Código
de conduta de Fachin é 'sinal de grandeza', afirma ex-ministro da Justiça
Entrevistados
avaliam a urgência de um código de conduta no Supremo, em meio a grande pressão
midiática e ataques contra o Poder Judiciário.
Enquanto
há muito a ser investigado na fraude do Banco Master, o prognóstico é que cada
um dos três Poderes tem nomes envolvidos no que pode ser um dos grandes
escândalos da história política do Brasil.
No
Executivo, os governadores Cláudio Castro (RJ) e Ibaneis Rocha (DF) são citados
no caso, com envolvimentos distintos. Sobre Castro recai a suspeita da
aplicação de R$ 970 milhões do fundo de previdência social dos servidores do
estado em investimentos do Master, mesmo sob ressalvas do Tribunal de Contas.
Já
Ibaneis é implicado por suposta omissão durante a tentativa de compra do Master
pelo Banco de Brasília (BRB), instituição controlada pelo governo do Distrito
Federal. Em ambos os casos, a apuração busca esclarecer se houve
responsabilidade direta dos governadores, falhas de governança e eventual
violação de deveres legais na condução dos atos administrativos.
No
Legislativo, fala-se sobre a "Bancada do Master", formada por
parlamentares que agem para aprovar propostas no Congresso Nacional em favor do
banco, seja blindando políticos, seja pressionando órgãos como a Polícia
Federal (PF), seja esquivando-se de investigações ou CPIs.
O
senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado Claudio Cajado (PP-BA) compõem essa
bancada, possuindo ligações com o empresário Daniel Vorcaro, dono do Master,
preso em novembro.
O líder
do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), também está ligado ao banco,
por ter sugerido o nome do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Ricardo
Lewandowski como consultor para o banco antes de assumir a pasta.
Veículos
de imprensa, porém, dão mais destaque à atuação do STF, especificamente dos
magistrados Dias Toffoli, relator do caso, e Alexandre de Moraes.
Enquanto
as críticas a Moraes se referem à contratação milionária do escritório de
advocacia de sua esposa por Vorcaro, além de supostos encontros do ministro com
o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para debater o tema, Toffoli
vem sendo criticado por sua condução na relatoria.
As
suspeitas sobre ministro indicado por Lula se dá por sua ligação indireta a
pessoas relacionadas ao caso, com empresas de seus parentes dividirem
participação societária com fundos da teia financeira investigada no caso. Além
disso, o ministro do Supremo tinha feito uma viagem de jatinho para ver a final
da Libertadores em 2025 junto com um dos advogados do Banco Master, um dia após
o caso ter sido sorteado para a relatoria de Toffoli no STF.
Estes
casos de falta de transparência e ligações dos ministros com empresários do
ramo financeiro fizeram com que Edson Fachin, presidente pro tempore do
Supremo, propusesse um código de conduta para membros da Corte. Contudo,
segundo a mídia brasileira, essas ações foram malvistas por seus colegas, que
criticaram as ações de Fachin como "erráticas", especialmente por
tratar de forma tão abertamente em meio à ataques do Judiciário.
A
urgência desse código, porém é algo mais político do que um imperativo técnico,
explica Luiz Signates, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e
PUC-Goiás e proprietário do Instituto Signates de pesquisa.
"A
medida poderia ajudar a aplacar a fúria contestatória que cresce depois dos
problemas gerados pelo protagonismo do STF assumiu, nos últimos anos, em face
dos conflitos políticos no Brasil."
O
Supremo ganhou evidência na mídia nos últimos anos devido o julgamento da trama
golpista ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, alimentando um confronto
direto entra o campo da direita e a Corte, em especial o ministro Alexandre de
Moraes.
"Nesse
cenário, qualquer suspeita de deslize tende a ampliar os ataques. Um código de
conduta, com regras éticas claras, serviria como sinalização de compromisso
institucional e de proteção à independência do Supremo, nos termos da
Constituição."
Segundo
análise do professor, o STF teme que qualquer iniciativa neste caso aparente
mais como um fragilidade do que uma solução, sendo soluções arriscadas ou até
ineficazes diante os ataques que membros da Corte sofrem.
"E
isso não deixa de ter alguma razão, pois haveria, sem dúvidas, os que os
acusariam de corporativismo ou até sugerissem que a medida fosse uma espécie de
'confissão de culpa'". Contudo, Signates vê que um debate sobre um código
não seria prejudicial em si, argumentando que o STF "precisa dar mais
clareza às suas intervenções" para se defender melhor de acusações de
"ativismo judicial" por parlamentares e advogados brasileiros.
Para
Eugênio Aragão, advogado e ex-ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, o
autocontrole transparente dos magistrados é o único meio de garantir que falhas
humanas contaminem a instituição. "O STF precisa de um estatuto objetivo
de conduta ética dos ministros, pelo qual se possa medir a eficiência do
autocontrole. Outros países adotam solução parecida."
Isto
porque, sendo o Supremo a maior instância judiciária do país, não haveria como
introduzir um mecanismo de supervisão disciplinar sem ferir a independência dos
Três poderes
"Mas
a iniciativa partindo do próprio STF é um sinal de grandeza democrática
necessária neste momento. A Corte deve ser exemplo e será se admitir sua
autocontenção transparente, sujeita a escrutínio público."
Em meio
a essa crise, o Senado é visto como principal campo de batalha na eleição deste
ano. Para o projeto bolsonarista, a conquista da Casa Alta não só permitirá
continuar um projeto de anistia à Jair Bolsonaro, como permitirá avançar com
pedidos de impeachment contra ministros da corte.
Para
Signates, nesse contexto, os pedidos por um código de conduto partem da mesma
ânsia que os pedidos de impeachment: revolta com os vereditos da corte.
"Discordar de decisões judiciais não pode, em regimes democráticos, levar
ao constrangimento ou à expulsão dos juízes que as tomaram."
Já
Aragão vê que a crise que a instituição se encontre tem mais potencial para
barrar os movimentos de impeachment de ministros do STF do que realizá-los,
caso as investigações não encontrem indícios de má conduta na Corte.
"Isso
provaria que a Corte tem seus próprios mecanismos de controle que afastam a
necessidade de tensionamento entre os Poderes da República".
• Código de ética 'alemão' vira prioridade
de Fachin no STF
O
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin anunciou nesta
segunda-feira (02/02), em discurso na sessão de abertura do ano judiciário, que
dará prioridade à criação de um código de ética para a Corte durante sua
presidência. Ele afirmou que o momento é de "ponderações e
autocorreção" no Judiciário e que o projeto terá a relatoria da ministra
Cármen Lúcia .
"No
plano interno, destaca-se a promoção do debate institucional sobre integridade
e transparência. Agradeço, de público, a eminente ministra Cármen Lúcia por ter
aceitado a relatoria da proposta de um Código de Ética, compromisso de minha
gestão para o STF", disse Fachin durante a fala.
Ainda
não há uma minuta pronta do conjunto de regras para a instância máxima da
Justiça brasileira, cuja primeira reunião para criação de um cronograma está
prevista para 12 de fevereiro. No entanto, como mostrou a DW, as bases dele são
inspiradas em um documento similar do Bundesverfassungsgericht (BVerfG, na
sigla em alemão), o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, publicado em
2018. O objetivo é orientar a conduta dos ministros da Corte.
Durante
seu discurso, Fachin também ressaltou a atuação do STF na defesa do processo
democrático e do sistema eleitoral e ao evitar "erosões
constitucionais". O presidente da Corte fez também um apelo ao consenso na
política brasileira.
"O
momento histórico é também de ponderações e de autocorreção. É hora de um
reencontro com o sentido essencial da República, da tripartição real de Poderes
e da convivência harmônica e independente, com equilíbrio institucional. Somos
todos chamados a essa arena", declarou o presidente do STF.
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Ministros sob pressão
A fala
ocorre em um momento em que o Supremo vem sendo alvo de críticas pelas ligações
de ministros com o Banco Master , epicentro de um escândalo bilionário que
envolve supostas fraudes em créditos .
O
principal implicado é Dias Toffoli, que atua como relator do caso .
Investigações da Polícia Federal apontaram que um fundo de investimentos ligado
ao Master comprou participações no resort Tayayá, cuja propriedade é de
familiares do ministro.
Além
disso, Toffoli viajou para o Peru, em 2025, no mesmo jato em que estava Augusto
Arruda Botelho, ex-secretário nacional de Justiça de Lula e advogado de defesa
de Luiz Antônio Bull, diretor de compliance do Master.
Em
janeiro deste ano, Fachin emitiu uma nota oficial defendendo a atuação do STF e
a relatoria de Toffoli à frente do caso Master.
Já o
ministro Alexandre de Moraes negou ter participado de um encontro com o
ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa, no
primeiro semestre de 2025, na casa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master.
A suposta reunião foi noticiada pelo portal Metrópoles.
Antes
da liquidação do Master pelo Banco Central, o escritório de advocacia Barci de
Moraes, que pertence à família do ministro, prestou serviços ao banco de
Vorcaro .
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Consenso em meio a resistências
A
criação do código de ética tem sido discutida desde o ano passado, mas vem
enfrentando resistências dentro da Corte.
O
ministro Gilmar Mendes afirmou que não ser contrário à iniciativa, mas defende
que as regras para a conduta dos ministros já estão definidas na legislação
brasileira.
Já para
Moraes "não há a mínima necessidade" do conjunto de regras. "Os
ministros do Supremo já se pautam pela conduta ética que a Constituição
determina", disse ele à Folha durante o Fórum Jurídico de Lisboa, evento
de palestras promovido por Gilmar Medes.
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STF visa regras do modelo alemão
Na
Alemanha, o código de conduta discutido entre os 16 juízes da Corte foi
publicado em 2018 como uma forma de blindar da instituição junto à opinião
pública alemã e também de ataques de governo estrangeiros.
Intitulado
"Diretrizes de Conduta para Juízes do Tribunal Constitucional", o
código alemão criou uma plataforma própria de transparência em que os juízes do
BVerfG divulgam valores recebidos pela publicação de livros e artigos,
palestras e participações em eventos independentes.
Além
disso, o documento alemão proíbe os juízes que deixaram o BVerG de atuar em
processos no Tribunal que estavam pendentes durante os seus mandatos ou que
estejam diretamente relacionados a eles.
Também
há regras para que as declarações a veículos de imprensa "sejam
compatíveis com as funções dos entrevistados, com a reputação do tribunal e a
dignidade do cargo".
• Fachin reafirma compromisso de adoção de
Código de Ética para o STF
Ministro
escalou Carmén Lúcia para relatar o documento.
O
ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, afirmou
nesta segunda-feira (2) que pretende adotar um Código de Ética para a Corte.
Durante
discurso na abertura do Ano Judiciário, ele destacou que é papel da
magistratura fazer com que a democracia permaneça de pé a partir de sua atuação
por meio de segurança jurídica e legitimidade.
"Enquanto
a magistratura permanecer integra e firme, a democracia permanecerá em pé com
plena legitimidade. Seguirei buscando dar à sociedade brasileira segurança
jurídica com legitimidade. Reafirmo compromisso com a adoção de um código de
ética para o tribunal."
Para
isso, Fachin apontou em seu discurso que elencou a ministra Cármen Lúcia para
relatar o Código de Ética da Corte, que terá como intuito prevenir conflitos de
interesse, consolidar normas de conduta, ampliar a transparência e construir
consensos no colegiado.
"Vamos
caminhar juntos na construção do consenso no âmbito deste colegiado."
Nas
últimas semanas, o STF tem sido alvo de questionamentos em meio ao caso do
Banco Master. Atuando como relator, Dias Toffoli é criticado pela forma como
conduz o processo, enquanto Alexandre de Moraes teria supostamente discutido
com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, a liquidação extrajudicial
do Master, mesmo tendo o banqueiro Daniel Vorcaro contratado o escritório da
esposa de Moraes.
Ainda
durante o discurso, Fachin destacou que uma das missões do STF é não se omitir
nem ceder por conveniência, mas que "os ministros respondem pelas escolhas
que fazem" e a forma como se comunicam com a sociedade importa.
"Unidade
não é unanimidade. O que nos une não é a concordância em todas as questões.
Ademais, o todo não se confunde com a parte. O que nos une é o compromisso com
a instituição."
Fachin
também deu enfase ao ano eleitoral, reforçando que "a Justiça deve se
manter equidistante das posições políticas, seja quais forem".
"Quase
38 anos depois [da promulgação da Constituição], lições históricas se instalam.
[...] O Brasil tem lições de democracia a oferecer porque preservou suas
eleições sem ruptura e com respeito à Constituição."
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Lula defende equilíbrio entre instituições
O
presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, também esteve presente na
abertura do Ano Judiciário. Ao lado de outras autoridades, o petista defendeu o
equilíbrio entre instituições ao declarar que este é um desejo do povo
brasileiro.
"O
povo brasileiro não quer conflito entre instituições, quer estabilidade,
justiça social e oportunidades. Quer um Estado que garanta seus direitos e seja
capaz de enfrentar os grandes desafios de seu tempo."
Lula
também elogiou o STF ao destacar que ministros da Corte enfrentaram ameças de
morte, ao mesmo tempo que resistiram e realizaram o seu trabalho com
"serenidade e firmeza".
"Nos
últimos anos, o Judiciário tem sido guardião da Constituição, do Estado
Democrático de Direito e do voto popular. O STF não buscou protagonismo, muito
menos tomou para si a atribuição de outros poderes. Agiu no estrito cumprimento
de sua responsabilidade institucional, defendeu a Constituição, garantiu a
integridade do processo eleitoral e protegeu a liberdade do voto."
O
presidente brasileiro defendeu que as instituições da Justiça brasileira possam
agir com independência, mas que isto não significa isolamento.
"A
independência do Poder Judiciário permanece como condição indispensável para
esse equilíbrio. Independência que não significa isolamento, mas sim
convivência institucional harmoniosa. Convivência baseada no respeito recíproco
e no diálogo entre os Poderes, como determina a Constituição."
Fonte:
Sputnik Brasil

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