quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Ricardo Nêggo Tom: The Send Brasil - os enviados do imperialismo diabólico para destruir a sociedade brasileira

Lou Engle é um líder evangélico estadunidense conhecido por estimular atos de “martírio cristão” para redimir a sociedade do que ele considera pecado e para louvar o nome de Deus na terra. Em 2016, foi uma das atrações do “The Call: Azuza Now” - evento evangélico de avivamento inspirado em outro evento similar ocorrido em 1906, na Azusa Street (Rua Azusa), em Los Angeles – onde, segundo relatos, diversos milagres foram realizados, com deficientes físicos se levantando de suas cadeiras de rodas, e até pessoas sendo curadas de câncer no cérebro. É deste evento - que contou com a presença de outras importantes lideranças evangélicas estadunidenses – que se origina o The Send (Os enviados), que foi criado em 2018, e trazido para o Brasil em 2020, pelas mãos de Damares Alves, então ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, e contando com a presença do então presidente da república, Jair Bolsonaro, e do pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha - recentemente associado a fraude contra os aposentados na CPMI do INSS - no encontro realizado no Estádio Mané Garrincha, em Brasília.

O The Send foi criado com o objetivo de atingir pontos específicos dentro das nações, e instrumentalizá-los religiosamente para fins políticos. Universidades, escolas secundárias, crianças em situação vulnerável e comunidades locais são os alvos principais do projeto. Uma prova de que o movimento é mais uma mola na engrenagem que faz girar a Teologia do Domínio por todo o mundo, é a presença do pastor Ralph Drollinger, fundador do Capitol Ministries (Ministério do Capitólio), um grupo evangélico de extrema direita criado em 1996 que realizava cultos na Casa Branca – sede do Governo dos EUA - e cuja missão é converter políticos a uma visão evangélica de governança. Algo semelhante ao que o bispo Edir Macedo – fundador da Igreja Universal do Reino de Deus – propôs em seu livro Plano de Poder, publicado ano de 200, no qual ele afirma que Deus tem um projeto de governo para o mundo, e sugere que ele é um dos responsáveis por estabelecê-lo no Brasil. Coincidência ou não, três anos depois, em 2003, ele fundou o partido Republicanos, sigla ligada a sua empresa da fé.

Em agosto de 2023, o movimento de Ralph Drollinger esteve na ALESP a convite do deputado estadual Vitão do Cachorrão, que pertence justamente ao partido Republicanos de Edir Macedo. Na oportunidade, a missão extremista evangélica foi representada pelo pastor Brian Hanson, que na oportunidade atribuiu a vinda do Capitol Ministries ao Brasil ao “conceito de verdade cristã” presente no trabalho político do deputado. É importante que se saiba que o Ministério do Capitólio também está instalado na América Latina, e possui uma “filial” no Brasil que foi lançada em 2019, durante uma sessão realizada no Congresso Nacional. O diretor do projeto no país é um pastor chamado Giovaldo Freitas, ligado à Igreja Batista Boas Novas, com sede em São Paulo, e que está responsável pela evangelização de políticos e servidores da Assembleia Legislativa de São Paulo. Mais um pecado cometido contra a laicidade do Estado, e que vem sendo perdoado pela distração da sociedade brasileira. O responsável pelo Ministério na América Latina é o pastor Oscar Zamora, nomeado em 2017 como o responsável pela região.

Lou Engle - que costuma se referir a Deus como o “vingador de sangue” e a estimular os seus seguidores a reverenciá-lo nesses termos – esteve na primeira edição do The Send no Brasil em 2020, quando declarou que "o Brasil está pronto para ser uma das maiores, senão a maior nação de envio na história, a completar a missão de alcançar os povos não-alcançados". Lou também é ativista antiaborto e recomenda aos fiéis que se martirizem para evitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, não deixando claro se ele mesmo pratica tais martírios em nome de Deus e sua doutrina. Em 2009, polemizou ao declarar que o assassinato de um médico por um ativista antiaborto teria sido obra de Deus, atendendo ao sacrifício dos “cristãos” de sua seita. Lou Engle também declarou apoio ao governo de Uganda, elogiando a lei que criminaliza a homossexualidade e condena à prisão perpétua e à pena de morte gays e lésbicas daquele país. O missionário extremista parece ter sido uma das inspirações do supremacista Charlie Kirk, ativista evangélico fundamentalista morto em 2025.

No último final de semana, o The Send Brasil foi realizado na Arena Pernambuco, e recebeu figuras “ilustres” do segmento político-evangélico brasileiro, como Silas Malafaia e Deltan Dallagnol, que fizeram falas carregadas de ódio contra professores e quem eles não consideram “enviados” por Deus para transformar a nação. No evento, que é destinado prioritariamente a jovens e adolescentes, e tem na música o carro chefe da evangelização, Malafaia disparou que as crianças estão sendo enganadas nas escolas por professores ligados ao comunismo e ao que ele chama de marxismo cultural. “Você está sendo enganado na escola. Moçada, existe hoje uma coisa chamada o controle do pensamento pelo marxismo cultural. Se você pensar diferente, você é banido. Se você for contra ideologia de gênero, se você for contra o aborto, se você for contra práticas homossexuais, se você for contra essa cultura, você é ridicularizado.”, declarou ele, acrescentado que os jovens devem estar preparados para este “enfrentamento”, e que o The Send é para prepara-los para a faculdade. Resta saber se o MEC reconhece esse novo cursinho preparatório gospel.

As falas de Malafaia se alinham a ideologia dos fundadores do movimento, e demonstram como os alvos especificados estão sendo atingidos com sucesso, e como a Teologia do Domínio vem se consolidando dentro de uma sociedade brasileira cada vez mais “gospel elitizada”, e cada vez menos laica, popular e democrática, de fato. O curioso é que tudo o que foi dito por Malafaia se encaixa perfeitamente no “evangelho” pregado por líderes neopentecostais ligados ao dominionismo, que através de suas pregações controlam pensamento e ações, e induzem os fiéis a enxergarem a tudo e a todos que não estão refletidos diante do espelho, como ameaças morais e opositores da sua fé em Cristo. E se você for contra a pregação desses líderes, pior do que ridicularizá-lo, eles irão demonizá-lo e apresentá-lo como um inimigo espiritual a ser combatido em defesa do projeto de Deus para a nação. A fala de Malafaia é grave, atenta contra todo o sistema educacional do país, e, não por coincidência, objetiva controlar o pensamento dos jovens evangélicos e moldar a subjetividade dessa juventude dentro da cultura neopentecostal, obedecendo às normas sociais estabelecidas por ela, e submetendo-os ao poder de um deus (sistema) que atende pelo nome de capitalismo religioso.

Em seu discurso na ALESP, o enviado do Capitol Ministries - o pastor Brian Hanson - disse que "a única forma de qualquer área política ser relevante é ser baseada na verdade inspirada por Deus", dando a dica de como capturar indivíduos moldando a sua subjetividade ao projeto de poder neopentecostal: Fazendo-os crer que qualquer área da sociedade só será relevante se estiver baseada (e submetida) no projeto de poder político evangélico, ao que ele chama de verdade inspirada por Deus. Nesta fala também está contida a “batalha espiritual” que os evangélicos de extrema-direita como Michelle Bolsonaro, costumam evocar para justificar a resistência da sociedade à distopia cognitiva e ao mau-caratismo que eles apresentam como plano de Deus para a nação. A ideia de que nada que não tenha vindo de alguém que professe a sua mesma fé em Deus (Teologia do Domínio) pode ser bom para os evangélicos. Por isso, a esquerda é apresentada como um inimigo ideológico, e Lula como o demônio que lidera tal “legião”. E nada que ele faça politicamente, ainda que favoreça diretamente a esses fiéis ou melhore a condição social na qual eles vivem, deve ser aceito ou visto como positivo, pois não estaria de acordo com a vontade divina do dominionismo. O verdadeiro Deus adorado por esta igreja.

E quando Deltan Dallagnol - o profeta do powerpoint – se coloca de joelhos diante dos jovens presentes ao The Send na Arena Pernambuco, e clama para que Deus “afaste do cargo aqueles que praticam corrupção, que abusam do poder, que praticam injustiça”, ele reforça este conceito de guerra espiritual e acende nos jovens e adolescentes um desejo de mudança na sociedade. Uma mudança que só poderá ser feita com base na doutrina e na verdade dominionista, que se passa por Deus para enganar os fiéis. Recorrer ao discurso moralizante e ao apelo espiritual para resolver os problemas do país, é tudo que os teólogos do domínio querem que o povo acredite ter efeito, para que dessa forma o povo confie o seu voto em pessoas indicadas ou ligadas ao projeto de poder neopentecostal. Na crença que através delas Deus promoverá a tão desejada mudança no país. Lou Engle também visitou a Igreja de André Valadão em outubro passado, quando reafirmou que o Brasil é um celeiro do avivamento no mundo. Meses depois, a mesma igreja é citada no escândalo do INSS, provando que o Brasil também é o celeiro do avivamento financeiro de muitas igrejas. Mais diabólico que isso, só condenar alguém sem provas, mas com muita convicção. Os enviados do imperialismo diabólico para destruir a sociedade brasileira estão cada vez mais entre nós. 

¨      Dallagnol vira pastor fanático e pede que Deus afaste os que praticam o mal – assim como aconteceu com ele

O ex-procurador Deltan Dallagnol voltou a chamar atenção nas redes ao adotar um tom de pregação religiosa e pedir a Deus que “afaste do cargo aqueles que praticam corrupção, que abusam do poder, que praticam injustiça”. A fala, carregada de moralismo e retórica messiânica, gerou reações imediatas por contrastar com o próprio histórico do ex-integrante da Lava Jato, que acabou afastado do cargo justamente em meio a questionamentos relacionados a abuso de poder e práticas incompatíveis com a função pública.

Na gravação, Dallagnol faz uma espécie de oração pública, misturando política e religião para reforçar uma narrativa de “guerra do bem contra o mal”. Em vez de apresentar argumentos objetivos ou reconhecer responsabilidades institucionais, ele recorre ao apelo espiritual para pedir que autoridades sejam removidas por corrupção, injustiça e abuso de poder.

A contradição, no entanto, é evidente. Dallagnol foi afastado do cargo após acumular episódios que se tornaram símbolo de um método de atuação marcado por excessos, personalismo e violações de garantias legais. Ao pedir que Deus retire do poder quem “abusa do poder” e “pratica injustiça”, ele acaba descrevendo, ironicamente, o tipo de conduta que levou ao seu próprio afastamento.

A trajetória do ex-procurador ficou associada a um período em que a Lava Jato atuou como instrumento político, abrindo caminho para práticas de lawfare — a instrumentalização do sistema de Justiça para perseguir adversários e interferir no jogo democrático. Em vez de fortalecer o Estado de Direito, esse tipo de ação contribuiu para um ambiente de exceção, no qual convicções pessoais e objetivos políticos se sobrepunham à legalidade.

O tom de Dallagnol, agora como uma espécie de “pastor fanático” nas redes, reforça o caráter performático de sua atuação pública: um discurso moralizante que busca mobilizar seguidores, mas que evita enfrentar as consequências concretas de seus próprios atos. Ao transformar um tema institucional em oração e espetáculo, ele tenta reescrever a própria história como se fosse vítima, quando, na prática, foi afastado exatamente pelo tipo de comportamento que agora condena.

A fala também reacende o debate sobre os danos deixados pela Lava Jato no país: carreiras destruídas sem provas consistentes, interferência na política, uso seletivo de acusações e a corrosão da confiança no sistema de Justiça. Para muitos críticos, Dallagnol representa não o combate legítimo à corrupção, mas a face mais agressiva de um projeto de poder travestido de moralidade.

Ao pedir que Deus “afaste do cargo” quem pratica corrupção, abuso de poder e injustiça, Dallagnol acabou produzindo um retrato involuntário de sua própria queda — e do método que ajudou a institucionalizar.

¨      Evangélicos resistem a Flávio Bolsonaro e defendem chapa Tarcísio-Michelle

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, tem ampliado sua presença no meio evangélico na tentativa de se consolidar como principal elo do bolsonarismo com esse eleitorado. Apesar do aumento do diálogo e de contatos frequentes com pastores influentes, a movimentação esbarra em uma postura predominante de cautela: há abertura para conversas reservadas, mas resistência a qualquer gesto público que sinalize apoio antecipado.

Segundo o jornal O Globo, lideranças religiosas avaliam que Flávio ainda não reúne densidade política suficiente para liderar o campo conservador em 2026. Essa leitura tem levado parte expressiva do segmento a discutir uma alternativa considerada mais competitiva, formada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) como vice.

<><> Cautela religiosa e limites ao projeto de Flávio

Nos bastidores, pastores relatam que a disposição é preservar o vínculo com o ex-presidente Jair Bolsonaro, sem assumir o custo político de uma sucessão antecipada. A estratégia dominante é manter canais abertos com diferentes atores do bolsonarismo, aguardando um consenso mais amplo antes de qualquer definição.

Flávio tem buscado ampliar sua interlocução participando de eventos religiosos e investindo em contatos diretos com lideranças de alcance nacional, capazes de abrir portas em denominações com forte capilaridade. A expectativa era de que esses diálogos funcionassem como atalhos para redes mais amplas do eleitorado evangélico, o que, até agora, não se concretizou.

<><> Força da alternativa Tarcísio-Michelle

A defesa da chapa Tarcísio-Michelle ganhou força após a atuação conjunta dos dois no Supremo Tribunal Federal em torno do pedido de prisão domiciliar de Bolsonaro. Entre lideranças religiosas, o gesto foi interpretado como sinal de coordenação política e de busca por uma saída sustentável para o grupo.

Interlocutores apontam que a transferência do ex-presidente para a Papuda reforçou a imagem de Michelle como ponte com a base bolsonarista e de Tarcísio como um nome com menor rejeição e maior capacidade de diálogo fora do núcleo mais duro do movimento.

<><> Tentativas de aproximação e respostas frias

Entre as investidas do senador, uma das mais relevantes foi a tentativa de aproximação com o pastor Silas Malafaia. Segundo pessoas informadas sobre o diálogo, Flávio buscou marcar um jantar para estruturar um canal mais direto, mas a iniciativa não avançou. A avaliação é que houve disposição para conversar, mas sem qualquer sinal de endosso.

Em conversa relatada por interlocutores, Malafaia foi direto ao expor sua avaliação eleitoral. “Já disse para ele: você não tem musculatura para enfrentar isso. Se nós queremos vencer e derrotar Lula e PT, o Tarcísio é o nome que tem capilaridade”, afirmou o pastor.  Na mesma conversa, ele sustentou que, para o segmento evangélico e o eleitorado conservador, a composição mais viável seria Tarcísio com Michelle Bolsonaro.

Tentativas semelhantes com o pastor Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, e com lideranças próximas à Universal do Reino de Deus seguiram o mesmo padrão: diálogo aberto, mas sem adesão política.

<><> Apoios discretos e articulações em curso

Diante das dificuldades com caciques religiosos de projeção nacional, aliados afirmam que Flávio passou a operar em duas frentes. Uma delas é insistir na presença junto às igrejas, buscando consolidar sua imagem como interlocutor do bolsonarismo. A outra é estruturar um ambiente próprio em Brasília, apoiado em lideranças mais próximas.

Nesse contexto, o bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, é apontado como o apoio mais concreto até agora, oferecendo não apenas acolhimento religioso, mas também disposição para ajudar o senador a circular e abrir portas.

Outro nome citado é o do bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, conselheiro espiritual do núcleo de Bolsonaro. A aproximação com Flávio, porém, ainda é inicial.

“Ainda não foi na minha igreja. Combinamos de falar depois do dia 25 de janeiro. Ele é bem-vindo”, disse Rodovalho.  O bispo ponderou que o cenário segue aberto e defendeu cautela. “Defendo que caminhamos juntos até encontrar um ponto de equilíbrio e de acordo comum. O segmento pode não se dividir. Está muito cedo para declarar apoio”, concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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