Juan
Torres López: Terceiro-mundismo nos
Estados Unidos - a face interna de seu declínio imperial
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Há uma
grande convergência em torno da mudança que vem ocorrendo na posição
dos Estados Unidos no mundo: seu poder imperial já não é o que foi.
Algumas
pesquisas não hesitam sequer em falar de colapso do poderio norte-americano.
Outras, a meu ver mais realistas, enxergam um declínio progressivo e
possivelmente irreversível. Os próprios documentos oficiais reconhecem
abertamente que seu poder e sua influência estão diminuindo. O
recente Relatório de Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos
da América, publicado no mês passado, admite isso claramente ao se referir
à China: “O que começou como uma relação entre uma economia madura e
próspera e um dos países mais pobres do mundo transformou-se em uma relação
entre quase iguais”. Quando, em suas primeiras páginas, estabelece “o que
querem os Estados Unidos” (proteger-se de ataques militares e de
influências estrangeiras hostis; infraestrutura nacional resiliente diante de
desastres; a dissuasão nuclear mais robusta, crível e moderna; a economia mais
forte, dinâmica, inovadora e avançada; a base industrial mais robusta; o setor
energético mais sólido; ou o país mais avançado e inovador do mundo em ciência
e tecnologia), não faz senão mencionar desejos, porque começa a carecer de tudo
isso. Ao menos, nas condições privilegiadas de apenas algumas décadas atrás.
A essa
convergência deve-se acrescentar um ponto comum da maioria das análises sobre o
poder norte-americano que, a meu ver, representa uma limitação importante. O
declínio dos Estados Unidos é avaliado em termos das mudanças que
ocorrem em sua relação com o restante das nações.
Não
nego que esse seja um aspecto fundamental e indiscutível. O poder imperial
dos Estados Unidos baseou-se, desde a Segunda Guerra Mundial, em
quatro grandes pilares: o econômico-industrial-comercial-financeiro, o
tecnológico, o militar e o cultural. Os quatro determinaram a natureza de suas
relações com o resto do mundo e agora entram em declínio, ainda que não com a
mesma intensidade, o que também é muito relevante.
O PIB real
dos EUA passou de representar 40% do total mundial em 1960 para 29,2%
em 2024. O de sua produção industrial caiu de 40% para 19%, e sua participação
no comércio mundial despencou de 30% do total para 10%. E, embora o dólar continue
sendo a moeda mais poderosa do mundo, seu peso no total das reservas globais
diminuiu mais de 25 pontos percentuais nas últimas seis décadas.
Algo
semelhante ocorreu no campo tecnológico. Embora ainda seja uma potência líder
em numerosos setores, a China pisa em seus calcanhares.
Os Estados Unidos perderam o controle completo que até pouco tempo
tinham sobre recursos fundamentais para que uma economia esteja na vanguarda do
progresso tecnológico e seja economicamente dominante. Nem mesmo seu poder
brando ou cultural permanece intacto, e apenas no plano militar desfruta, por
ora, de uma vantagem decisiva e substancial sobre qualquer outro país do mundo.
É
fundamental, como disse, ter tudo isso em mente; isto é, o que muda na relação
da economia e da sociedade norte-americanas com o resto do mundo. Talvez não
tanto pelo que está diminuindo, mas pelo que lhe resta como principal alavanca
de poder (sua capacidade militar), se o que se quer é compreender o tipo de
relação e hegemonia que será obrigado a impor daqui em diante, tanto a seus
antigos parceiros e aliados quanto às nações com as quais compete ou considera
adversárias.
Mas, em
todo caso, e ainda que tudo isso seja importante, parece-me que se estão
esquecendo os processos que ocorrem no interior dos Estados Unidos, quando
talvez sejam até mais determinantes do que os externos.
Refiro-me
à deterioração progressiva das condições de vida de uma parcela crescente da
população, à perda de estabilidade e à fragmentação crescente da sociedade, à
falência de instituições essenciais e ao avanço acelerado rumo à autocracia que
está em curso.
Durante
décadas, o poder imperial
norte-americano apoiou-se
também na existência de uma sociedade que, por mais fraturas que tivesse, se
apresentava ao exterior e se percebia a si mesma como a expressão real de um
sonho realizado, o espelho no qual necessariamente deveriam se mirar aqueles
que aspiravam ao progresso e ao bem-estar. Ali estavam a segurança, o
equilíbrio, o mundo em que tudo era possível para qualquer pessoa, o consumo
sem limites e a abundância generalizada…
Hoje,
porém, a sociedade, a economia doméstica e a política se degradaram e se
desagregam, possivelmente, em um ritmo bastante mais rápido do que a perda de
peso dos Estados Unidos nas relações internacionais. Continua sendo,
sem dúvida, uma sociedade privilegiada, a mais rica do planeta, mas começa a
não ser exagerado dizer que os Estados Unidos se parecem cada vez mais com os
países tradicionalmente chamados de terceiro-mundistas ou subdesenvolvidos. Ou
seja, aqueles que, independentemente do volume de sua atividade econômica,
caracterizam-se por crescimento sem bem-estar, extrativismo, grandes bolsões de
pobreza estrutural, ampla extensão de mercados informais, insegurança,
urbanismo caótico e infraestruturas coletivas deterioradas, déficits de
investimento social, instituições democráticas frágeis ou capturadas e a
multiplicação de conflitos latentes associados a tudo isso, que geram
violência, segregação e sociedades submetidas a conflitos constantes, velados
ou explícitos.
A
realidade social dos Estados Unidos, a que afeta o dia a dia das pessoas
comuns, é muito semelhante a tudo isso.
Começa
a não ser exagerado dizer que os EUA se parecem cada vez mais com
países terceiro-mundistas.
O
modelo econômico norte-americano mudou, e o crescimento baseia-se na geração de
atividade puramente improdutiva, na “produção” de mais bens intangíveis —
seguros, dados, patentes, rendas de monopólio — do que bens físicos. A bolha de
investimentos especulativos e sustentada por artifícios contábeis mantém
atualmente o crescimento do PIB e, se o desemprego fosse medido pelos
métodos anteriores aos estabelecidos durante a presidência de Clinton, o
desemprego seria de 22%, apenas três pontos abaixo do registrado na Grande
Depressão de 1929. A economia dos Estados Unidos gera mais riqueza do
que qualquer outra, se medida nos termos muito brutos do Produto Interno
Bruto, mas essa riqueza se concentra nas grandes corporações tecnológicas e no
sistema financeiro, enquanto a maioria dos trabalhadores dispõe cada vez menos
de renda e poupança e vive à beira da insolvência.
A
desigualdade na distribuição da renda e da riqueza é a maior do mundo
desenvolvido e talvez não tenha paralelo em todo o planeta. Houve períodos, no
último quarto de século, em que o 1% mais rico da população apropriou-se de 95%
da renda que estava sendo gerada. O coeficiente de concentração da riqueza é
praticamente o mesmo que o
de Madagascar, Haiti, Tanzânia ou Camarões, e maior do
que o
da Rússia, China, Marrocos, Chade, Etiópia ou Iraque.
Quase
metade das estradas e um em cada cinco quilômetros de rodovia estão em estado
“ruim ou regular”. Mais de 45 mil pontes são estruturalmente deficientes e a
rede elétrica sofre apagões regulares. Em grandes cidades
como Detroit, Cleveland ou St. Louis, a desindustrialização
deixou bairros com indicadores de renda, mortalidade e violência comparáveis
aos da América Central. Em outras, como Portland, foi necessário
declarar estado de emergência por três meses para tentar conter o uso e o
impacto do fentanil (cinquenta vezes mais potente que a heroína). As máfias
(norte-americanas, como os bancos que guardam o dinheiro que movimentam)
controlam sua distribuição por todo o país.
Com 40%
de todas as armas civis existentes no planeta, nos Estados
Unidos morrem todos os anos mais pessoas por disparos do que em todas as
guerras que o país trava fora de suas fronteiras. Há quase seis vezes mais
homicídios do que na Europa e ali se encontra o maior sistema
carcerário do mundo: cerca de dois milhões de pessoas estavam presas em 2024
(mais do que na Rússia, África do Sul ou Brasil). A força
de trabalho das pessoas encarceradas é utilizada para fabricar bens para
empresas privadas com salários de um dólar por hora de trabalho. Muitos deles,
além disso, foram levados à prisão em consequência de más práticas ou
brutalidade policial, supressão de provas ou confissões forçadas.
Embora
os Estados Unidos sejam o país que mais gasta em saúde
(majoritariamente privada e em benefício das grandes empresas do setor e das
seguradoras), há quase 50 milhões de pessoas sem acesso a serviços de saúde, o
que produz, por essa razão, mais mortes anuais do que os acidentes de trânsito.
A expectativa de vida é inferior à de Cuba; a taxa de pobreza infantil é
praticamente a mesma que a das Filipinas. A mortalidade materna é três
vezes maior que a do Canadá. Quase 800 mil pessoas viviam sem teto no início
de 2024. Os Estados Unidos estão, junto com Ilhas
Marshall, Micronésia, Palau, Papua-Nova
Guiné, Nauru, Niue, Suriname e Tonga, entre as únicas
nações do mundo que não garantem licença-maternidade remunerada em 2025.
A
educação deteriora-se progressivamente. 54% das pessoas adultas
nos EUA leem abaixo do nível do 6º ano do ensino fundamental, segundo
o Departamento de Educação. E o sistema educacional, em vez de atuar como
impulsionador da mobilidade social, transformou-se em uma armadilha financeira
para milhões de famílias: em agosto deste ano, a dívida estudantil disparou
para 1,81 trilhão de dólares, com 42,5 milhões de mutuários devendo, em média,
39.075 dólares cada um.
O Escritório
das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável situa hoje
os Estados Unidos na 44ª posição mundial de seu índice, logo atrás
de Cuba, Bulgária, Ucrânia e Tailândia. E a nação mais
rica do mundo ocupa, no entanto, a 17ª posição no Índice de
Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento.
Tudo
isso vem acompanhado de uma deterioração progressiva das instituições e da
representação política. A revista The Economist coloca
os Estados Unidos entre as nações com “democracia imperfeita”. A
própria opinião da população norte-americana nas pesquisas talvez reflita
melhor o que está ocorrendo na potência que até agora controla o mundo: apenas
24% dos norte-americanos acreditam que o país vai “na direção certa”; metade
dos jovens qualifica o país como “terceiro-mundista”; e apenas 55% acreditavam
que Biden venceu legitimamente as eleições de 2020. Em abril passado,
52% dos norte-americanos, 56% dos independentes e até 17% dos republicanos
consideravam, em uma pesquisa, que Trump é um “ditador perigoso cujo
poder deveria ser limitado antes que destrua a democracia norte-americana”.
Ainda assim, em janeiro de 2024, três quartos dos republicanos apoiavam, em uma
pesquisa, que Trump fosse “ditador por um dia”, como o atual
presidente havia dito que seria.
Peter Turchin (Final de
partida: elites, contraelites e o caminho para a desintegração
política, Editora Debate) estudou a evolução de centenas de sociedades ao
longo de 10 mil anos e demonstrou com clareza que a desigualdade é o principal
fator explicativo de sua decadência. Devemos prestar atenção principalmente ao
que está ocorrendo no interior dos Estados Unidos, mais do que ao seu
exterior, para poder antecipar o que vai acontecer e de que maneira se
desenrolarão os acontecimentos aos quais sua decadência imperial conduz. E o
que já se pode vislumbrar nesse sentido é preocupante: o império está se
convertendo em um monstro autocrático, militarizado e desumano.
¨
O mundo ainda precisa da globalização? Por Li Yi
Quando
as manchetes parecem cada vez mais pesadas e o mundo dá sinais de fragmentação
como nunca antes, é tentador acreditar que o sistema multilateral esteja
desmoronando. As tensões geopolíticas crescentes, a erosão da confiança entre
as nações e os testes cada vez mais duros à cooperação internacional criam um
cenário que não víamos há décadas. Dependendo de quem se ouça, a globalização é
vista ora como a força mais progressista da história humana, ora como uma teia
complexa que espalha riscos com a mesma facilidade com que distribui
benefícios.
Mas
sempre que a realidade parece confusa, aprendi algo útil: olhar para trás, bem
para trás. A história oferece pistas sobre o presente e o futuro, especialmente
quando ambos parecem incertos. E, quando recuamos o suficiente no tempo, uma
verdade se destaca: o mundo sempre foi moldado por trocas e conexões, muito
antes de a palavra “globalização” existir.
Muito
antes de cúpulas globais e acordos multinacionais, ideias e objetos já
atravessavam montanhas, desertos e oceanos. Eles carregavam a sabedoria de
diferentes culturas, eram comercializados, reinventados e adaptados por outros
povos. Esses fluxos constantes e silenciosos de mercadorias, conhecimento e
técnicas artesanais ajudaram a moldar o mundo em que vivemos hoje.
Ao
pesquisar e conversar com historiadores e especialistas culturais para o meu
trabalho – sim, conversas reais, não apenas buscas noturnas no Google – fui
lembrada de como essas trocas antigas influenciaram profundamente a vida
moderna. Entre todos os exemplos, uma folha humilde talvez conte a história
mais completa: o chá.
Sua
trajetória começou como uma planta medicinal na China antiga. Ao longo dos
séculos, porém, o chá se transformou em uma mercadoria global e em uma cultura
própria. Em suas primeiras viagens por rotas como a Rota da Seda, o chá não era
trocado por trocados, mas por cavalos de guerra, especiarias, joias e outros
bens preciosos dos quais muitos reinos dependiam.
Originado
na China, o chá é hoje a bebida mais consumida no mundo, depois da água.
O
comércio de chá por cavalos entre a China e sociedades nômades vizinhas durou
cerca de mil anos, até o século XVIII. Hoje, muitas dessas comunidades há muito
se sedentarizaram, mas o apreço pelo chá permanece. No Cazaquistão, no
Uzbequistão, na Mongólia e em outras regiões, o chá faz parte da alimentação
cotidiana, dos rituais sociais e dos costumes – cada um com seu sabor
particular.
A
jornada do chá na Europa revela uma história ainda mais ampla de trocas
globais. Quando comerciantes holandeses levaram o chá chinês ao continente no
século XVII, ele se tornou símbolo de sofisticação entre as elites. Em meados
do século XIX, o chá já era uma obsessão na Grã-Bretanha, a ponto de a busca
pelas folhas mais frescas vindas da China gerar competições literais de alta
velocidade, conhecidas como Tea Race.
Com a
Revolução Industrial, o mundo do chá mudou radicalmente. As plantações
coloniais redesenharam as cadeias de suprimento. Os navios a vapor encurtaram
distâncias globais. A produção mecanizada transformou o chá de um luxo em um
companheiro cotidiano nas mesas de cozinha ao redor do mundo.
Por
meio de trocas que atravessaram gerações e continentes, uma simples planta
folhosa percorreu terras e oceanos, tornando-se um ritual compartilhado que
segue conectando comunidades em todo o planeta.
A
história do chá não é a única a nos lembrar de como as culturas se enriquecem
quando se encontram. Foi isso que me inspirou a criar o podcast “Feito na
China Antiga”.
Apesar do nome, o programa não é, de fato, sobre um único país. Ele explora
como as ideias se deslocam, se transformam e nos aproximam.
O
podcast acompanha como criações atemporais atravessam fronteiras e séculos,
moldam culturas e conectam mundos ao longo do caminho.
A série
analisa grandes movimentos históricos – como invenções como o chá, o arroz, a
seda e o papel viajaram por continentes, absorvendo novos significados e
transformando civilizações inteiras. Essas invenções remodelaram sociedades
muito além de seus locais de origem, incorporando saberes e tradições locais,
até se tornarem patrimônios compartilhados da humanidade.
Por
isso, quando hoje se questiona a globalização e a cooperação internacional,
vale lembrar que a conexão não é uma tendência a ser defendida ou abandonada.
Ela é parte de quem somos.
Se
essas histórias lhe parecem tão fascinantes quanto a mim, convido você a
acompanhar a série especial do podcast Feito na China Antiga. Juntos, podemos
explorar como a humanidade sempre esteve interligada, muito antes de termos uma
palavra para isso.
Fonte:
CTXT/Brasil 247

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