Eduardo
S. Vasconcelos: Medo, fé, necropolítica
Há uma
cena que se repete a cada grande operação policial. De manhã, o noticiário
exibe helicópteros sobrevoando favelas, tiros, viaturas em comboio, colunas de
fumaça. À noite, nas redes sociais, o clima é outro: pessoas que se veem como
pacíficas, trabalhadoras, religiosas, defensoras da família, escrevem frases
como “tem mais é que morrer tudo”, “limpa esse morro”, “bandido bom é bandido
morto”. Na semana seguinte, nos cultos e missas, orações “pelos policiais em
combate” se misturam a agradecimentos a Deus pela “vitória contra o mal”.
Esse
paradoxo é o ponto de partida deste texto. Não se trata de casos isolados de
crueldade individual, mas de um arranjo social poderoso que combina medo,
linguagem e fé em uma sociedade marcada por desigualdade extrema, racismo
estrutural e abandono estatal. Quando certas vidas são rotuladas como
“bandidos”, “psicopatas”, “demônios”, elas deslizam para fora do círculo da
humanidade comum. Deixam de ser problema público e passam a ser descarte.
O que
está em jogo aqui não é apenas a truculência de uma operação ou o exagero de um
comentário. É a fronteira do aceitável numa democracia.
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Quando a palavra vem antes do tiro
Antes
que qualquer perícia seja feita, antes que os nomes dos mortos sejam
conhecidos, a história já chegou pronta à tela: “guerra ao tráfico”,
“megaoperação em área de risco”, “tiroteio entre polícia e criminosos”. As
palavras decidem quem é o “nós” que se defende e quem é o “eles” que ameaça. O
conflito ganha um script: de um lado, o Estado que reage; de outro, uma massa
indistinta de suspeitos.
Termos
como “confronto”, “baixa”, “neutralização”, “elemento abatido” parecem
técnicos, mas funcionam como anestésico moral. Ao invés de “pessoas mortas por
ação policial”, ouvimos “criminosos caíram em confronto”. A operação semântica
é precisa: o foco sai da violência praticada pelo Estado e se desloca para o
rótulo colado nos corpos.
Quando
o crime é descrito como “praga”, “câncer”, “infestação”, ninguém imagina
famílias, trabalhadores precarizados ou jovens com trajetórias marcadas por
falta de oportunidades. Vê-se uma sujeira a ser removida do “corpo saudável” da
cidade. Não é por acaso que expressões como “limpar a área” ou “fazer faxina”
sejam tão populares: elas preparam o terreno simbólico para aceitar a ideia de
que matar, ali, é uma forma de saneamento moral.
Em
segurança pública, metáfora não é detalhe estético. É bússola. Se o crime é
“guerra”, a solução é exército, armas, território inimigo. Se é “doença
social”, a solução passa por prevenção, políticas públicas, urbanismo, escola,
trabalho. A metáfora decide, silenciosamente, a direção do orçamento.
No
Brasil, há décadas escolhemos a gramática da guerra. Resultado: favelas e
periferias são tratadas como trincheiras internas. A presunção de inocência
deixa de ser um direito universal e passa a depender do endereço: se o CEP é de
favela ou de periferia, a pessoa é tratada como suspeita antes mesmo de dizer
seu nome. Assim, a exceção deixa de ser ruptura pontual para virar modo de
governo aplicado, em primeiro lugar, a determinados territórios e corpos.
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Psiquiatria de botequim
Nesse
cenário, uma outra linguagem entra em cena: a dos rótulos psiquiátricos
improvisados. “Com esse tipo de gente não tem conversa”, “não tem cura”, “é
tudo psicopata”, “predadores”, “monstros”. À primeira vista, parece apenas
raiva. Mas, do ponto de vista político, é um movimento central: retirar certas
pessoas do campo da cidadania e colocá-las no campo do lixo humano.
Ao
longo do século XX, a retórica da “periculosidade” e da “degenerescência moral”
serviu para legitimar internações compulsórias, segregação e expansão brutal de
políticas penais. A figura do “anormal” e do “delinquente”, analisada por
Michel Foucault, nasce justamente nesse cruzamento entre justiça, medicina e
polícia: não se pune apenas o ato, fabrica-se um tipo humano perigoso por
natureza.
Esse
passado retorna quando, diante de uma chacina, a explicação rápida é: “não tem
jeito, são psicopatas”. Se não há cura, não há política social que se
justifique. Se “só entendem a linguagem da força”, não há reforma de polícia
que faça sentido. Se são “monstros”, não são sujeitos de direito. A utopia
democrática de um sistema que julga casos e contextos cede lugar ao fatalismo:
resta apenas eliminar.
Essa
lógica cai como luva em um país atravessado por frustração econômica, colapso
de serviços públicos e humilhação diária. Em vez de admitir que o crime é
alimentado por desigualdade, racismo, armas circulando livremente, ausência de
políticas para a juventude, é mais confortável depositar tudo em indivíduos
supostamente defeituosos de origem. O “criminoso irrecuperável” vira um espelho
invertido no qual a sociedade se vê como saudável, normal, inocente.
Há, no
entanto, outra tradição dentro da própria saúde mental: a reforma psiquiátrica
e a luta antimanicomial, que deslocaram o eixo da contenção para os direitos,
laços comunitários e participação social. Quando esse olhar é levado ao debate
de segurança, muita coisa muda. Fica mais difícil aplaudir operações que matam
dezenas de jovens negros em poucas horas e chamá-las de “higienização”. Fica
mais difícil tratar bairros inteiros como grandes manicômios a céu aberto, onde
a única “terapia” é o caveirão.
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Medo, raiva e a tentação autoritária
Se a
linguagem prepara o terreno, o medo é o combustível. Em tempos de crise, a
mesma pessoa que se comove com a dor do vizinho pode escrever “tem mais é que
morrer tudo” depois de assistir a uma sequência de reportagens sobre o crime.
Não é que seu caráter tenha mudado da manhã para a noite. É que o medo, quando
se torna crônico, começa a sequestrar a razão.
A
psicologia social há muito descreve esses mecanismos. Sob ameaça permanente, o
psiquismo busca atalhos: identifica-se com o agressor (“melhor estar do lado de
quem atira”), divide o mundo em bloco de “gente de bem” versus “bandidos”,
projeta no inimigo tudo o que não quer enxergar em si mesmo (ódio, desejo de
vingança, crueldade). Ao chamar o outro de “lixo humano”, o sujeito se livra,
por alguns segundos, da própria sensação de impotência.
Há
também o desengajamento moral: eufemismos (“excesso”, “baixa”), difusão de
responsabilidade (“é a polícia, não eu”), desumanização (“essa gente”,
“vagabundos”), culpabilização da vítima (“se morreu, alguma coisa fez”). São
dispositivos ordinários, não patologias raras. E são acionados com mais força
quando a sensação de que “ninguém está no comando” é dominante. Nessa hora,
ganha espaço o líder que promete “resolver de qualquer jeito” e trata garantias
constitucionais como frescura de quem não vive “na vida real”.
Nada
disso significa que as pessoas sejam fantoches da mídia ou do inconsciente.
Significa, porém, que a adesão a soluções autoritárias não nasce no vácuo. Ela
é cultivada em um ambiente onde o medo é real – tiroteios, assaltos, domínio
territorial por grupos armados – e a resposta do Estado é, quase sempre,
tardia, desigual, seletiva. O problema é quando esse medo legítimo deixa de ser
enfrentado com políticas de redução de homicídios, urbanismo, escola, saúde,
cultura, e passa a ser usado como justificativa para o extermínio.
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Quando a bala vem abençoada
É nesse
ponto que entra a fé. Não a fé como experiência íntima de transcendência ou
compromisso com os pobres, mas a fé capturada por projetos de poder. Nas
últimas décadas, uma parte importante do campo religioso no Brasil passou a ler
a política como capítulo de uma guerra espiritual: de um lado, Deus, a família,
a ordem; de outro, Satanás, a “ideologia de gênero”, os “inimigos da pátria”.
Quando
essa gramática é aplicada à segurança pública, o efeito é devastador. Se o
“bandido” é visto como agente do Diabo, o território periférico como fortaleza
das trevas e a operação policial como cruzada purificadora, a morte deixa de
ser problema jurídico para se transformar quase em liturgia. A frase “que Deus
proteja nossos guerreiros” passa a conviver com a naturalidade com que se
comenta “foram só bandidos”.
A
teologia da prosperidade reforça esse quadro. Ao pregar que a vida bem-sucedida
é recompensa da fé e do esforço individuais, ela ajuda a reembalar a
desigualdade como prova de mérito. Os que sobem na vida seriam “abençoados”; os
que permanecem na miséria, os que “não foram fiéis”, “se desviaram”, “deram
brecha ao inimigo”. A ralé, para usar o termo de Jessé Souza, é convertida em
categoria espiritual: gente que não deu certo porque não quis, não creu, não
obedeceu.
Nesse
contexto, o “bandido” condensa todos os fracassos: não trabalhou honestamente,
não seguiu a palavra, não respeitou a família, ameaça os “de bem”. É o bode
expiatório perfeito. Em vez de questionar a estrutura que produz miséria,
violência e desespero, a sociedade despeja sua ira em corpos muito específicos:
jovens, negros, de periferia. A necropolítica – o poder de decidir quem deve
viver e quem pode morrer – ganha, assim, um verniz religioso.
É
importante lembrar que este não é o único cristianismo em circulação.
Pastorais, comunidades de base, teologias da libertação e grupos periféricos há
décadas denunciam a violência estatal e o racismo em nome de um Deus
comprometido com os últimos. De um lado, a fé que abençoa a bala; de outro, a
fé que chora cada corpo caído. A disputa religiosa é também disputa de projeto
de país.
ADPF das Favelas
Do
ponto de vista institucional, a forma mais acabada da combinação entre medo,
linguagem e fé é aquilo que Achille Mbembe chamou de necropolítica: a
administração seletiva da morte como instrumento de governo. Ao olhar para o
mapa do Rio de Janeiro, a lógica é evidente. As mesmas áreas onde faltam
saneamento, escola, posto de saúde e transporte são aquelas onde operações
policiais letais viram rotina. Nessas zonas, a Constituição chega enfraquecida,
quando chega.
A
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, a ADPF das Favelas, foi
uma tentativa de frear, pelo alto, essa normalização do massacre. A partir de
2019, o Supremo Tribunal Federal impôs limites concretos às operações:
restrição durante a pandemia, comunicação prévia ao Ministério Público,
justificativa da excepcionalidade, preservação de cenas de crime, guarda de
provas, planos de redução de letalidade, uso de câmeras corporais.
Em uma
democracia minimamente coerente, decisões assim deveriam ser motivo de
consenso: menos mortes, mais transparência, mais controle. Em vez disso, foram
tratadas por parte de autoridades e comentaristas como “amarras” ao trabalho da
polícia, “interferência” na segurança pública, “proteção a bandidos”. A crítica
não se dirigia a casos específicos de abuso, mas à própria ideia de que o uso
da força pelo Estado precisa se submeter a freios constitucionais.
É aqui
que os conceitos se embaralham. “Estado de direito” passa a ser invocado para
justificar o contrário do direito. “Soberania nacional” é usada para atacar a
corte que, justamente, tem o papel de guardar a Constituição. “Dever de
capturar homicidas” vira senha para desautorizar qualquer limite imposto à
letalidade policial. O discurso assume a forma: se o Supremo manda preservar
provas, é porque “não sabe como é a realidade da favela”; se exige câmeras no
uniforme, é porque “não confia na polícia”.
No caso
da Operação Contenção, em 2025, que deixou cerca de 120 mortos no Rio de
Janeiro, o roteiro se repetiu. O governo estadual celebrou “sucesso” com base
no número de corpos e na ideia genérica de que todos teriam reagido. Pouco se
falou sobre nomes, idades, vínculos, circunstâncias, provas. O fato de haver
uma decisão do STF em vigor, estabelecendo limites à ação policial, foi tratado
como detalhe incômodo.
Quando
um país aceita discutir segurança apenas nesses termos – mais mortos
significando mais eficiência – a democracia está cercada.
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Uma agenda mínima
Diante
desse quadro, é fácil ceder ao pessimismo ou à tentação de respostas
simplistas. Mas o caminho mais honesto talvez seja outro: assumir que o
problema é político, não técnico, e propor uma agenda mínima para quem ainda
leva a sério a palavra “democracia”.
Primeiro:
reconhecer que segurança pública não é assunto para delegar apenas a
corporações armadas e especialistas de estúdio. É política de primeira ordem.
Diz respeito a quem vive e a quem morre, a quem é protegido e a quem é
sacrificado. Enquanto tratarmos o tema como “questão de polícia”, abrimos mão
de decidir coletivamente sobre o uso legítimo da força.
Segundo:
levar a sério o que já está escrito. A ADPF das Favelas é marco importante,
assim como decisões que obrigam o uso de câmeras corporais, o registro de dados
confiáveis e o controle de letalidade. Em vez de driblar essas normas, governos
deveriam transformá-las em norte: plano de redução de homicídios com metas
claras, transparência ativa, responsabilização de abusos, promoções atreladas à
preservação de vidas, e não à “produtividade” medida em corpos.
Terceiro:
substituir espetáculo por evidência. Operações midiáticas, leis “mais duras”
sem capacidade de aplicação e encarceramento em massa não têm sido capazes de
reduzir de forma sustentada os homicídios. Experiências que combinaram foco
territorial, inteligência, políticas sociais e participação comunitária mostram
mais resultados, mesmo sem render manchetes estrondosas. A pergunta não pode
ser “o que rende mais cliques?”, e sim “o que efetivamente diminui mortes?”.
Quarto:
recolocar a vida no centro da ideia de segurança. Isso parece óbvio, mas não é.
Segurança que se constrói sobre o cadáver sistemático de jovens negros e pobres
não é segurança: é gestão de extermínio. O único indicador aceitável para medir
sucesso em segurança pública é a redução consistente de homicídios, letais em
geral e por intervenção policial em particular. Todo o resto é narrativa.
Por
fim, disputar linguagem, cultura e fé. Isso significa questionar metáforas de
guerra e faxina, cobrar da mídia que pare de narrar operações como campeonato
de morte, fortalecer vozes religiosas que defendem a vida e não a bala,
garantir que moradores de favelas e periferias não sejam apenas objeto das
políticas, mas sujeitos na sua formulação.
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Entre a bala e a palavra
No fim,
talvez a pergunta mais importante seja esta: que tipo de morte um país tolera
sem se comover? Se uma chacina em bairro nobre provoca comoção nacional,
enquanto a repetição de massacres em favelas é recebida com alívio ou
indiferença, a resposta já está dada. A própria ideia de humanidade foi
hierarquizada.
Este
texto foi escrito a partir da convicção de que ainda é possível dizer não a
esse destino. Dizer não à transformação do medo em projeto autoritário; não ao
uso da fé para abençoar o massacre; não à linguagem que reapresenta o
extermínio como política pública. E dizer sim a outra coisa: à ideia, simples e
difícil, de que a vida de cada pessoa – inclusive aquela de quem discordamos,
inclusive aquela que cometeu crimes graves – é limite inegociável para a ação
do Estado.
Enquanto
essa convicção puder ser escrita, debatida e defendida em espaços públicos,
ainda haverá algo de democrático a ser preservado. A questão é saber de que
lado da história queremos estar quando, daqui a alguns anos, olharmos para trás
e perguntarmos: em nome de que, e de quem, deixamos o Estado matar?
Fonte:
A Terra é Redonda

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