quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Solidariedade tardia: a longa indiferença das esquerdas brasileiras à Venezuela

Após o inominável bombardeio do território venezuelano pelos Estados Unidos, em 3 de janeiro, e o desconcertante sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores, enfim, amplos setores das esquerdas partidárias brasileiras têm se movimentado para denunciar o gangsterismo imperialista dos EUA e expressar solidariedade ao povo venezuelano.

Por anos a fio, o grosso das nossas esquerdas têm revelado um misto de indiferença e de rejeição com as experiências vivenciadas pelo país coirmão sul-americano. São anos de intensas agressões praticadas pelo governo dos EUA, que violam princípios elementares do direito internacional. Igualmente, tempo de engenharia social, jurídica e política bastante criativa, sob a liderança do chavismo. Mas, o desinteresse mesclado com uma obtusa desinformação tem prevalecido no comportamento de majoritários segmentos progressistas do Brasil.

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<><> A subserviência à linha editorial da grande mídia

Em boa medida, o mencionado comportamento político traduz uma acentuada subalternidade das organizações partidárias de esquerda, de resto, outras do campo popular, à linha editorial dos veículos massivos e comerciais de comunicação.

Estes veículos agem como porta-vozes dos geointeresses do governo e do grande capital estadunidenses. O receio em confrontar a linha editorial da mídia massiva, em ser submetidas à prática simbólica da satanização, faz com que nossas esquerdas se rendam facilmente. Pagam tributo à demonização do chavismo para se acomodarem ao discurso da ordem.

Com isso, desnutrem o debate político. Abdicam de moldar a agenda pública e de influir na formação da opinião pública. Inviabilizam a difusão de projetos e visões alternativas de sociedade. Deixam de fazer contraponto. Desarmam o povo trabalhador brasileiro, entregando-o à cantilena reacionária, mentirosa e imperialista pró-ianque, esposada pelas direitas e pela grande mídia.

<><> O imperialismo é arma decisiva do capitalismo

O capitalismo, como toda lógica e sistema de poder, segmenta e divide a realidade social para melhor realizar as aspirações estratégicas das classes dominantes. Uma das fontes de divisão para conquistar e preservar o poder reside na polarização mundial entre povos e territórios. Um pequeno núcleo de nações assume o comando da cadeia produtiva e jurídica global. Por sua vez, a maioria é conduzida para posições subordinadas na divisão internacional do trabalho e nos organismos deliberativos mundiais.

Uns apoiam-se na extração das riquezas dos países dominados e periféricos, superacumulando capital. São as potências capitalistas imperialistas. Outros subdesenvolvem-se com a drenagem dos seus excedentes econômicos e as receitas dos seus recursos para o centro do capitalismo. Trata-se dos países subdesenvolvidos ou espoliados do capitalismo, como há muito ensinava André Gunder Frank.

No capitalismo não há salvação para nossos países desapossados de poder na cena mundial e dependentes do ponto de vista tecnológico. É o caso brasileiro. É o caso venezuelano. Nunca repetiremos as experiências sociais das nações capitalistas hegemônicas. As democracias delas, inclusive a vigência dos seus mais robustos direitos sociais, estão baseadas na expropriação e na violência exercida histórica e cotidianamente sobre as sociedades vítimas do colonialismo e do imperialismo capitalista.

A recente e repugnante agressão estadunidense sobre a Venezuela ilumina de maneira claríssima o que é o capitalismo, o seu imperativo imperialista. O roubo, o saque, a perfídia, a ilegalidade, a imoralidade, o arbítrio. Mr. Trump, de modo estridente, abriu o jogo sem dissimulações: atribuiu, para os EUA, titularidade do direito de propriedade do petróleo da Venezuela. Afirmou na cara dura!

Não há como desprezar esses fatos. A não ser que se queira viver mergulhado na fantasia doce, porém política e socialmente estéril, sem capacidade transformadora da realidade. Foi sob o manto dessa fantasia que amplas frações progressistas brasileiras andaram vestidas até agora, ao menos por duas décadas. Fingiram que o imperialismo não existe. Será que acordaram da gostosa letargia?

<><> Um caso específico no movimento social

O Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes-SN), provavelmente, é um dos sindicatos e organismos coletivos populares mais dotados de capacidade de crítica e mobilização rebelde no Brasil. Há muito tempo. Mesmo aí a questão venezuelana tem carecido de interesse. O Andes-SN, por intermédio das suas seções sindicais, dos seus respectivos dirigentes e representantes dos seus movimentos de base, em diferentes instâncias deliberativas e decisórias, tem oportunamente dedicado uma especial atenção às adversidades sofridas pelos povos da Palestina e de Cuba.

Por conseguinte, o Andes-SN tem aprovado resoluções e encetado esforços para envolver-se em atos de solidariedade a estes dois povos tão castigados pela covardia e agressividade imperialista ocidental. Contudo, a Venezuela, país coirmão sul-americano, não tem recebido a devida atenção do sindicato. Convivendo há décadas com sistemáticas ações de desestabilização política e econômica, os sucessivos governos de extração anti-imperialista, socializante e democratizante têm se deparado ad nauseam com um indisfarçável ingerencismo praticado pelo imperialismo estadunidense.

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A voracidade pelo roubo do petróleo, recurso natural do povo venezuelano e administrado pelo governo do país sul-americano, essa ganância, é o que principalmente tem guiado a infame ofensiva ianque. Grosso modo, dois fatores perturbam as relações entre EUA e Venezuela, sob o exclusivo enfoque da estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos:

  1. De um lado, a escolha dos governos chavobolivarianos pela estatização de setores da economia. Igualmente, a contumaz aplicação das receitas do petróleo no custeio de direitos sociais — como o acesso universal à moradia — e seu direcionamento também voltado ao financiamento de direitos trabalhistas (melhorias das prerrogativas dos trabalhadores frente ao capital).
  2. De outro lado, chamam a atenção os estímulos políticos e jurídicos para elevar o grau de participação dos de baixo, o que tem permitido gestar uma engenharia social que ultrapassa os limites da democracia representativa: a socialização dos meios de produção normativa faz com que a cidadania ativa das massas introduza ingredientes participativos na democracia, como os institutos do plebiscito e do referendo, assim como a expansão da experiência do poder comunal.

Ambas as características dos processos sociais e políticos do país vizinho, cuja trajetória já alcança quase 30 anos, são motivo de aberta hostilidade do capital e do governo estadunidenses, bem como de oposição ferrenha das burguesias locais vende-pátria. As agudas violências e escancaradas ilegalidades ora praticadas pelos EUA na Venezuela demonstram a necessidade de tomar o país coirmão enquanto objeto especial de atenção, tanto pelo Andes-SN, quanto por toda e qualquer organização coletiva popular e progressista.

<><> As sanções impostas pelos EUA

Há mais de 10 anos a Venezuela convive com os efeitos sociais e economicamente deletérios das sanções econômicas. Estas foram e têm sido impostas por diferentes presidentes dos EUA: Obama, Trump e Biden. Trata-se de sanções que impossibilitam a Venezuela de ter acesso a insumos para fabricação de remédios e alimentos, sanções que restringem demasiadamente as condições de realizar transações financeiras regulares em âmbito internacional.

Sanções que tornam impraticável a venda e o transporte do petróleo venezuelano, já que um dos fundamentos das sanções consiste em uma norma estadunidense com poder extraterritorial: toda e qualquer empresa de um país que faça negócios com a Venezuela estará impedida de fazer operações de mercado com empresas que possuam alguma fração de capital estadunidense. A China, por óbvio, é caso à parte.

Há toda uma série de barbaridades que violam flagrantemente o direito internacional, que desrespeitam o direito do país sul-americano ao comércio internacional e que maltratam o princípio da autodeterminação nacional! Ademais, arbitrariedades que colocaram nuestra América Latina, hoje, na rota de uma guerra abertamente militarizada!  

<><> As recentes manifestações de solidariedade

Após as deploráveis ações dos EUA, atos em defesa do povo venezuelano têm se espalhado por diferentes cidades brasileiras. É de fundamental importância tanto a promoção destes atos nas ruas quanto maior esclarecimento sobre as dificuldades sofridas pela Venezuela nos últimos anos. Partidos de esquerda, sindicatos e demais organizações populares precisam realizar esse amplo trabalho educativo.

Igualmente, é imperioso exigir que o governo brasileiro aja de maneira contundente em relação aos acontecimentos, abandonando a postura, no mínimo, negligente até há pouco dominante, que negou apoio ao vitimado país que nos faz fronteira.

Contra a odiosa guerra imperialista promovida pelo putrefato capitalismo dos EUA! Em defesa do princípio da autodeterminação dos povos e do direito internacional! Pela solidariedade das organizações populares brasileiras com o povo venezuelano e com o legítimo governo de Nicolás Maduro! Pela libertação do presidente Maduro e da sua esposa, Cilia Flores!

¨      Possível base avançada da CIA pode transformar Venezuela em uma Ucrânia 2.0; entenda

A Agência Central de Inteligência dos EUA, a CIA, está montando um posto avançado permanente na Venezuela, de onde supostamente replicará seu trabalho realizado na Ucrânia. Isso poderia significar desde controlar políticos locais até transformar o país em uma base operacional avançada para mudança de regime.

Com o presidente venezuelano Nicolás Maduro sob custódia dos EUA e a presidenta interina Delcy Rodríguez cooperando com Washington, a “prioridade número um” de Washington é estabelecer um “anexo” da CIA em Caracas, disse uma fonte anônima dos EUA à CNN nesta terça-feira (27). Muito antes da abertura formal de uma embaixada dos EUA, esse posto avançado permitirá que agentes da CIA se aproximem do governo de Rodríguez e de partidos de oposição, e “mirem terceiros que possam ser ameaças”, afirmou a fonte.

Que a CIA queira expandir suas operações na Venezuela não é surpresa. O presidente dos EUA, Donald Trump, autorizou a agência a conduzir operações encobertas na Venezuela em outubro passado, três meses antes de Maduro ser sequestrado por forças especiais dos EUA. Após a incursão, o diretor da CIA, John Ratcliffe, foi o primeiro alto funcionário estadunidense a visitar a Venezuela para se reunir com Rodríguez e seus chefes militares.

No entanto, um comentário da fonte da CNN se destaca. Parafraseando o oficial, a CNN disse que o trabalho da CIA na Venezuela seria paralelo ao “trabalho da agência na Ucrânia”.

<><> O que a CIA fez na Ucrânia?

Em 2024, o New York Times publicou um relato surpreendentemente franco das atividades da CIA na Ucrânia. Falando muito tempo depois dos fatos, fontes estadunidenses e ucranianas descreveram como um telefonema em 2014 iniciou uma cadeia de eventos que culminaria em uma guerra aberta com a Rússia.

No início daquele ano, dias após o presidente Viktor Yanukovich ter sido derrubado no golpe do Maidan orquestrado pelos EUA, o novo chefe da espionagem do país, Valentin Nalyvaichenko, ligou para o chefe da estação da CIA em Kiev e pediu ajuda para reconstruir o aparato de inteligência da Ucrânia. A CIA aceitou, trabalhando primeiro com o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU, na sigla em inglês), que atua como uma agência de polícia secreta, e depois com sua agência de inteligência militar (HUR, na sigla em inglês).

A agência treinou e equipou uma força paramilitar conhecida como Unidade 2245. Essa equipe conduziria operações de sabotagem e assassinato em território russo muito antes da escalada do conflito ucraniano em 2022, segundo o New York Times e a ABC News. O atual chefe do gabinete do líder ucraniano Volodymyr Zelensky, Kirill Budanov, serviu nessa unidade e passou a liderar a HUR de 2020 até o início deste mês.

Tamanho era o valor de Budanov como ativo, que a CIA o levou de avião a um hospital militar nos EUA quando ele foi ferido em uma incursão na Crimeia em 2016.

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A agência também treinou “uma nova geração de espiões ucranianos que operavam dentro da Rússia, por toda a Europa, e em Cuba e outros lugares onde os russos têm grande presença”, e supervisionou “um programa de treinamento, realizado em duas cidades europeias, para ensinar oficiais de inteligência ucranianos a assumir de forma convincente identidades falsas e roubar segredos na Rússia”, informou o New York Times.

Em fevereiro de 2022, a CIA havia construído mais de uma dúzia de bases subterrâneas perto da então fronteira da Ucrânia com a Rússia. “Sem elas, não haveria como resistirmos aos russos”, disse ao NYT o ex-chefe do SBU, Ivan Bakanov.

“Os serviços de inteligência dos EUA, como a CIA e outros, estiveram presentes na Ucrânia muito antes de o golpe eclodir”, declarou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, em 2024. “Após o golpe, eles se instalaram ali. Ocuparam um andar inteiro, talvez até dois andares, no prédio do SBU. Ninguém tem dúvida disso. A Ucrânia é governada por anglo-saxões e por alguns outros países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia (UE).”

<><> O que os EUA estão planejando na Venezuela?

Os objetivos da CIA na Venezuela e além não são claros. No entanto, algumas suposições gerais podem ser feitas com base em declarações da Casa Branca.

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Imediatamente após o sequestro de Maduro, em 3 de janeiro, Trump advertiu que Cuba é a próxima a “estar pronta para cair”. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse no dia seguinte: “Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, ficaria preocupado”, e tanto o portal Politico quanto o Wall Street Journal relataram desde então que Rubio está pressionando por uma mudança de regime em Cuba até o fim deste ano.

Ter uma presença permanente da CIA na Venezuela ajudaria os esforços de coleta de inteligência dos EUA e aproximaria agentes de potenciais aliados em Havana — que mantém extensos laços comerciais e diplomáticos com Caracas. No momento, autoridades estadunidenses dependem de exilados cubanos em Miami para obter informações sobre elos frágeis no governo cubano, segundo o Wall Street Journal.

Trump também advertiu o presidente colombiano Gustavo Petro para “cuidar do seu traseiro”, dizendo a repórteres que uma operação militar na Colômbia “soa bem” para ele. A Venezuela compartilha uma fronteira de 2.200 km com a Colômbia, o que significa que, se Trump interviesse contra Petro, ativos da CIA na Venezuela provavelmente estariam envolvidos.

Todas essas possibilidades, no entanto, dependem do sucesso da agência em penetrar o governo de Rodríguez e em encontrar colaboradores entre a oposição. Diferentemente da Ucrânia pós-Maidan, o governo de Maduro permanece no poder, ainda que com Rodríguez, mais amigável com os EUA, à frente. Ainda assim, Rodríguez condenou publicamente “as ordens de Washington relativas a políticos na Venezuela” e declarou que somente os venezuelanos resolverão as diferenças e os conflitos internos do país.

Em entrevistas e discursos públicos, Maduro acusou repetidamente a CIA de trabalhar para minar seu governo e removê-lo do poder. Ele provou estar certo no início deste mês, e seus funcionários provavelmente estarão extremamente cautelosos em relação aos agentes estadunidenses que estejam montando operações na Venezuela. Em contraste, Nalyvaichenko e os outros chefes de inteligência da Ucrânia “cortejaram assiduamente a CIA”, segundo o New York Times.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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