga o
preço por fazê-lo? Quantos silêncios são lidos, apressadamente, como
conivência, quando na verdade são resultado de coerções históricas específicas?
E, sobretudo, que autoridade moral possui quem fala livremente para exigir
coragem absoluta de quem vive sob constrangimento político direto?
A
figura do intelectual calado incomoda porque desafia o ideal heroico da tomada
de posição permanente. Mas talvez seja justamente aí que resida uma pergunta
mais honesta: é possível exigir pureza política em contextos marcados pela
vigilância, pela repressão e pela assimetria radical de poder? Ou esse tipo de
exigência não passa de um conforto retórico, produzido à distância segura dos
riscos que se impõem a outros corpos?
Esse
tipo de relato, frequentemente descartado como “impressão pessoal” ou
“testemunho isolado”, ocupa, no entanto, um lugar central tanto na história
quanto na ciência da informação. Fontes orais, narrativas de vida, depoimentos
e testemunhos não são resíduos subjetivos de menor valor cognitivo. Ao
contrário, constituem formas legítimas de produção de conhecimento sobre o
social, especialmente em contextos autoritários, nos quais os registros
oficiais são incompletos, manipulados ou deliberadamente silenciadores.
A
historiografia do século XX já demonstrou, à exaustão, que compreender regimes
de exceção exige escutar aquilo que não pôde ser plenamente inscrito nos
arquivos do poder.
Trazer
essa dimensão para o debate não significa relativizar a crítica política, mas
complexificá-la. Significa reconhecer que o real não se oferece apenas sob a
forma de dados públicos, estatísticas ou declarações oficiais. Ele também se
manifesta nas hesitações, nos silêncios forçados e nas falas interrompidas.
É a
partir desse terreno instável, atravessado por contradições e limites, que
qualquer crítica responsável precisa se mover, não como tribunal moral, mas
como exercício permanente de escuta, análise e autocontenção. Esse silêncio
forçado ressoa de maneira inquietante no que se vê diariamente nas redes e nos
debates públicos: um fluxo incessante de certezas rápidas, opiniões
amplificadas e paixões previsíveis, muitas vezes sem qualquer vínculo com a
realidade material ou histórica que pretendem descrever.
Era um
sábado de manhã quando acordei e, como acontece quase sempre, as redes já
haviam decidido o que o mundo deveria saber naquele dia. Circulava com
insistência a notícia de que Donald Trump teria liderado uma grande operação
militar, apresentada sob o léxico jurídico, humanitário e político, mas
atravessada por interesses econômicos evidentes, que teria resultado na captura
e remoção de Nicolás Maduro. Verdadeira ou não, a informação cumpriu sua
função: incendiou o debate público, ativou paixões previsíveis e reabriu, no
Brasil, velhas trincheiras ideológicas em pleno ano eleitoral.
Esquerda
e direita se lançaram imediatamente a novos embates. Pouco importava a
consistência dos dados ou a complexidade histórica da chamada “Questão da
Venezuela”. O que se via era a repetição de doxas, opiniões
rápidas, certezas sem lastro material, todas amplificadas pela velocidade das
plataformas. A repercussão foi mundial, mas o ruído dizia mais sobre quem
falava do que sobre o objeto de que se falava.
Foi
nesse ambiente que senti a necessidade de me posicionar. Não por impulso
militante, mas por uma exigência interior de coerência. Esse movimento me
conduziu a uma conversa silenciosa e, em muitos momentos, desconfortável com
autores que, embora mortos, seguem nos interpelando com força. Platão, Hegel,
Marx, Freud, Foucault, Adorno. A pergunta que se impôs não foi retórica nem
confortável: se me reconheço à esquerda, por que não sou revolucionário nos
moldes leninista, chavista ou cubano?
Continuo
à esquerda, mas não me vejo naquela que hoje ocupa o centro do debate público.
Não na esquerda que transforma a política em um tribunal moral permanente, nem
naquela que substitui a crítica social por performances identitárias ou por
nostalgias revolucionárias que ignoram a experiência histórica. É uma posição
incômoda, porque não oferece pertencimento imediato nem slogans fáceis. Recusa
tanto a capitulação quanto a ilusão, e talvez por isso tenha se tornado rara.
Não me
considero um revolucionário, nem no plano da ação nem no da teoria. O século XX
foi suficientemente pedagógico ao demonstrar os riscos de toda política que se
apresenta como portadora de uma verdade final da história. As promessas de
redenção, quando convertidas em programa, frequentemente produziram novas
formas de dominação. Uma crítica social que pretenda ser responsável precisa
abandonar o messianismo e aceitar que opera sem garantias últimas, sem finais
felizes assegurados.
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Crítica, limites e responsabilidade
É nesse
ponto que a Teoria Crítica se torna, para mim, menos uma escola e mais uma
postura intelectual. O que ainda torna a tradição de Frankfurt relevante não
são suas respostas prontas, mas sua desconfiança sistemática diante das
soluções fáceis. A razão, quando reduzida a instrumento de administração total
da vida, deixa de ser emancipatória e passa a integrar o problema. Mas sua
abdicação, em favor do afeto, da crença ou da identidade, tampouco oferece
saída. Apenas aprofunda processos de regressão social e política.
A
leitura de Michel Foucault reforçou esse diagnóstico ao mostrar que o poder não
se concentra apenas no Estado ou na economia. Ele circula, produz saberes,
molda subjetividades, institui normalizações. Levo essa lição a sério,
inclusive quando ela incide sobre o próprio campo progressista. Nenhum discurso
emancipatório está imune à captura. Nenhuma causa justa dispensa vigilância
crítica. Quando a esquerda se imagina moralmente protegida, costuma se tornar
especialmente vulnerável à reprodução daquilo que afirma combater.
Minha
aproximação com a social-democracia é menos entusiasmada do que refletida. Não
se trata de um horizonte utópico, mas de uma escolha normativa e institucional.
A democracia liberal é frágil, incompleta e profundamente desigual. Ainda
assim, continua sendo o único espaço no qual a crítica pode existir sem se
converter em dogma ou violência. Defendê-la não significa naturalizar o
capitalismo, mas reconhecer que a política é feita de mediações, conflitos e
limites, não de gestos absolutos.
Reconheço
a importância histórica das pautas identitárias e não ignoro as violências
reais que lhes dão origem. O problema surge quando o reconhecimento simbólico
passa a ocupar o lugar da crítica estrutural ou quando a linguagem se
transforma em um fim em si mesma. Uma política que abdica da universalidade
corre o risco de reconciliar-se com a própria ordem que pretende contestar. A
desigualdade não se dissolve no discurso; ela se reproduz material e
institucionalmente.
Não sou
marxista, embora reconheça no marxismo uma das críticas mais contundentes já
formuladas ao capitalismo. O que recuso é seu determinismo histórico e sua
confiança excessiva na ruptura como solução. O capitalismo não colapsa por
necessidade histórica; ele se reinventa. Enfrentá-lo exige menos fé e mais
análise, menos promessas redentoras e mais política concreta.
Habito,
assim, um lugar desconfortável. Entre a crítica radical e a responsabilidade
democrática. Entre o ceticismo e o compromisso. Entre a recusa da ilusão e a
recusa do cinismo. Sei que essa posição não mobiliza afetos nem produz adesões
imediatas. Mas talvez ainda seja capaz de oferecer algo raro em tempos de
alinhamentos automáticos: lucidez.
Se
resta uma tarefa à esquerda, parece-me ser a de preservar a possibilidade do
pensamento crítico em um tempo que exige respostas instantâneas, identidades
rígidas e certezas performáticas. Não para ocupar um lugar de superioridade
moral, mas para manter viva a capacidade da política de pensar contra si mesma.
Sem isso, ela corre o risco de se tornar apenas mais um instrumento da barbárie
que afirma combater.
¨
América Latina – riqueza capturada. Por João dos Reis
Silva Júnior
O
ataque à Venezuela não pode ser compreendido como um episódio isolado da
política internacional nem como mais uma crise regional periférica. Ele
expressa uma transformação mais profunda na forma contemporânea da soberania e
na racionalidade que organiza a ação dos Estados centrais. Ao longo do século
XX, a soberania estruturou-se, em grande medida, a partir do controle
territorial, da capacidade militar e da centralidade energética, com o petróleo
ocupando posição estratégica.
No
presente, esse eixo se desloca. O núcleo da soberania passa a organizar-se em
torno do domínio de insumos estratégicos ligados à economia do conhecimento, à
transição energética, à digitalização e às cadeias produtivas de alta
complexidade tecnológica. A disputa geopolítica deixa de se organizar
prioritariamente pela ocupação do espaço físico e passa a envolver a capacidade
de estruturar temporalidades, projetar cenários e interferir nos futuros
possíveis.
O
problema central já não é a posse direta de recursos naturais, mas o controle
das bases materiais que sustentam as cadeias tecnológicas globais e os sistemas
produtivos de maior valor agregado, responsáveis por definir relações de poder,
segurança e hegemonia no capitalismo contemporâneo (Harvey, 2014; Chesnais,
1996).
Nesse
contexto, a soberania deixa de operar apenas como categoria jurídico-política e
assume caráter estratégico, diretamente integrado à economia política do
futuro. O controle de elementos como lítio, cobre, grafite, nióbio, terras
raras, níquel, cobalto, silício, manganês e molibdênio adquire importância
equivalente à que, em outros períodos históricos, tiveram territórios e rotas
comerciais.
Esses
elementos deixam de ser apenas matéria-prima e passam a operar como ativos
estratégicos. Jazidas convertem-se em pontos de inserção em arquiteturas
globais de segurança econômica. Recursos naturais passam a carregar
expectativas de valor, projeções de poder e promessas de soberania tecnológica.
O Estado contemporâneo, nesse cenário, já não atua apenas como gestor
territorial, mas como operador de futuros, administrador de expectativas e
mediador de processos de antecipação histórica.
É por
isso que a América Latina adquire centralidade no novo arranjo da razão de
Estado global. Não como periferia frágil, mas como território de abundância
estrutural. O subcontinente concentra uma das maiores reservas geoestratégicas
de riqueza material do planeta: lítio nos salares do Chile e da Argentina,
cobre em escala continental nos Andes, quase a totalidade do nióbio mundial
concentrada no Brasil, grandes jazidas de grafite, níquel, manganês, ferro,
bauxita e terras raras distribuídas pela região, além de água doce,
biodiversidade, terras agricultáveis, biomassa e elevado potencial energético
(CEPAL, 2024; IEA, 2023).
Poucas
regiões do mundo reúnem simultaneamente riqueza mineral, hídrica, biológica,
territorial e energética nessa escala. Essa abundância não expressa
fragilidade. Ela expressa valor sistêmico e centralidade estratégica.
O
paradoxo histórico reside no fato de que essa abundância jamais se converteu em
soberania histórica. Ao contrário, transformou-se em base material da
dependência. A riqueza natural não deu origem a projetos civilizatórios
autônomos, mas alimentou cadeias externas de valorização.
O
subsolo não organizou futuros próprios, mas futuros alheios. A abundância
operou como vetor de subordinação, não de autonomia. A condição estrutural da
América Latina não é a escassez, mas a expropriação histórica da riqueza, como
já apontado pela tradição da teoria da dependência (Marini, 1973; Bambirra,
1978).
Essa
dependência, no entanto, não permanece apenas econômica. Ela se reconfigura. Já
não se trata somente de exportar matérias-primas e importar bens
industrializados. Passa-se a exportar futuro e importar presente. Os recursos
estratégicos deixam de ser apropriados apenas como matéria e passam a ser
capturados como expectativas de valor, projeções de rentabilidade e ativos
financeiros.
O valor
deixa de se constituir exclusivamente no processo produtivo e passa a ser
antecipado por meio de contratos, fundos, garantias e projeções de demanda
futura (Chesnais, 1996). A dependência assume, assim, uma forma temporal. O
futuro é capturado antes de existir. A história passa a ser governada por
mecanismos de antecipação. A extração deixa de ser apenas material e passa a
ser extração do porvir.
O
bloqueio do tempo histórico não resulta de atraso técnico, déficit científico
ou ausência de inteligência social. Ele constitui uma forma estrutural de
organização do porvir. Nos países dependentes, o futuro não se apresenta como
horizonte político coletivo, mas como passivo histórico. Não surge como
projeto, mas como dívida. Não se constitui como obra social, mas como ativo
financeiro. O porvir deixa de ser político e converte-se em mercado. A
dependência deixa de ser apenas posição econômica e passa a operar como regime
de temporalidade.
Nesse
quadro, a política bélica das grandes potências não pode ser lida apenas como
instrumento militar. Ela se configura como tecnologia de governo do tempo
histórico. Intervenções, coerções, bloqueios, sanções e operações de força não
reorganizam apenas territórios: reorganizam futuros.
Governar
um Estado passa a significar condicionar seus projetos históricos, redirecionar
seus horizontes e submeter seu porvir a centros externos de decisão. A guerra
contemporânea não se limita à ocupação do espaço; ela atua sobre a
temporalidade dos povos, sobre suas possibilidades históricas e sobre seus
projetos de futuro.
A
dependência, nesse sentido, fecha-se como sistema integrado: econômico,
político, financeiro, tecnológico e temporal. O poder militar articula-se ao
poder econômico e financeiro, produzindo uma forma de dominação que subordina
simultaneamente território, recursos, decisões e tempo histórico.
É nesse
contexto que a universidade pública assume papel central como núcleo simbólico
e funcional da liturgia da dependência. Ela concentra o intelecto social, a
capacidade científica, a produção de conhecimento e a densidade técnica, mas
não concentra poder de direção histórica. Produz ciência de alto nível, mas não
governa agendas estratégicas. Forma quadros altamente qualificados, mas esses
quadros operam em sistemas cujos centros decisórios estão deslocados.
Internacionaliza-se,
mas não define prioridades. Publica-se globalmente, mas não constrói projeto
civilizatório próprio. A produção científica passa a ser organizada por
critérios externos de validação, não por necessidades históricas internas
(Quijano, 2000; Santos, 2010).
A
universidade deixa de ser apenas espaço de crítica e passa a operar como
infraestrutura cognitiva da dependência. Ela abastece cadeias globais de valor,
circuitos internacionais de inovação e sistemas transnacionais de produção
científica sem jamais controlar o projeto histórico ao qual serve. O futuro que
ela pesquisa não é o futuro que ela escolhe. As agendas que ela investiga não
são aquelas que ela define. Ela não constrói horizontes: responde a horizontes
já dados. Não funda temporalidades: administra antecipações.
A
dualidade estrutural reaparece de forma radical: produz-se ciência sem
soberania, conhecimento sem projeto, lucidez sem comando, crítica sem direção
histórica (Oliveira, 1972). A universidade torna-se o lugar onde a inteligência
social atinge seu máximo e a soberania histórica seu mínimo. Compreende-se o
sistema, mas não se governa o tempo. Entende-se a estrutura, mas não se
reorganiza a história.
Nesse
regime, a indústria de ponta não se estrutura como sistema, mas como enclave.
Podem existir centros de excelência e polos tecnológicos sem que isso produza
soberania histórica. Cadeias tecnológicas exigem continuidade, planejamento e
projeto intergeracional.
Onde o
tempo está capturado, só existem ilhas. A riqueza material alimenta cadeias
externas de valor. O subsolo sustenta futuros alheios. O intelecto social
integra circuitos globais de inovação. A universidade abastece sistemas
internacionais de conhecimento. Tudo opera, mas nada se converte em futuro
próprio.
O
capital fictício torna-se operador central dessa racionalidade. Não busca
apenas recursos, mas expectativas de valorização. Não busca apenas produção,
mas antecipação de valor. O futuro transforma-se em mercadoria antes de ser
história. O porvir torna-se ativo antes de ser projeto. A financeirização
reorganiza não apenas a economia, mas o tempo (Chesnais, 1996; Harvey, 2014).
A
tragédia estrutural dos países dependentes não está na ausência de recursos nem
na falta de inteligência social. Está na interdição da conversão disso em
soberania histórica. Na impossibilidade estrutural de transformar ciência em
direção, conhecimento em projeto, lucidez em comando e riqueza em futuro
próprio. A dependência ampliada configura-se, assim, como arquitetura
civilizatória: um sistema que permite modernização, inovação e crescimento sem
emancipação histórica.
A
questão deixa de ser econômica e torna-se civilizatória. Trata-se de quem
governa o tempo, quem define o futuro e quem transforma o porvir em projeto
coletivo ou em ativo financeiro. Trata-se de decidir se os países dependentes
continuarão a existir como territórios de extração do futuro alheio ou se
conseguirão constituir-se como sujeitos históricos do próprio destino.
Fonte: A
Terra é Redonda

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