Professor
da Unicamp e crítico da Faria Lima: a aposta de Lula para posição estratégica
no Banco Central
O
economista e sociólogo Guilherme Mello, atual secretário de Política Econômica
do Ministério da Fazenda, pode ser o próximo diretor do Banco Central (BC).
Fontes
do Palácio confirmaram à BBC News Brasil que o nome de Mello está na mesa do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como possível indicado para o cargo
de diretor de Política Econômica do BC.
O
cargo, uma das oito diretorias do BC, é tido como estratégico.
"A
direção de Política Econômica é o coração da política monetária", diz o
economista Carlos Kwall, ex-secretário do Tesouro Nacional e atualmente sócio
da Oriz Partners.
"Ela
tem o papel de formulação, de modelagem, pesquisa, produção de relatórios e
estudos. É essa diretoria que dá o tom da condução da política monetária. Claro
que as decisões são colegiadas, mas essa diretoria tem um peso
importante", diz.
Procurados,
o Banco Central e o Ministério da Fazenda não confirmaram o nome de Mello como
indicado. Ainda assim, a notícia foi veiculada por alguns jornais atrelada a
uma certa "apreensão" do mercado com o nome de Mello.
Aos 42
anos, Mello é professor licenciado do Instituto de Economia da Universidade de
Campinas (Unicamp) e doutor em Ciência Econômica, um currículo que difere dos
demais sete diretores e do presidente da autarquia, Gabriel Galípolo.
Ali,
todos são, ou servidores públicos de carreira, ou têm passagem pelo mercado
financeiro, como Diogo Abry Guillen, que ocupava o cargo para o qual Mello foi
indicado, e o próprio Galípolo.
Filiado
ao PT desde a adolescência, Mello faz parte do grupo conhecido como
"economistas da Unicamp". Vistos como plurais — ou heterodoxos — não
se alinham às escolas tradicionais e a teses comuns no mercado financeiro. Pelo
contrário: defendem um papel ativo do Estado na economia e são críticos da
Faria Lima.
A
formação de Mello é um dos fatores para a preocupação do mercado, de acordo com
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.
"Ele
é um professor de economia de perfil heterodoxo, sempre teve esse viés,
publicou muitos estudos contrários à política do Banco Central e isso tende a
causar um ruído", afirma. "Talvez não fosse o nome mais
adequado."
Já para
o professor de economia José Francisco de Lima Gonçalves, da Universidade de
São Paulo (USP), a apreensão do mercado não tem tanta relação com a formação de
Mello.
"A
maior parte dos participantes do mercado financeiro tem uma visão crítica da
formação do Guilherme", diz. "Mas qualquer pessoa indicada que não
fosse oriunda do mercado financeiro seria criticada".
Caso
Lula aposte de fato em Mello, isso poderia reafirmar, por um lado, a crítica do
governo sobre a política conduzida por Galípolo de subida da taxa de juros, a
Selic, atualmente em 15%.
E,
embora os especialistas afirmem que a mudança não deva causar grandes
solavancos — já que a diretoria é composta por oito membros — ela ocorre em um
momento delicado para o Banco Central.
Sob os
holofotes desde a eclosão do escândalo do banco Master, ainda pesa sobre a
instituição um distanciamento entre Galípolo e o Planalto.
Pessoas
próximas ao presidente Lula e ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT),
disseram em caráter reservado à BBC News Brasil que a escolha de Mello pode ser
uma forma de colocar alguém "verdadeiramente de confiança" no Banco
Central.
Publicamente,
no entanto, o governo não diz isso.
"Eu
tenho 100% de confiança no companheiro Galípolo", disse Lula na última
entrevista coletiva que deu à imprensa em 2025. Mas em seguida, Lula lembrou o
presidente do BC da sua demanda.
"Da
mesma forma que tem gente que sente cheio de chuva, eu sinto o cheiro de que a
taxa de juros daqui a pouco vai baixar. Eu espero que Galípolo sinta o mesmo
cheiro que eu."
Alinhado
com o presidente e com Haddad, Mello tem defendido, em consonância com o
governo, a redução da Selic.
Nos
últimos meses, chegou a dizer até que a taxa baixaria "em breve".
"Se não no final deste ano, no início do ano que vem", afirmou em
outubro do ano passado, em evento da Associação Brasileira de Incorporadoras
Imobiliárias (Abrainc).
Se
confirmado, Mello pode ocupar o lugar de um dos últimos dois diretores nomeados
pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — Diogo Guillen, de Política Econômica,
e Renato Gomes, de Organização do Sistema Financeiro — cujos mandatos
terminaram no fim de dezembro.
Isso
porque a diretoria do BC é formada por oito diretores divididos em grupos de
dois. Todos têm mandatos de quatro anos, e, assim como o presidente, têm a
possibilidade de apenas uma recondução.
A cada
ano, o presidente da República indica dois diretores. Todos devem ser
referendados posteriormente pelo Senado.
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Marx, Keynes e 'os economistas da Unicamp'
Embora
Mello e Galípolo tenham trajetórias diferentes, é justamente o grupo dos
"economistas da Unicamp" o elo entre ambos.
Isso
porque fazem parte do grupo os economistas Luiz Gonzaga Belluzo e Frederico
Mazzucchelli — ambos muito próximos também de Galípolo —, além de Luciano
Coutinho (ex-presidente do BNDES). Maria da Conceição Tavares e Carlos Lessa
também fizeram parte do grupo.
Belluzo
e Mazzucchelli fizeram parte da banca examinadora da tese de doutorado
defendida por Mello em 2013 (Os derivativos e a crise do subprime: o
capitalismo em sua "quarta dimensão").
Mello
recorre às ideias socialistas de Karl Marx, além do economista John Maynard
Keynes, que defendia a ativa intervenção do Estado na economia para alcançar
objetivos sociais e estabilizá-la.
No
estudo, Mello defende que os juros "são resultado não apenas de uma
relação jurídica contratual, mas também de uma relação de forças, portanto
política, entre os diferentes grupos de classe".
"É
exatamente essa preferência pela liquidez dos bancos, assim como a demanda por
financiamento, que influencia diretamente a taxa de juros do financiamento. Se
os bancos estiverem dispostos a ficarem mais ilíquidos, a pressão adicional por
dinheiro gerada pelas novas decisões de investimento não afetará a taxa de
juros. Caso contrário, as taxas de juros subirão conforme se elevar a
preferência por liquidez dos bancos", escreve ele.
E faz
um agradecimento nominal a Belluzzo: "o professor Belluzzo foi e continua
sendo um dos maiores referenciais (não apenas como intelectual, mas como homem
público) que eu, um jovem economista heterodoxo, posso almejar".
O grupo
dos "economistas da Unicamp" foi um termo utilizado em tom crítico
por Roberto Campos, em uma entrevista ao programa Roda Viva, na TV Cultura, em
1991.
Campos,
um liberal que foi ministro da Fazenda durante a ditadura militar, era crítico
ferrenho do modelo econômico intervencionista defendido pelos economistas da
Universidade de Campinas.
"Ou
o Brasil acaba com os economistas da Unicamp, ou os economistas da Unicamp
acabam com o Brasil", disse Campos, na época, deputado federal pelo
extinto PPR.
Em
2022, Mello escreveu um artigo com os economistas André Biancarelli e Pedro
Rossi, ambos também da Unicamp, rebatendo a crítica.
"A
chamada 'escola de Campinas' é um projeto intelectual que assombra o
liberalismo tupiniquim desde sua origem."
Kawall
lembra que quando Galípolo foi indicado para assumir a presidência do BC,
também houve desconfiança de parte do mercado.
"Havia
uma desconfiança enorme com relação à atuação do BC com a entrada do Galípolo
na presidência, e [essa desconfiança] foi um erro", diz. "Vários dos
críticos reconheceram que foi muito melhor do que esperavam".
Além
disso, Luiz Fernando Figueiredo, diretor do Banco Central do Brasil entre 1999
e 2003, afirma que as nomeações feitas por Lula até o momento "foram
boas."
"O
Galípolo, que tinha menos experiência, ficou um ano e meio como diretor antes
de virar presidente", recorda.
Galípolo
entrou no Banco Central indicado por Haddad, pela mesma porta por onde Mello
passa agora.
Em
julho de 2023, depois de fazer parte da equipe de transição e de passar seis
meses no ministério da Fazenda a convite de Haddad, Galípolo foi nomeado para a
direção de Política Monetária do BC.
Vindo
do mercado financeiro, diferentemente de Mello, Galípolo foi o grande
articulador entre a Faria Lima e a campanha de Lula, e, em especial, Fernando
Haddad.
Organizou
jantares e articulou diálogos entre Haddad e nomes do mercado financeiro que,
em geral, torcem o nariz para qualquer candidato petista.
Entre
2023 e 2024, enquanto esteve na Fazenda, Galípolo e o ministro se tornaram
amigos muito próximos.
Mas ao
assumir o Banco Central, acabaram se afastando. Nas palavras de uma pessoa
próxima a Haddad, que falou reservadamente com a BBC News Brasil, Galípolo
teria "mudado a rota" ao se sentar na cadeira de presidente do BC.
As
sucessivas subidas na taxa de juros, regulada pelo Comitê de Política Monetária
(Copom) do Banco Central, foram a causa do distanciamento entre os então
amigos. A palavra "decepção" foi utilizada por duas fontes
consultadas pela reportagem.
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O Copom
A taxa
Selic é a taxa básica de juros da economia. Ela influencia outras taxas de
juros, como a de aplicações financeiras, financiamentos e empréstimos. É
principalmente por meio dela que o BC controla a inflação.
Quem
decide sobre a Selic é o Copom. Formado pelo presidente e os oito diretores do
BC, o comitê se reúne a cada 45 dias para decidir sobre a taxa de juros. O
comitê tem autonomia técnica e institucional para deliberar sobre a política de
juros, graças à autonomia do Banco Central.
Em
janeiro de 2024, quando o BC estava ainda sob comando de Roberto Campos Neto,
indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Mello afirmou, em entrevista à
Globo News, que a expectativa do governo era pela redução da Selic.
"As
condições estão colocadas para uma contínua queda na taxa de juros para trazer
a taxa de juros brasileira para um patamar que a gente chama de mais neutro,
hoje ela ainda é contracionista, ela segura a economia, puxa para baixo a
economia. Nós esperamos que ao longo deste ano ela caminhe para o campo da
neutralidade", afirmou.
Na
época, vésperas da primeira reunião do Copom do ano, a Selic estava em 11,75%,
chegando a 12,25%, quando Galípolo assumiu a presidência do BC, em janeiro de
2025.
Na
primeira reunião do Copom sob Galípolo, a taxa subiu para 13,25%. E assim foi,
sucessivamente, até chegar, em junho de 2025, ao atual patamar de 15%.
Fonte:
BBC News Brasil

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