quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Após fracasso do tarifaço, Eduardo Bolsonaro tenta atuação internacional por Flávio

Sem mandato na Câmara dos Deputados, Eduardo Bolsonaro passou a mobilizar a rede de relações internacionais construída ao longo dos últimos anos para fortalecer politicamente o irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A estratégia envolve uma agenda fora do país, com encontros com autoridades estrangeiras e participação em eventos internacionais da direita, em meio às articulações que miram a pré-candidatura de Flávio à Presidência da República, informa a Folha de São Paulo.

A movimentação ganhou força durante uma viagem ao Oriente Médio, onde os irmãos já se reuniram com ao menos 16 autoridades, incluindo presidentes, primeiros-ministros, ministros e parlamentares. Inicialmente, Flávio comunicou ao Senado que se afastaria do Brasil entre 18 de janeiro e 7 de fevereiro em missão oficial, com despesas custeadas por recursos públicos. Posteriormente, prorrogou a estadia por mais cinco dias e afirmou que arcaria com os gastos adicionais com recursos próprios.

O roteiro incluiu passagens por Israel e Bahrein, com planos de seguir para os Emirados Árabes Unidos e o Catar. Há ainda a possibilidade de compromissos em países europeus, que não foram definidos. No início de janeiro, Flávio também esteve nos Estados Unidos, onde Eduardo reside desde março de 2025.

Mesmo após ter o mandato cassado no fim do ano por excesso de faltas, Eduardo continua sendo apresentado como parlamentar em eventos internacionais. Isso ocorreu, por exemplo, na Conferência Internacional de Combate ao Antissemitismo, realizada em Jerusalém. A mudança de foco ocorre após derrotas recentes na interlocução com Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, que, após diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reduziu o impacto de tarifas e revogou a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes.

Durante a conferência em Israel, Flávio Bolsonaro assumiu publicamente a condição de pré-candidato. “Senhoras e senhores, eu discurso hoje não só como senador, mas como pré-candidato a presidente do Brasil”, afirmou em discurso na última terça-feira (27). Na mesma ocasião, declarou que os Estados Unidos ajudaram a “construir um novo modelo de cooperação internacional” e inauguraram uma nova fase para a América Latina.

Em Israel, os irmãos se encontraram com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o presidente Isaac Herzog e o ministro do Combate ao Antissemitismo, Amichai Chikli. Com este último, gravaram um vídeo no qual Eduardo se refere a integrantes do Hamas como “selvagens”. A agenda incluiu ainda encontros com o ex-primeiro-ministro da Áustria, Sebastian Kurz, o primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, e o embaixador argentino Axel Wahnish. Uma foto com o diplomata foi compartilhada pelo presidente da Argentina, Javier Milei.

A viagem também envolveu reuniões com parlamentares europeus. Os irmãos divulgaram imagens ao lado de pelo menos seis deputados do Parlamento Europeu, entre eles os espanhóis Hermann Tertsch e Jorge Buxadé, do Vox, o português Pedro Frazão, vice-presidente do Chega, e o polonês Dominik Tarczyński. Após o encontro, Tarczyński publicou uma mensagem defendendo a eleição de Flávio em 2026.

No Bahrein, a agenda incluiu reuniões com o primeiro-ministro e príncipe herdeiro Salman bin Hamad bin Isa Al Khalifa, com o príncipe Sheikh Khalid bin Hamad Al Khalifa e com o parlamentar Hassan Ibrahim Hassan. Segundo Flávio Bolsonaro, os compromissos têm como objetivo o “diálogo institucional, a cooperação internacional e a troca de experiências em temas estratégicos”.

A aproximação de Flávio com as articulações internacionais conduzidas por Eduardo representa uma inflexão em sua trajetória política. Desde 2024, o senador havia se mantido distante das principais comitivas lideradas pelo irmão, que buscavam denunciar no exterior a suposta existência de uma “ditadura” no Brasil e defender sanções contra o país. Após o fim do governo de Jair Bolsonaro, Flávio realizou apenas três viagens internacionais em missão oficial.

O senador não participou, por exemplo, da comitiva bolsonarista que esteve em Washington em abril do ano passado, com a presença de ao menos 15 parlamentares. Entre eles estavam os deputados Paulo Bilynskyj (PL-SP) e Rodrigo Valadares (União Brasil-SE), que agora acompanham os irmãos na viagem ao Oriente Médio.

Eduardo Bolsonaro foi denunciado em setembro sob a acusação de tentar intervir em processos envolvendo Bolsonaro. Em novembro, Alexandre de Moraes determinou o cancelamento de seu passaporte diplomático.

Para o professor de relações internacionais e coordenador do Observatório da Extrema Direita, David Magalhães, a atuação externa é estratégica. “A articulação internacional é central para a extrema direita e para o bolsonarismo, porque a ascensão da ultradireita é um fenômeno global”, afirma. Segundo ele, o apoio buscado por Flávio pode reduzir o custo político de posições mais radicais no exterior e, internamente, ajudar a construir uma imagem de pertencimento a um campo político global.

Nesse contexto, Magalhães avalia que Eduardo exerce papel decisivo. “O que se observa agora é uma tentativa de transferir parte desse capital político, dessas conexões e dessa legitimidade internacional para Flávio Bolsonaro, apresentando-o como herdeiro e continuidade dessa articulação internacional já consolidada”, conclui.

•        Bolsonaro, o filho escolhido e o bolsonarismo são tratados com desprezo por Tarcísio. Por Moisés Mendes

Tarcísio de Freitas disse pela quarta vez em uma semana, ao sair da visita a Bolsonaro, na quinta-feira (29), que o presidiário é seu grande amigo. No mesmo dia, Gilberto Kassab, presidente do PSD e secretário de Governo de Tarcísio, declarou que Bolsonaro é um grande líder.

Em nenhuma fala, desde o anúncio da visita a Bolsonaro, que depois foi adiada e remarcada, Tarcísio usou a palavra líder. E em nenhum momento, ao sair da visita e conversar com a imprensa, disse o nome de Flávio Bolsonaro.

Em nenhum momento Tarcísio ao menos sugeriu que veja Bolsonaro como chefe maior da direita no Brasil. E só afirmou que apoiará Flávio como candidato do pai quando foi perguntado e respondeu assim: “Sem dúvida, como eu tenho afirmado constantemente”.

Tarcísio nunca afirmou, nem constantemente nem ocasionalmente, seu apoio a Flávio. E, na quinta-feira, disse de novo que seu projeto para esse ano é buscar a reeleição em São Paulo e “ajudar nosso candidato presidencial”, sem citar Flávio.

Por que Tarcísio se nega a tratar Bolsonaro como um líder, coisa que Kassab faz com naturalidade, e está beiçudo com a candidatura de Flávio? Porque ficou ressentido com a escolha do chefe preso. E porque a criatura está tentando se desplugar do criador.

Kassab esclareceu o seguinte aos que ainda esperam esclarecimentos, em entrevista ao UOL, no mesmo dia da visita e um dia depois de ter anunciado que Ratinho, Caiado e Leite disputarão a gincana do PSD para saber quem será o candidato do partido:

“Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão. Uma personalidade como ele, que é governador de São Paulo, que legitimamente tem as pretensões de comandar o País um dia, e, se não tem, muita gente no Brasil quer que ele tenha, precisa mostrar que tem a sua identidade”.

Não precisa dizer mais nada, depois de Tarcísio ter repetido o que Bolsonaro significa para ele e para seu projeto de poder estadual:

“A gente conversou como amigos, a gente vai estar empenhado nesse projeto. Vamos entrar muito fortes, muito unidos, agregando mais pessoas, e falando de perspectiva, falando de projeto para o país”.

É um lero. Não diz nada com nada do que importa para o bolsonarismo, que é a obediência ao chefe e ao que ele pensa. Tarcísio vê Bolsonaro, definitivamente, como um amigo. E Kassab, na jogada ensaiada, diz em seguida que o CEO vacilão não será submisso às ordens de Bolsonaro e que buscará sua própria identidade.

Tarcísio vai trabalhar por Flávio com o entusiasmo de um reserva escanteado, à espera do fracasso do filho ungido e também de que as pesquisas mostrem Lula jantando com facilidade os três porquinhos de Kassab.

Tarcísio torce para que seu nome continue aparecendo bem nas pesquisas, como adversário forte de segundo turno, para constranger Flávio, Bolsonaro e o trio do PSD.

E o bolsonarismo, o que faz diante do extremista moderado inconfiável que esnoba o chefe e o filho do chefe? O bolsonarismo engole o sapo, porque depende de Tarcísio, que pode enfrentar tempo ruim em São Paulo.

O bolsonarismo raiz terá que continuar sustentando um sujeito que não chama Bolsonaro de líder, faz corpo mole na hora de defender Flávio e está à espreita de mudanças no cenário político mais adiante.

A jogada de Kassab com os três pré-candidatos foi ensaiada com Tarcísio, como afronta a Bolsonaro, a Flávio e ao bolsonarismo extremado, e como aposta de que Flávio não sobe a ladeira. Os jornalões dizem que o visitante e o presidiário se reconciliaram, mas esse é o release da assessoria de imprensa de Bolsonaro na Papudinha.

Kassab tenta aplicar um golpe. Tarcísio busca uma identidade de CEO da direita sem Bolsonaro, que o bolsonarismo ingrato e o centrão não conseguem matar. Agora, é só combinar com os russos, o centrão, a velha direita, o bolsonarismo aderente, a Faria Lima e com Globo, Folha, Estadão e Trump. E, se sobrar tempo, com o eleitor.

<><> Flávio Bolsonaro pede ao irmão Eduardo que não critique Tarcísio para não aumentar o racha na direita

O senador Flávio Bolsonaro (PL) procurou diretamente o irmão, Eduardo Bolsonaro, para pedir moderação nas críticas ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A iniciativa ocorreu após um desgaste causado pela ausência de um apoio mais enfático de Tarcísio à pré-candidatura de Flávio à Presidência da República, movimento que gerou incômodo dentro do grupo político ligado à família Bolsonaro.

Segundo informações publicadas pelo UOL, Flávio telefonou para Eduardo na semana passada com o objetivo de conter declarações públicas que pudessem aprofundar divergências internas. Eduardo tem um histórico de críticas ao governador paulista, mas, desta vez, ouviu do irmão um apelo por paciência e por evitar reclamações abertas que possam ampliar o mal-estar.

A avaliação de Flávio é de que manifestações públicas mais duras contra Tarcísio poderiam comprometer a estratégia de manter a direita unida. O senador trabalha para consolidar seu nome como pré-candidato ao Palácio do Planalto e considera que ataques entre aliados em potencial enfraquecem esse esforço.

Dentro desse contexto, a orientação foi para reduzir o tom e evitar confrontos públicos que possam afastar setores do campo conservador. A preocupação central é impedir que disputas internas dificultem a construção de uma base política mais ampla em torno da pré-candidatura.

•        "Tarcísio é um tigre de papel", diz Guilherme Boulos

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, disse que o governo de São Paulo, de Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem fragilidades estruturais e resumiu sua avaliação em uma frase direta: “O Tarcísio é um tigre de papel”.

A declração foi feita durante entrevista ao canal Barão de Itararé, que controu com a particpação de jornlistas da mídia progressista, incluindo a jornlista Dhayane Santos, do Brasil 247.

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Boulos argumentou que a aprovação do governador estaria apoiada em uma base conservadora tradicional do estado, mas não refletiria resultados concretos de gestão. Segundo ele, há problemas sensíveis que devem pesar no debate eleitoral, especialmente a privatização da Sabesp.

“A promessa dele reiterada na televisão, gravada em vídeo, ele diz que não ia aumentar a conta de água”, lembrou. Em seguida, descreveu o cenário atual: “O que aconteceu? Em um ano de privatização, aumentou a conta de água e São Paulo tá sofrendo um pré-racionamento de água”.

“As comunidades estão depois das 5 da tarde, com a torneira seca”, denunciou. Para ele, o tema deve ser central na disputa política estadual. “Isso é um calcanhar de Aquiles e que isso vai ter que ser tratado na campanha eleitoral”, declarou.

Outro ponto levantado pelos jornlistas foi a segurança pública. O ministro defendeu que o debate não seja monopolizado pela retórica da direita e lembrou que a responsabilidade hoje é dos governados estaduais. “Vamos fazer esse debate. Quais são os resultados reais em termos de sensação de segurança e de redução da criminalidade da gestão Tarcísio?”, questionou.

Para Boulos, discurso e realidade deve marcar o cenário paulista. “Há uma série de questões que nós vamos conseguir colocando pro povo de São Paulo, debatendo com o povo de São Paulo sobre a mediocridade quando não os retrocessos dos quatro anos de gestão Tarcísio”, completou.

 

Fonte: Brasil 247

 

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