quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Jean-Jacques Kourliandsky: A América Latina e Donald Trump - resistir ou colaborar?

Desde sua posse, há pouco mais de um ano, Donald Trump não tem poupado a América Latina. Explorando uma relação de forças favorável aos Estados Unidos em todos os terrenos, ele exige, pressiona, intimida, sanciona e, desde 3 de janeiro de 2026, sequestra e bombardeia. Os fatos estão documentados. Ainda assim, convém relembrá-los para que se possa avaliar corretamente a sua real dimensão.

Se os fatos tiveram repercussão, as reações dos governantes submetidos a esse tratamento de choque são menos conhecidas. Como esses governantes atuaram para amortecer os golpes de autoridade e as demonstrações de força vindas do norte? Sem dúvida, não há aí nada de realmente novo. As ingerências e intervenções de toda ordem por parte de Washington não faltaram ao longo de duzentos anos. Contudo, desde 20 de janeiro de 2025, seu ritmo se acelerou de tal maneira que todos os dirigentes do continente passaram a ser atingidos simultaneamente. Como na fábula de La Fontaine, alguns resistem de forma frontal. Outros, porém, se curvam o quanto podem, na esperança de uma hipotética mudança de humor do presidente estadunidense. Alguns vão ainda mais longe e defendem, em nome do realismo, a submissão voluntária, o que pode chegar inclusive à colaboração simples e direta. Resistir, baixar a cabeça ou colaborar foram as três opções seguidas, com maior ou menor êxito, por uns e outros, para enfrentar o Caliban  da Casa Branca.

>>>> Trump: o choque das palavras, o choque das ações hostis

<><> O choque das palavras

Desde os primeiros dias, como lobo campestre errante, o chefe dos Estados Unidos marcou os quatro cantos da América Latina. O site em espanhol da Casa Branca foi fechado, o conselheiro gastronômico espanhol da presidência foi demitido, o Golfo do México foi rebatizado como “Golfo da América”, realizando, de passagem, uma aquisição estadunidense do próprio nome “América”. Para que a mensagem fosse bem compreendida, uma espécie de exposição pública de indesejáveis, acompanhada de legendas feitas sob medida –  praticamente todos latino-americanos – foi instalada nas calçadas que circundam a Casa Branca.

Um comunicado do Departamento de Estado recordou a importância de comemorar o aniversário do Tratado de Paris, que pôs fim à presença espanhola em Cuba e Porto Rico, ao término de uma guerra vencida pelos Estados Unidos . As regras do jogo foram sendo precisadas ao longo dos meses, por meio de declarações e mensagens eletrônicas. A tábua da Lei que rege as novas relações entre os Estados Unidos e o restante das Américas foi apresentada em novembro de 2025, no documento de orientação da política internacional que todo presidente é obrigado a apresentar, intitulado “Estratégia de Segurança Nacional”. O Hemisfério Ocidental – denominação dada pelos Estados Unidos à região – é tratado sem rodeios nesse documento oficial como um domínio reservado, no qual os Estados Unidos exercem uma espécie de protetorado. “A América”, lê-se no texto, “deve restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental […]. Devemos impedir que concorrentes não hemisféricos adquiram posições de força […] em nosso Hemisfério”.

<><> O choque dos atos hostis

Às palavras seguiram-se atos de ingerência de toda ordem. Vários missi dominici foram enviados ao presidente panamenho para constrangê-lo a suspender os contratos que formalizavam a presença da empresa chinesa de Hong Kong Hutchison Whampoa em ambas as extremidades do Canal. Voos fretados devolveram a diversos países da América Latina residentes apresentados, conforme as circunstâncias, como indesejáveis, delinquentes, criminosos ou portadores de transtornos mentais. Em seguida, veio o tempo das sanções comerciais, que passaram a atingir o conjunto da região. O desfecho – ainda provisório – desse percurso foi marcado por intervenções diretas na vida institucional de diversos países.

Os aliados políticos de Donald Trump beneficiaram-se, assim, de intervenções sob medida. Em julho de 2025, o juiz encarregado de conduzir o processo aberto contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, indiciado por atentado à ordem democrática, foi alvo de sanções unilaterais, assim como o ministro da Justiça do Brasil. No mês de outubro, Donald Trump sinalizou que ajudaria a Argentina a honrar sua dívida externa, caso, nas eleições legislativas, os eleitores votassem a favor dos candidatos apresentados pelo partido do presidente Javier Milei. Em novembro, ordenou a libertação do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por tráfico de entorpecentes por um tribunal dos Estados Unidos. Juan Orlando Hernández é membro do Partido Nacional, legenda do candidato à presidência Nasry Asfura, apoiado de forma aberta e enfática por Donald Trump.

Ao longo de todo o período, as sanções econômicas e financeiras já impostas pelos antecessores de Donald Trump contra Cuba, Nicarágua e Venezuela foram confirmadas e agravadas. Os chefes de Estado da Colômbia, do México e da Venezuela foram duramente criticados e ameaçados com sanções de caráter militar, caso não colocassem fim à sua suposta colaboração com traficantes de entorpecentes. A Colômbia perdeu, em 15 de setembro de 2025, a certificação de país cooperante com os Estados Unidos no combate às drogas. No mesmo dia, foi incluída, juntamente com outros 22 países, dos quais 13 latino-americanos, na lista definida pela presidência estadunidense como países de “trânsito ou produção de drogas ilícitas”. Em 16 de novembro de 2025, o Departamento de Estado classificou o “cartel venezuelano dos Sóis, dirigido por Nicolás Maduro” como organização terrorista.

O tom se elevou no final de 2025. Para pressionar os presidentes da Colômbia e da Venezuela, apresentados por Donald Trump como padrinhos do narcotráfico, a cooperarem, uma importante armada de navios e aeronaves, acompanhada por um submarino de propulsão nuclear, foi deslocada em setembro de 2025 para o Mar do Caribe, oficialmente com o objetivo de cortar a rota marítima da droga que supostamente partiria das costas da Venezuela e da Colômbia em direção aos Estados Unidos. Diversas embarcações foram afundadas e seus tripulantes mortos, à margem de qualquer legalidade internacional, sem que se apresentassem provas das acusações invocadas para justificar tais atos.

>>>> América Latina: resistir ou colaborar?

<><> Resistir?

Vários chefes de Estado e de governo recusaram-se a se submeter às injunções de Washington. Gustavo Petro, presidente da Colômbia, foi o primeiro a dizer claramente não aos desideratos unilaterais da Casa Branca. Esse não foi acompanhado por medidas espelhadas de retaliação, respondendo às ameaças de aumento das tarifas alfandegárias sobre as exportações colombianas para os Estados Unidos com taxas sobre as importações norte-americanas. Um pouco mais tarde, o Brasil também disse não às sanções adotadas por Washington contra o magistrado encarregado de conduzir o processo aberto contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Claudia Sheinbaum, presidente do México, em tom comedido, defendeu passo a passo a soberania de seu país. Nicolás Maduro, com sua cabeça colocada a prêmio pelos Estados Unidos (50 milhões de dólares), rejeitou as diretrizes de Washington e tentou impor um diálogo de igual para igual.

Seu sequestro, em 3 de janeiro de 2026, iniciativa estarrecedora tomada pelos Estados Unidos em violação tanto ao direito internacional quanto ao direito interno, obrigou o concerto latino-americano a se pronunciar. Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Guatemala, Honduras, México e Uruguai condenaram publicamente um ato considerado contrário à ordem internacional e praticado em violação à Carta das Nações Unidas. Cinco governos, conjuntamente com o presidente espanhol Pedro Sánchez, tornaram público, por meio de um comunicado, em 4 de janeiro de 2026, seu desacordo e reiteraram a necessidade de respeitar o direito internacional e a resolução pacífica das controvérsias: Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai. A Guatemala, embora não tenha condenado nominalmente os Estados Unidos, manifestou sua “profunda preocupação” e seu “compromisso com o respeito aos princípios consagrados pela Carta das Nações Unidas”. O Peru adotou uma posição semelhante.

Os que resistiram conseguiram preservar sua soberania? Sem dúvida, mas à maneira de Pirro. A Colômbia, acuada pelo anúncio de um aumento de 50% nas tarifas de entrada de seus produtos nos Estados Unidos, acabou por aceitar o retorno de seus conterrâneos expulsos dos EUA. A única concessão feita por Donald Trump foi permitir que fossem transportados em aeronaves enviadas por Bogotá. Na ausência de um aliado local – seu “amigo” Bolsonaro, condenado e encarcerado –, Donald Trump arquivou suas sanções contra o Brasil. Formado nos negócios, ele aguarda um retorno sobre o investimento. O Brasil foi “convidado” a participar do Conselho de Paz criado por Donald Trump para substituir as Nações Unidas. Quanto à Venezuela, foi bombardeada, e seu chefe de Estado sequestrado e encarcerado em uma prisão estadunidense. Seu petróleo, afirmou Donald Trump em 21 de janeiro de 2026, diante do público selecionado de Davos, na Suíça, é “nosso”. Sua exploração é supervisionada pelo secretário de Estado, Marco Rubio. As petroleiras norte-americanas, e algumas outras, foram convidadas para uma reunião de repartição do ouro negro venezuelano, organizada pela Casa Branca. O regime, a esse preço – a aceitação de um protetorado –, recebeu autorização para permanecer no poder.

<><> Colaborar?

Essa foi a escolha feita por muitos, de modos diversos. De forma mais discreta, um certo número de governantes lamentou o sequestro do presidente venezuelano, para em seguida registrar sua condenação do “ditador”. O Peru, na América do Sul, está entre esses casos. Outros, ainda mais cautelosos, sem condenar a violação da soberania venezuelana, lembraram seu apego ao direito como meio de resolver os contenciosos entre Estados, antes de reafirmar sua firme condenação do ditador Maduro. Alguns poucos mostraram-se mais proativos e priorizaram seu apoio a Washington, que teria posto fim a um regime de ditadura. Argentina, Bolívia, Costa Rica, Equador, Paraguai e El Salvador apoiaram publicamente a intervenção militar estadunidense em Caracas. José Antonio Kast, presidente eleito do Chile, ainda não empossado, adotou a mesma posição.

O “Estado Plurinacional da Bolívia”, por exemplo, declarou que “apoia da maneira mais firme e imediata o povo venezuelano em marcha no caminho da recuperação da democracia”. A nota da Costa Rica foi ainda mais direta. “Que Deus”, afirma o comunicado, “abençoe o valente povo venezuelano e o ajude a recuperar a democracia […] que o ditador Maduro lhe roubou”. A Argentina foi mais longe, recusando o intercâmbio de pontos de vista proposto pelo Brasil. “Não tenho nada a dizer a Lula sobre esse assunto”, declarou Javier Milei. Embora o Brasil tenha desempenhado, nos últimos meses, um papel incontestável para a conclusão do acordo de livre-comércio entre o Mercosul/Mercosur e a União Europeia, Lula não compareceu, no sábado, 17 de janeiro de 2026, à cerimônia oficial de assinatura do Tratado, realizada em Assunção, no Paraguai.

O juiz que ouviu, em Nova York, o ex-presidente Nicolás Maduro retirou, por falta de provas, qualquer menção ao chamado “Cartel dos Sóis” e, consequentemente, a acusação que visava seu suposto chefe, Nicolás Maduro. No dia seguinte ao seu “sucesso” militar – sem perdas humanas norte-americanas e sem validação do fundamento jurídico invocado – Donald Trump anunciou novas iniciativas hostis, tendo como alvos Colômbia, Cuba, Dinamarca (Groenlândia) e Irã. Diante dessas novas declarações, o que farão os latino-americanos? Resistir ou colaborar? Lula respondeu, em 18 de janeiro de 2026, no jornal The New York Times, a Donald Trump que “este hemisfério não pertence a um de seus componentes, mas a todos”. Mas os direitos desses componentes, Lula os defenderá sozinho – ou quase sozinho?

¨      Os “acordos de paz” de Trump. Por Wagner Sousa

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem se jactado em muitos de seus discursos como o sendo o “líder da paz” que “terminou oito guerras”, desde o início deste segundo mandato, o que claramente não procede. Algumas das “guerras” mencionadas não estavam em curso, como entre Sérvia e Kosovo ou entre Egito e Etiópia, tratando- se de tensões entre vizinhos. Outros conflitos como entre Paquistão e Índia, que cessaram, não têm o reconhecimento das duas partes sobre um suposto papel decisivo dos EUA como intermediador. Mas na habitual autocongratulação do republicano, estes “feitos” e outros supostos o credenciariam a tornar-se merecedor do Prêmio Nobel da Paz.

Talvez o fato do seu antecessor de primeiro mandato, Barack Obama, ter vencido a mesma premiação tenha algo a ver com isso. Na comparação do tamanho do público em suas primeiras posses, claramente favorável ao democrata, Trump insistiu em tentar demonstrar o contrário. Não cabe aqui incursões pela Psicanálise, mas o personagem, inusual em comparação com qualquer antecessor, e fundamentalmente egocêntrico, parece não perceber que, de fato, o seu país, embora ainda o mais poderoso, não tem mais a capacidade de “moldar” a ordem internacional como já teve no passado.

É importante destacar também que o “pacifista” Trump já autorizou, neste primeiro ano de governo deste mandato, o bombardeio de 7 países, o que inclui Iêmen, Irã, Iraque, Nigéria, Síria, Somália e Venezuela, o que revela que não há um “intuito pacificador” do presidente norte-americano, e sim, conforme já aconteceu em outras gestões, o manejo da guerra e da paz conforme os interesses da potência hegemônica. E no que diz respeito às tentativas de mediação, está se tornando clara a incapacidade desta potência em diferentes “tabuleiros” como na Faixa de Gaza, no conflito entre Camboja e Tailândia e na guerra na África Central envolvendo a República Democrática do Congo e rebeldes apoiados por Ruanda.

No caso da Faixa de Gaza, a “fase 2” do “plano de paz” incluiria a renúncia às armas pelo Hamas, a reconstrução da região e a implantação da governança prevista. Embora o mandatário norte-americano tenha reafirmado que esta segunda fase vai começar em breve, isto não deve ocorrer, por várias razões. O Hamas nunca se comprometeu a depor suas armas, conforme consta desta fase do plano, e Israel não dá sinais de que fará a desocupação gradual prometida do território. 400 palestinos e 3 soldados israelenses morreram desde o cessar-fogo de outubro, uma grande redução em relação à matança diária promovida até então pelas tropas israelenses, mas, ainda assim, evidentemente, uma situação trágica somada a todas as carências nesta catástrofe humanitária.

Israel não permitiu o envio de suprimentos na quantidade necessária, o que é um dos pontos do acordo. Países como a Indonésia ou o Azerbaijão, que se colocaram no início como dispostos a enviar tropas para a prevista força multinacional de paz já não parecem tão simpáticos à ideia. A administração de Gaza deve se dar por um “Conselho da Paz” a ser presidido por Donald Trump tendo também como designado “interventor anglo-saxão” o ex-Primeiro-Ministro britânico Tony Blair. A evolução do plano de Trump, se levada adiante, como anunciada, poderia, em tese, levar a um status futuro de autonomia à Gaza. Porém, a coalizão de extrema-direita que governa Israel já deixou claro que não aceita um Estado Palestino e, pelo contrário, vários membros do gabinete já externaram que querem anexar Gaza e a Cisjordânia. Trump tem pressionado o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu para que seu plano siga adiante, sem sucesso até o momento. E, demonstrando alinhamento com Israel, proferiu novas ameaças ao Irã.

“Estamos resolvendo uma guerra que já dura décadas”, afirmou Trump sobre o conflito entre a República Democrática do Congo e rebeldes apoiados por Ruanda. Um primeiro acordo, firmado em junho, não foi respeitado, e após uma reunião entre o mandatário estadunidense, o presidente congolês Félix Tshisekedi e o de Ruanda, Paul Kagame, em 05 de dezembro de 2025, os combates se acentuaram. Trump visava pacificar a região para tornar viáveis projetos de exploração mineral.

Outro dos conflitos “resolvidos” pela intermediação da administração Trump é o entre Tailândia e Camboja, que teve um frágil cessar-fogo acordado em julho e assinado em outubro. No início do mês de dezembro os combates foram retomados. A disputa se dá por áreas na fronteira dos países.

O que esses exemplos evidenciam é que apesar da disposição da atual administração dos EUA em realizar essas mediações e de o presidente as anunciar como êxitos, esses acordos não têm se sustentado. As razões podem ser discutidas caso a caso, mas parece evidente que o “ativismo” da gestão republicana em buscar essas soluções, no tempo bastante curto de menos de um ano de governo, para conflitos de anos ou décadas, não está considerando, na devida medida, a complexidade política envolvida nesses conflitos. O que se evidencia cada vez mais também é a crescente perda de capacidade dos Estados Unidos em exercer esse papel, seja pela perda da autoridade moral a partir do morticínio perpetrado por Israel na Faixa de Gaza, com não apenas tolerância, mas apoio material norte-americano, já a partir da gestão democrata de Joe Biden, seja pela mudança na correlação de forças na arena global, com destaque para a ascensão da China, que tem atuado em mediações como a que fez (e surpreendeu o mundo naquele momento) e foi concluída em 2023, para distensão entre Arábia Saudita e Irã, dois inimigos históricos.

A estes insucessos vendidos como sucessos da nova administração dos Estados Unidos se soma a nova “Estratégia de Segurança Nacional”, que se propõe a retomar, de forma bastante agressiva, a Doutrina Monroe, como está se vendo com a transformação da Venezuela numa espécie de protetorado, com as ameaças de anexação da Groenlândia, o desrespeito ao direito marítimo internacional com a captura de petroleiros que operam com bandeiras de terceiros países e o anúncio da saída dos EUA de mais de 60 organizações internacionais, tidas pelo governo Trump como contrárias aos interesses nacionais dos Estados Unidos. A ordem do pós-guerra, com suas leis e instituições internacionais construídas fundamentalmente pelos norte-americanos, vai sendo desmontada pelos próprios, por não mais atender às suas expectativas de expansão de poder. Menos regras e mais força bruta, menos instituições e mais Império.

 

Fonte: Observatório da Imprensa/Outras Palavras

 

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