Uma
utopia tecnopolítica
João
Francisco Cassino e Ricardo Bimbo publicaram, em 27 de janeiro de 2026, um
artigo no site A Terra é Redonda com o título “Tecnociência solidária”.
O texto
abre com essa frase: “A tecnociência solidária propõe uma revolução
epistemológica: substituir a métrica das patentes pelos comuns do conhecimento,
alinhando ciência às urgências sociais e não ao mercado”.
E mais
adiante: “uma das posições mais avançadas vem das ideias do professor da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Renato Dagnino, que também é
membro de nosso setorial. Dagnino defende o estabelecimento de uma tecnociência
solidária”.
Analisando
de perto as proposições de Renato Dagnino, que os autores defendem e tomam como
centrais em seu texto, a proposta de uma tecnociência solidária acaba por
esbarrar em um erro teórico básico: tratar a ciência e a tecnologia como
possíveis de serem autonomamente reorientadas, quando são formas histórica e
socialmente determinadas do processo de valorização capitalista.
As
máquinas, a tecnologia e a ciência não são instrumentos neutros que podem ser
capturados por projetos normativos variados. São, objetivamente, capital fixo
incorporados à subsunção real do trabalho ao capital. O desenvolvimento
científico e tecnológico entra no processo produtivo como força produtiva do
capital e não do trabalhador nem da sociedade.
Ao
deslocar o foco da crítica da forma-valor, as diferentes maneiras pelas quais o
valor, trabalho humano abstrato, se manifesta necessariamente para a orientação
da tecnociência, Renato Dagnino transforma um efeito da relação capitalista,
que é a organização técnica e científica da produção, em território
privilegiado de sua superação.
Isso
conduz a dissociação entre técnica e forma social. A questão de fundo não é que
a tecnologia esteja mal direcionada, como pretende nos fazer crer Renato
Dagnino, mas que ela é um meio de extração de mais-valia relativa,
intensificação do controle sobre o trabalho e expulsão da força de trabalho do
processo produtivo. As máquinas não são somente apropriadas pelo capital. Elas
são projetadas, organizadas e implantadas obedecendo a lógica da valorização
contínua do capital. A contradição entre o desenvolvimento das forças
produtivas e a forma capitalista de produção não aponta para uma reprogramação
solidária da técnica.
Aponta
para que o próprio desenvolvimento científico aprofundará a crise da forma
social, tornando-a insustentável. A tecnociência solidária, ao imaginar uma
ciência diferente no interior das mesmas relações sociais, capitalistas,
neutraliza essa contradição objetiva e a converte num problema de desenho
institucional.
A
aposta de Renato Dagnino no Estado como agente de reorientação tecnocientífica
aparece como ilusão política típica do reformismo. O Estado não é um árbitro
externo capaz de reorganizar racionalmente a sociedade. É uma forma política
inseparável da reprodução do capital, necessária à garantia da propriedade
privada, do mercado de trabalho e da acumulação. Não cabe a expectativa de que
políticas públicas de ciência e tecnologia possam subverter relações sociais
que o próprio Estado existe para reproduzir.
Assim,
o que a tecnociência solidária propõe não é uma transição pós-capitalista. É
uma administração alternativa da miséria estrutural em que o desenvolvimento
científico é fetichizado como solução para contradições que só podem ser
resolvidas pela abolição da forma-valor, da exploração do trabalho e do
controle alienado do processo produtivo.
A
tecnociência solidária constitui uma forma específica de fetichismo. Atribui
ação histórica e capacidade de emancipar a classe trabalhadora e a sociedade
como se possuísse eficácia própria e autonomia frente às relações sociais que a
constroem. O fetichismo é a inversão entre sujeito e objeto em que as relações
sociais aparecem como propriedades de coisas.
Ao
defender que a tecnociência possa ser reorientada para fins solidários, sem a
superação da forma-valor, se repete essa inversão ao transformar a ciência e a
tecnologia, que são materializações da relação capitalista, em agentes ativos
da transformação social, escondendo que sua forma histórica é determinada pela
subsunção real do trabalho e pela lógica da valorização capitalistas.
Esse
fetichismo é em última instância uma mistificação política do Estado. Ao dizer
que políticas públicas de ciência e tecnologia podem ser eixo estratégico de
superação do capitalismo, a tecnociência solidária atribui ao Estado uma
capacidade de neutralização das contradições do capital que não existe. O
Estado é a forma necessária da reprodução das relações capitalistas. Ao dar
esse papel a tecnociência solidária, que acredita na capacidade estatal de
conversão, transforma a crítica da economia política em teologia da técnica.
A
emancipação da classe trabalhadora e do povo deixa de ser resultado da
destruição das categorias do capital e passa a depender da gestão esclarecida
de seus instrumentos. O resultado não é a superação do fetichismo, mas sua
sofisticação ideológica, agora disfarçada de projeto de emancipação.
Seguindo,
o texto pergunta: “como fazer esse movimento acontecer no mundo real?”. E a
resposta: “A única forma de avançarmos, na prática, será pelo convencimento do
grupo 3, os neodesenvolvimentistas. Nesse sentido, precisamos mostrar a eles
que as pesquisas solidárias dão resultados concretos para o desenvolvimento
social”. Na prática isso significa sair do campo das lutas sociais para o campo
de convencer uma certa parcela de uma suposta elite científica, contabilizada
no texto em cerca de, se tanto, menos de 3.000 pessoas.
Não
parece ser cabível que uma população de mais de 200 milhões de habitantes,
complexa, dividida em classes e frações de classe com interesses antagônicos,
afinal vivemos sob o modo de produção capitalista, dependa do convencimento
desse menos que minúsculo contingente de pessoas para se emancipar de relações
de submissão, superexploração e outros males.
O que
está se propondo na prática é a supressão da luta de classes, das lutas
cotidianas do povo, dos duros enfrentamentos políticos e da necessidade da
classe trabalhadora assumir as rédeas de seus destinos. Precisamos ter uma
crença quase religiosa nesse punhado de estrelas das nossas pesquisas
tecnológicas e científicas. Acreditar que eles, se convencidos, serão capazes
de serem os agentes que portam o nosso futuro. Essa é uma utopia tecnopolítica
fetichizada e despolitizante. É uma estratégia que substitui a luta pelo poder
por soluções parciais e técnicas. Uma utopia não substitui a luta de classes.
Isso
resume todas a luta secular pela emancipação da classe trabalhadora e com ela a
emancipação de toda sociedade a nada. Revoluções russas, cubanas, chinesas,
vietnamitas foram inúteis por não terem acreditado no potencial emancipatório
de suas elites científicas. Se tivessem ido por esse caminho viveríamos em
outro mundo.
O mundo
da felicidade e do bem viver, proporcionados pela contribuição da tecnociência
solidária, conduzida por essa casta de ilustres de uma elite, finalmente seria
alcançado, sem nenhuma luta e sem o uso de nenhuma força ou necessidade de
enfrentamento. Essa é a utopia que Renato Dagnino propõe e os autores do texto
concordam e reafirmam. Chico Buarque se contrapõe a essa utopia:
A
história é um carro alegre
Cheio
de um povo contente
Que
atropela indiferente
Todo
aquele que a negue
Ao que
parece esse carro alegre irá atropelar, indiferentemente, todos aqueles que
trilhem os caminhos propostos no texto aqui criticado. Alegremente.
Quem
vai impedir que a chama
Saia
iluminando o cenário
Saia
incendiando o plenário
Saia
inventando outra trama
É para
isso e por isso que somos, eu e os autores do texto, militantes do Partido dos
Trabalhadores e integrantes de seu Setorial de Ciência, Tecnologia e Tecnologia
da Informação.
Já foi
lançada uma estrela
Pra
quem souber enxergar
Pra
quem quiser alcançar
E andar
abraçado nela
Fonte:
Por Luís Sérgio Canário, em A Terra é Redonda

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