Samuel
Kilsztajn: Ma-ná-os
No
século XVII, na confluência dos rios Negro e Solimões, Portugal ergueu o Forte
do Rio Negro. Os insubmissos nativos Manáos, que habitavam a região, foram
completamente exterminados e o herói Ajuricaba, capturado e acorrentado, teria
se atirado às águas do Amazonas para evitar o seu destino nas mãos dos
portugueses.
Na
passagem dos séculos XIX para o XX, a borracha, que arregimentou um exército de
trabalhadores mal pagos e escravizados por endividamentos fraudulentos,
alimentou a riqueza das nações e transformou Manaus em um centro urbano
aristocrático em plena selva tropical.
Werner
Herzog, ao filmar Fitzcarraldo entre 1979 e 1982, reproduziu fiel e
efetivamente a selvageria do europeu colonizador frente às populações
indígenas, os desastres e o desmatamento na Amazônia, em meio ao delírio mágico
e à arrogância propiciados pelo dinheiro desta empreitada selvagem e
internacionalmente premiada.
Até o
final da Segunda Guerra Mundial, a ocupação do Brasil e o genocídio dos povos
nativos ficaram praticamente restritos à sua faixa litorânea. Mas, nos anos
1950, com a internacionalização do capital produtivo, o país resolveu ocupar o
Centro-Oeste e a Bacia Amazônica. Construíram Brasília, um museu modernista a
céu aberto; e, a seguir, abriram a estrada Brasília-Belém e a Transamazônica da
Ditadura Militar, que representou um novo golpe contra os indígenas do Brasil.
A Zona
Franca de Manaus foi regulamentada em 1967, com o objetivo de industrializar a
Amazônia. Nos anos 1970, a cidade atraía levas de turistas brasileiros em busca
de eletrônicos baratos. Cinemas foram transformados em estabelecimentos
comerciais, mas o irreverente Márcio Souza conseguiu reunir heroicos artistas,
músicos e poetas da região em defesa da cultura da capital amazonense.
Em 1976
Márcio Souza publicou o cinematográfico Galvez, Imperador do Acre, que
escandalizou a elite local mas se transformou num clássico da literatura
amazonense. Galvez foi escrito em três dimensões – do autor, do narrador e do
protagonista. Em 2025, o manauara Milton Hatoum, autor, entre outros livros, de
Dois irmãos, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.
Manaus
ocupa menos de 1% da área total do Estado do Amazonas, mas seus 2,3 milhões de
habitantes representam mais da metade de sua população. Itacoatiara, Manacapuru
– ambos da Região Metropolitana de Manaus – e Parintins têm 100 mil habitantes;
nenhum outro município do Estado atinge este número.
A
capital recebeu o nome do povo nativo exterminado, Ajuricaba é amplamente
homenageado e o passado escravocrata colonial e do Brasil monárquico, bem como
a exploração dos seringueiros durante o Ciclo de Ouro da Borracha, são
lamentados como socialmente injustos. No entanto, a cidade faz vista grossa,
parece não se dar conta das atuais condições de sua predominante população
empobrecida, com adolescentes desdentados e jovens adultos alimentando sonhos
de enriquecimento fácil no garimpo ilícito.
Manaus
enfrenta sérios problemas de infraestrutura urbana. Centenas de casarões,
palacetes e edificações monumentais, construídos durante a opulência da “Paris
dos trópicos”, sobrevivem carcomidos e fantasmagóricos. A região central do
porto, do mercado e da feira coberta, que cheira a urina, vive em meio a
montanhas de lixo, que o ávido bando de urubus necrófagos que rondam o local em
voo raso não dá conta de recolher – tudo isto em vivo contraste com a suntuosa
beleza do monumental Rio Negro.
Ribeirinhos,
engrossados por alegres imigrantes venezuelanos e haitianos, são atraídos pelo
lixo descartado das camadas ricas da cidade. Alguns se aventuram para o “sul
maravilha”, mas voltam por conta das baixas temperaturas (um dos músicos que
cercavam Márcio Souza nos anos 1970, rindo, contava que esteve em São Paulo,
mas voltou correndo depois que, assustado, se deparou por acaso com o tamanho
minguado de sua genitália).
Manaus,
o Estado e toda a Amazônia vivem mergulhados em problemas ambientais. Como
costuma dizer Leonardo Boff, não é uma mera questão de meio ambiente, é uma
questão de ambiente por inteiro, que inclui a espécie humana. Questões como
proteção aos povos indígenas, extrema pobreza e desigualdade social,
desmatamento, agropecuária predatória, extração de minérios, garimpo ilegal,
poluição dos rios etc. estão na ordem do dia e o progresso (econômico) só tem
agravado os problemas.
Esperamos
que o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA possa ajudar na
implementação de programas sustentáveis na região e que os governos manifestem
vontade política e se ocupem em preservar a floresta e garantir o bem estar de
sua população.
Eric
Hobsbawm nos ensinou que, antes da Revolução Industrial, o nível de riqueza
entre as nações não era muito diferenciado; André Gunder Frank nos ensinou que
nenhum país poderia se definir como subdesenvolvido antes de entrar em contato
com outro país definido como desenvolvido; e Franz Fanon nos ensinou que a pior
forma de colonialismo é aquela que coloniza a mente do colonizado, isto é, o
contamina a ponto dele incorporar os valores do astuto e dissimulado
colonizador que se coloca na posição de padrão (referência) e considera o
crédulo e inocente colonizado como inferior. “Andam nus, sem coberta alguma,
não estimam cobrir nem mostrar as suas vergonhas, e estão acerca disso com
tanta inocência como em mostrar o rosto.” Poderíamos acrescentar à carta de
Pero Vaz de Caminha que os europeus não tinham inocência sequer em seus rostos.
Relatórios
das diversas agências da Organização das Nações Unidas elencam os países de
acordo com o padrão ocidental dominante e medem a distância de cada nação a
este padrão, que seria a meta dos colonizados, o seu desejo de consumo. Em
Manaus, quando falei isso para um amigo que havia sido meu aluno 30 anos antes,
ele disse, “os colonizados substituem o valor de uso pelo valor de troca”. É
isso mesmo que eu estou querendo dizer, as mentes colonizadas absorvem o
conceito de equivalente geral e passam a guiar a sua vida pelo dindim e pelo
consumo alienante.
Outro
dia ouvi um jovem influenciador justificando a importância de possuir um tênis
de marca ($$$) para a autoestima dos colonizados. Eu diria que o tênis de marca
só reforça a autoestima do colonizador, porque, como diz a canção do amazonense
Zeca Torres, Porto de lenha, tu nunca serás Liverpool. Em Manaus, o antropólogo
Yupuri, tukano do Alto Rio Negro, está empenhado em resistir à colonização e
preservar a cultura dos povos indígenas. Juntos com Ailton Krenak, vamos
construir um futuro ancestral.
Quando
publiquei o artigo Bogotá, me surpreendeu o interesse despertado pela culinária
e pelos frutos da Colômbia. Então vamos lá promover alguns sabores da Amazônia.
Além dos best sellers castanha e açaí e do perfumado cupuaçu, não deixe de
experimentar, entre outros, o abiu, bacuri, buriti, camu-camu, guaraná, ingá,
jenipapo, patauá, pupunha, taperebá, tucumã e uxi.
Um
cruzeiro pelos rios? No perímetro urbano de Manaus, no Porto do Ceasa
(acessível por ônibus local) apanhe a embarcação com destino a Careiro e cruze
o encontro das águas escuras do Rio Negro e barrentas do Solimões, que insistem
em correr lado a lado, sem se misturar – duração do passeio, duas horas (mais
do que bom para um cruzeiro); valor do investimento, zero (por balsa). O melhor
do passeio é que você vai poder interagir com autênticos manauaras, além de
imigrantes venezuelanos e haitianos.
O
município Careiro da Várzea, com seus 20 mil habitantes, destaca-se pelos
cuidados com o trabalho, a educação e a saúde de sua população. A rústica
Manacapuru, com seus 100 mil habitantes, que fica à margem do Solimões, a 100
km da Capital do Estado, e é acessível por terra, barco ou lancha (rápida),
também não apresenta o grau de pobreza e estratificação social presentes nesta
Manáos que sobrevive em deplorável abandono, maltratada e desumanizada, nas
palavras de Milton Hatoum, cercada pela floresta, mas ironicamente desprovida
de árvores e vegetação.
Fonte:
A Terra é Redonda

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