quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Moara Crivelente: Contra a fraude da ‘paz’ na Palestina e além

O Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça — onde a minoria global promove sua hegemonia sobre o futuro da humanidade — foi um cenário bastante apropriado para o anúncio do “Conselho da Paz” e para a reafirmação da visão trumpista de mundo, ainda que alguns tenham demonstrado constrangimento diante de seu desvelamento. Ali, o presidente dos Estados Unidos recebeu elogios inflados de admiradores nada insuspeitos. Do copresidente do Fórum, Larry Fink, ao genro Jared Kushner, passando pelo secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Mark Rutte, Trump foi exaltado como “o líder mais importante do mundo”. Para completar, durante seu longo e tresloucado discurso, também houve risadas e aplausos. Para as vítimas, tratou-se de um quadro que poderia ser pintado pelo que Miguel Nicolelis tem chamado de “nem Inteligência, nem Artificial”. Felizmente, houve réplica.

As palavras do primeiro-ministro do Canadá têm sido bastante comentadas, talvez por virem de uma fonte inesperada. Mas Mark Carney disse aquilo que muitos intelectuais críticos, movimentos sociais, dirigentes de esquerda e líderes do Sul Global afirmam há muito tempo. Em resumo: o direito internacional é um instrumento da expansão global do capitalismo por meio do colonialismo e do imperialismo, consolidando um sistema internacional moderno que, na prática, é composto por Estados mais soberanos do que outros. Mas não se trata apenas disso. Dialeticamente, é preciso compreender como os povos do Sul disputam o direito e como é graças a essa disputa que ele se desenvolveu e passou a incorporar novas demandas. O direito à autodeterminação é uma delas.

No entanto, desde o início do século XX, a Palestina é uma das exceções — demonstrando que a força ainda prevalece. O precursor do “Conselho da Paz” foi o Mandato Britânico (1922–1948), por meio do qual a Liga das Nações legitimou o primeiro órgão de tutela sobre a Palestina, uma administração estabelecida em 1920 após o Reino Unido ocupar o território em 1917–18, durante a Primeira Guerra Mundial. Sob a promessa de preparar a Palestina para a independência, a Liga institucionalizou a visão colonial dominante com uma linguagem altamente discriminatória, concretizando as promessas feitas pelo chanceler britânico Arthur James Balfour, em 1916, de apoiar o movimento sionista na construção de um Estado judeu. Com sete sucessivos altos-comissários, a administração britânica apoiou a criação de instituições e treinou grupos paramilitares que posteriormente integrariam o Exército de Israel, ao mesmo tempo em que despojava e buscava desmobilizar a população palestina, reprimindo qualquer revolta. Em seguida, Reino Unido e Estados Unidos difundiram a ideia de que a solução para o antissemitismo ocidental estaria na apropriação de mais da metade da Palestina para a criação de um Estado judeu. A isso chamaram, como se fosse uma distribuição justa, de “Plano de Partilha”, endossado pela Assembleia Geral da ONU em 1947. Mais uma vez, a “comunidade internacional” foi mobilizada para legitimar e patrocinar a imposição de uma realidade contrária aos anseios do povo palestino.

A ânsia pela “propriedade” da Palestina e a insistência no espólio e na expulsão do povo palestino são constantes nesse projeto que continua sendo, inclusive na nova proposta de Trump, um projeto colonial. Não se trata sequer de neocolonialismo, pois, em vez do controle indireto e da exploração de um país formalmente independente e soberano, o plano mantém o controle direto sobre a população, atribuindo algumas tarefas de gestão a um órgão local sem independência formal e com ainda menos soberania. A colonização de povoamento, com características próprias no caso palestino, pressupõe a subjugação, o extermínio, a fragmentação e a transferência da população nativa por meio da expulsão; a superexploração e a segregação daqueles que permanecem; o povoamento por população estrangeira mediante a apropriação de terras e recursos; e assim por diante. É isso que os sucessivos governos de Israel têm feito — de forma ainda mais explícita desde que Trump voltou ao poder — e é isso que seu plano promete. O genocídio, que entrou em uma nova fase, é um método de colonização, e tanto seus instrumentos quanto seus resultados contam com investimentos internacionais, públicos e privados. A relatora da ONU Francesca Albanese apresentou indícios sólidos sobre essa economia, e é fundamental seguir investigando-os.

A criação de um “Conselho” internacional que respaldará esse plano, assim como a formação de uma autoridade palestina “tecnocrática” e “despolitizada” encarregada de implementá-lo, são tão indesejáveis quanto falaciosas. Não é nova a tentativa dos governos dos Estados Unidos e da União Europeia de encobrir o problema fundamental, de determinar o processo sociopolítico palestino e de aniquilar a autodeterminação do povo palestino. No entanto, Trump lança mão de sua pior tática de coerção para, aproveitando-se de um genocídio que patrocina e do desvio da atenção mundial, ditar o desfecho de um processo de paz mal concebido, que se arrasta há décadas, por meio de um plano econômico e político simultaneamente ultraliberal e colonial. Após um século de conluio ou omissão, é necessário responsabilizar os envolvidos nessa fraude e defender, na Palestina e além dela, o direito à autodeterminação, se realmente buscamos a paz.

¨      Fabricio Solagna: Gaza - Como funcionam as IAs da morte

A guerra na Faixa de Gaza, perpetrada por Israel contra os palestinos, tem sido classificada como um genocídio por diversos especialistas, inclusive por uma investigação independente da ONU.

A forma de executar os ataques se diferencia por utilizar inúmeros sistemas de vigilância com auxílio de IAs que automatizam a classificação de supostos alvos. Os programas LavenderThe Gospel e Where’s Daddy operam conjuntamente para identificar o que Israel considera uma ameaça e propõem intervenções prevendo, já de antemão, a morte de um número significativo de civis.

Essas tecnologias já são parte da atuação institucional como uma “estrutura de vigilância genocida” (GSA, em inglês), termo proposto pelos pesquisadores Mais Qandeel, da Universidade de Galway, na Irlanda, e Özgün Erdener Topak, da Universidade de York, no Canadá. Eles publicaram o artigo “Genocidal Surveillant Assemblage in Palestine: A Socio-Legal Analysis” no Journal of Genocide Research, onde aprofundam o estudo desses sistemas.

O termo “estrutura de vigilância genocida” tem origem nos estudos críticos de vigilância. A diferença é que se trata de um projeto coordenado por um Estado que utiliza todo seu poder infraestrutural para unir sistemas visando destruir um grupo racial ou étnico. Seria uma nova fase na brutalidade organizada, caracterizada por ser sistemática, ideologicamente articulada, tecnologicamente eficaz e de administração estatal. É uma forma perigosa de governança genocida, enraizada no projeto colonial de Israel, que estabelece um precedente para futuros conflitos, segundo os autores.

O sistema Lavender é um dos motores do GSA. Sua função é analisar dados de vigilância em massa — redes sociais, telefones, espionagem etc. — para atribuir uma pontuação a todos os indivíduos na Faixa de Gaza, indicando a probabilidade de serem militantes e potenciais alvos da guerra. O programa teria indicado aproximadamente 37 mil palestinos e continuaria funcionando, apontando para uma guerra sem fim.

Where’s Daddy, por sua vez, rastreia os indivíduos marcados até suas residências para atacá-los quando estiverem com suas famílias. As mortes que podem ocorrer em função dos ataques — eufemisticamente chamadas de danos colaterais — podem chegar a vinte pessoas para alvos de menor importância e até cem pessoas para alvos considerados de grande importância, como militares de alto escalão.

Já o The Gospel foca na geração de alvos de infraestrutura. Ele identifica edifícios e estruturas associadas a pretensos suspeitos e funciona com ênfase no maior dano, e não necessariamente na precisão. É por conta disso que prédios residenciais inteiros, hospitais ou escolas são destruídos, segundo dados levantados na pesquisa.

“No passado, havia momentos em Gaza em que criávamos cinquenta alvos por ano. E aqui a máquina produziu cem alvos em um dia”, segundo as palavras do ex-chefe das Forças Armadas israelenses, Aviv Kochavi

A utilização automatizada dessas ferramentas leva a um distanciamento da decisão e da responsabilização humana sobre as consequências da guerra. A supervisão das decisões é mínima ou meramente burocrática. Relatos de soldados israelenses indicam que se gastaria menos de vinte segundos para autorizar um bombardeio gerado pela IA. Um dos poucos critérios da verificação humana é se os alvos são do sexo masculino.

É uma convergência de duas forças: o acúmulo de décadas de vigilância territorial com uma camada de última geração de inteligência artificial.

Nesse contexto, as big techs possuem papel central. As empresas proporcionaram infraestrutura ilimitada com capacidades de IA, incluindo detecção facial, rastreamento de objetos e análise de sentimentos. A Palantir Technologies fornece, há bastante tempo, programas de policiamento preditivo para Israel. Google e Amazon têm parceria com o governo israelense pelo Projeto Nimbus desde 2021. A Microsoft também é incorporada nos serviços de nuvem, monitoramento e processamento de dados que compõem essa estrutura de vigilância.

O estudo aponta que o GSA representa uma nova etapa no processo moderno de “burocratização cumulativa da coerção”. Os sistemas de IA rotinizaram o assassinato em massa, tornando-o um processo estatístico, dadificado e frio, como descrito por um soldado israelense: “A máquina faz isso friamente. E torna tudo mais fácil”.

Isso significa que o novo sistema de vigilância molda a ação genocida, usando a geração de alvos como uma técnica de poder. Há um contexto histórico do colonialismo de povoamento de Israel na Palestina que, ao mesmo tempo, promove esse projeto e utiliza a situação de guerra para alimentá-lo e aprimorá-lo sob a ótica da eficácia militar.

Tudo isso abre um precedente perigoso, ressaltam os autores. O GSA representaria um modelo de genocídio para o século XXI. Se os perpetradores estatais e corporativos não forem responsabilizados, existe um alto risco de que este modelo seja exportado e replicado em outros contextos, utilizando as tecnologias de vigilância mais avançadas para cometer atrocidades como as que vêm sendo presenciadas na Faixa de Gaza.

O tipo de análise do artigo se encaixa no eixo de pesquisa que o OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância no Sul Global”, que dedica o olhar para as parcerias entre as big techs e Estados nacionais para explicar as razões do sucesso desse fenômeno nas margens do capitalismo que, neste caso particular, utiliza-se da guerra para lucrar.

<><> Israel proíbe ONG Médicos Sem Fronteiras de operar na Faixa de Gaza

governo de Israel anunciou neste domingo (01/02) que proibirá as operações humanitárias da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Faixa de Gaza a partir de 1ª de março, em uma decisão que privará ainda mais os palestinos de assistência básica.

“O Ministério dos Assuntos da Diáspora e do Combate ao Antissemitismo está tomando medidas para interromper as atividades de Médicos Sem Fronteiras na Faixa de Gaza”, declarou a pasta em comunicado. A decisão ocorreu após “a falha da MSF em apresentar listas de funcionários locais, um requisito aplicado a todas as organizações humanitárias que atuam na região”, acrescentou.

Em dezembro, o regime sionista havia ameaçado proibir a atuação de 37 organizações humanitárias em Gaza, incluindo a MSF, ao afirmar que elas deveriam enviar uma lista com as informações detalhadas de seus respectivos colaboradores palestinos “para excluir qualquer vínculo com o terrorismo”. Na ocasião, o Ministério dos Assuntos da Diáspora e do Combate ao Antissemitismo advertiu que as ONGs que se recusassem à exigência teriam as suas licenças cassadas e encerrariam “todas as atividades até 1º de março de 2026”.

O ministério havia alegado anteriormente que dois funcionários da MSF tinham ligações com os grupos Hamas e Jihad Islâmica, acusações que foram negadas pela organização.

Na última sexta-feira (30/01), a MSF explicou que havia concordado em compartilhar com Israel uma lista com os nomes de seus funcionários palestinos e internacionais, mas que não recebeu garantias suficientes do outro lado de que essas informações seriam usadas apenas para fins administrativos e não colocariam os colaboradores em risco.

De acordo com a organização, 15 de seus funcionários foram mortos ao longo do genocídio promovido por Israel na Palestina, desde 7 de outubro de 2023. Atualmente, a MSF é responsável por cerca de 20% dos leitos hospitalares em Gaza e opera aproximadamente 20 centros de atendimento médico. Somente em 2025, informou ter realizado mais de 800 mil consultas médicas e mais de 10 mil partos de bebês.

¨      Oito países condenam ‘repetidas violações’ de Israel ao plano de paz de Trump para Gaza

Oito países, de maioria muçulmana, emitiram uma carta conjunta na qual “condenam veementemente as repetidas violações do cessar-fogo por parte de Israel em Gaza”, acrescentando que as ações israelenses resultaram na morte e ferimentos de mais de mil palestinos desde a implementação do acordo de paz, em 10 de outubro de 2025.

Divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita neste domingo (01/02), a declaração conta com a assinatura também da Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Catar, Indonésia, Paquistão, Egito e Turquia. 

O documento apontou Israel como responsável por tomar medidas “que arriscam escalar tensões e minar esforços voltados para consolidar a calma e restaurar a estabilidade” antes da implementação da segunda fase do plano de paz para a Faixa de Gaza articulado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Na nota, as chancelarias apelaram pelo avanço “rumo à recuperação e reconstrução rápidas, bem como a avançar por uma paz justa e duradoura fundamentada no direito palestino à autodeterminação e à condição de Estado, de acordo com o direito internacional e as resoluções relevantes do Conselho de Segurança da ONU e a iniciativa de paz árabe.”

O documento foi publicado um dia depois que o território palestino passou por um dos dias mais violentos desde o início da trégua. No sábado (31/01), o Ministério da Saúde de Gaza anunciou que pelo menos 31 pessoas foram mortas e outras dezenas ficaram feridas na cidade de Gaza, Khan Younis e Rafah por ataques aéreos israelenses.

De acordo com dados da pasta local, desde outubro de 2025, ao menos 509 pessoas foram mortas na Faixa de Gaza, entre elas mais da metade crianças e mulheres. Além disso, informa que 1.405 ficaram feridas. Um total de 715 corpos foram recuperados dos escombros desde então.

 

Fonte: Outras Palavras/Opera Mundi

 

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