O
'papa negro da umbanda' que transformou o culto a Iemanjá e 'inventou' o
Réveillon de Copacabana
Iemanjá
é uma das divindades mais reverenciadas nas religiões de matriz africana, como
o candomblé e a umbanda. Conhecida como rainha do mar e deusa da fertilidade,
da maternidade e da proteção, ela é originária da mitologia iorubá.
A data
de sua celebração, 2 de fevereiro, é um exemplo concreto do resultado do
sincretismo religioso tão comum na sociedade brasileira. No mesmo dia,
católicos veneram Nossa Senhora dos Navegantes — a protetora dos perigos das
águas, na piedade popular.
No
entanto, se Iemanjá se apropriou de uma data católica, o deslocamento de uma
homenagem à divindade afro acabou resultando na criação de uma das maiores
festas populares do Brasil: o Réveillon de Copacabana.
Tancredo,
que será homenageado no Carnaval pela Estácio de Sá, voltou à evidência no
último Réveillon carioca, quando o evento teve um palco gospel com programação
voltada para evangélicos.
Lideranças
de religiões afro criticaram o ato citando justamente a trajetória de Tancredo
e cobrando o que diziam ser uma coerência histórica com o que se pretendia,
originalmente, com a multidão trajando branco à beira-mar.
A festa
de Réveillon no Rio é considerada pelo Guinness, o livro dos recordes, como o
maior do mundo, movimentando mais de cinco milhões de pessoas em toda a cidade
do Rio de Janeiro — metade se concentra na praia de Copacabana.
Isso
não existia na primeira metade do século 20. Foi quando, mobilizados por um pai
de santo umbandista, um pequeno grupo de praticantes dessa religião foi até a
badalada praia na virada do ano de 1949 para 1950. Eles vestiam branco,
saudavam iemanjá e levavam oferendas para serem lançadas ao mar pouco antes da
meia-noite. Era o evento Flores de Iemanjá.
A
tradição vingou. A cada ano, o grupo ficava maior e o que era uma celebração
umbandista e candomblecista se tornava uma festa mais plural e menos associada
a qualquer religião diretamente.
O pai
de santo responsável por essa ideia é uma referência gigante para os seguidores
de religiões de matriz africana no Brasil. Tancredo da Silva Pinto (1904-1979)
nasceu em Cantagalo e foi uma das mais importantes lideranças umbandistas do
século 20. Acabou conhecido como "o papa negro da umbanda".
Geralmente
ele é chamado de Tata Tancredo. Tata — lê-se como se tivesse um acento agudo no
segundo "a", como "Tatá". É um título usado, sobretudo por
linhagens religiosas de matriz banto, para designar sacerdotes ou líderes.
"A
ligação do Réveillon de Copacabana com a atuação cultural, religiosa e política
de Tancredo da Silva Pinto é notória", afirma o historiador Diego Uchoa de
Amorim. "Aqueles que olham para os festejos de virada de ano que ocorrem
atualmente na orla mais famosa do mundo com seus megashows, milhões de pessoas
e turistas do mundo todo podem não ter noção de suas raízes."
O
historiador lembra que, se "o costume de levar flores ao mar, entregar
balaios e barcos de Iemanjá no final do ano nas praias não foi uma criação de
Tata Tancredo, pois encontramos fontes que nos mostram esse costume do povo
carioca desde finais do século 19 em diferentes praias como Caju, Ramos,
Glória, Flamengo, Ilha do Governador, entre outras", o grande mérito do
líder umbandista veio "com a idealização e articulação das Flores de
Iemanjá na orla de Copacabana, principalmente, nas décadas de 1950 e 1960."
Além de
promover esse rito, ele mobilizou outros terreiros, de todas as regiões da
cidade, para que participassem juntos. Gradualmente, também ganhou a adesão de
representantes de outros Estados, como São Paulo e Minas Gerais, além de
autoridades públicas e policiais.
Ele
conseguiu, diz Amorim, atribuir "um sentido político de afirmação do povo
de terreiro no espaço público", e isso se tornou "tática na luta pela
liberdade religiosa e no combate ao preconceito".
"A
história do Brasil deve ainda muitas páginas à Tata Tancredo", diz a
jornalista e cientista da religião Claudia Alexandre, dirigente umbandista e
pesquisadora do Centro de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e das
Culturas Negras da Universidade de São Paulo (USP).
Alexandre
é autora dos livros Orixás no Terreiro Sagrado do Samba e Exu-Mulher e o
Matriarcado Nagô. Para ela, a atuação de Tata Tancredo foi política, cultural e
religiosa no combate à intolerância religiosa, ao racismo religioso e ao
embranquecimento da umbanda e do candomblé.
"Ele
foi um importante personagem da época em que os negros, na cidade do Rio,
buscavam maneiras de enfrentar a marginalização social, reafirmando valores
coletivos através dos sambas, das escolas de samba e dos terreiros, para
resistir às opressões sociais e ao racismo estrutural", afirma Alexandre.
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De ritual religioso à festa para todos
"Segundo
a cobertura da imprensa na época, identificamos com o passar dos anos cada vez
mais umbandistas se articulando para participar com suas indumentárias na cor
branca, fios de conta, tambores, presentes e velas para a rainha do mar",
diz o historiador Amorim. Logo, o Réveillon reunia mais de 800 terreiros.
"Observamos
relatos do crescimento de pessoas abastadas do próprio bairro que passaram a
descer para as areias perto da virada para tomarem seus passes nas giras que
aconteciam, deixar suas oferendas e pular suas ondinhas. Então, podemos afirmar
sim que o Réveillon mais famoso do mundo e agora recordista está intimamente
ligado às ocupações do espaço público pelos povos de axé e contou com o
protagonismo de Tancredo", ressalta o historiador.
Amorim
estuda a trajetória do líder umbandista há praticamente dez anos, desde seus
tempos de graduação, na Universidade Federal Fluminense. Tata Tancredo foi tema
de seu mestrado e, agora, vem sendo analisado em sua pesquisa de doutorado,
desenvolvida na Universidade Salgado de Oliveira, em Niterói.
"Tata
Tancredo era uma sumidade", diz Alexandre, acrescentando que os moradores
do entorno da praia de Copacabana, "um bairro de elite", em um
primeiro momento reagiram mal ao evento afro de Réveillon. "Mas em pouco
tempo a tradição passou a atrair simpatizantes que, influenciados pelo clima
festivo e religioso, iam à praia repetindo o traje na cor branca e o gesto de
entregar flores ao mar, saudando o novo ano e fazendo pedidos à rainha do
mar".
Alexandre
comenta que, nos primeiros anos, alguns entendiam aquilo como "uma
invasão" dos terreiros "para a região nobre. Ficavam
indignados". Mas nos anos 1960 a festa já atraía 400 mil pessoas.
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Um articulador
Tancredo
nasceu em uma família de ex-escravizados que já praticavam ritos de matriz
africana. Ainda jovem, mudou-se para o Rio e lá acabou sendo um dos
responsáveis pela consolidação da umbanda como uma religião.
Mas o
contexto era de repressão estatal. O Código Penal de 1890 criminalizava o que
eram chamadas de "práticas de espiritismo, magia e seus sortilégios".
Na Era Vargas, de 1930 a 1945, a repressão era intensa.
A
Constituição de 1946 passou a garantir liberdade religiosa, mas intolerância e
preconceito contra religiões africanas seguiram. Tancredo cada vez mais se
tornava uma referência no meio religioso afro. Articulou, fundou e integrou
diversas associações e federações da área, sobretudo umbandistas.
Assim,
ele buscava um amparo jurídico e político, ao mesmo tempo em que procurava
quebrar o estigma social — e a festa na virada do ano não deixava de ser, em
seus primórdios, uma maneira de os rituais transcenderem os terreiros e estarem
à vista da alta sociedade carioca.
Na
definição de Amorim, Tancredo foi "sem dúvidas um dos nomes mais
importantes na luta pela liberdade religiosa no Brasil do pós-abolição".
"Ele se destacou no processo de legitimação da umbanda enquanto religião,
entre as décadas de 1930 e 1950", diz o historiador.
Além de
ter, de certa forma, "inventado" o Réveillon carioca, Tancredo esteve
à frente de outros grandes eventos, como a histórica gira de umbanda que reuniu
40 mil adeptos no Maracanã em maio 1965. Gira é uma reunião ritualística em que
médiuns, em círculo, incorporam entidades.
O
historiador explica que havia um "processo de desafricanização" da
religião entre as décadas de 1940 e 1960, e Tancredo empreendeu um combate a
isso, situando as raízes do culto na região centro-ocidental africana e
reforçando "seus fundamentos, como o uso de tambores, os pontos em línguas
africanas, o uso de indumentárias tradicionais e a manutenção dos cortes de
animais com fins ritualísticos, entre outros".
"Quando
pensamos em Tancredo e sua relação com as religiões de matriz africana,
precisamos contextualizar sua luta, pois estamos falando do Brasil durante o
século 20, no qual o preconceito, a discriminação e a repressão policial ainda
eram realidades vivas para os povos de terreiros em decorrência do racismo
estrutural que caracteriza o país", lembra o historiador.
"Tancredo,
mesmo com toda dificuldade que encontrou e passou por cima com suas táticas e
articulações, conseguiu conquistas em relação ao espaço público com seus
eventos religiosos."
Entre
essas instituições estão a Confederação Espírita Umbandista do Brasil, de 1950,
e a Congregação Espírita Umbandista do Brasil, de 1968.
Tancredo
também esteve na fundação da União das Escolas de Samba, da União Brasileira de
Compositores e da Federação Brasileira das Escolas de Samba. "Foi um
defensor da preservação das tradições afrobrasileiras", diz Alexandre.
Em
1956, ele e outras lideranças reportaram à Organização das Nações Unidas (ONU)
o contexto das religiões de matriz africana no Brasil, dando visibilidade
internacional à luta contra a tolerância religiosa.
Tancredo
também foi autor ou coautor de livros sobre a história e as práticas da
religiosidade afrobrasileira, como Origens da Umbanda, de 1970, e Negro e
Branco na Cultura Religiosa Afrobrasileira, de 1976.
"Ele
não apenas defendeu uma origem africanista para a umbanda como inseriu neste
campo uma nova vertente, a umbanda omolocô, que seria a junção das práticas
omolocô, do povo de Luanda Quiôco, com outras tradições africanas, indígenas,
católicas e kardecistas, que ocorreram no Brasil", conta Alexandre.
Autor
do livro Apropriação Cultural, o sociólogo, antropólogo e babalorixá Rodney
William Eugênio comenta que Tancredo "não recebeu à toa o título de papa
negro da umbanda". "Teve grande importância para a manutenção de uma
raiz afro-indígena e na resistência contra o embranquecimento dessa
religião", afirma.
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Sambista
A
atuação de Tancredo não se limitou à seara religiosa. Ele foi compositor de
sambas e um dos fundadores da Federação Brasileira das Escolas de Samba, em
1947.
Morava
no morro de São Carlos, no bairro do Estácio, uma das favelas mais antigas do
Rio. A comunidade é considerada o berço do samba moderno. Ali vivia o
compositor e cantor Ismael Silva (1905-1978), entre outros sambistas. Era o
grupo conhecido como "os bambas do Estácio" — e Tancredo também fazia
parte dessa turma.
Liderados
por Silva, eles foram os criadores da Deixa Falar, a primeira escola de samba
da história, que nasceu como bloco em 1928.
Tancredo
compôs, em parceria com Sátiro de Melo (1900-1957) e José Alcides (1918-1978),
um samba-marcha aclamado como o maior sucesso do Carnaval de 1950: General da
Banda, que ganhou as rádios na voz de Blecaute, nome artístico de Otávio
Henrique de Oliveira (1919-1983).
"A
inspiração da composição, segundo Tancredo, veio do pedido do orixá rei Xangô
para que ele criasse uma instituição para defender o povo de terreiro",
conta Amorim. "Após o sucesso da canção, parte da arrecadação dos direitos
autorais foram investidos na criação da Confederação Espírita Umbandista, em
1950."
"As
encruzilhadas entre o samba, a política e a religiosidade marcaram a trajetória
de Tata Tancredo", acrescenta o historiador.
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Estátua e Carnaval
"Além
de grande sambista e compositor, Tancredo tinha uma facilidade em dialogar em
diversas camadas da sociedade e uma ousadia típica das grandes
lideranças", diz Eugênio.
"Tancredo
não só defendeu uma umbanda negra, como foi o visionário nas estratégias de
crescimento, difusão e popularização do culto. Além de ter dado início ao
Réveillon festivo e profundamente conectado com nossa ancestralidade em
Copacabana, lotou o Maracanã e promoveu as macumbas cariocas de uma forma tão
eficiente que, apesar de tantas tentativas, nunca conseguiram apagar seu
legado."
Esse
debate voltou à tona no final do ano, quando o prefeito do Rio, Eduardo Paes,
rebateu as críticas ao evento para evangélicos no Réveillon, dizendo "é
impressionante o nível de preconceito dessa gente". A expressão "essa
gente" caiu mal. Para muitos umbandistas e candomblecistas, soou ofensivo
e até intolerante.
Depois
o prefeito voltou ao tema em suas redes sociais fez um aceno aos religiosos de
matriz africana. "Não foram poucas vezes em que saí em defesa dessas
tradições, do respeito à fé e do combate à intolerância religiosa", disse,
prometendo que iria dialogar com lideranças do segmento para decidir como
viabilizar uma homenagem a Tancredo que, segundo ele, ganhará uma estátua no
Rio.
Hoje
cristão evangélico, o escritor, palestrante e pesquisador Oliver Dara era
babalaô — sacerdote do rito iorubá — e frequentador de terreiros de candomblé e
de umbanda.
Ele
reconhece que Tancredo "sofreu forte resistência e preconceito" nos
primeiros anos do evento em Copacabana e cobra um discurso de tolerância e paz
entre as vertentes religiosas.
"Como
cristão, confesso que é triste observar que ainda existe muito atrito
ideológico nessas questões e muitas pessoas buscam se posicionar, debatendo
temas sem sentido, como no último Réveillon em que lideres de matriz africana
questionaram a prefeitura do Rio, sobre o palco gospel", afirma Dara, que
é autor do livro Jesus Me Aceitou! E Agora?
"Os
evangélicos seguem se apropriando dos espaços e das festas com conivência e
apoio do poder público. O prefeito se desculpou, dizendo que vai instalar uma
estátua em homenagem a Tancredo, mas as manobras que sempre investem contra a
umbanda e o candomblé ainda ditam as regras numa cidade que se veste quase que
inteiramente de branco no Réveillon enquanto oprime e reprime as manifestações
da cultura negra", critica Eugênio.
"Tancredo
fez história e o Réveillon brasileiro tornou-se o que é hoje, ou seja, uma
mistura de festa, espiritualidade e misticismo, em razão de sua coragem em
levar seu povo para fazer macumba na beira da praia, em plena zona sul
carioca", diz o sociólogo. "É fato que ele deu origem a tudo
isso."
No
Carnaval deste ano, o líder umbandista será homenageado. A escola de samba
Estácio de Sá, da série ouro (equivalente à segunda divisão do Carnaval do
Rio), levará para a avenida o enredo Tata Tancredo — O Papa Negro no Terreiro
do Estácio.
Amorim,
o historiador, está desde o início da concepção envolvido no processo de
construção do enredo.
Fonte:
BBC News Brasil

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