Como
Santa Catarina, 'bastião da direita', elegeu o 1º deputado comunista do Brasil
Há 92
anos, Santa Catarina adquiriu notoriedade por ser berço do primeiro deputado
federal a subir à tribuna da Câmara para se declarar comunista.
O gesto
contrasta com a conjuntura política atual do Estado, apontado como bastião da
direita, tendo atraído até dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — o
vereador de Camboriu Jair Renan Bolsonaro e o candidato a deputado federal
Carlos Bolsonaro —, que escolheram o solo catarinense como domicílio eleitoral.
Ao se
declarar comunista, em 1934, quando o próprio Partido Comunista do Brasil (PCB)
estava na ilegalidade, o estivador Alvaro Soares Ventura (1893-1989) assegurou
um lugar na história.
A
atitude, porém, é quase uma nota de rodapé na trajetória desse descendente de
portugueses natural de Coqueiros, então distrito de São José, na Grande
Florianópolis.
Em seus
96 anos, Ventura dirigiu greves, animou comícios, organizou sindicatos e
cumpriu inúmeras temporadas atrás das grades.
Mesmo
sem corresponder ao estereótipo de militante disciplinado, chegou a ocupar o
posto de secretário-geral do PCB durante a ditadura do Estado Novo, quando o
titular do posto, Luiz Carlos Prestes, estava na prisão.
Numa
época em que a maioria da direção partidária era constituída de intelectuais,
Ventura ganhava a vida como trabalhador braçal.
"Ele
era baixo, do tipo retaco forte, e tinha uma mão imensa, com dedos muito
grossos, de quem tinha trabalhado muito pesado", afirma à BBC News Brasil
o jornalista e editor Nelson Rolim de Moura.
Ao lado
do também jornalista Laudelino José Sardá, ele entrevistou Ventura, então com
86 anos, para o jornal O Estado, de Florianópolis, em 1979.
O
encontro ocorreu na residência de Ventura, uma casa de madeira na Praia da
Armação, na região sul da ilha de Santa Catarina.
"Ele
[Ventura] abriu a porta para nos receber, colocou um banquinho na entrada da
casa porque no interior estava muito frio e ali fora, mesmo sendo inverno,
estava um pouco mais quente. Usava boné, tinha os olhos azuis, muito
miudinhos."
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Pai marítimo e anarquista, mãe 'forte e braba'
Alvaro
Ventura nasceu em setembro de 1893, filho do marítimo Bernardino Soares da
Ventura e de Jesuína Rosa da Conceição, mulher "forte e braba", de
acordo com relato do ex-deputado ao biógrafo Celso Martins, autor de Os
comunas: Álvaro Ventura e o PCB catarinense (Paralelo 27, Fundação Franklin
Cascaes, 1995).
O pai,
anarquista, embarcou para Cuba ("onde havia uma revolução", ainda
segundo o depoimento a Martins) e nunca mais voltou.
Assim
como quase todos os homens entre os 12 filhos registrados do casal, Alvaro
ganhou a vida como estivador.
Antes,
foi tropeiro, carpinteiro, marceneiro, latoeiro, pedreiro, alfaiate, padeiro e
encanador.
A
primeira prisão ocorreu por volta de 1910, quando animava uma manifestação pela
jornada de trabalho de oito horas, em Florianópolis.
Seus
primeiros contatos políticos foram com a geração fundadora do anarquismo e do
socialismo pré-marxista no Brasil: intelectuais e operários como Edgard
Leuenroth, José Oiticica, Astrogildo Pereira, Everardo Dias e Benjamin Mota.
Durante
uma greve de padeiros dirigida por anarquistas, opôs-se à instalação de bombas
em padarias, isolou-se dos demais líderes (seu filho João Ventura disse a
Martins que os anarquistas "entregaram-no para a polícia") e acabou
enviado preso para Mato Grosso, onde trabalhou nas obras da ferrovia
Madeira-Mamoré.
De lá,
retornou, já casado, a Santa Catarina, onde ligou-se ao Partido Republicano
Catarinense (PRC), agremiação dominante no Estado durante a República Velha, e
manteve os primeiros contatos com o jovem PCB.
Diferentemente
do PCB, que via na chamada Revolução de 1930 um simples conflito de
oligarquias, Ventura apoiou a derrubada do presidente Washington Luís e exigiu
o cumprimento, pelo novo regime de Getúlio Vargas, do programa da Aliança
Liberal.
Também
em desacordo com seu futuro partido, ligou-se às organizações sindicais
existentes, independentemente de quem os dirigisse, num período em que o PCB
pregava a criação de "sindicatos vermelhos".
Ventura
era católico praticante e irmão da Irmandade do Senhor dos Passos do Hospital
de Caridade de Florianópolis, da qual foi desligado ao se declarar comunista.
"Minha
vida foi marcada por certos desencontros com o Partido Comunista", afirmou
Ventura a Martins, explicando que a direção partidária nos anos 1920 e 1930
estava nas mãos de "pequeno-burgueses".
Foi
essa orientação política, paradoxalmente, que lhe garantiu a eleição à Câmara
na chamada bancada classista.
A
legislação instituída pelo regime de Getúlio Vargas destinou uma parcela das
cadeiras do Congresso Constituinte eleito em 1933 para representantes dos
trabalhadores e seus partidos, ainda que organizações marxistas fossem ilegais.
Ventura
compôs a lista do Partido Operário Socialista, de São Francisco do Sul, e foi
eleito suplente de Antônio Penaforte, também estivador.
Em 27
de agosto de 1934, Penaforte foi assassinado com cinco tiros no Rio de Janeiro
por uma mulher que supostamente assediara.
Informado
no dia seguinte, Ventura embarcou para a capital no dia 30 em um navio da
companhia Lloyd Brasileiro a fim de assumir a cadeira de deputado.
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Primeiro discurso provocou gritos, apartes e princípio de tumulto
"Senhores
deputados burgueses. Senhores deputados feudais."
Com
essa fórmula pouco protocolar, em mangas de camisa e com sapatos emprestados,
Ventura saudou os 71 parlamentares que ouviam seu discurso de estreia na Câmara
dos Deputados, no dia 6 de setembro de 1934 — e era apenas o começo.
"Verifica-se
atualmente em todo o país uma grande mobilização eleitoral", prosseguiu
Ventura, referindo-se à movimentação de aliados e adversários do presidente
Vargas.
Em
seguida, denunciou "os partidos e grupos feudal-burgueses, tanto os que
estão no poder como os de oposição" e "todos os agentes das
camarilhas dominantes nas fileiras do proletariado" e saudou o "único
partido que luta verdadeiramente em defesa do proletariado e das massas
populares": o PCB.
A
solução, vaticinou Ventura, era uma só: "O caminho da luta de classes
revolucionária contra a fome, a guerra imperialista, os golpes armados, a
reação e o fascismo – pelo pão, pela terra e pela liberdade".
Mal
conseguiu concluir o discurso: houve protestos, apartes, princípio de tumulto
controlado a custo pelo presidente da Casa, Antonio Carlos, ex-governador de
Minas Gerais.
No dia
seguinte, o jornal Correio da Manhã resumiu o discurso em uma nota intitulada
"A estreia de um classista".
"Seguiu-se
com a palavra o classista Alvaro Ventura, que fez a sua estreia. Começou
dizendo que estava substituindo um operário que não soubera honrar o mandato de
deputado. Prosseguindo na leitura de seu discurso, declarou que nada tinha de
comum com os classistas assentados na Câmara, definindo-se como partidário do
comunismo", afirmou o jornal.
Pela
primeira vez na história da Câmara dos Deputados, um parlamentar declarava-se
comunista.
O gesto
era insólito não apenas porque o PCB atravessava um de seus muitos momentos de
ilegalidade.
O
próprio Ventura, apesar de professar a maior parte do credo oficial do partido,
não pertencia a seus quadros, não se submetia à sua disciplina e criticava
publicamente a direção partidária.
Essa
postura era suficiente para enquadrá-lo como inimigo aos olhos da ortodoxia
comunista.
Salvou-o
a condição de operário de profissão e dirigente sindical.
Durante
a fase conhecida como de "proletarização", imposta ao PCB pela
Internacional Comunista, o partido expurgou sua direção de intelectuais
"não-proletários" e passou a promover militantes com base no critério
de origem social operária.
O
secretário-geral de 1934 a 1935, Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, era
operário, embora a obediência à linha oficial tenha sido o fator decisivo para
sua ascensão.
Sob
essa orientação, ainda como deputado, Ventura ingressou formalmente no partido.
"Eleito
deputado classista, atuou como representante do Partido Comunista do Brasil na
Câmara", atestava uma publicação do PCB em 1945.
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Graciliano sobre Ventura: 'Nunca vi tanta serenidade no jogo'
Em
1935, após o fracassado levante militar promovido pelo PCB no Rio de Janeiro,
em Recife e em Natal, o catarinense — que tinha se oposto à insurreição por não
acreditar que houvesse condições para uma revolução no país — foi mais uma vez
preso.
"Não
tínhamos condições de fazer uma revolução, e isso [a ideia do levante] foi
levantado dentro do partido por pequenos-burgueses, e eu era contra",
afirmou Ventura na entrevista de 1979 a Rolim e Sardá.
Enviado
para o presídio de Ilha Grande, conviveu com o escritor Graciliano Ramos, que
registrou suas impressões dele em sua obra sobre o período, Memórias do
Cárcere.
"(...)
me surpreendia o comportamento de Álvaro Ventura, meu parceiro de pôquer no
cubículo 35 do pavilhão. Naquele tempo não revelava de nenhum modo se perdia ou
ganhava; nunca vi tanta serenidade no jogo. Enquanto Sebastião Hora, um médico,
se excedia, golpeava a mala que nos servia de mesa, Ventura, simples estivador,
largava as fichas tranquilo, indiferente", escreve o autor de São
Bernardo.
Libertado
em 1938 após o cumprimento da pena, o catarinense passou a viver de bicos, mas
aproveitou os contatos na marinha mercante para viajar clandestinamente pelo
país a fim de organizar os dispersos núcleos comunistas.
Acabou
ocupando a secretaria-geral do partido até 1943 — o historiador Leôncio Basbaum
o considera "uma rosa a enfrentar um ramalhete de flores selvagens, sem
flor nem cheiro" na alta direção partidária eleita em uma conferência
clandestina na Serra da Mantiqueira naquele ano — e, depois de um intervalo de
alguns meses, novamente até 1945, quando transmite o cargo a Prestes.
Em
1945, ao lado de Prestes e outros, concorreu a deputado federal constituinte
pelo Distrito Federal, mas não foi eleito.
Na
entrevista concedida em sua casa humilde da Praia da Armação, em 1979, Ventura
faz um balanço de sua experiência como deputado.
Cioso
da linha partidária, procura temperar as próprias posições da época com a
temática da união nacional que só se tornaria a tônica do PCB a partir de 1935.
"Eu
era comunista e estava ao lado do trabalhador, mas procurei dentro da Câmara
unir todos em torno de um espírito nacionalista, buscando uma unidade
nacional", sustentou.
"O
presidente da Câmara, Antônio Carlos, era um mineiro muito sério que fazia
cumprir as leis. Foi um dos que fizeram cumprir o manifesto da Esplanada do
Castelo [documento assinado por líderes da Revolução de 1930 em favor de
reformas democráticas]. Foi um dos revolucionários que procuraram conter
Getúlio [Vargas] no seu avanço à reação."
Fonte:
BBC News Brasil

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