Moara
Crivelente: Contra a fraude da ‘paz’ na Palestina e além
O Fórum
Econômico Mundial, em Davos, na Suíça — onde a minoria global promove sua
hegemonia sobre o futuro da humanidade — foi um cenário bastante apropriado
para o anúncio do “Conselho da Paz” e para a reafirmação da visão trumpista de
mundo, ainda que alguns tenham demonstrado constrangimento diante de seu
desvelamento. Ali, o presidente dos Estados Unidos recebeu elogios inflados de
admiradores nada insuspeitos. Do copresidente do Fórum, Larry Fink, ao genro
Jared Kushner, passando pelo secretário-geral da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (OTAN), Mark Rutte, Trump foi exaltado como “o líder mais
importante do mundo”. Para completar, durante seu longo e tresloucado discurso,
também houve risadas e aplausos. Para as vítimas, tratou-se de um quadro que
poderia ser pintado pelo que Miguel Nicolelis tem chamado de “nem Inteligência,
nem Artificial”. Felizmente, houve réplica.
As
palavras do primeiro-ministro do Canadá têm sido bastante comentadas, talvez
por virem de uma fonte inesperada. Mas Mark Carney disse aquilo que muitos
intelectuais críticos, movimentos sociais, dirigentes de esquerda e líderes do
Sul Global afirmam há muito tempo. Em resumo: o direito internacional é um
instrumento da expansão global do capitalismo por meio do colonialismo e do
imperialismo, consolidando um sistema internacional moderno que, na prática, é
composto por Estados mais soberanos do que outros. Mas não se trata apenas
disso. Dialeticamente, é preciso compreender como os povos do Sul disputam o
direito e como é graças a essa disputa que ele se desenvolveu e passou a
incorporar novas demandas. O direito à autodeterminação é uma delas.
No
entanto, desde o início do século XX, a Palestina é uma das exceções —
demonstrando que a força ainda prevalece. O precursor do “Conselho da Paz” foi
o Mandato Britânico (1922–1948), por meio do qual a Liga das Nações legitimou o
primeiro órgão de tutela sobre a Palestina, uma administração estabelecida em
1920 após o Reino Unido ocupar o território em 1917–18, durante a Primeira
Guerra Mundial. Sob a promessa de preparar a Palestina para a independência, a
Liga institucionalizou a visão colonial dominante com uma linguagem altamente
discriminatória, concretizando as promessas feitas pelo chanceler britânico
Arthur James Balfour, em 1916, de apoiar o movimento sionista na construção de
um Estado judeu. Com sete sucessivos altos-comissários, a administração
britânica apoiou a criação de instituições e treinou grupos paramilitares que
posteriormente integrariam o Exército de Israel, ao mesmo tempo em que
despojava e buscava desmobilizar a população palestina, reprimindo qualquer
revolta. Em seguida, Reino Unido e Estados Unidos difundiram a ideia de que a
solução para o antissemitismo ocidental estaria na apropriação de mais da
metade da Palestina para a criação de um Estado judeu. A isso chamaram, como se
fosse uma distribuição justa, de “Plano de Partilha”, endossado pela Assembleia
Geral da ONU em 1947. Mais uma vez, a “comunidade internacional” foi mobilizada
para legitimar e patrocinar a imposição de uma realidade contrária aos anseios
do povo palestino.
A ânsia
pela “propriedade” da Palestina e a insistência no espólio e na expulsão do
povo palestino são constantes nesse projeto que continua sendo, inclusive na
nova proposta de Trump, um projeto colonial. Não se trata sequer de
neocolonialismo, pois, em vez do controle indireto e da exploração de um país
formalmente independente e soberano, o plano mantém o controle direto sobre a
população, atribuindo algumas tarefas de gestão a um órgão local sem
independência formal e com ainda menos soberania. A colonização de povoamento,
com características próprias no caso palestino, pressupõe a subjugação, o
extermínio, a fragmentação e a transferência da população nativa por meio da
expulsão; a superexploração e a segregação daqueles que permanecem; o
povoamento por população estrangeira mediante a apropriação de terras e
recursos; e assim por diante. É isso que os sucessivos governos de Israel têm
feito — de forma ainda mais explícita desde que Trump voltou ao poder — e é
isso que seu plano promete. O genocídio, que entrou em uma nova fase, é um
método de colonização, e tanto seus instrumentos quanto seus resultados contam
com investimentos internacionais, públicos e privados. A relatora da ONU
Francesca Albanese apresentou indícios sólidos sobre essa economia, e é
fundamental seguir investigando-os.
A
criação de um “Conselho” internacional que respaldará esse plano, assim como a
formação de uma autoridade palestina “tecnocrática” e “despolitizada”
encarregada de implementá-lo, são tão indesejáveis quanto falaciosas. Não é
nova a tentativa dos governos dos Estados Unidos e da União Europeia de
encobrir o problema fundamental, de determinar o processo sociopolítico
palestino e de aniquilar a autodeterminação do povo palestino. No entanto,
Trump lança mão de sua pior tática de coerção para, aproveitando-se de um
genocídio que patrocina e do desvio da atenção mundial, ditar o desfecho de um
processo de paz mal concebido, que se arrasta há décadas, por meio de um plano
econômico e político simultaneamente ultraliberal e colonial. Após um século de
conluio ou omissão, é necessário responsabilizar os envolvidos nessa fraude e
defender, na Palestina e além dela, o direito à autodeterminação, se realmente
buscamos a paz.
¨
Fabricio Solagna: Gaza - Como funcionam as IAs da morte
A
guerra na Faixa de Gaza, perpetrada por Israel contra os palestinos, tem sido
classificada como um genocídio por diversos especialistas, inclusive por uma
investigação independente da ONU.
A forma
de executar os ataques se diferencia por utilizar inúmeros sistemas de
vigilância com auxílio de IAs que automatizam a classificação de supostos
alvos. Os programas Lavender, The Gospel e Where’s
Daddy operam conjuntamente para identificar o que Israel considera uma
ameaça e propõem intervenções prevendo, já de antemão, a morte de um número
significativo de civis.
Essas
tecnologias já são parte da atuação institucional como uma “estrutura de
vigilância genocida” (GSA, em inglês), termo proposto pelos pesquisadores Mais
Qandeel, da Universidade de Galway, na Irlanda, e Özgün Erdener Topak, da
Universidade de York, no Canadá. Eles publicaram o artigo “Genocidal
Surveillant Assemblage in Palestine: A Socio-Legal Analysis” no Journal
of Genocide Research, onde aprofundam o estudo desses sistemas.
O termo
“estrutura de vigilância genocida” tem origem nos estudos críticos de
vigilância. A diferença é que se trata de um projeto coordenado por um Estado
que utiliza todo seu poder infraestrutural para unir sistemas visando destruir
um grupo racial ou étnico. Seria uma nova fase na brutalidade organizada,
caracterizada por ser sistemática, ideologicamente articulada, tecnologicamente
eficaz e de administração estatal. É uma forma perigosa de governança genocida,
enraizada no projeto colonial de Israel, que estabelece um precedente para
futuros conflitos, segundo os autores.
O
sistema Lavender é um dos motores do GSA. Sua função é
analisar dados de vigilância em massa — redes sociais, telefones, espionagem
etc. — para atribuir uma pontuação a todos os indivíduos na Faixa de Gaza,
indicando a probabilidade de serem militantes e potenciais alvos da guerra. O
programa teria indicado aproximadamente 37 mil palestinos e continuaria
funcionando, apontando para uma guerra sem fim.
O Where’s
Daddy, por sua vez, rastreia os indivíduos marcados até suas residências
para atacá-los quando estiverem com suas famílias. As mortes que podem ocorrer
em função dos ataques — eufemisticamente chamadas de danos colaterais — podem
chegar a vinte pessoas para alvos de menor importância e até cem pessoas para
alvos considerados de grande importância, como militares de alto escalão.
Já
o The Gospel foca na geração de alvos de infraestrutura. Ele
identifica edifícios e estruturas associadas a pretensos suspeitos e funciona
com ênfase no maior dano, e não necessariamente na precisão. É por conta disso
que prédios residenciais inteiros, hospitais ou escolas são destruídos, segundo
dados levantados na pesquisa.
“No
passado, havia momentos em Gaza em que criávamos cinquenta alvos por ano. E
aqui a máquina produziu cem alvos em um dia”, segundo as palavras do ex-chefe
das Forças Armadas israelenses, Aviv Kochavi
A
utilização automatizada dessas ferramentas leva a um distanciamento da decisão
e da responsabilização humana sobre as consequências da guerra. A supervisão
das decisões é mínima ou meramente burocrática. Relatos de soldados israelenses
indicam que se gastaria menos de vinte segundos para autorizar um bombardeio
gerado pela IA. Um dos poucos critérios da verificação humana é se os alvos são
do sexo masculino.
É uma
convergência de duas forças: o acúmulo de décadas de vigilância territorial com
uma camada de última geração de inteligência artificial.
Nesse
contexto, as big techs possuem papel central. As empresas proporcionaram
infraestrutura ilimitada com capacidades de IA, incluindo detecção facial,
rastreamento de objetos e análise de sentimentos. A Palantir Technologies
fornece, há bastante tempo, programas de policiamento preditivo para Israel.
Google e Amazon têm parceria com o governo israelense pelo Projeto Nimbus desde
2021. A Microsoft também é incorporada nos serviços de nuvem, monitoramento e
processamento de dados que compõem essa estrutura de vigilância.
O
estudo aponta que o GSA representa uma nova etapa no processo moderno de
“burocratização cumulativa da coerção”. Os sistemas de IA rotinizaram o
assassinato em massa, tornando-o um processo estatístico, dadificado e frio,
como descrito por um soldado israelense: “A máquina faz isso friamente. E torna
tudo mais fácil”.
Isso
significa que o novo sistema de vigilância molda a ação genocida, usando a
geração de alvos como uma técnica de poder. Há um contexto histórico do
colonialismo de povoamento de Israel na Palestina que, ao mesmo tempo, promove
esse projeto e utiliza a situação de guerra para alimentá-lo e aprimorá-lo sob
a ótica da eficácia militar.
Tudo
isso abre um precedente perigoso, ressaltam os autores. O GSA representaria um
modelo de genocídio para o século XXI. Se os perpetradores estatais e
corporativos não forem responsabilizados, existe um alto risco de que este
modelo seja exportado e replicado em outros contextos, utilizando as
tecnologias de vigilância mais avançadas para cometer atrocidades como as que
vêm sendo presenciadas na Faixa de Gaza.
O tipo
de análise do artigo se encaixa no eixo de pesquisa que o OplanoB classifica
como “capitalismo de vigilância no Sul Global”, que dedica o olhar para as
parcerias entre as big techs e Estados nacionais para explicar as razões do
sucesso desse fenômeno nas margens do capitalismo que, neste caso particular,
utiliza-se da guerra para lucrar.
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Israel proíbe ONG Médicos Sem Fronteiras de operar na Faixa de Gaza
O governo de Israel anunciou neste
domingo (01/02) que proibirá as operações humanitárias da ONG Médicos Sem
Fronteiras (MSF) na Faixa de Gaza a partir de 1ª de março, em uma decisão que
privará ainda mais os palestinos de assistência básica.
“O
Ministério dos Assuntos da Diáspora e do Combate ao Antissemitismo está tomando
medidas para interromper as atividades de Médicos Sem Fronteiras na Faixa de
Gaza”, declarou a pasta em comunicado. A decisão ocorreu após “a falha da MSF
em apresentar listas de funcionários locais, um requisito aplicado a todas as
organizações humanitárias que atuam na região”, acrescentou.
Em
dezembro, o regime sionista havia ameaçado proibir a atuação de 37
organizações humanitárias em Gaza, incluindo a MSF, ao afirmar que elas
deveriam enviar uma lista com as informações detalhadas de seus respectivos
colaboradores palestinos “para excluir qualquer vínculo com o terrorismo”. Na
ocasião, o Ministério dos Assuntos da Diáspora e do Combate ao
Antissemitismo advertiu que as ONGs que se recusassem à exigência teriam
as suas licenças cassadas e encerrariam “todas as atividades até 1º de março de
2026”.
O
ministério havia alegado anteriormente que dois funcionários da MSF tinham
ligações com os grupos Hamas e Jihad Islâmica, acusações que foram negadas pela
organização.
Na
última sexta-feira (30/01), a MSF explicou que havia concordado em compartilhar
com Israel uma lista com os nomes de seus funcionários palestinos e
internacionais, mas que não recebeu garantias suficientes do outro lado de que
essas informações seriam usadas apenas para fins administrativos e não
colocariam os colaboradores em risco.
De
acordo com a organização, 15 de seus funcionários foram mortos ao longo do
genocídio promovido por Israel na Palestina, desde 7 de outubro de 2023.
Atualmente, a MSF é responsável por cerca de 20% dos leitos hospitalares em
Gaza e opera aproximadamente 20 centros de atendimento médico. Somente em 2025,
informou ter realizado mais de 800 mil consultas médicas e mais de 10 mil
partos de bebês.
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Oito países condenam ‘repetidas violações’ de Israel ao
plano de paz de Trump para Gaza
Oito
países, de maioria muçulmana, emitiram uma carta conjunta na qual “condenam
veementemente as repetidas violações do cessar-fogo por parte de Israel em Gaza”,
acrescentando que as ações israelenses resultaram na morte e ferimentos de mais
de mil palestinos desde a implementação do acordo de paz, em 10 de outubro de
2025.
Divulgada
pelo Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita neste domingo
(01/02), a declaração conta com a assinatura também da Jordânia, Emirados
Árabes Unidos, Catar, Indonésia, Paquistão, Egito e Turquia.
O
documento apontou Israel como responsável por tomar medidas “que arriscam escalar tensões e minar
esforços voltados para consolidar a calma e restaurar a estabilidade” antes da
implementação da segunda fase do plano de paz para a Faixa de Gaza articulado
pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Na
nota, as chancelarias apelaram pelo avanço “rumo à recuperação e reconstrução
rápidas, bem como a avançar por uma paz justa e duradoura fundamentada no
direito palestino à autodeterminação e à condição de Estado, de acordo com o
direito internacional e as resoluções relevantes do Conselho de Segurança da
ONU e a iniciativa de paz árabe.”
O
documento foi publicado um dia depois que o território palestino passou por um
dos dias mais violentos desde o início da trégua. No sábado (31/01), o
Ministério da Saúde de Gaza anunciou que pelo menos 31 pessoas foram mortas e
outras dezenas ficaram feridas na cidade de Gaza, Khan Younis e Rafah por
ataques aéreos israelenses.
De
acordo com dados da pasta local, desde outubro de 2025, ao menos 509 pessoas
foram mortas na Faixa de Gaza, entre elas mais da metade crianças e mulheres.
Além disso, informa que 1.405 ficaram feridas. Um total de 715 corpos foram recuperados
dos escombros desde então.
Fonte:
Outras Palavras/Opera Mundi

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