Falhas
na higiene e manipulação de alimentos elevam risco de bactérias
Um
número expressivo de brasileiros adota práticas inadequadas de higiene e
manipulação de alimentos em casa, como lavar carne na pia da cozinha ou não
higienizar corretamente vegetais.
As
constatações foram feitas por meio de uma pesquisa de abrangência nacional que
investigou os hábitos de higiene, manuseio e armazenamento de alimentos em 5
mil domicílios com diferentes níveis de renda e de todas as regiões do Brasil.
O
trabalho foi conduzido por pesquisadores vinculados ao FoRC (Centro de Pesquisa
em Alimentos (FoRC), um dos CEPIDs (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão)
apoiados pela FAPESP. O estudo revelou lacunas preocupantes no comportamento da
população, elevando o risco de surtos de doenças transmitidas por alimentos
(DTAs) nos lares do país. Os resultados foram relatados em artigo publicado na
revista Food and Humanity.
“Já
sabíamos que as pessoas tendem a não cumprir todas as práticas de higiene e
manipulação de alimentos mais adequadas, mas as informações disponíveis sobre
esses comportamentos, que colocam em risco a segurança dos alimentos, ainda
eram escassas”, diz à Agência FAPESP Uelinton Manoel Pinto, pesquisador
associado ao FoRC e coordenador do estudo.
Para
avaliar os comportamentos na compra, armazenamento e manipulação, os
pesquisadores utilizaram um questionário on-line composto por 29 perguntas. O
formulário foi divulgado via internet e enviado para listas de e-mails, além de
contar com o suporte de uma empresa contratada para conduzir uma pesquisa por
amostra, garantindo a representatividade regional e socioeconômica dos
participantes.
A
coleta de dados ocorreu entre setembro de 2020 e abril de 2021, durante a
pandemia de COVID-19. O período foi marcado por um redobramento dos cuidados
sanitários das famílias para evitar a contaminação pelo vírus SARS-CoV-2.
As
análises revelaram que, mesmo no cenário de maior atenção à limpeza, apenas 38%
dos participantes disseram que higienizam adequadamente os vegetais.
Esses
produtos podem ser contaminados em diversas etapas da cadeia produtiva e, como
geralmente são consumidos crus, a higienização correta é essencial. A Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por exemplo, recomenda que esses
alimentos sejam lavados primeiro com água corrente – no caso das hortaliças,
folha a folha –, depois mergulhados em uma solução sanitizante (como
hipoclorito de sódio) por 15 minutos e, por fim, enxaguados com água potável.
“Muitas
pessoas responderam que só lavam com água, ou usam sabão e detergente, que não
são recomendados para essa finalidade”, pondera o pesquisador.
Outro
ponto crítico refere-se às proteínas animais: metade dos participantes
respondeu que lava carne na pia da cozinha, 24% consomem carne malpassada e 17%
ingerem ovos crus ou malpassados. “A despeito de a recomendação para não lavar
carne na pia estar bem disseminada em razão do risco de contaminação cruzada,
muitos brasileiros ainda continuam fazendo isso”, afirma o pesquisador.
A
prática é contraindicada porque os respingos de água podem espalhar bactérias
patogênicas, como Salmonella e Campylobacter, contaminando utensílios e outros
alimentos próximos.
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Armazenamento inadequado
A
pesquisa apontou ainda que 39% dos brasileiros descongelam alimentos em
temperatura ambiente e 11% armazenam sobras na geladeira somente após duas
horas ou mais de exposição.
“Esse
último dado foi surpreendente porque é comum observarmos as pessoas manterem a
comida sobre o fogão por longos períodos após o preparo”, diz o pesquisador. A
orientação é que alimentos perecíveis sejam refrigerados em, no máximo, duas
horas para evitar a proliferação bacteriana; em temperatura ambiente, a
população de microrganismos pode dobrar a cada 20 minutos.
“Surtos
de intoxicação ou infecção alimentar em eventos com grandes volumes de comida
normalmente ocorrem porque os alimentos ficaram por tempo demasiado entre 10 °C
e 50 °C, a chamada ‘zona de perigo’, onde o crescimento microbiano é
acelerado”, explica Uelinton.
Em uma
segunda etapa, 216 participantes da Região Metropolitana de São Paulo
registraram as temperaturas de seus refrigeradores durante três dias, em três
horários diferentes, utilizando termômetros digitais fornecidos pelo estudo. Os
resultados indicaram que 91% das geladeiras operavam na faixa recomendada,
entre 0 °C e 10 °C.
“Esses
dados de temperatura são importantes para predizer a taxa de crescimento de um
determinado microrganismo em alimentos e, dessa forma, aprimorar a avaliação de
riscos”, explica o pesquisador.
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Correlação com a renda
A
análise estatística revelou uma relação direta entre a renda familiar mensal e
a segurança dos hábitos. Famílias de renda mais alta tendem a adotar práticas
mais seguras, como o uso de soluções cloradas para vegetais, enquanto grupos de
renda mais baixa dependem de métodos menos eficazes.
“Famílias
com renda de até quatro salários mínimos responderam que costumam lavar
vegetais apenas com vinagre diluído, que não é uma solução sanitizante eficaz,
além de descongelar produtos fora da geladeira”, conta o coordenador. No geral,
as melhores práticas de higiene foram observadas em famílias com renda entre
quatro e dez salários mínimos.
“Mais
do que fornecer um panorama dos hábitos de higiene dos alimentos da população
brasileira, esses dados são importantes por poderem embasar outros estudos,
incluindo avaliações de risco com foco nos impactos à saúde decorrentes das
práticas adotadas”, avalia o pesquisador.
• Onda de calor aumenta risco de
deterioração dos alimentos; veja como evitar
O
Brasil está enfrentando mais uma onda de calor nesta semana e,
consequentemente, aumentam os riscos à saúde da população, como desidratação,
mal-estar e agravamento de doenças pré-existentes. No entanto, as altas
temperaturas também podem aumentar as chances de intoxicação alimentar devido à
deterioração dos alimentos.
De
acordo com os CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados
Unidos, o calor facilita a proliferação de bactérias e fungos nos alimentos, o
que torna a refrigeração adequada da comida um cuidado ainda mais essencial.
A
manipulação incorreta de alimentos durante dias de calor também aumenta os
riscos de intoxicação alimentar. "No verão, estamos expostos a diversas
situações que podem ter impacto na conservação de alimentos. As altas
temperaturas e más práticas de manipulação de alimentos favorecem a
proliferação bacteriana e de toxinas", alerta a infectologista Emy Akiyama
Gouveia, do Hospital Israelita Albert Einstein, em matéria publicada
anteriormente na CNN Brasil.
Importante
ressaltar que nem sempre o alimento contaminado tem gosto ou aspecto ruim.
Alguns exemplos de agentes causadores dessas infecções são bactérias
(Salmonella, E.coli, Staphyloccus), vírus (rotavírus, norovírus) e parasitas
(como a giárdia). Os sintomas mais comuns são diarreia, náusea, vômito, dor
abdominal e, eventualmente, febre.
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Como prevenir a intoxicação alimentar durante a onda de calor?
Alguns
cuidados são essenciais para evitar a contaminação de alimentos durante a onda
de calor. O primeiro deles é manter os alimentos bem refrigerados, em uma
geladeira a 4 ºC ou em um freezer a -18 ºC.
Segundo
a especialista em saúde da CNN, Leana Wen, as bactérias se multiplicam
rapidamente entre as temperaturas de 4 ºC e 60 ºC.
Além
disso, alguns alimentos pré-embalados e prontos para consumo podem representar
um risco maior em relação à segurança alimentar, principalmente se não forem
armazenados adequadamente.
Outros
cuidados incluem manter a higiene adequada das mãos ao manipular ou ingerir
alimentos, com álcool em gel 70% ou água e sabonete. A hidratação também é
essencial, principalmente com água, mas também com outros líquidos, como chás,
isotônicos, sucos de frutas naturais e água de coco.
Alimentos
ricos em água, como frutas (melancia, morango, melão, abacaxi, manga, kiwi,
entre outras), verduras e legumes, também ajudam a repor o líquido perdido pelo
suor. Mas lembre-se de armazená-los adequadamente para evitar a proliferação de
bactérias.
Fonte:
CNN Brasil

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