Questão
florestal na Amazônia: a luta pela efetivação de uma política pública
A
geógrafa Bertha Becker, especializada em geopolítica na Amazônia, em inúmeras
obras enfatiza que a região é a última fronteira de expansão do capitalismo,
reconhecida pelo estoque de riquezas naturais, estonteante biodiversidade,
banco genético, recursos minerais e recurso hídrico. E que a condição colonial
de exportadora de matéria prima ou no máximo semielaborados tem sido o
principal papel exercido pela Amazônia, dentro deste processo.
A
pesquisadora considera que este modelo impõe o uso intensivo dos recursos
naturais, que não tem implicado na melhoria da qualidade de vida da população
local. Ela alerta que enquanto não ocorrer uma grande revolução científica e
tecnológica, com a ocupação da Amazônia por cientistas antes de sua destruição,
tudo continuará no mesmo diapasão.
Contudo, a cada ano, o orçamento das universidades definha e as
condições de trabalho precarizam.
Becker,
falecida aos 83 anos, em 2013, emérita professora da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), alerta que o maior potencial da Amazônia reside na
riqueza biológica. A riqueza representa o maior banco genético do planeta,
contendo provavelmente 30% do estoque genético do mundo, a maior fábrica
mundial de produtos farmacêuticos e bioquímicos, e a maior fonte para o
conhecimento do funcionamento dos sistemas vivos e para a recombinação de genes
neles contidos, base da engenharia genética, além do conhecimento dos povos
locais. Como explicar uma agenda de desenvolvimento para a região que
desconsidera tal potencial e detona tudo? Indagou a pesquisadora, em trecho do
livro “Amazônia”.
É em
direção ao horizonte oposto do saque e da pilhagem que aponta o projeto da
política de manejo florestal de base comunitária. Em 2021 fiz um registro sobre
a experiência para o site Brasil de Fato, do Rio Grande do Sul, onde recupero o
percurso e entraves da iniciativa, como a seguir, onde constam algumas
atualizações.
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A Política de Manejo Florestal de Base Comunitária e Familiar
Cerca
de 63% das florestas públicas do Pará encontram-se em territórios de
comunidades tradicionais. A área equivale aproximadamente a 1,2 milhão de
hectares, sob domínio de indígenas, extrativistas, remanescentes de quilombos,
quebradeiras de coco babaçu, camponeses, e outras diversidades sociais,
esclarece a minuta do documento da PEMFCF. Este é um dos principais argumentos
de defesa da política, bem como os péssimos indicadores de desmatamento,
assimetrias entre os sujeitos envolvidos nos acordos de plano de manejo e violência contra as populações.
A
iniciativa não é nova, desde os anos 1950, – quando as políticas
desenvolvimentistas de Juscelino Kubitscheck incentivaram a indústria
automobilística no país e viabilizaram a construção da rodovia Belém-Brasília
(BR-010) -, a Organização das Nações Unidas (ONU), preconizava a defesa de uma
economia de base florestal comunitária como alternativa concreta ao
desenvolvimento baseado no uso intensivo das riquezas naturais.
Já nos
anos de 1980, com o assassinato do seringueiro Chico Mendes em dezembro de
1988, a iniciativa ganha grande inflexão em âmbito nacional e internacional,
que vai culminar como um modelo alternativo de reforma agrária para a Amazônia.
É neste momento que emerge o conceito das reservas extrativistas como um
paradigma sugerido a partir dos moradores originários da floresta. É a primeira
experiência política pública para a Amazônia a partir dos seus.
Neste
contexto os moradores da Amazônia cunham a categoria Povos da Floresta, como
representação política de defesa da floresta e de seus direitos territoriais
tendo como base a diversidade social marcada por múltiplas identidades, onde
temos indígenas, camponeses, extrativistas, remanescente de quilombos,
quebradeiras de coco babaçu, onde a salvaguarda do território é essencial à
reprodução da vida em suas variadas dimensões: política, cultural, social,
afetiva, científica, religiosa, etc. Uma vida sem cercas ou constantes ameaças.
É nesta
conjuntura que estados como Acre e o Amapá internalizaram o conceito de
florestania, o ser humano como parte da natureza, e, não o contrário, como o
fez o colonizador na construção de padrões de hierarquias de mando e
obediência, em uma equação assim sintetizada:
civilizado x bárbaro, produtor de conhecimento x obtuso.
Tais
padrões são facilmente flagrados nas políticas públicas de desenvolvimento para
a Amazônia, que possuem como regra pétrea o apagamento dos sujeitos locais, em
planos, programas e cartografias. Todavia, estes sublevam-se em oposição a tais
tentativas, como o fizeram os povos indígenas no início de 2025 contra os
ataques à Educação do Campo promovidos pelo governador Helder Barbalho e o seu
secretário de Educação à época, Rossieli Soares, mais inclinado ao mercado que
à educação. Naquela conjuntura dava-se o início da COP 30 para além dos salões
palacianos e de negócios corporativos.
A
reivindicação de tais sujeitos manifesta-se fora do escopo do direito burguês,
orientado pela lógica da propriedade privada, e, sim, a partir do direito
consuetudinário, baseado nos costumes. A título de exemplo, nesta linha do
direito, as quebradeiras de coco babaçu possuem o direito de coleta do coco,
independente de quem seja o suposto dono da terra. Como explica o antropólogo
Alfredo Wagner Berno de Almeida, em vasta produção sobre o tema, ao interpretar
a lei do Babaçu Livre, institucionalizada no estado do Maranhão, que integra a
Amazônia Legal.
Com
relação à proposta da PEMFCF no âmbito do Pará, informações do site do
Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio),
esclarecem que a proposta da política emerge como um instrumento de
regulamentação dos preceitos do artigo 3 da lei estadual 6.462, de 4 de julho
de 2002, a qual estabelece a Política Estadual de Florestas no Pará.
Os
incisos XVI e XVIII do artigo terceiro da referida lei preveem que deve ser
estimulada “a implantação de formas associativas na exploração florestal e no
aproveitamento de recursos naturais da flora” e ordenadas “as atividades de
manejo florestal, criando mecanismos de exploração autossustentada dos recursos
florestais”. O Ideflor-Bio é a autarquia responsável pela condução do processo
da PEMFCF.
Neste
sentido a proposta para a política pauta-se no fortalecimento das cadeias
produtivas; na regularização fundiária e ambiental para o manejo florestal
comunitário e familiar; no desenvolvimento científico e tecnológico que
respeite os conhecimentos tradicionais; e, por fim, na proteção das comunidades
e famílias nas relações comerciais.
Maria
de Nazaré Reis Ghirardi, integrante da Rede Bragantina de Economia Solidária,
do nordeste do estado, adverte que existem gargalos a serem enfrentados para
que a política se torne viável. “Temos inúmeros problemas, a exemplo da
regularização fundiária. Muitas das vezes as comunidades estão cercadas por
fazendas de gado, mineração e monocultivos, e são afetadas pelo uso do
agrotóxico. A lógica da concentração da terra está diretamente ligada com o
desmatamento. Isso afeta todo o entorno e as comunidades em particular” reflete
Reis.
Exemplo
clássico sobre o ambiente delicado a que a ambientalista faz referência pode
ser notado em várias regiões no Pará. Seja na dendeicultura no nordeste do
estado no entorno do município de Tomé-Açu ou no caso da expansão da soja no
Baixo Amazonas, em particular nas cidades de Santarém, Mojuí dos Campos e
Belterra. E, ainda no sudeste, onde a
mineração em grande escala da Vale representa o principal indutor de tensões
entre indígenas, camponeses e quilombolas. Tensões que se espraiam até São
Luís/MA, por conta da duplicação da Estrada de Ferro de Carajás e outras
estruturas. A Vale é ombreada pela pecuária extensiva, o que o professor Jean
Hébette denomina de fronteira agromineral.
O
doutor pela Universidade da Carolina do Norte e pesquisador da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Oriental, Milton
Kanashiro, que tem participado do processo de debate sobre a PEMFCF,
manifesta-se frustrado com a demora na efetivação da política. “O decreto
tornaria o processo mais ágil”, desabafa o pesquisador. Entre as muitas
atividades na Embrapa, Kanashiro exerceu a coordenação do Programa de Pesquisa do Comitê dos Sistemas
de Produção Florestal e Agroflorestal
Ao
contrário do servidor da Embrapa, o técnico da Secretaria de Meio Ambiente e
Sustentabilidade (Semas), Wendell Andrade de Oliveira, defende a efetivação da
PEMFCF a partir de um projeto de lei, posto assim garantir a continuidade da
mesma, e não via decreto. “Na condição de servidor público, o mais interessante
é o projeto de lei. Desta forma a lei blinda revogações por conta da
alternância do poder”, argumenta o coordenador da Diretoria de Planejamento
Estratégico e Projetos Corporativos da Semas.
Oliveira
acredita que a política representa uma possibilidade na redução do desmatamento
no estado. “O debate em torno da bioeconomia converge com os princípios
defendidos na minuta do projeto da PEMFCF, o que nos coloca no campo de
possibilidades”, argumenta.
Ele
alerta para um gargalo com relação ao pacto federativo, uma vez que boa parte
do território do estado é tutelado pela União, medida tomada durante a ditadura
civil-militar em 1971, por meio do Decreto Lei 1.164, durante o período Médici,
que federalizou boa parte do território da Amazônia. No caso do Pará, perto de
70%. Médici é considerado o mais
violento ditador e nomeia uma cidade no estado, Medicilândia, notabilizada pela
produção de cacau. E por refúgio de Darci Alves Pereira, o “Pastor Daniel” assassino
confesso de Chico Mendes. No município
ele presidiu o PL.
Com
relação ao papel do Estado no assunto, o gerente de certificação florestal do
Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), Leonardo
Martin Sobral reflete que, “o papel do Estado é fundamental seja como
facilitador ou elaborador da política, seja na dinamização em agrupar os
diferentes sujeitos interessados no tema, e, em viabilizar algo adequado para a
realidade das pessoas que vivem na floresta, e que dependem do manejo para a
sua sobrevivência”.
O
pesquisador acredita que a política é fundamental para o ordenamento da
atividade no estado, que tem boa parte de seu território definido como reservas
extrativistas, territórios quilombolas e projetos de assentamento onde é
possível o manejo florestal madeireiro e não madeireiro.
“Estes
territórios vivem sob constante ameaça de roubo de madeira, desmatamento e
grilagem. Uma política estadual que ordene a atividade representa uma ação
estratégica na redução do desmatamento e possibilita oportunidades de renda,
formação profissional das populações, além de evitar ações criminosas de
garimpos e outros setores”, ressalta Sobral.
Fonte:
Amazônia Real

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