A
pedagogia de guerra nas escolas cívico-militares
Destituído
de ilusão, toda sociedade moderna arrasta algum grau importante de
militarização. Afinal, o sonho militar de sociedade anunciado por Michel
Foucault é, demasiadamente, moderno. Entretanto, o Brasil constitui-se como
sociedade militarizada antes mesmo de tornar-se nação e de efetivar-se como
Estado Moderno no sentido weberiano, ou seja, de estabelecer o monopólio da
violência a partir de instituições militares realmente militarizadas. A
independência brasileira manteve o sistema escravocrata no território nacional
e, inexoravelmente, arremeteu a força das armas contra a população escravizada
e empobrecida. Nessa perspectiva, é possível discorrer que a história do Brasil
independente é a história da incessante descarga de endocolonização junto à população
tradicionalmente oprimida.
Recorrentemente,
é no interior do espaço ocupado por pobres que se efetiva a colonização do
próprio território nacional. Dado que a endocolonização impõe o uso da força, a
violência das armas se encontra direcionada à população empobrecida. São,
amiudadamente, identificados como o problema e o inimigo do desenvolvimento do
país. É o que explica a premissa de poder que paira no imaginário nacional, na
qual todo e qualquer problema nacional, principalmente referente aos pobres,
deve ser resolvido por meio da militarização. A escola cívico-militar é o
recente rebento de uma lógica de poder que atravessa a história do Brasil. Ela
carrega um currículo oculto, que se fundamenta graças à presença de uma
sociedade fortemente militarizada, que, contagiada pelo fenômeno pânico, confia
nos homens de farda a solução de problemas de ordem civil, como se a pátria
estivesse permanentemente sob o terror do campo de batalha.
Dezenas
de adolescentes reunidos no pátio de uma escola cívico-militar assistem
atentamente a uma exposição de militares a respeito do equipamento de guerra
utilizado, cotidianamente, para o combate ao crime organizado nas favelas pelo
Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope). Em outra escola,
também cívico-militar, estudantes como soldados de combate marchavam cantando
inapropriadamente canção de guerra, na qual entoavam o seguinte refrão: “entrar
na favela e deixar corpo no chão”. Isto é, reproduziam a pedagogia castrense, o
currículo oculto que expressa a violência belicosa do Estado aplicada nos
espaços inflacionados de desigualdade socioeconômica. São dois acontecimentos
seminais como ponto de partida para a crítica política acerca da militarização
de território empobrecido, que hoje se estende ao espaço escolar.
Há uma
pedagogia na escola cívico-militar — abrigada em currículo oculto — que aciona
uma tradição política militarizante e, do mesmo modo, impõe mutação na
filosofia da educação pública brasileira. A militarização do espaço escolar,
nas áreas de “baixo desempenho” cognitivo, consiste tanto na imposição da
disciplina de guerra, que dociliza corpos, como na transformação do território
pedagógico em campo de combate. Dito instrutivamente, o mesmo território em
que, repetidas vezes, se instaura a guerra irregular contra criminosos
marginalizados igualmente é objeto de conversão da escola pública em caserna. É
o uso abusivo da mão visível que, em tempos de crise societal, impõe a força
militar a fim de resolver com a brutalidade simbólica e/ou física, problema que
é, essencialmente, socioeconômico.
Grosso
modo, a escola cívico-militar corresponde à articulação entre as secretarias de
educação e a de segurança pública. Há um corpo docente responsável pelos
componentes curriculares e outro composto por militares da ativa e reserva que
atua na parte administrativa e disciplinar. O projeto cívico-militar busca
combinar educação civil com princípios de disciplina e hierarquia militar. Já
são centenas de escolas cívico-militares espalhadas pelo Brasil. Ele foi
previsto para aplicação em áreas de vulnerabilidade social e de baixo
desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). O projeto
pretende, por intermédio da aplicação de disciplina castrense, educar massas
empobrecidas, sem assinalar política de alteração da realidade socioeconômica
da comunidade escolar e de investimentos econômicos significativos. Em
realidade, resgata a cultura política nacional-conservadora, que grosseiramente
considera a militarização da sociedade como panaceia de todos os males do país,
sobretudo os males sociais produzidos por uma elite branca que concentra a
riqueza brasileira em pequenos grupos familiares. De fato, a solução militar
para os problemas nacionais é a postura conservadora de longa duração, que
refuta a premissa de que a indisciplina, o insucesso escolar e a violência
urbana são o sintoma de uma sociedade profundamente desigual.
Efetivamente,
o resultado do IDEB registra que o sistema público de educação requer melhoria
considerável, visto que a rápida universalização de acesso das massas
exploradas ao sistema público educacional não foi acompanhada de
desenvolvimento socioeconômico nacional. Além disso, as políticas neoliberais
de privatização do comum e de austeridade nos gastos públicos contribuíram para
a imediata frustração pedagógica. De forma que a realidade infeliz da escola
pública, ou melhor, o malogro do ensino, é o reflexo das condições miseráveis
de brasileiros que vivem precariamente no território periférico das cidades
brasileiras. Em síntese, a escola pública, impactada por décadas de baixo
investimento e composta por trabalhadores da educação proletarizados com salários
aviltantes, de igual modo, reflete a condição miserável que produz indisciplina
e baixo desempenho escolar. É nesse contexto de empobrecimento da sociedade
civil que brota, rapidamente, como erva daninha, a distopia de mutação da
escola pública em uma caserna.
É a
militarização do espaço escolar, que aflora como saída para a indisciplina e os
baixos resultados cognitivos, uma vez que o problema socioeconômico no Brasil
desenverga emprego de Polícia Militar e das Forças Armadas. A principal
característica de nossa pátria moderna é o fascismo de cor, conceito potente de
Muniz Sodré, que alcança e qualifica a política de opressão sobre a pele negra.
Ele atua para afiançar a desigualdade estruturante nacional. O fascismo de cor
subtrai da realidade educacional brasileira as raízes econômicas que
inviabilizam o tal “sucesso” escolar no território das favelas. Então, contra
sujeitos submetidos à barbárie socioeconômica — famílias desestruturadas,
monoparentais e de baixíssima renda — institui-se a barbárie do Estado, a força
militar com o objetivo de docilizar corpos indisciplinados e empobrecidos.
Nesse diapasão, basta abrir os portões da escola aos militares para que os
problemas da indisciplina e do desempenho cognitivo sejam dirimidos
imediatamente. Eis o currículo oculto desse movimento de extrema-direita que
avança contaminando o arranjo democrático da educação pública.
Em
suma, a militarização corresponde à invasão da caserna em território
essencialmente de natureza civil. Ao corpo fardado atribuem-se poderes técnicos
superiores; como deus ex machina, o militar lança a pedagogia de guerra para
restaurar a ordem civil. Trata-se de uma sociedade tomada pela fé e contagiada
pelo vírus militar. Assim, mesmo carente de amparo teórico-pedagógico que possa
justificar a presença de militares no espaço escolar, a escola cívico-militar
progride desembaraçadamente no terreno público, porque segue uma tradição
brasileira, a de conferir solução aos problemas civis recorrendo ao emprego da
força militar. Evidentemente, do ponto de vista pedagógico, a escola
cívico-militar é vazia de proposição transformadora, pois parte de ideia simplista,
que infere o baixo desempenho escolar como decorrente da indisciplina dos
estudantes e, também, por conferir preconceito de inaptidão acerca da
competência dos professores paisanos para conduzir o projeto
político-pedagógico na totalidade do espaço escolar. A escola cívico-militar é,
sem dúvida, choque de gestão administrativo-militar, que ameaça desfazer as
bases democráticas e pedagógicas da educação pública brasileira. A escola é
espaço eminentemente civil, portanto configura território político, no qual a
estrutura fardada de poder, baseada em uma pedagogia de guerra, desconfigura
completamente o propósito constitucional-democrático da educação brasileira.
• Sobre escolas cívico-militares, mais um
problema para atrapalhar a educação pública. Por Otaviano Helene
A
criação de escolas cívico-militares, projeto transformado na Lei Complementar
1398/2024, aprovada pela Assembleia Legislativa paulista, recebeu críticas
amplas de todos os setores envolvidos com a educação. A oposição a esse projeto
conseguiu uma quase unanimidade entre educadores, formuladores de políticas
educacionais, entidades científicas e sindicais, entidades ligadas aos setores
público e privado, administradores e demais profissionais de todas as áreas
ligadas à educação: todos o criticaram, pois por qualquer ângulo que o projeto
seja analisado, ele tem problemas.
Ainda
que já tenha recebido muitas críticas, o projeto tem tantos problemas que elas
não se esgotaram. Vejamos algumas pouco lembradas.
O texto
que encaminha a proposta à Assembleia Legislativa e que a justifica (ver PLC
9/2024), logo após um primeiro parágrafo formal, afirma que a implantação será
feita “priorizando-se aquelas [escolas] situadas em regiões de maior incidência
de criminalidade”. Tal frase deixa claro que a intenção do projeto não é a
educação, o ensino, a aprendizagem ou o desenvolvimento de crianças e jovens;
caso fosse esse, o primeiro argumento em sua defesa deveria fazer referência
aos processos de ensino e aprendizado.
O
problema da criminalidade está fora das escolas, e afeta diariamente a vida da
totalidade da população. É lá que a polícia deve agir, inclusive impedindo que
tais problemas invadam as escolas e afetem seus estudantes e trabalhadores.
Se o
objetivo do projeto é usar a capacidade de trabalho de pessoas aposentadas para
promover o “desenvolvimento de um ambiente escolar adequado, que promova avanço
no processo de ensino-aprendizagem”, justificativa que aparece no terceiro
parágrafo da carta que o encaminhou, não deveria ser por meio do uso de
militares aposentados. Esse objetivo seria mais bem satisfeito se os
aposentados convidados fossem professores, orientadores educacionais,
psicólogos escolares, assistentes sociais ou outros profissionais com muito
maior experiência com os problemas das escolas e de seus estudantes.
Outra
possibilidade seria convidar pessoas aposentadas das áreas da saúde, tais como
enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, medicina, odontologia entre tantas
outras; isso responderia a muitas das necessidades dos estudantes das escolas
públicas, contribuindo para reduzir problemas que afetam o desenvolvimento e o
aprendizado de crianças e adolescentes. Entre cientistas e docentes
universitários também seria fácil encontrar muitas pessoas motivadas e
dispostas a colaborar com o avanço nos processos de ensino e aprendizado em
escolas públicas.
Na
carta de encaminhamento do projeto, além das poucas justificativas para sua
implantação, não há um diagnóstico dos principais problemas do sistema
educacional, coisa que seria fundamental para subsidiar uma lei complementar à
Constituição do Estado que tenha como objetivo a desenvolvimento da educação.
No parágrafo seguinte da carta há um erro grosseiro de redação que o torna
ininteligível. Esse, que não é o único erro de português, denota o descuido de
quem a escreveu e o desrespeito por aquelas pessoas às quais a carta era
dirigida.
Os
demais parágrafos também não apresentam justificativas válidas. O citado
alinhamento do projeto com o Plano Estadual de Educação não parece ter
sustentação. Mesmo a citação de sua ligação com resolução do próprio governo
estadual parece frágil, a menos que o significado da palavra “seguro”, na
afirmação de que escolas devem oferecer um “ambiente escolar acolhedor e
seguro”, tenha algum entendimento diferente daquele usado nos meios
educacionais.
Por que
acreditar que as corporações militares poderiam administrar a disciplina dentro
das escolas, como o projeto supõe, quando não conseguem administrar a
disciplina no entorno dessas escolas, apesar de policiais serem treinados para
esta última tarefa, e não para a primeira?
Qualquer
que seja o lado examinado, o projeto, agora uma lei, é ruim. Ele não ajudará a
superar nenhum problema de nosso sistema educacional, que são muitos. O
principal deles e causa de muitos outros é o orçamento por aluno na rede
estadual paulista de educação básica. Esse orçamento, destinado a remunerar
professores e demais trabalhadores, à manutenção das escolas, à compra de
materiais educacionais, entre tantas outras despesas típicas de um sistema
educacional, não deve atingir sequer os quinhentos reais mensais por aluno. Por
isso, as escolas não têm condições de atender adequadamente os alunos nem
fornecer aos professores as condições adequadas e dignas de trabalho.
A
militarização das escolas é mais um problema a atrapalhar a educação pública.
Fonte:
Por Ronaldo Queiroz de Morais, em Outras Palavras/Jornal da USP

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